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O Bola na Rede esteve à conversa com Kenedy, de quem Sven-Goran Eriksson diz que é o melhor júnior que treinou. Dos jogos na rua a apanha-bolas dos seus ídolos no Estádio da Luz é um pulo. Formado no SL Benfica, sobe à primeira equipa e vence uma Taça e um Campeonato. Segue-se o Paris SG, onde aprende a falar francês rapidamente e se torna o pagode no balneário, de onde regressa precocemente para conquistar uma dobradinha no FC Porto. É treinado por JJ no Estrela mas é no Marítimo onde passa os melhores anos da carreira. Pelo meio, perde o barco para o Mundial 2002 devido a um controlo positivo de doping, numa situação que tem contornos sui generis. Na Grécia, vive na pele o louco futebol e como treinador adota uma relação de proximidade com os seus jogadores.
– Dos jogos na rua a apanha-bolas no Estádio da Luz –
Bola na Rede [BnR]: Nasces a 18 de fevereiro de 1974, na Guiné-Bissau. Quais são as primeiras memórias da infância?
Kenedy [K]: Tenho poucas memórias porque eu vim ainda pequeno para Portugal, mas já voltei lá depois disso. Lembro-me de em miúdo jogar à bola nas ruas, depois aqui em Portugal foi basicamente escola e futebol. Jogar futebol sempre foi a minha paixão, desde miúdo. Lembro-me que desde os 10 anos já jogava com rapazes de 15/16 anos e fui crescendo assim.
BnR: Eras adepto de algum clube em miúdo?
K: Não, em miúdo não era assim muito adepto de um clube. Às vezes ia com um tio meu ver os jogos do Sporting, porque ele gostava muito, mas eu não ligava muito. Obviamente que quando comecei a jogar nas camadas jovens do Benfica, desde esse momento passou a ser o meu clube.
BnR: Quando é que vens para Portugal?
K: Tinha 4/5 anos, vim viver com a minha avó. Penso que era infantil de primeiro ano, estava no Cultural da Pontinha e como infantil de segundo ano já vim para o Benfica, por volta dos 11/12 anos.
BnR: Fala-me do teu percurso no futebol de formação.
K: Foram tempos fantásticos, são totalmente diferentes de hoje em dia. No meu primeiro ano de infantil joguei no Cultural da Pontinha e lembro-me de nesse ano ter ido fazer uns treinos ao Benfica com um amigo meu que jogava comigo, o Hugo Costa. Ele jogava no Benfica já e disse “Vens comigo lá treinar”. Eu fui mas a equipa já estava mais ou menos feita, eu treinava um bocadinho ali atrás da baliza e tal mas nada. E acabei por ir para o Cultural da Pontinha. Fiz esse primeiro ano de infantil no Cultural e, por ironia do destino, o Benfica no ano a seguir contrata-me. Lembro-me que pagou ao Cultural bolas, equipamentos e mais uns trocos.
BnR: Tinhas algum ídolo quando eras jovem?
K: Em miúdo nem por isso mas a partir dos 14/15 anos já estava mais desperto para isso e o Benfica tinha grandes jogadores, o Valdo, lembro-me do Aldair, o Rui Águas, Pacheco. Eu era apanha-bolas deles quando estava na formação do Benfica. [pausa, houve-se uma voz no fundo e Kenedy desata-se a rir] O meu tio está a perguntar-me se eu não gostava do Eusébio e do Pelé (risos). Claro, eu não os vi jogar mas toda a gente sabia quem eram e o quão extraordinários eram, já tinham ouvido histórias deles. E tive a sorte de o Eusébio ter sido meu treinador nas camadas jovens, apanhei também o Mister Coluna, ouvi histórias dele, que tinha sido um grande jogador no Benfica. Mas pronto eu lembro-me perfeitamente de ser apanha-bolas deles e passado uns anos poder jogar com eles…
BnR: É um sonho de menino, como canta Tony Carreira.
