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Step by step. Poderia ser uma publicação de Tonel nas redes sociais. Poderia, mas pode ser também o rescaldo da carreira do central que fez 581 jogos oficiais como profissional. Casa é onde nos sentimos felizes. Poderia ser uma publicação de Tonel nas redes sociais. Poderia, mas pode ser também o resumo da sua passagem por quase todos os clubes que vestiu. Quase, porque, aquele que ficava a “Beira-Casa”, em 2012/2013, acabou por não correr bem.

A aventura no futebol começou com 12 anos, numa formação com “Espinhos”, com decisões difíceis e um Porto que foi e veio como as viagens de autocarro pela Batalha e por Santa Catarina.  No currículo tem uma Campeonato da Europa de sub-18 por Portugal, uma subida de divisão com Académica e Taças nacionais na Croácia e em solo luso.

Entre uma transferência anunciada para Alvalade pelos jornais e uma empregada doméstica que ajudou na ida para a Croácia, houve um lance que marcou o fim da carreira do jogador e revelou o lado que o Tonel não gosta do futebol. Confesso apaixonado pela bola, o defesa internacional sente saudades da antiga paixão e mística do Desporto Rei, ao mesmo tempo que revela por onde passa o seu futuro.

«Hoje, o futebol está mais industrializado, mais negócio. Antigamente havia mais paixão pelo jogo, pelo clube»

 

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Bola na Rede: Como é que o futebol apareceu na tua vida? Era um sonho de pequeno? 

Tonel: Era algo que desde pequeno gostei de fazer. Desde que me lembro, tenho, por exemplo, uma fotografia com um ano, um ano e pouco, já com uma bola na mão. Sempre gostei, sempre gostei de jogar. Na minha família tive tios, e mesmo o meu pai também jogou, já havia o gosto pelo futebol na família e por isso foi quase que uma continuação natural, digamos assim.

Bola na Rede: Começas desde cedo no FC Porto, como é que apareceu a oportunidade? Era algo que querias muito na altura?

Tonel: Eu estava no Colégio Internato dos Carvalhos no sexto ano e então havia o torneio “Vítor Baía” no Colégio Cedros, e pronto, eu lembro-me que jogava pelo colégio (Internato dos Carvalhos) e chegamos à final, era futebol salão. Tínhamos uma equipa boa e fomos à final com o Porto, tínhamos 12 anos, à volta disso, ganhamos 6-3. O Porto gostou e falaram comigo a ver se eu podia ir para lá e eu “claro”, fiquei todo contente, como é óbvio, com 12 anos. No primeiro meu ano não fui inscrito porque aquele torneio foi em dezembro/janeiro e eu fiquei até ao final da época a treinar só. No ano seguinte já fui inscrito, mas tive praticamente um ano sem jogar, tive muita dificuldade.

Bola na Rede: Essa dificuldade foi por causa da intensidade, por exemplo, ou havia mais alguma coisa?

Tonel: Foram vários fatores. Senti dificuldades na integração no próprio grupo, antigamente era diferente, hoje os miúdos são muito mais à vontade. Eu morava em Lourosa e ir para o Porto, eu ia de autocarro, e depois apanhava outro autocarro, ia sozinho, depois o meu pai ia-me buscar no final do treino, mas senti dificuldade dos dois níveis. Ou seja, em termos de jogo, os outros eram melhores do que eu, também porque comecei a jogar com 12/13 anos e havia lá miúdos que já jogavam desde os seis anos e eu só jogava na escola. Uma coisa é jogares na escola outra coisa é jogar, pronto, com miúdos, em treino, em competição a partir dos seis/sete anos, e eu senti essa dificuldade e tive um ano praticamente sem jogar. Foi um ano difícil porque eu tinha prazer em treinar, mas sabia que estava atrás dos outros. Custou-me. Depois, cheguei a ser convocado e ter que me levantar às seis da manhã para um jogo às nove e chegar lá e ficar na bancada, por exemplo. Isto com 13 anos, por isso, foi um ano difícil, mas que fez parte.

Bola na Rede: E as condições na altura também eram diferentes…

Tonel: Na velha constituição, pelado, os balneários velhos, mas isso para mim não era nada. Não era problema. O problema maior era mesmo eu sentir que os outros eram melhores que eu, embora eu desse o meu máximo e tentasse chegar perto ao nível deles, sentia que estava baixo, bastante abaixo.

Bola na Rede: E as viagens de autocarro como eram, sair de casa às seis para ter jogo às nove…

Tonel: Não, eu saía de casa às seis ao fim de semana, para um jogo. Mas para os treinos, as aulas acabavam às “cinco e vinte” apanhava um autocarro para a Batalha, dos Carvalhos para a Batalha, depois chegava à Batalha e tinha de descer a Avenida dos Aliado, descer ali a Santa a Catarina e depois apanhar o 77 ou o 69 que era o que me levava à Constituição. Apanhava ali dois autocarros, sozinho, não havia telemóveis, não havia nada. Depois às nove/nove e meia o meu pai ia-me buscar, chegava a casa às dez/dez e meia com trabalhos para fazer, jantar por comer e cansado. Foi um ano muito difícil, mas que, pronto, hoje olho para trás e percebo que a vida é mesmo assim, há dificuldades, mas faz parte.

Bola na Rede: Quando ias, já levavas o aquecimento feito.

Tonel: (Risos)  quase, quase…

Bola na Rede: Sais do FC Porto depois, imagino que por essas dificuldades, e voltas mais tarde, o que aconteceu?

