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– Primeiros passos como treinador –
Bola na Rede [BnR]: Nessa mesma temporada de 2012/2013, primeiro ano como adjunto, ficaste logo treinador principal da equipa de sub-20?
Nuno Manarte [NM]: Sim nesse ano fiquei como treinador de sub-20, na altura a equipa sénior tinha seis jogadores que só treinavam na equipa sénior. Foi um ano de mudança, sem estrangeiros, o único estrangeiro que tínhamos era o Sergi, que era praticamente de Ovar. Havia muitos jogadores de sub-20, tínhamos um treino por semana em que subíamos alguns juniores (para sub-20), e jogávamos à quarta feira. A minha primeira experiência como treinador foi treinar os sub-20, basicamente uma equipa dos seniores, mas com alguma malta mais nova a treinar só a parte, não é com um treino e um jogo. O meu primeiro jogo em Fides, Gondomar, estava mais nervoso do que provavelmente a primeira vez em que joguei.
BnR: Nesse ano chegaste ainda a fase final Nacional de sub-20.
NM: Tínhamos uma boa equipa nesse ano, com muito mérito do Carlos Pinto, um plantel português e a equipa nesse ano atingiu um nível bastante superior ao esperado. A equipa era muito boa, tínhamos o Manú, o Júlio, o Pedro Costa, Pedro Soares, o Fião, jogadores que depois de uma forma ou outra já ajudavam na equipa sénior. Também haviam outras equipas interessantes como o Porto, o Benfica e conseguimos ir à fase final em Lisboa com o Porto, o Algés e o Benfica, o que já foi interessante para o primeiro ano.
BnR: Ficaste então a conciliar o trabalho de treinador das camadas jovens de Sub-20, seguiu-se os sub-16 B e depois ficaste ainda a treinar sub-18. Como foi conciliar o trabalho de treinar equipas jovens e ao mesmo tempo ser adjunto de uma equipa sénior?
NM: Não vejo grandes problemas, o que custou foi começar. Isto porque competi muitos anos. Vejo o basquetebol de uma forma muito profissional e competitiva. Para mim basquetebol é sinónimo de competir. Tinha claro que, como treinador de formação, o teu objetivo tem de ser outro. Não acho que o objetivo não seja competir, competir é importante. Mas há que ensinar porque é que é importante competir, ninguém ensina os jovens a perder. Acho que é importante ensinar aos jovens os valores de competir, os valores do basquetebol e os valores da vida, os valores de equipa, os valores individuais, quer pessoais quer em termos técnicos e tácticos, os valores de crescimento de cada um deles. Mas não podes pôr de parte o valor da competição, que é algo natural no ser humano. Tu desde miúdo que já competes porque queres ser o melhor, competes com o teu irmão. Agora, temos que pôr as coisas em patamares diferentes e essa foi a minha dificuldade, pois eu vinha de muitos anos a competir ao mais alto nível, em que ganhar era o mais importante. A treinar sub-20 podes pôr as coisas da mesma maneira, mas quando fui treinar sub-16 B esse foi o primeiro impacto. Aí treinei, talvez possa dizer miúdos em que alguns deles hoje jogam comigo, pela Ovarense, como é o caso do Francisco Oliveira. Tinham, portanto 14 ou 15 anos, e tive esse impacto de sub-16 B em que não competem, os jogos são fracos pois não há competições de sub-16 B e a ideia era mais que eles crescessem e evoluíssem para que no ano a seguir fosse um ano forte para eles. Tentar ter esta visão quase nada competitiva, isso é que foi desafiante. Íamos para os jogos jogar com o “campinho C”, é uma brincadeira claro, mas nos jogos o importante era eles jogarem todos e ter experiências em que construíssemos algo. O que numa primeira fase foi muito aborrecido para mim porque faltava-me a competição, ter impacto no jogo e não havia nada disso, era quase como se fossemos treinar.
BnR: E foi isso que mais custou?
NM: Custou-me no início, mesmo nos treinos mudar o chip lidar com a falta de competitividade. A verdade é que ao longo dos tempos me fui ajustando e, apesar de eu saber que era a forma correta de estar com essa equipa nesse ano, depois era uma revolução interna. Pensava “Se calhar não é isto que eu quero, eu quero é competição, quero poder trazer miúdos e colocá-los a jogar e a jogar para ganhar”, mas sabia que não era isso que era suposto fazer. Mas tinha momentos de revolta interior, que me faltava a competição e aquilo não me servia, queria algo mais. Mas depois também era pacifico, entrava no treino, identificava-me, mudava o chip e era a dificuldade de vir dos seniores para treinar sub-16 B, imagina a mudança.
BnR: Era uma mudança drástica.
NM: É praticamente o oposto, mas pronto lá me adaptei, pois era meramente ensinar o Basquetebol. A verdade é que nem toda a gente que joga basquetebol depois sabe ensinar e essa também foi a dificuldade para mim. Eu pedia um passe e corte e partia da ideia que toda a gente sabe o que é e depois ficava chateado com estas coisas e dizia “Então disse-te para tu cortares e tu não cortaste?” e era “Mas o que é cortar?”. Isso é que era ensinar o jogo. Era tu perderes tempo para que os jogadores aprendam aquilo que estás a dizer e aquilo que queres fazer. O que é diferente do que jogar, uma coisa que para mim é certo, nem para toda a gente é certo. Tu tens de ensinar tudo aquilo que vais fazer. Para mim é a grande dificuldade de seres treinador, ainda para mais ser treinador de formação. É muito, muito difícil, percebi que jogar ao mais alto nível não era o suficiente para treinar uma equipa de sub-16 B. Tinha de me formar, continuar a estudar, a ver coisas e a pedir informações. Na altura uma pessoa que me ensinou muito foi o João Candeias (treinador sub-14), sentei me muitas vezes com ele a perguntar o que ele fazia. E ele explicava-me todas as especificidades dos miúdos daquela idade. “Atenção que os gajos um dia vão te chegar super desconcentrados. Não te zangues com eles, às tantas é porque tiveram um mau dia na escola ou receberam uma nota má”, “Aquele rapaz é assim e assim”. Havia uma série de especificidades muito interessantes, mesmo o tipo de jogo, jogar por conceitos em vez de jogadas. Na altura aprendi muito com ele. Foi uma transição grande passar de sub-20 praticamente seniores para sub-16 onde tinha de ensinar o jogo. A verdade é que eles ao longo da época cresceram bastante e a malta dizia “Como é possível? Eles já estão com um nível!”, o que foi bom e gratificante.