K: É. Até tenho uma história engraçada desses tempos de apanha-bolas. Foi num Benfica-Steaua Bucareste, acho que o Rui Águas marcou dois ou três golos. Eu nesse jogo estava a apanha-bolas e fiquei na zona da baliza, ali dos lados. A certa altura fui buscar a bola e pu-la na marca do pontapé de canto. O Pacheco na altura chegou lá e nem mexeu na bola, porque eu tinha ajeitado a relva à volta quando coloquei a bola. O Pacheco bate o canto e o Rui Águas de cabeça fez o golo. Eu andei a semana toda a dizer que eu é que tinha preparado a bola (risos). Depois subo a sénior e jogo com eles, Rui Águas, Pacheco, Mozer, aqueles que eu andava a apanhar bolas acabei por jogar com eles.
– Campeão no Benfica, “palhacinho” em Paris e dobradinha no Porto –
BnR: Lembras-te da tua estreia na equipa principal do Benfica?
K: Eu como júnior comecei a treinar com os seniores, era o mister Eriksson o treinador, ele gostava muito de mim. Ele no dia antes de se ir embora, isto são coisas que nós guardamos, chamou-me ao gabinete dele e disse-me “Tu foste o melhor jogador da formação que eu vi na minha vida. E um dia vamo-nos encontrar!”. Mas a estreia, fui convocado para a Madeira, contra o Marítimo, era o último jogo da época só que havia vários jogadores que ainda não tinham feito jogos no campeonato. Eu fui para o banco e ele acabou por meter outros que não tinham jogado, lembro-me que era o João Pires e mais dois ou três. Eu não disse nada, já estava feliz da vida de estar ali, e ele pediu-me desculpa por não me ter posto a jogar.
BnR: Isso é quando ainda estás nos juniores?
K: Sim. Depois no primeiro ano de sénior eu penso que não faço jogo nenhum, era o mister Tomislav Ivic. No ano a seguir, o meu segundo ano de sénior, com o mister Toni o primeiro grande jogo que faço é a apresentação aos sócios, no Estádio da Luz É um jogo memorável para mim, com 19 anos a jogar um Benfica-Barcelona. Era o Barcelona com Romário, Begiristáin, Laudrup, aquela equipa espetacular, e nós ganhámos 2-1.

Fonte: SL Benfica
BnR: Fazes parte do famoso “6-3 em Alvalade”. Nesse jogo até jogaste mais à frente do que o habitual ou não?
K: Não, por acaso nesse jogo joguei a defesa esquerdo. Eu com o mister Toni, nesse ano em que fomos campeões, raramente joguei à frente. Aliás, eu começo a jogar a defesa esquerdo no SL Benfica mas até aos juniores nunca fui defesa esquerdo. Joguei a ponta-de-lança, número 10 e extremo esquerdo.
BnR: Como é que se dá essa mudança então?
K: Tudo começa quando eu vou treinar aos seniores com o mister Eriksson. Lembro-me dum dia em que eu estava a treinar no pelado, nós todos cheios de lama, e os seniores estavam no campo nº4, ao lado. Quem se lembra das antigas instalações do Benfica, havia o campo nº1, nº2, nº3, nº4 e este era ao lado do pelado. Eles estavam a fazer um treino conjunto, vejo o mister Eriksson falar com o mister Nené e chama-me. Eu cheguei lá, todo cheio de lama, com as botas todas sujas, e os outros todos bonitinhos, e ele dá-me o colete e diz, lembro-me como se fosse hoje, “Vai ali para defesa esquerdo”.
BnR: E tu?
K: Eu nem lhe disse que não jogava ali, a partir dali ficou aquela coisa de que podia ser defesa esquerdo e com o mister Toni nesse ano praticamente joguei sempre a defesa esquerdo. Neste jogo dos 6-3 eu nem estava à espera de jogar, porque este era um jogo do título e eu andava a jogar a defesa esquerdo, o Rui Costa a médio esquerdo e o Schwartz estava magoado. Só que nessa semana voltam todos e eu com 19 anos sempre pensei que ia para o banco, dormi tranquilo da vida.
BnR: Quando é que sabes que vais ser titular?