Tonel: Foi ótimo ter saído do Porto, esse ano que eu disse foi o meu primeiro ano de iniciado, primeiro ano de futebol 11, ainda por cima. Eu nunca joguei futebol de sete, eu entrei diretamente no futebol 11, e essa foi também uma dificuldade que eu tive. Estava habituado a jogar futebol de cinco na escola e de repente vou para o Porto e vou jogar futebol de 11. Ou seja, não tem nada a ver, as dimensões do campo, não tem nada a haver. Não tive escola nem futebol sete. Mas pronto, depois do primeiro ano de iniciado vim para Espinho onde estive no segundo ano de iniciado e primeiro de juvenil. Foi ótimo para mim, porque baixei o nível de qualidade, de treino, dos jogadores, mas vim para o meu nível, vim jogar e treinar mais ou menos do meu nível, ali não me sentia inferior aos outros. Continuei a trabalhar normalmente e senti que melhorei. Eu no Porto era muito diferenciado dos outros, sentia-me pior que os outros e ali sentia que era igual ou parecido que os outros. Pronto, tive dois anos em Espinho muito bons. O segundo ano de iniciado foi o primeiro ano que joguei, joguei quase todos os fins de semana e treinava. O primeiro ano de juvenil foi bom porque jogava já na equipa acima, ou seja, no primeiro ano que joguei em Espinho fez-me melhorar muito.

Bola na Rede: Não deixa de ser curioso o teu caminho. Começas a jogar com 12 anos, tens dificuldades no Porto, vais para o Espinho, voltas para o Porto, e és campeão da Europa de Sub-18.

Tonel: É verdade, mas antes disso, voltei ao Porto no segundo ano de juvenil e cheguei de uma forma diferente porque tinha estado dois anos a jogar, a competir, evoluí muito. Aí já me sentia mais ou menos ao nível dos outros. Correu bem, continuei a treinar, as coisas correram muito bem. Apesar disso, tive uma época no Porto antes de subir a júnior, e no meu primeiro ano de júnior no Porto eu ia jogar na equipa que jogava a nível distrital, não era a equipa B, mas era equipa de primeiro ano, que dantes era a equipa principal, jogava no campeonato nacional, a equipa B, a equipa dos mais novos jogava no campeonato distrital. Pronto, foi-me colocada outra vez a possibilidade de voltar ao Espinho para jogar no campeonato nacional, ou seja, para mim foi ótimo. Foi difícil, mas percebi como me tinha feito bem ir a Espinho dois anos, percebi que poderia ser bom outra vez. Foi ótimo! Joguei na nacional outra vez, era primeiro ano de júnior e em vez de jogar na distrital, jogava na nacional com o Espinho e foi ótimo. No ano seguinte voltei outra vez ao Porto, depois também tive sorte, talvez, de ter feito três anos de júnior, porque mudou a lei da idade. Dantes o limite era agosto, ou seja, se nascesses a 30 junho eras de um ano, se nascesses a 1 de agosto eras de outro. Agora, 31 de dezembro és de um ano, 1 de janeiro és de outro. Quando mudou, mais ou menos em 1998, já adaptamos aquilo que se passava na Europa, e eu fui como sou de abril, fez com que eu ficasse mais um ano nos juniores, fiz três anos e dentro desses três anos, no terceiro ano, fui Campeão da Europa de Sub-18, na Suécia, foi ótimo também. Foi no ano de passagem de júnior para sénior que é sempre complicado. Foi bom ter sido campeão da Europa, ajudou.

Bola na Rede: No FC Porto apanhas uma boa fornada de defesas, Bruno Alves… 

Tonel: Sim isso já depois, quando passei a sénior. Eu lembro-me de jogar contra o Bruno no Varzim, no segundo ano de juvenil, o Bruno era primeiro, e já na altura se destacou, fisicamente era muito forte, agressivo, mas eu não o apanhei na equipa, eu subi para júnior e ele foi para segundo ano de juvenil. Depois só o apanho na equipa B, e aí juntou-se também o Ricardo Costa.

Bola na Rede: Achas que essa fornada de defesas também te dificultou a passagem para a equipa A? Além disso, como é que aparece a Académica?

Tonel: No segundo ano de equipa B havia três centrais, muitas vezes, até dezembro, depois saí para a Académica, o Ricardo Costa jogava a lateral direito. Na equipa B jogávamos muitas vezes eu e o Bruno a centrais e o Ricardo a lateral direito. Mas como eu era, acredito que tenha sido por isso também, como era mais velho um ano que eles os dois, surgiu a hipótese de ir para a Académica em dezembro. Eu “ok”. Aí fui para uma liga superior, a Académica estava na segunda liga, naquela época não dava para subir, porque a Académica estava em 12º ou 13º, meio da tabela, mas fui, fiquei, conseguimos a manutenção sem dificuldade. No ano seguinte subimos de divisão e eu sempre emprestado.

Bola na Rede: Estiveste três anos na Académica por empréstimo, certo?

Tonel: Três anos e meio. Foi ótimo, a Académica foi, para mim, um suporte a nível sénior. A formação foi divida entre Porto e Espinho. A equipa B (do FC Porto) era um misto de equipa sénior com equipa ex-júnior, não era um ambiente sénior, e eu senti isso quando cheguei à Académica. Eu considero a Académica como meu primeiro clube sénior. No primeiro ano lutamos por não descer, até com alguma facilidade. Mas no segundo ano, com o João Alves, subimos de divisão, e em dezembro tínhamos doze ou treze pontos de avanço para o terceiro classificado. Foram anos muito bons, era diferente do que é hoje. A envolvência, a paixão que havia à volta do clube, fazia-se as coisas com mais prazer, mais dedicação, ou seja, fazia-se mais com o coração do que hoje. Hoje, o futebol está mais industrializado, mais negócio. Antigamente havia mais paixão pelo jogo, pelo clube.

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