BnR: Começares a treinar miúdos também deve ter sido algo impactante para eles porque de repente viram-se a treinar com um ícone de Basquetebol em Ovar. Sentias essa parte a influenciá-los como treinador?
NM: Sentia as duas fases. A fase inicial do encantamento de treinares com o teu ídolo, porque eu também já fui treinado por um dos meus ídolos, o Mário Leite em mini-basquete. Mas também existe a desilusão. Ao fim de dois ou três meses a treinar e eu também tive disso. Porque por ter esta visão tão competitiva lembro-me que no caminho também fiz asneiradas, tomei decisões ou tratei pessoas de uma forma que, se calhar, pode ser o calor do momento, mas sei que não o deveria ter feito. Mas é um processo e faz parte de todo esse processo de aprendizagem e sei que no caminho também desiludi pessoas. Também tive pessoas que me escreveram cartas a dizer que saíam por não lhes dar oportunidades porque eu também não podia dar oportunidades a todos. Quando falamos de juniores já não é mini-basquete e não podemos dar oportunidades a todos. Já é o último escalão competitivo e tens muitos dissabores no caminho. A verdade é que esses ficam mais que os outros, as tuas intenções são as melhores possíveis, provavelmente nem sempre as exprimi da melhor maneira. Também precisava de uma aprendizagem, que só se faz com erros. Também não tive problemas em pedir desculpa quando achei que errei, não vejo um treinador estando num pedestal acima das outras pessoas, mesmo treinando malta mais nova. A verdade é que achei que tinha esse impacto quando treinava malta mais nova e que me tinha visto a jogar, que é uma responsabilidade muito grande já que não podes desiludir essas pessoas que te vêm de uma forma especial. Mas depois tem outra vertente que é que tu não podes errar, tu és especial e tu não podes errar porque já jogaste 20 anos e não podes errar, o que é mentira. Estás num patamar diferente, são coisas diferente e num período de aprendizagem diferente. Isso foi marcante para mim, no meu percurso como treinador, viver todas essas experiências, umas boas outras menos boas, tentar aprender com isso.
BnR: Mais coisas boas ou más?
É óbvio que houve muito mais coisas positivas, mas marcam mais as menos boas, porque sentes que tiveste um impacto negativo na vida das pessoas mesmo quando não querias fazê-lo. O processo de chegares ao início da época e teres 24 jogadores a querer integrar a equipa e teres de dizer a cinco ou seis que eles não podem continuar, numa situação que é uma questão social, mas a verdade é que um treinador não pode treinar 24 jogadores. Havia 18 e desses 18 uns treinavam à segunda e outros à terça e depois a vida trata de que as coisas se resolvam de uma forma natural. Os que não correspondem às expectativas saem, os que se sentem incapazes acabam por sair, mas também há os casos pontuais em que as pessoas não compreendem. Sempre tive o cuidado de explicar as coisas às pessoas e como é que iria ser, a verdade é que as pessoas sempre tiveram oportunidades. Agora chega uma altura em que se afunila um pouco as decisões. Mas pronto, foi um período muito bonito em que aprendi muito e cresci muito também. Treinar formação é diferente de treinar seniores, e o Sona (adjunto de Seniores a certo ponto), disse-me uma vez “Eu achei que os problemas aqui com gente crescida nos seniores fossem completamente diferentes dos problemas que eu tive na formação, mas olha, são muito parecidos“. Se pensares bem somos todos humanos e os problemas acabam por ser os mesmos. Talvez quando és mais jovem exponencias um pouco mais, mas é egoísmo, a má postura ou a má educação sabes? Os egos existem quando tu tens 16 ou 25 anos, mas é exponencial, alguns problemas são mais ou menos toleradas, mas acabam por ser os mesmos. E não deixou de ser tudo de ser uma aprendizagem, seja lidar com os juniores ou com os seniores não deixa de ser lidar com pessoas e lidar com pessoas é das coisas mais complicadas e complexas da vida. São 15 pessoas com personalidades totalmente diferentes. Num ano conseguia corrigir imensas coisas para o ano a seguir e não voltar a cometer o mesmo erro no ano a seguir e essa é a capacidade que existe de crescimento.
– “É por isso que Ovar era tão diferente” –
BnR: 2015 foi também o ano de disputa da “negra” com o Benfica, na segunda ronda dos playoffs, num jogo 5 na Luz, onde se encheu autocarros de adeptos para irem apoiar a equipa. Depois de um ou dois anos mais em baixo da equipa, o que significou esse enorme apoio dos adeptos? Achas que foi um ponto de viragem dos adeptos da Ovarense na forma como olhavam para a equipa sénior, sendo que vinham de um período de pouco sucesso?
NM: Eu cresci com isto anualmente. O pavilhão enchia-se em jogos importantes e nos playoffs não cabia ninguém no Raimundo. Eu habituei-me muito cedo a esta onda positiva e ao impacto que o basquetebol tinha em Ovar e que as pessoas tinham na equipa. Lembro-me que num ano em que fomos à final com o Estrela da Avenida fomos todos os jogos à negra, ganhamos a meia final negra em casa e fomos à negra fora contra os Estrela da Avenida e houve 20 autocarros que foram para ver o jogo fora em Almada. Enchemos o pavilhão, parecia que jogávamos em casa. O Estrelas da Avenida não tinha adeptos. Portanto eu sei o que isso é e sei a importância que tem. Eu arrepiava-me quando entrava em campo, tinha momentos que tinha de morder o lábio para não me cair uma lágrima porque essa era a minha cultura e identificava-me com isso. Havia anos em que chegávamos ao pavilhão 1h30 antes para aquecer e o pavilhão (Raimundo) e já estava cheio, não cabia lá mais ninguém. Portanto imagina entrares 1h30 antes e o pavilhão inteiro a bater palmas a quem entra. Eu cresci com isto e para mim era normal. É por isso que Ovar era tão diferente. O que não é normal é que acontece nos últimos anos, em que existe poucas ondas positivas e pouca atenção à equipa. Mas como é óbvio também falamos de tempos em que o clube ganhava e ia às finais, não nos podemos esquecer que nesse momento a onda é maior.

Fonte: Nuno Manarte
BnR: E esse jogo do Benfica foi um desses casos?