K: Na palestra no hotel. O mister Toni dá os três defesas e depois pára um bocadinho e diz “Defesa esquerdo: Kenedy”. Eu comecei a tremer. Lembro-me que o Hélder e o João Pinto estavam ao meu lado, eles ficaram a olhar para mim, quase que me seguraram para eu não cair para o lado. Mas pronto, é daqueles jogos que, juntamente com os 4-4 em Leverkusen, apesar de não ter jogado, foram os jogos mais importantes da minha carreira.
BnR: O Toni normalmente dizia a equipa titular no balneário ou ainda no hotel?
K: Não, dizia no hotel. Por acaso nesse jogo, para mim um dos melhores em que eu joguei, acaba por ficar no banco o Rui Costa. Jogo eu a defesa esquerdo e joga o Schwartz a médio esquerdo. Penso que ninguém estava à espera daquilo, nem o próprio Rui. Acabou por ter um sabor diferente para mim o estar naquele jogo, que até hoje ainda se fala, é sempre bom.
BnR: Em 1996 representas Portugal nos Jogos Olímpicos de Atlanta. Como foi essa experiência?
K: Foi fantástico. Quem passa aquelas experiências de Jogos Olímpicos… Apesar de nós no futebol termos ficado um bocado à parte, não ficámos bem na aldeia olímpica, acho que fomos lá só uma vez visitar. Mas é fantástico o dia da inauguração dos Jogos Olímpicos, o fecho. Nós tivemos a sorte de ter ficado até ao fim, perdemos só nas medalhas. Foi uma experiência muito boa ter representado Portugal nesses Jogos Olímpicos e termos conseguido um 4º lugar, tendo em conta as equipas que estavam nos Jogos Olímpicos e os jogadores que estavam nessas equipas.
BnR: Jogaste com o Dani nessa altura não foi? Foi daí que ficou a vossa amizade?
K: Sim, nós já nos conhecíamos das seleções. O Dani é mais novo que eu um ano, penso eu, mas fazia sempre parte destas seleções mais velhas. É uma excelente pessoa e, além de ser uma excelente pessoa, no futebol para mim, joguei com muita gente de nível mundial mas a nível de pé esquerdo está nos três melhores com quem joguei em toda a minha vida. O Dani era fantástico.
BnR: Como surge a oportunidade de rumares ao Paris Saint Germain?
K: Eu acabava o contrato com o Benfica e surge nesse mesmo ano a Lei Bosman. Queria ficar no Benfica, achei que na altura o que me ofereceram para renovar, se calhar comparado com outros jogadores que não sentiam aquela mística de estar no Benfica, que eu sentia por já lá estar há tantos anos, senti que não houve um esforço muito grande de quem estava à frente do clube para eu ficar. Não exigi nada do outro mundo e achava que, já lá estando há tantos anos, os 10% no contrato que eles queriam aumentar em relação ao que eu ganhava, era pouco.

Fonte: Histoire du PSG
BnR: Sais então como jogador livre?
K: Sim, era um jogador livre nessa altura. O meu empresário era o Manuel Barbosa, que Deus o tenha, e um dia ele diz-me “Tenho um clube para ti, não assines”, porque o Benfica também não voltou com outra proposta. Na altura, a única pessoa que veio falar comigo foi o Toni e eu disse “Não, eu vou ver o que consigo fazer e tal” mas depois não houve… E também o treinador que viria seria o Paulo Autuori e eu a última vez que tinha tido uma conversa antes de acabar a época ele disse “Conto contigo mas tu é que sabes”. Quando te diz isto, pronto… (risos). Coincidência das coincidências, jogava comigo nesse ano o Ricardo Gomes e no verão foi para treinador do Paris Saint Germain e eu fui com ele.
BnR: O que destacas dessa época em Paris?
K: Foi uma época fantástica. Eu na altura, com 22 anos creio, na primeira época em França fiz mais de 25 jogos a titular. Para quem chega, um estrangeiro em Paris… lembro-me perfeitamente que o Raí, que é até hoje um amigo meu, demorou uma época, uma época e meia a afirmar-se. Há sempre aquelas coisas quando um estrangeiro chega lá, é uma mentalidade diferente, é um país diferente mas nesse ano fiz logo esses jogos todos e foi uma grande experiência.