NM: Nesse ano (2015), na meia-final contra o Benfica gerou-se uma onda de positivismo muito grande e a verdade é que podia nos ter ajudado a avançar para a final. Não havia grande expectativas. Mas essa também foi uma onda gerada pela própria equipa. Quando nesse ano (queria dizer o ano seguinte) fomos à final da Taça e perdemos por 50 contra o Benfica também criou uma onda positiva. Porque desde essa Taça de Portugal em 2009, a Ovarense entrou em decrescendo. De 2009 a 2015 o clube desceu bastante, e nesse ano em 2015 a equipa já tinha um nível bastante interessante. Normalmente têm a ver com essas ondas pois se tu não ganhas, eles não vêm atrás. O que é normal, acontece em todo lado, não apenas cá. Eu sou do tempo em que isto era constante, era muito constante os pavilhões encherem, o que não era difícil e as pessoas acompanhavam-nos muito. O que é um processo natural, a equipa tinha boas performances e puxava mais adeptos, o que puxa os adeptos é a performance da equipa. Não o adepto regular, o adepto regular vai sempre, são os adeptos extra, são os que fazem que de 1000 pessoas a ver o jogo possas ter 2000 ou 2500. Mas também é um adepto mais pacato, menos incisivo e fervoroso a ver o jogo, não sei imagino eu. Isso faz muita falta pois isso era uma imagem de marca do clube. Falava com outros jogadores e diziam-me que era muito difícil jogar em Ovar pois era uma pressão enorme, muita gente a fazer barulho, o que funcionava contra o adversário e funcionava a nosso favor. Seria interessante poder voltar a trazer toda esta dinâmica e onda positiva de volta, que eu acho que existe muito sinceramente, naqueles que são os verdadeiros Ovarenses, que vêm sempre. Têm, não quero ser mal interpretado naquilo que vou dizer, mas esses têm o meu maior respeito. O verdadeiro adepto, o verdadeiro Ovarense é aquele que vem sempre, não aquele que vem apenas quando as coisas estão bem. Não é que esse também não mereça o meu respeito porque merece como é óbvio, mas é aquele que vem sempre, que está quer nos momentos bons quer nos maus. Não só que aqueles vêm quando as coisas correm bem ou que se acha no direito de dizer o que quer que seja quando às vezes nem sequer vêm.
BnR: A essência vai-se perdendo?
NM: É óbvio que fomos perdendo essa essência e que muita gente até diz que é o facto de estarmos na arena, de tudo parecer afastado. O meu tio contou-me uma vez que também acontecia com os meus pais, que ainda hoje em dia quando há jogos no Raimundo, que vivem perto do Raimundo, quando ouvem a buzina saem de casa e vão lá, pois acham que está a haver algum jogo. Acho que na arena tirou um pouco aqueles adeptos que eram dali, da zona do pavilhão, que viviam ali, que aquilo era o bairro deles e que o clube é naquele raio de 2km. Penso que essas pessoas depois também deixaram de ir ao Basquetebol e acho que se perdeu um pouco essa cultura, que eu acho que tem a ver um bocado com isso. Acho que é completamente ultrapassável, não vejo porque é que numa final em 2008 pusemos 3500 pessoas na Arena, a maior enchente de sempre, no 7º jogo. Se temos 3500 pessoas a ir ver uma final não há de ser difícil pôr umas 2000 ou 1500 num jogo regular. É óbvio que também nos cabe a nós entusiasmar para ir ver os jogos, com exibições, com identidade, com carisma, porque se não ganhas já foste.
BnR: Em 2016, a Ovarense consegue uma presença na final da Taça de Portugal, e ainda, uma presença na segunda Ronda dos Playoffs. Tendo nessa época terminado o regular em 3º, ficou um travo de amargura no final?
NM: Nesse ano havia duas equipas muito fortes, o Porto e o Benfica. Nós tínhamos ganho na meia final ao Porto a fazer um grande jogo, num dos bons jogos em que já participei. Eu acho que foi natural, não penso que tenha sido uma desilusão. Nós apanhamos o Barcelos na primeira ronda, uma boa equipa, que ganhámos 3-1 e as expectativas do jogo do Porto não era fácil. Tínhamos ganho um jogo, mas ganhar três não seria fácil, mas a verdade é que acho que essa equipa da Ovarense era a melhor equipa destes últimos dez anos, havia muitas alternativas. A base tínhamos o José Barbosa e tínhamos o Nick Novak, dois jogadores muito distintos, umas das melhores duplas de bases de que me lembro. Dois jogadores muito distintos, mas com impactos no jogo brutais e de formas diferentes. Tinhamos o Miguel Miranda a um excelente nível, o Raven Barber que depois foi para o Benfica, o Jo Harris que era um jogador tremendo e o Jaime a um bom nível. A equipa tinha muitas soluções, competia todos os dias e o Félix era um treinador tremendo que ajudou muito a trabalhar a equipa e a gerar esta onda positiva pela forma entusiasmante de como a equipa jogava. Mas esse foi um ano muito difícil de ganhar, lembro-me que o Benfica tinha o Cook, ex-jogador da NBA que só ele ganhava o orçamento do clube num ano. Vale o que vale, mas no final de contas conta muito.
– A chegada ao comando técnico da equipa principal e a ‘onda negativa’ provocada pelos adeptos-
BnR: Entretanto chegamos a 2016/2017 que é o teu primeiro ano como treinador principal do clube que toda a vida representaste. O que significou isso para ti?
NM: Esse primeiro ano foi uma surpresa para mim, a ideia era o Félix continuar e não continuou porque o clube entrou numa recessão, numa crise financeira. Pela primeira vez vi que poderia não existir clube nesse ano. Ultimamente tem-se usado muito esta expressão que eu não entendo e não compreendo. Convidaram-me para assumir o cargo de treinador principal, que muitos me disseram que era um presente envenenado porque ia entrar no cargo com o clube no pior momento dos últimos tempos, mas de muitos anos mesmo. Mas por outro lado eu não tinha como dizer que não. Não contava que a tão curto prazo chegasse a treinador principal, na altura pensava que dois anos mais como adjunto era o ideal. Mas quando as oportunidades surgem, uma pessoa pensa sempre que não está pronta e era melhor um ano mais tarde, mas talvez um ano mais tarde iria sentir o mesmo. A verdade é que cheguei à minha cadeira de sonho muito cedo, e também por eu ser Ovarense. Eu sou da Ovarense muito antes de pensar que poderia vir a fazer do basquetebol a minha vida. Foi uma decisão que requereu muita responsabilidade e compromisso, mas que também, eu não tinha como dizer que não.

Fonte: Ovarense Basquetebol – Fotos
BnR: Que dificuldades encontraste nesta nova etapa?
NM: Foram acima de tudo a pressão. Treinar uma equipa sénior com a história da Ovarense acarreta muita responsabilidade e há pouca margem para erro. Para além disso, o facto de eu também ser um Ovarense e estar a treinar o clube da minha terra. Depois sentir, ou ter a certeza, que estava habilitado para o cargo, pois depois neste primeiro ano existem sempre muitas dúvidas… “Será que consigo fazer as coisas bem?”, “Será que a equipa consegue ganhar?”, “Será que eu consigo já, com tão pouca experiência enquanto treinador, assumir um cargo tão importante e de tanta responsabilidade?”. Depois também é a gestão dos recursos humanos. Já gerir uma equipa de adultos, já com egos diferentes, com situações muito distintas, apesar de muitas delas serem similares com aquilo que se passa na formação, todas elas são exponenciadas a nível sénior. Principalmente o que conta é ganhar, há uma visão diferente em relação ao basquetebol profissional comparando ao basquetebol de formação. Essas foram, acima de tudo, as três grandes dificuldades que tive quando assumi o cargo de treinador principal.
BnR: Na época passada (2018/2019), com poucos argumentos a Ovarense conseguiu marcar presença na segunda ronda dos playoffs. Soube a pouco ou pensas que “atingiram” o mínimo?
NM: A verdade é que soube a pouco, achávamos que poderíamos ter feito mais alguma coisa. Eu hoje também acho que a diferença entre a nossa equipa e as outras três equipas de cima era grande, mas que numa competição a eliminar, uma Taça da Liga ou uma Taça de Portugal, poderíamos ter chegado a uma final por exemplo, o que teria sido um click. Mas de qualquer das maneiras também apanhando o campeão Nacional Oliveirense, uma equipa com quem nunca nos demos bem e sairmos da forma como saímos, com três jogos de alguma forma desequilibrados, deixa sempre um amargo na boca. De qualquer das maneiras a equipa do ano passado foi uma equipa fantástica em termos de grupo, em termos da forma como eles trabalhavam, da forma como eles cresceram, o compromisso que tinham uns com os outros, a própria dinâmica da equipa era fantástica. Foi provavelmente a melhor equipa que eu já treinei. A verdade é que poderíamos ter chegado um pouco mais além, não sei o quanto, provavelmente não muito, mas, nessas coisas não há que fazer muitas previsões pois acontecem de uma maneira muito natural. Mas pronto, foi o que foi, acabou por ser uma época bonita, sem ganharmos nada, não ganhando nada não ficas na história, mas pronto, nem tudo é só à volta das vitórias.
BnR: Também nessa época, um conjunto de adeptos organizados, começaram a marcar mais presenças nos jogos e a apoiar a equipa como no tempo do Raimundo Rodrigues. Sentes isso como algo positivo? Traz mais energia ao jogo e aos jogadores?
NM: Vejo isso sempre de uma forma muito positiva. Eu cresci com o Pavilhão do Raimundo Rodrigues cheio, onde todos diziam que jogar em Ovar era o pior sitio que se podia jogar em Portugal, pela energia e pelo positivismo que traziam os adeptos, e pela forma como muitas vezes se começavam a ganhar os jogos desde a bancada. No sentido de sentirmos essa energia, esse ânimo e esse apoio pois no fundo esta é um pouco a história do clube, a forma como as pessoas se envolvem à volta do Clube e de como o apoiam. Portanto este ano foi igual. Começou-se já a sentir uma dinâmica diferente, acho que após o final da época passada, com aquela demonstração de apoio de toda a gente, quando perdes 3-0 numa meia-final e parece que ganhas. Acho que nós todos criámos um pouco esta dinâmica, esta expectativa também alta que criou um movimento de pessoas que passaram a ir com mais regularidade ao basquetebol. Eu vejo de uma forma súper-positiva, até ao momento em que deixa de ser positiva, até ao momento em que passa a ser negativa, em que cria uma onda negativa, em que se cria uma dinâmica negativa. Em que em vez de apoiar, aumenta a tensão e chamar à atenção que, os desportos são todos iguais, e os jogadores são todos iguais. A nossa equipa durante muitos momentos este ano, sentia-se mais confortável a jogar fora do que em casa. Esta onda negativa também que se gerou aumenta a pressão e quando não se ganha, há também um apoio contrário, há muita controvérsia, muito negativismo. E jogadores como os nossos, que perdem mas que dão tudo e dão sempre o seu melhor e que fazem tudo o que têm para fazer, mas que por estarem num mau dia ou num mau momento, ou por a outra equipa ser superior, e se perdem o jogo, quando há este tipo de criticismo e se gera esta onda de pressão negativa, os jogadores e todas as pessoas que estão à volta da equipa também a sentem. Portanto, não vai fazer da equipa melhor, vai fazer da equipa pior, pois não era disso que a equipa precisava durante muitos momentos. A equipa precisava de apoio, de levantar a moral porque estava num momento em que tudo corria mal. Nós também estávamos com falsas expectativas, nós também estávamos desiludidos com aquilo que nos estava a acontecer. Durante muito tempo, esta onda negativa que se gerou à volta da equipa, também funcionou a nosso favor e lutámos para também combater esta onda negativa que vinha de dentro, não vinha de fora. Mas o apoio é importantíssimo, a forma como os adeptos apoiam o clube, não só dos que apareceram recentemente, como os que lá estão nas vitórias e nas derrotas, mas também quando é positiva, quando é para apoiar, não quando é para fazer exatamente o contrário.
-A importância da formação, o ADN da Ovarense e a reviravolta
BnR: Desde sempre, sendo tu exemplo disso, que a Ovarense é um clube que aposta na formação. Principalmente nesta década são vários os jogadores que vêm de sub-18 para integrar uma equipa sénior. Quão importante é este investimento por parte da Ovarense?