BnR: Na altura não era o Paris SG que é hoje.
K: Sim, é um clube fantástico mas não era aquilo que é hoje, apesar de na altura já ter excelentes condições. Fui muito bem tratado e toda a gente gostava de mim. Aquelas opções às vezes que nós tomamos na vida, eu tinha um contrato de três anos e depois eu forcei para me vir embora na pré-época seguinte. São aquelas opções que nós às vezes não sabemos porque as fazemos mas faz parte de uma vida e foi uma das piores decisões que eu tomei.
BnR: Porque é que dizes isso?
K: Na altura o Paris SG estava interessado no Edmilson, aquele loirinho que jogou no Porto, estava a fazer uma boa época. Na altura até foi o Jorge Mendes, no seu começo, e o Pinto da Costa que ligavam para mim, foi se calhar um dos primeiros jogadores com quem o Jorge Mendes fez alguma coisa. Começaram a ligar para mim e a dizer “Vens para Portugal, o ordenado é o mesmo, vens na troca do Edmilson”. Eu pensei “Vou voltar a casa, voltar para o Porto, o Porto também está na Liga dos Campeões, o ordenado é mesmo…”, pronto aquelas coisas todas.
BnR: O Paris SG estava disposto a vender-te?
K: Lembro-me que no dia em que estava no aeroporto, o Presidente do Canal+ e do Paris SG, o sr. Michel Denisot, disse “Não quero que vás embora, eu pago o que for preciso pelo Edmilson mas tu ficas aqui”. Ele adorava-me, o gajo tinha uma coisa por mim porque sempre fui aquele divertido, o palhacinho do balneário, estava sempre tudo bem e divertido. Ele adorava-me e os franceses, se não fores assim, não te integram. Porque outros estrangeiros chegavam lá, ficavam calados. Aliás, eu comecei a falar francês logo em três ou quatro meses. Eu queria brincar com eles, gozar com eles e fui aprendendo assim naturalmente. Mas eu forcei, forcei e acabei por vir para o Porto.
BnR: És tetracampeão no Porto. Naquela altura era difícil não se ser campeão no Porto?
K: O FC Porto tinha uma excelente equipa, bem organizada, a estrutura, o sr. Presidente Pinto da Costa e tinham bons jogadores também. Nessa altura o plantel do Porto em que eu fui tetra era fantástico, Zahovic, Drulovic, Jardel, Sérgio Conceição, Capucho, Aloísio, Jorge Costa, Paulinho Santos, Rui Jorge. Um elenco muito bom e nesse ano conseguimos ganhar o Campeonato e a Taça de Portugal.
BnR: Dobradinha no Porto, não é para todos.
K: É, dobradinha nesse ano e no Benfica também já tinha ganho o Campeonato em 93/94 e a Taça de Portugal em 96, aquela do very-light.
BnR: Vocês jogadores apercebem-se no relvado do que se passa na bancada?
K: Nós apercebemo-nos que aconteceu alguma coisa, não temos a noção que infelizmente faleceu alguém. Só temos a informação ao intervalo que parece que a pessoa foi atingida e parece que talvez tenha falecido. Na altura, lembro-me que os capitães reuniram-se, penso que o Oceano e Carlos Xavier estavam presentes da equipa do Sporting e tentaram de uma maneira ou outra que o jogo não fosse até ao fim. Mas pronto, também ainda não tinham a certeza se a pessoa tinha falecido ou não. Penso que nesse dia nem houve entrega da Taça, por causa desse acontecimento.
– JJ, qualidade de vida na Madeira e Grécia –
BnR: Foste treinado por Jorge Jesus no Estrela da Amadora. O que é que recordas dele na altura?