NM: A formação para mim é muito importante e eu penso que a formação se trabalha desde o mini-basket. Não é a equipa sénior que tem obrigação de formar jogadores, é o clube durante a formação. Não podes ter o clube sem trabalhar formação ou não haver qualidade na formação e esperares que seja a equipa sénior a dar hipótese a jogadores que não foram trabalhados na formação. A formação trabalha-se desde o mini-basket, ou seja, há que investir na formação, investir em treinadores, ter boas condições para que os jogadores possam crescer em bons ambientes e que possam evoluir. E depois então é que vem a equipa sénior. A equipa sénior não pode apostar em jogadores que não têm qualidade ou que não têm futuro. Por muito que isso custe dizer essa é a verdade. Penso que clubes como a Ovarense ainda mais em anos de crise, mas penso que de uma forma geral, a aposta na formação tem de ser clara, mas tem de ser uma aposta em que sabemos o que estamos a fazer. Não podemos ter jogadores da formação num cenário com má qualidade, com maus estrangeiros, com más posturas e más educações. A aposta da formação é muito mais profunda, não chega dizer que temos dois jogadores portugueses. O Porto tem oito jogadores portugueses, agora imagina, quantos são formados no Porto? O Benfica x jogadores portugueses, quantos são formados no Benfica? Nós quantos portugueses temos e quantos são formados aqui? Agora compara os que têm o Benfica e os que têm o Porto, qual é a qualidade que têm os nossos? Qual a qualidade que tem as nossas equipas de formação comparadas com as outras? Existe uma série de factores a ver e eu honestamente acredito que a formação é um factor determinante. A forma como se trabalha na formação para permitir que cheguem à equipa sénior, a cada três ou quatro anos, um ou dois jogadores. Já imaginaste se a cada três anos houvesse um ou dois jogadores que poderiam entrar na equipa sénior? Seria espettacular, mas isso não acontece. Se reparares os que existem agora são os que existem há três ou quatro anos. O LasCasas já entrou há quatro ou cinco anos, o Soeiro esteve cá e depois saiu, mas é da formação, o Pedro Oliveira é de cá, a nível regional não é, pois é formado no Porto. Mas pronto, o Cristóvão está cá há muitos anos, não é da formação, mas é da casa, temos o Jaime, isto é um tema muito cuidadoso. As coisas não são tão claras quanto isso, eu se pudesse ter uma equipa só de jogadores da casa pois eu tinha. Mas isso tinha de me dar a certeza de que iria competir, se perdêssemos muito mais vezes que ganhássemos, mesmo tendo só portugueses as coisas não iriam funcionar.
BnR: Qual é a solução?
NM: Acho que se trata de encontrar um equilíbrio de experiência, jogadores jovens, com muita qualidade, jogadores com qualidade intermédia e jogadores jovens que vem aprender com tudo isto. Eu quando cresci apanhei um cenário de qualidade e apanhei um cenário de sete estrangeiros, por exemplo e eu sobrevivi àquilo porque acreditei e sacrifiquei-me, trabalhei, aprendi com os melhores e sobrevivi. Portanto é para isso que temos de olhar, para aqueles que são capazes de sobreviver a esta adversidade. Se puseres num cenário de má qualidade jovens, eles não vão crescer da mesma forma, tem de haver um cuidado entre entender quais são os projetos que existem, ou se eles existem, ou a razão para que eles existem ou não existem, e se existirem pois há que lhes dar a oportunidade mas eles também têm de fazer a parte deles. Eu não acredito em dar oportunidades a quem não merece a oportunidade, eu não acredito em quem vê como uma segunda prioridade o basquetebol. Hoje em dia há muito isto “Ah eu gostava de jogar basquetebol”, pois, mas atenção que é para treinar de manhã e de tarde, “Mas de manhã não posso e na quarta à tarde também não posso”. No meu tempo, se dissesse isso, ias embora pois para o meu lugar havia mais dez que queriam ir e que aceitavam as condições. Eu acho que nós temos condições de x em x tempo de apostar em jogadores da formação. O tema da universidade prejudica-nos sempre, já que existe muita gente a dar prioridade ao estudo por esta altura, o que eu compreendo, acabando por dar prioridades diferentes a este nível. Mas penso que temos essa oportunidade de colocar alguém de x em x tempo, quer local quer regional de perto da zona. Acho fundamental equipas que passam dificuldades como o clube terem esta base, que é para depois todo o processo ser facilitado. Era o que te dizia, o trabalho do Cristóvão, do André Pinto, dantes do Miranda e hoje do Soeiro e do LasCasas, é o trabalho de jogadores que transmitem o ADN daquilo que é ser da Ovarense.
BnR: E o que é ter o ADN da Ovarense?
NM: São jogadores que nunca viram a cara à luta e que mais do que ninguém sabe o que é representar a Ovarense, e que lutam sempre e vão a todas. Que lutam até ao final e que tiveram muito mérito este ano na forma como a equipa remontou, numa equipa com cinco estrangeiros todos diferentes, a ambição de todos era diferente, que não tivessem jogado em Portugal, eles chegaram e era cinco ilhas. Isso notava-se na forma como nós jogávamos e eles tiveram o dom, a equipa, pois realmente o núcleo de Portugueses era um núcleo espectacular nesse sentido, tiveram o dom de que essas cinco ilhas se fossem aproximando até se tornarem um continente. Nós chegámos ao final, como é óbvio tivemos de fazer alguns ajustes, foi engraçado ver aquilo que alguns eram em termos da ligação entre eles, que no início era diferente porque havia menos empatia e menos química, que todo o trabalho que faz o Cristóvão, o LasCasas, o Soeiro, o próprio André, agora um pouco diferente, todos de uma forma diferente mas cada um à sua maneira e chegar a a partir do meio da época e ver que toda essa cultura acabou por ser transmitida. São jogadores que são de liderar por exemplo, e às vezes o liderar por exemplo demora um pouco mais, mas chegas ao mesmo sítio que o liderar por uma forma mais verbal. Foi engraçado que houve jogadores que chegaram de uma determinada maneira e que depois quando chegou ao final já parecia outro, muito mais envolvido, já quase pareciam portugueses porque até café tomavam por exemplo, entraram nas rotinas e notou-se na empatia. Isto é mérito da cultura que temos aqui, e por isso é que é importante cultivares estas pessoas, são estas que tem no ADN deles o que é ser vareiro. Tu podes fazer um recrutamento regional ou nacional, as pessoas podem chegar aqui ficam um ano ou dois e não dá para adquirirem isso. As pessoas que crescem no clube e que estão desde o mini-basket e a levar com toda esta mentalidade e cultura, que acho muito especifica, tendo coisas boas e más como é óbvio, essas são as pessoas que quando chegarem cá acima e por acaso singrarem no basquetebol vão passar esses valores aos outros e não são os de fora que vão trazer isto, os de fora apenas irão assimilar.
BnR: É aí que entram jogadores como o LasCasas e o Soeiro.
NM: Jogadores como o LasCasas e o Soeiro são fundamentais, nós dizemos que eles não jogam e nós não lhe damos utilidade, o que é mentira porque eles têm utilidade, e muita para mim. Pois eles só não jogam, eu dou lhes mais utilidade do que os minutos que eles jogam. Para mim a utilidade dos jogadores vai muito para além dos minutos que eles jogam, e um jogador jogar 30 minutos não quer dizer que tenha mais utilidade do que um jogador que jogue cinco. A utilidade de um jogador não é só em relação aos minutos, pode ser em relação à liderança, em relação ao balneário, pode ser o gajo que cola tudo isto, pode ser o exemplo. Cada um tem o seu papel na equipa, e jogadores como o LasCasas e o Soeiro são aqueles que treinam cada dia o melhor que podem, esforçam-se a 100%, mesmo não jogando não amuam, não viram a cara, não deixam de fazer o seu trabalho. E que chega aqui muitas vezes vê “porra eu jogo 30 minutos e às vezes nem me apetece, e estes gajos que nem jogam chegam aqui e ainda nos dão porrada, obrigam-nos a ser melhores, não relaxam por um momento”. Isto é porque são daqui e sabem o que é ser Ovarense e sentem o que é ser Ovarense. Isto para mim tem muito valor. Isto para mim daria para falar o dia todo, mas tentando concluir um pouco, eu penso que o clube vai tendo alguma continuidade nesse sentido, na posição de base temos o Pedro, não foi formado na Ovarense mas vai se formando competitivamente na Ovarense e vai tendo cada vez mais o ADN do clube, o André Silva chegou do Beira Mar, temos de lhe dar algum tempo, mas também me parece ser um jogador à Ovarense, o Bastos não sendo formado na Ovarense têm o ADN da Ovarense e penso que seja por isso que seja dos jogadores mais querido pelas pessoas. O Cristóvão não sendo de Ovar já é um vareiro, o Lascasas e o Soeiro é exponencial, como já te disse, o Francisco, o Sousa, toda esta malta também que está um pouco por trás e mais atrasada só têm de aprender e beber de toda esta vivência destes jogadores que fizeram e tiveram um papel muito importante na remontada do ano passado, que têm muito a ver com o ADN e a cultura que cultivamos.
BnR: Sentes que foi esse ADN que permitiu a reviravolta durante a temporada de 2020?
NM: Eu gostava de ter certezas. Mas sim, eu acho que foi, foi um conjunto de várias coisas. Primeiro eu acho que a equipa nunca se partiu, devido aos jogadores. Nós tínhamos tudo para que a equipa se desmoronasse porque era uma equipa boa, que vinha de uma pré-época boa, expectativas altíssimas, conseguir disputar jogos com os grandes e depois vem a tempestade. Foram três jogos que deixaram alguma mossa, mas também penso que trouxe ao de cima as debilidades da equipa e não eram técnicas nem de qualidade, pois a equipa não tinha a má qualidade que durante muito tempo apresentou, mas era aquilo que estava a dar. Isso aconteceu por expectativas muito altas, correu mal logo naquele primeiro jogo, o segundo só camuflou um pouco o problema porque apesar de perder por dois a poder empatar, os problemas estavam lá, o terceiro deu-nos uma machadada e depois quando chegas ao quarto e perdes em Ílhavo tens tudo para te partires e a equipa abalou bastante. Uma equipa com expectativa para competir com grandes estar já 0-4… e a equipa não mostra um bom jogo, um jogo bonito, um jogo colectivo e afundou muito. O primeiro down moment que tivemos as falhas vieram ao de cima. Penso que foi a ambição de mudar as coisas que nós tivemos de mudar a equipa por completo também, a equipa nos últimos anos mudava-se pouco. A equipa neste último ano teve oito jogadores novos e montar estas peças todas no puzzle num mês e meio, é complicadíssimo, até porque alguns desses estrangeiros só vieram três semanas depois, quatro semanas depois… Depois também tens a especificidades de cada um, quando já tens um jogador desde o ano passado já sabes o que ele vale, como é que ele trabalha, e o que ele é. Trazer oito jogadores novos, cada um com a sua própria mentalidade e tu não os conhecendo, até para a própria equipa é natural que seja difícil para começar ali um processo de grupo. A equipa sempre colidiu com todos esses processos colectivos, que para mim era o grande problema que a equipa tinha. Depois claro, fazer as alterações necessárias porque há coisas que não estão bem e que era uns por qualidade e outros porque não entram na dinâmica da equipa, mas já atrasados não é, trazer um ou dois jogadores novos ao fim da 5ª jornada, que demoram um mês a entrosarem-se e apanhar as coisas todas.
BnR: Fica complicado.
NM: Eles chegam a um nível de pré-época e a equipa já vai a um nível muito competitivo, depois em vez de chegarem os dois ao mesmo tempo, chega um primeiro e depois outro a seguir. Meteres um jogador num grupo de 10 ou 12 já é difícil e a equipa na entrada do base depois vai outra vez abaixo, na recuperação de papeis, quem é que joga a onde, qual é o teu papel, qual é o meu papel etc… Mesmo na dinâmica do próprio treino depois vais dando passos para trás, pois tens de apanhar tudo e explicar tudo e fazer aquilo que os outros já fizeram e acaba por ser muito aborrecido. Cada vez que chega um Americano ter de começar tudo de novo, como é que defendemos o 1×1, como fazemos as ajudas, o que fazemos no bloqueio… Chegou a uma altura que os treinos em vez de avançar para coisas novas, uma zona-press por exemplo que queria meter, estávamos a dar passos para trás. Foi assim o ano inteiro até quando chegou o Phil, tudo isso é necessário pois eles vêm de outra realidade. Começámos mal, mas a verdade é que depois das mudanças a equipa mudou, a dinâmica da equipa mudou.
BnR: Em que é que mudou?
NM: Notava-se que a equipa jogava melhor, tinha mais dinâmica, pois dantes havia coisas que, jogadores com boas percentagens não metiam, fazer asneiras onde não era habitual e tu sabes que quando as coisas depois começam a correr mal que tudo corre mal. Íamos a jogos e depois pensava “Como é possível? Este gajo que nem lança mete-nos um triplo à tabela. E nem lança”. Estávamos tão mal, tão mal que depois tudo corria mal e já ninguém nos respeitava. Tens dias que por muito que tu queiras tudo corre mal, a bola não entra, e nós tivemos um período muito longo assim. Depois tu tens de reagir à adversidade, e a verdade é que é muito difícil estares 2-7 ou 2-8 e conseguires remar contra a maré, pois a equipa com as expectativas, com toda a onda negativa que se gerou à volta da equipa e que tinha influência prática na equipa, pois todas as pessoas que nos apoiam é importantíssimo, mas as pessoas que não nos apoiam ainda é mais importante pois tem mais impacto. Acho importante este tema das pessoas que nos acompanham e que vivem o basquetebol, que é normal esta contestação toda, e é preciso ter em conta se quando estão a apoiar têm um impacto positivo, quando estão a criticar têm um impacto negativo. Penso que existe um intermédio que não tem mal nenhum e foi muito isso. A equipa tinha muita falta de confiança e a certa altura jogar em casa era pior para nós, jogávamos melhor fora do que em casa. As pessoas têm de ter esta ideia, se somos adeptos a favor, pois somos adeptos a favor, e se temos de ser críticos pois então temos de ser críticos, nas alturas certas e nos sítios certos. Jogar em casa tem de ser uma vantagem, não pode ser uma desvantagem, e durante muito tempo só ganhamos um jogo em casa, antes de 2020, foi ao Maia e ao Lusitânia, jogar em casa trazia uma tensão extra, e os jogadores sentiam isso e diziam-me isso. Havia muito mais critica, há uma onda negativa que está gerada, a linguagem corporal, a intolerância que havia a uma má jogada, o ambiente, tu notas o burburinho e a crítica.