K: (risos) Tanta coisa, tanta coisa. Já era fantástico na altura. O mister Jorge Jesus é muito exigente, toda a gente sabe disso. Penso que no Estrela da Amadora ainda era mais. Sabíamos que não havia brincadeira nenhum dia, todos os dias eram… não havia cá peladinha, eram treinos sempre específicos e intensos. Depois era o pormenor, às vezes davas um passo para o lado e ele parava o treino para te explicar que não era nada disso e corrigia-te. Ele procurava a perfeição, ele vive o futebol 24 horas por dia. Já na altura ele tinha capacidades, vários treinos que ele fazia na altura e que se começaram a fazer depois, várias marcações e tiveram um bocado o dedo dele.
BnR: Às vezes demasiado exigente com os jogadores?
K: Ele sempre quis mais e mais, sempre exigente, para ele não havia desculpas. Houve ali alturas que eu se calhar não concordei com atitudes dele mas tens que saber lidar, se não consegues, esquece, com ele não vais conseguir jogar. As pessoas criticam muito a maneira dele falar com os jogadores mas aquilo para ele é o momento, se calhar a seguir passas ali ao lado e ele vai dizer que és o melhor jogador do mundo. Tenho a maior admiração por ele e o que fez agora no Flamengo prova a sua qualidade.
BnR: Boas memórias dos tempos do Marítimo? Qualidade de vida?
K: Sim, sim. Foram os meus melhores anos, juntamente com aqueles anos no Benfica. Foi uma boa época em termos futebolísticos, uma ilha fantástica, as pessoas sempre maravilhosas comigo. Foi talvez das melhores épocas que eu fiz na minha vida, porque tinha confiança, tinha apoio, as pessoas gostavam de mim. Acabei por estar dois anos e meio na Madeira, é um sítio de onde tenho as melhores recordações do mundo.

Fonte: CS Marítimo
BnR: Estava de férias na Madeira em 2001, a minha mãe é madeirense, e fui com o meu pai e os meus irmãos ver o Marítimo-Porto. Foi para aí a segunda ou terceira vez que fui ao estádio ver um jogo, não sei se te lembras de que jogo estou a falar?
K: (risos) Vou tentar lembrar-me do resultado… Perdemos 2-1 ou 3-1?
BnR: 3-1. O Porto começa a ganhar 2-0, Deco e Clayton. Depois o Bruno reduz…
K: E o terceiro é o Pena.
BnR: Exato. Tu foste expulso. Aliás, tu e mais dois jogadores do Marítimo.
K: Sim, lembro-me bem. Vou-te já dizer quem foi expulso [Kenedy reflete um pouco]. Eu, o Iliev e o Gaúcho. Era o Bruno Paixão o árbitro. Lembro-me que houve uma falta qualquer e eu, como qualquer jogador, os do Porto também diziam, “F******, não é nada falta”. Ele achou que aquilo tinha sido demais e deu-me vermelho direto. Por acaso nesse ano fui expulso contra o Porto e contra o Sporting também. O Tiago estava na baliza e eu fui para saltar, o Tiago tinha jogado comigo no Estrela, era meu amigo, e a proteger-me fiquei por cima dele e o árbitro pensou que eu o tinha pisado e deu-me vermelho.
BnR: Como foi a adaptação à Grécia?
K: A Grécia é um país fantástico. Loucos, no futebol gente louca, mas é um país maravilhoso. Graças a Deus adapto-me bem porque tento entrar na cultura para onde vou. Eu já tinha estado uns meses no Chipre antes, eu e o Ricardo Fernandes, que jogou no Porto. Fomos em 2001, ele foi em junho e eu em agosto, fomos os primeiros portugueses a jogar no Chipre. Eu fui ao mapa ver onde é que era Chipre, ninguém sabia onde é que aquilo era. O Ricardo foi para o APOEL e através do empresário que o tinha levado para lá, ligou-me e eu fui também. Eu na altura tinha acabado o contrato com a Académica, fiz uma semana de treinos à experiência e assinei. Os países são mais ou menos parecidos apesar de a Grécia ser um bocadinho maior. O futebol lá tem assim algumas manhas e tal mas gostei imenso.
BnR: Que manhas?
K: Os grandes são um bocado favorecidos, o Olympiakos, o Panathinaikos e o AEK, era sempre complicado jogar com eles. Havia ali meio uma mafiazinha mas pronto já sabíamos disso.
BnR: Qual a melhor memória da passagem por lá?
K: A equipa onde estava, o Ergotelis, lutava para não descer mas lembro-me de um ano em que estivemos quase para descer e nas últimas jornadas tivemos jogos decisivos no qual eu fui importante. Foi mais essa motivação de um equipa média/baixa poder ficar na 1ª Divisão e lutar por uma classificação boa.
– Doping na antecâmara do Mundial 2002 –
BnR: Onde é que estás quando sabes que és convocado para o Mundial 2002?
K: Estava na Madeira. O Marítimo tinha ido para uma digressão em Macau e eu não fui porque havia a possibilidade remota de eu ser convocado. Eles foram e eu fiquei três ou quatro dias à espera na Madeira. Nesses dias acho que não dormi nenhuma noite, dormi sempre mal. Lembro-me perfeitamente que era 13 de maio ao meio-dia que se sabia os convocados, eu de manhã fui tratar dumas coisas porque tinha que estar preparado na eventualidade de ser convocado. Depois sentei-me na sala a ver a convocatória, a tremer, nervoso. Acho que não foi preciso dizer o meu nome, quando ele diz “Club Sport Marítimo” eu percebi logo. Foi um dia que eu não esquecerei nunca.
BnR: Acusaste positivo no controlo antidoping feito no início do estágio. A substância que te acusaram de tomar foi-te prescrita por quem?
K: Eu sempre disse isso, eu tomava comprimidos para emagrecer e sempre me foram dados pelo Dr. Fernando Póvoas. Nunca na minha vida me passou pela cabeça que os comprimidos tinham alguma substância que fosse proibida. Eu tomava aquilo para emagrecer porque cheguei ao Marítimo com peso a mais e ia controlando o meu peso regularmente, com essa dieta que tinha que fazer tinha que ter cuidado com a alimentação. Os comprimidos ajudavam-me a manter aquele que era o peso ideal para eu poder jogar.

Fonte: FPF
BnR: O que é que sentes no momento em que te informam dos resultados do teste?
K: No primeiro dia em que me confrontam com isso, furosenida era o nome da substância, eu nunca tinha ouvido falar nisso na minha vida. Até hoje é difícil de compreender. Nunca imaginei, porque quem toma alguma coisa sabe que pode ser apanhado, tem que correr esse risco, mas eu nunca. Quando me foram acordar, lembro-me perfeitamente que foi o prof. Rui Caçador que veio ter comigo ao quarto e falou comigo. Quando me contou eu não queria acreditar no que se estava passar.
BnR: O que passa a seguir?
K: Temos uma reunião com os jogadores todos e falou-se daquilo. Vários jogadores saíram em minha defesa, lembro-me perfeitamente do Rui Costa e do Figo. Porque aquelas análises eram feitas para nós, para a Federação e os médicos saberem como é que nós estávamos, não eram para ser tornadas públicas. Eu tenho a certeza que se fosse outro jogador eles não iriam pôr essas análises cá fora. Da mesma maneira que se calhar outros jogadores acusaram substâncias que eram proibidas ou que se calhar não devem ser tomadas, tinha-se um espaço enorme de um mês até à competição. Por isso é o que o Figo disse, e até hoje estou-lhe agradecido, “Mas isto foi feito por nós. Se tinham problemas com o que dava, nós íamos fazer a Madrid ou outro sítio. Isto foi feito por nós para vocês saberem como nós estamos no final da época”. Tudo aquilo sempre me pareceu o elo mais fraco…
BnR: Sentes que houve interesses por de trás do teu afastamento? Empresários…
K: Também, também. Senti um bocado de tudo. Qualquer um que tivesse passado o mesmo que eu pensaria a mesma coisa porque há várias coisas que acontecem logo de seguida, tudo muito estranho.
BnR: Que género de coisas?
K: Não senti um apoio da Federação. Dou-te um exemplo, lembro-me perfeitamente que dois anos depois o Rui Jorge acusou qualquer coisa e o treinador foi o primeiro a dizer “Eu não quero saber o que se vai passar, eu quero contar com o jogador para o Europeu”. Houve muita coisa ali que falhou, ou que podia ter sido feito de outra maneira.