BnR: Como é que a equipa deu a volta?
NM: Isso tem repercussões negativas e a equipa estava de rastos. Mas era uma equipa que treinava bem. As segundas-feiras eram difíceis depois das derrotas e eu nunca senti a necessidade de dizer que eu tenho de sair. Eu olhava para eles e dizia que não tenho razões para desistir, eles lutam todos os dias, a malta apesar de vir mais desiludida não vem partida, não vem sem olhar na cara uns dos outros. Vem para trabalhar, vem para responder aos meus impulsos. A mim dava-me confiança para continuar, pois a equipa dava-me esse sinal e durante muito tempo só nos agarramos uns aos outros. Essa é que é a realidade, eu agarrei-me aos jogadores e os jogadores agarraram-se a mim e isso é a razão da remontada que tivemos, porque olhava-mo-nos nos olhos e dizíamos que isto ia mudar e tinha de mudar. Libertas-te um pouco da tensão, habituas-te as críticas, começas a ficar confortável com as críticas e depois acontecem-te coisas que também te levam nesse sentido. Ganhas um jogo que não estavas à espera, começas a assimilar tudo que está à tua volta não que te está a puxar para baixo, mas a dar motivação para que saias disso.

Fonte: FPB
BnR: Qual foi o jogo em que se deu a viragem?
NM: O jogo em Oliveira já tinha sido diferente, um pouco mais otimista, com uma linguagem corporal diferente, a derrota já não teve o mesmo impacto em nós. Depois temos o jogo do Porto, ganhas bem, daquela forma que nos dá muito alento. Vamos ao Sporting e fazemos três períodos muito bons que depois só o último é que corre mal, levas uma margem de 20 pontos. Depois entras no período de jogos que eram aqueles a que tínhamos de ganhar, que acabaram por ser duros pois vir de baixo é muito difícil, ganhamos a Illiabum após prolongamento e quase o perdias de uma forma estúpida, ganhas ao Galitos sem saber como a recuperar nos últimos minutos, ganhas ao Terceira que era para ganhar, vais ganhar ao Maia, ganhas ao CAB bem. Entras numa dinâmica de 5 vitórias seguidas e olhas para eles a jogar com uma confiança em que tudo cai e tudo entra. Mas o grande mérito, foi dos jogadores que acreditaram sempre, não puseram nada em causa nem se justificaram com nada. Nunca puseram as culpas em ninguém nem deixaram que a culpa fosse minha, porque não é quando ganha, ganha a equipa, mas quando perde, perde o treinador. Não, isto quando ganha ganhamos todos e quando perdemos, perdemos todos. Tenho mais responsabilidades pois tomo as decisões mas quem executa são os jogadores, vejo isto de uma forma coletiva, mesmo quando jogava via assim. Imagina, (em jogador) o treinador saiu, e eu dizia, “Atenção que isto é nossa responsabilidade, de não o entendermos ou não fazer o que ele pede”. E foi bonito, a verdade é que terminámos a época no nosso melhor momento. A época terminou devido à pandemia no nosso melhor momento e fica sempre aquele sabor amargo de tu te quereres provar a toda a gente toda a porcaria com que levaste o ano todo e tinha chegado a hora de provarmos o contrário. Toda a crítica acabou por ser motivação, vamos provar que não somos assim, vamos provar que nós somos melhor que isto, e isso empurrou-nos muito sabes, utilizámos a tensão a nosso favor que no inicio funcionava contra , que nos deixava fragilizados, e queríamos muito provar a todos que a equipa era melhor, que estávamos melhor e tínhamos remontado. Fica sempre este amargo na boca pois poderia ser melhor, estávamos a ir para um caminho que nos permitiria ter a imagem que nós queríamos.
– O regresso ao basquetebol pós-pandemia –
BnR: Apesar da crise com a pandemia e de agora retomares os treinos com apenas dois ou três jogadores de cada vez, sentes que o rumo para já é o mais certo para voltar a caminhar para o sucesso e para a evolução?
NM: Dentro daquilo que é possível penso que sim. Penso que em termos de formação a formação poderia não ter parado. Tens clubes que nunca pararam, que criaram plataformas de treinos online, individuais e mesmo plataformas de treinos em equipa até. Não havia bola, mas eram colocados desafios aos miúdos, sem bola, mas era gerado a ligação entre eles que foi um pouco perdida durante esta pandemia. Nós fomo-nos adaptando, o nosso caso foi muito específico com a arena a ser utilizada para hospital de campanha e o Raimundo a ter os problemas que teve. Ficámos sem sítio onde pudéssemos retomar. A situação é muito especifica e é muito difícil ter uma opinião clara em relação a isso, é muito imprevisível. É difícil dizer o que seria melhor, será sempre pura especulação. Dentro do que é possível não está mau, começámos a treinar há duas semanas (em relação a 24 de julho) com dois jogadores de cada vez, um em cada lado do campo, tivemos que estar sete horas no pavilhão para treinar oito jogadores. A semana passada já pusemos dois jogadores em cada lado, os jogadores mais jovens, mas mantemos as sete horas na mesma para manter quatro horários de treino. Implica estar lá a tempo inteiro. Vamos incluindo jogadores aos poucos para em Agosto conseguirmos fazer treinos em conjunto. Serve-nos como uma preparação mais tranquila para jogo de contacto, pois há quatro meses que os jogadores não fazem treino de contacto e penso que seja importante estabelecer esta base antes de os jogadores fazerem jogos mesmo, sendo até jogos de manutenção apenas penso que seja importante. Até para observar e criar já algumas rotinas, se não o fizéssemos eles iriam chegar a setembro com imenso tempo parados, até podes dizer que eles dão umas corridas, mas nunca é a mesma coisa. Não tens noção de espaços, sabes onde pôr o pé, qual a probabilidade de num ressalto pisares o pé de alguém, o basquetebol é um desporto de contacto e todos esses desequilíbrios e mudanças de direção podem gerar lesões. Mas acima de tudo começar já a relacionar, pois eu no basquetebol, e na vida mesmo, sinto que falta o contacto, pois temos a máxima de nos cumprimentarmos e eu também sou um tipo assim. Sinto a faltar de estarmos perto e convivermos. A proximidade dos jogadores, o ambiente de balneário e isto é tudo “contra-natura” agora, é o contrário do que foi a nossa vida. Eu estava mortinho de voltar a treinar e sentir a adrenalina e a preparação do treino, eu chego a casa à terça feira morto a casa. De passar muitas horas em pé, passar bolas e ganhar os ressaltos, mas chego a casa com uma sensação boa sabes? De “Já estava com saudade”, é isto que me faz falta, esta adrenalina, o stress, eu gosto.