BnR: Era algo que ainda era remediável?
K: Havia um mês inteiro ainda, como os meus próprios colegas disseram. Eu praticamente só chorava e não queria acreditar no que se estava a passar. Jogadores com mais experiência como o Figo e o Rui Costa saíram em minha defesa e explicaram que aquilo tinha sido feito para a Federação saber como é que nós estávamos. Estávamos a um mês ou três semanas do Mundial, dava para ser resolvido até lá. É uma mágoa que eu vou guardar para o resto da minha vida. Uma pessoa quando faz algo sabe que pode ser apanhada, agora quando não se faz nada, não se sabe o que é que se passou e ainda por cima sai da Seleção e do Mundial e fica um ano castigado…
BnR: Como é que se recupera de uma situação como esta?
K: Não se recupera [Kenedy sorri tristemente]. Tive um grande apoio da família, dos amigos, do Marítimo, foram fantásticos. O Presidente, os meus colegas, o mister Nelo Vingada, todos fantásticos. Foi um ano muito difícil, só treinar, treinar e a coisa que mais me fazia confusão era treinar e chegar ao dia de convocatória. Quando saía a convocatória, eu saía do balneário, pegava no carro e ia dar uma volta antes de ir para casa. É uma sensação horrível.
BnR: Quais as consequências disto na tua vida?
K: Foi uma altura difícil, prejudicou-me bastante a nível psicológico, familiar, a vários níveis. A partir daí mudou a minha vida em vários aspetos.
BnR: O Dr. Fernando Póvoas nunca assumiu o erro ou explicou o lado dele?
K: Ele lá saberá no íntimo dele o que se passou. Nós nunca mais falámos, falámos só na altura em que isso se passou, quando eu estava ainda em Macau e depois quando eu voltei falámos um bocado disso. Mas eu às vezes sou um bocadinho atrasado mental, acho que acabei por o defender… se calhar devia ter feito as coisas de outra maneira também com ele mas pronto. Espero que ele tenha a consciência tranquila. Eu tenho a minha consciência tranquila, ele não sei se tem a dele.
– Treinador precisa dos jogadores –
BnR: A que treinadores foste beber conhecimento para a tua carreira como treinador?
K: Jorge Jesus algumas coisas, Nelo Vingada também algumas coisas, o mister Toni também. O mister Nelo Vingada é uma pessoa fantástica, um excelente treinador, especialmente a níveis humanos, eu aprecio muito isso. Na relação com os jogadores aprendi muito com ele. Já sou assim de pessoa mas tirei muito dele também, acho que é importante quem sonha ser treinador perceber que precisa dos jogadores. Eu como fui jogador sei o que é o que jogador gosta de ouvir, o que é que não gosta de ouvir, qual é o momento certo para chegar ao pé dele e dizer-lhe umas coisas. Isso é importante para um treinador de futebol e há treinadores que não têm essa sensibilidade.
BnR: Como surge a hipótese de seres treinador?
K: Lembro-me que foi o atual Presidente do Leixões, o sr. Paulo Lopo. Ele ligou para mim, tínhamo-nos conhecido há pouco tempo, porque na altura o Sintra Football Club tinha ficado sem treinador uma semana antes de começar o campeonato. E pronto foi aí que comecei, com ele e o Presidente Dinis Delgado, que eu chamo de “El Loco”. Gostei e depois passei por vários clubes, Leixões, Coruchense, Pinhalnovense, Almancilense, Cernache de Bonjardim. Penso que deixei sempre uma marca, a minha maneira de estar, a minha maneira de ser com os jogadores, lutámos por coisas boas.

Fonte: Leixões SC
BnR: Depois de uma derrota, a conversa dura é logo no balneário ou preferes fazer no treino seguinte, com o jogo mais digerido?
K: Depende. Há situações que prefiro o dia a seguir, no final do jogo cumprimentar só os jogadores, dar-lhes os parabéns e falar no treino seguinte. Agora, há situações que tem que ser ali mesmo na hora, deixar para o dia a seguir não dá. Claro que não podemos ganhar sempre mas já me aconteceu explodir logo no momento (risos).
BnR: Isso se calhar em situações em que era expectável que a equipa ganhasse mas acaba por perder? Tem que ser ali no momento?
K: Sim, têm que sentir logo no momento. Mas no momento até é mais coisas individuais. Lembro-me uma vez no Pinhalnovense, eu adorava o filho do Hassan, que joga agora no Olhanense, andava sempre com ele “ao colo”, era um jogador especial. Há um jogo que estávamos empatados e há um penalty na parte final. Não era ele a marcar o penalty mas ele quis assumir o penalty e falhou. Até aí tudo bem. Depois a partir daí, foi as reações que ele teve a seguir no final do jogo, os colegas a chamar e ele foi para o balneário aos pontapés a tudo. Ainda parecia que tinha razão. Nesse dia explodi, disse-lhe “Comigo não jogas mais! Vai-te embora já.” No dia a seguir lá pediu desculpa mas essas situações de falta de respeito para mim ou para os colegas e para quem está a assistir naquele momento, é que eu expludo.
BnR: Tens projetos para o futuro no futebol?
K: Agora estou numa pausa sem treinar nenhum clube, sem forçar nada. As coisas quando tiverem que acontecer, acontecem. Gostava que surgisse alguma coisa mas para os treinadores é complicado mas gostava de fazer algo que esteja ligado ao futebol, como diretor ou treinador. Vamos ver.
BnR: Qual a melhor lição que o futebol te ensinou?
K: Uma delas é aquilo que eu sempre fui: seres sempre a mesma pessoa. Já tive pouco, já tive muito e consegui sempre ser a mesma pessoa. E claro, ter cuidados na vida porque é uma carreira que acaba rápido e nós não sabemos aquilo que vai acontecer nem as voltas que a vida dá. Os jovens hoje em dia são mais organizados e têm mais condições para guardar o dinheiro e não fazer loucuras. Penso que é um conselho que podia dar, e falo por mim, de quem já teve alguma coisa e ganhou, às vezes é preciso saber controlar isso e ter um plano de vida.
BnR: Houve alturas em que te faltou algum bom senso?
K: É como eu referi, a partir daquele ano sem jogar e depois o começo de voltar a jogar foram muitas emoções e eu psicologicamente não fui forte e perdi-me. Não é desculpa mas aquilo tudo acabou por me levar para coisas em que quem saiu prejudicado fui eu. Mas graças a Deus hoje em dia passou, a vida é outra, sei que errei e reconheci os meus erros. A vida é mais calma, com menos, mas é o que é.
– Passes curtos –
BnR: Qual é para ti o melhor momento da tua carreira?
K: Ser chamado à seleção em 2002.
BnR: Um estádio?
K: Marcou-me muito o antigo Estádio da Luz.
BnR: Qual foi o melhor jogador com quem jogaste?
K: Não consigo dizer só um: Figo, Rui Costa, João Pinto e Leonardo, do Paris SG.
BnR: Um guarda-redes?
K: [Kenedy faz um som de admiração] Ui. Michel Preud’homme.
BnR: Um defesa?
K: Têm que ser estes dois, Ricardo Gomes e Mozer.
BnR: Um médio?
K: Rui Costa.
BnR: Um avançado?
K: Mais matador foi o Mário Jardel. Melhor avançado, João Pinto.
BnR: E aquele que menos gostavas de ter de defrontar?
K: Tenho que dizer o João Pinto também (risos). Ele era muito chatinho, muito inteligente.
BnR: Um golo?
K: Tenho dois no Marítimo, um contra o Gil Vicente e outro ao Benfica. Lembro-me que contra o Gil Vicente foi num dia especial porque a minha avó foi lá ao Funchal ver o jogo mas nem viu o golo porque foi logo no início. São os dois mais ou menos da mesma zona, ressalto, a bola vem para fora da área e pimba, de primeira.
