BnR:: Tendo perdido o patrocinador principal por duas vezes (aerosoles e Dolce Vita em menos de nove anos, a Ovarense tem tido pouca estabilidade Financeira. Tendo isto em conta, qual a motivação que carregas para confrontos contra clubes com maior capacidade? Como encaras o futuro da Ovarense, sendo tudo muito incerto nestes tempos?
NM: Olha quando se falou na próxima época eu disse “Quero apanhar as coisas onde as deixámos”. E tinha o sonho ridículo, eu queria apanhar os mesmos jogadores, dar-lhes uma segunda vida, uma segunda hipótese. Pois houve um decréscimo de orçamento, temos de ter menos estrangeiros e eu pensei pronto tenho de me ajustar, não me sinto inferior por isso, não vou agora pensar nisso. Dantes já havia uma grande diferença, agora ainda é maior, não vou pensar “ui agora é que vai ser”, não sinceramente não penso nisso. Quero uma equipa que seja competitiva, que tenha margem de crescimento com um ADN muito específico, tentar aprender com os erros do ano passado e não mudar tudo, criar um núcleo e uma equipa que nos evite sofrer o que sofremos o ano passado. Um preocupado com os jogadores que podíamos manter, e ter a preocupação pura de perceber como é que eles vão ultrapassar este momento, em termos pessoais e financeiros pois são momentos difíceis para todos. É tentar ser otimista e não pensar demasiado nas coisas, se isto vai melhorar se não vai, pôr quase o coração ao alto e construir. Se as coisas aparecerem é ter capacidade de lidar com elas. Já temos um Americano contratado na equipa, os Portugueses já estão todos contratados, falta-nos dois estrangeiros. Estamos no processo de escolher e recrutamento, mas já temos uma ideia clara da equipa.
BnR: Sentes que com os jogadores que tens que consegues manter o ADN da equipa?
NM: Sim, sinto claro. Mesmo em termos do perfil do estrangeiro, pois os Portugueses é fácil. Tentar ver um pouco, não tanto o perfil mental, isso depois ajusta-se, mas ter jogadores que já tenham jogado na liga, talvez um ano. Mas pelo menos ter uma referência muito clara, e depois promover o coletivo. É óbvio que tens sempre jogadores que vêm da universidades, mas mesmo nesses encontrar um jogador com um perfil muito claro, até que nos permita ter um estilo de jogo muito agressivo, que nos permita ter uma identidade de uma equipa muita clara, que perdemos um pouco o ano passado com os jogadores que tínhamos. No ano anterior tínhamos jogadores que o permitiam, o Will, o J.P, o K.C que permitia fazer campo inteiro e tudo mais, que o ano passado se perdeu um pouco. É tentar encontrar jogadores com esse perfil, que me sinta confortável a dizer como são as coisas. Escolher jogadores que não sejam “snobes”. Que tenham talento, mas sejam abertos a outras ideias. Mas acima de tudo estou muito entusiasmado por estar de volta do basquete outra vez, estar a ver basquete e a pensar em basquete outra vez. Mas como te digo, penso no futuro a curto prazo e não sou pessimista, penso sempre que com menos se pode fazer mais ou pelo menos igual. Não vejo outra forma de pensar. Apesar de parecer uma expressão irreal é possível, pelo menos construir algo que seja importante.
BnR: No guia oficial da equipa da época 2006/2007, dizias que o teu sonho era ser feliz. Sentes-te de missão cumprida?
NM: Epah… (risos) fazes perguntas difíceis. Ser feliz não é um momento, não te posso dizer que sou feliz. Quer dizer eu sou feliz, mas essa ideia é sentir-me realizado a cada dia. Estar com quem gosto, fazer o que gosto, e o basquetebol proporciona-me isso, principalmente o basquetebol aqui em Ovar. Estou perto da minha família, perto dos meus amigos, faço aquilo que mais gosto de fazer num clube que me identifico e sou feliz por isso, por ter essa possibilidade. Quantas pessoas podem dizer que treinam no clube onde já jogaram desde os sete anos? E continua. Às vezes desvalorizamos aquilo que temos porque o que temos não serve, tem de ser outra coisa, aquilo que os outros têm é que é aquilo que eu quero. E eu realmente desde muito cedo sentei-me na minha cadeira de sonho, que era aquilo que eu sempre quis. Eu desde cedo queria jogar na Ovarense e um dia vir a ser treinador da Ovarense, e isso deixa-me feliz, deixa-me contente e faz-me sentir realizado. Agora tive muitos momentos de infelicidade não é, foi um ano muito difícil de ser feliz, tem o lado contrário da moeda. Por me identificar tanto com isto também sofro muito com isto, não sou nenhum mercenário, sei que hoje estou aqui amanhã posso estar noutro lado qualquer e o que passou passou. Eu sinto-me responsável por isto, eu sofro como se fosse um adepto, quero ver a Ovarense a ganhar seja de que forma for. Eu houve uma altura que dizia, “A Ovarense tem de começar a ganhar, seja comigo seja com outra pessoa qualquer”, mas temos de voltar a ganhar. E se o problema for eu, pois eu que saia e que venha outra pessoa, se for isso necessário para ganhar. Pois eu sou da Ovarense, não te vou mentir, não sou se outro clube qualquer. Portanto ser feliz para mim implica ter aquilo que mais gosto e fazer o que mais gosto. A felicidade não é eterna. Não é algo constante e consistente, mas eu quando disse ser feliz era isto, era a família estar bem, os pais estarem bem, os amigos estarem bem, estar próximo deles e pronto isto continua a acontecer-me na vida.













