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Num banco de jardim perto das Antas estivemos à conversa com Domingos Paciência, figura ímpar do FC Porto, SC Braga e do futebol português. Com toda a simpatia e transparência conduziu-nos numa viagem pelo tempo na sua ilustre carreira. Recordamos os primeiros passos no futebol, a carreira de sucesso no FC Porto onde formou uma das melhores duplas de sempre dos dragões com Kostadinov, até aos problemas que afetaram o seu rendimento em Tenerife. Já como treinador, lembramos o sucesso vivido em Braga, os anos menos positivos nas épocas seguintes e a proposta do Atlético Paranaense. Abordamos ainda a “polémica” em torno da chamada de Dyego Sousa à seleção, as comparações entre Gonçalo e Vasco Paciência e o que se segue no seu futuro. Tudo isso e muito mais, aqui no Bola na Rede.

Domingos Paciência, símbolo incontornável do futebol português
Fonte: Catarina Guimarães/ Bola na Rede

-Dos primeiros passos no futebol à carreira de sucesso no FC Porto-

«O meu primeiro jogo na I Divisão foi nas Antas contra o Elvas, entrei a dez minutos do fim e marquei logo na estreia»

Bola na Rede (BnR): Fale-nos um pouco sobre as suas origens. Nasceu e cresceu em Leça de Palmeira?

Domingos Paciência (DP): Sim, sou natural de Leça de Palmeira, como diz a música “a melhor terra de Portugal” (risos). Nasci em Leça de Palmeira e só depois é que vim para o Porto. Éramos sete irmãos, duas raparigas e cinco rapazes, sendo eu o mais novo.

BnR: Já nos tempos de escola, só via bola à frente?

DP: Sim, desde muito pequeno. Desde que me lembro, com os meus seis, sete anos que comecei a jogar à bola na rua, no bairro e na escola. Foi sempre o meu desporto favorito.

BnR: E os seus pais, acompanhavam e apoiavam essa sua paixão pelo futebol?

DP: Acho que nunca se interessaram muito e com naturalidade. Era uma criança que gostava de jogar futebol na rua. Os meus pais sabiam que eu estava próximo de casa e a preocupação deles era mais de saber se eu estava por ali e se estava bem. Nunca foi uma coisa que os meus pais valorizassem muito, era só uma criança normal, de uma família humilde, que gostava de jogar futebol.

BnR: Chega ao FC Porto em 1982/83 com 13 anos. Como é que era o Domingos dessa altura?

DP: Um miúdo franzino, um miúdo com 13 anos muito magrinho que queria apostar tudo num sonho. Com 13 anos, chegar ao FC Porto, vir à experiência e procurar agarrar a oportunidade que me estavam a dar, essa era a preocupação maior. Felizmente consegui.

BnR: Recorda-se do seu primeiro treino?

DP: Como se fosse hoje. Tanto eu como o Vítor Baía éramos da mesma idade e encontramos o senhor Costa Soares que era o treinador da altura dos iniciados, que nos recebeu e pôs-nos à vontade. Foi aí que tudo começou e depois treinei normalmente. Correu tudo bem, deu-me mais espaço e ao fim de uma semana o parecer foi positivo.

Foram 16 anos consecutivos de dragão ao peito e após duas épocas em Espanha, voltaria para terminar carreira
Fonte: FC Porto

BnR: Na altura a formação era muito diferente comparada com atualmente?

DP: Era, eu acho que não havia as condições que há hoje, nem o método de trabalho. E acho que na altura, as pessoas que estavam ligadas ao futebol era por amor, tinham um carinho muito especial pelo futebol e hoje tudo é diferente porque o futebol está de certa forma estudado, tudo é organizado e formatado.

BnR: Dessa forma, acha que é mais complicado agora surgir um jogador que sobressaia no meio dos restantes?

DP: A evolução do futebol retirou a criatividade à criança. Aquilo que se fazia pela naturalidade e pelas condições com que se crescia, o enriquecimento que isso era em termos de criação de personalidade e em termos de evolução das suas capacidades, nisso a rua ajudava muito mais do que ajuda hoje. Agora hoje acho que é tudo diferente. É mais difícil sobressair alguém e quando eles aparecem, fazem a diferença e são as exceções no meio de jogadores formatados.

BnR: Perdeu muito na sua juventude por ter seguido a carreira de futebolista?

DP: Abdiquei de muita coisa. Abdiquei de poder estar com os meus amigos, poder ter fins de semana, situações de divertimentos. Tudo isso acabei por não fazer porque, lá está, o futebol e aquilo em que eu apostei era demasiado exigente e era tudo um foco muito grande da minha parte que me desviava dessas coisas. Eu também não me importava, porque a vontade de ser jogador de futebol era sempre mais forte do que se calhar ir divertir-me.

BnR: Recorda-se do seu primeiro jogo como sénior?

DP: Lembro, o meu primeiro jogo na I Divisão foi nas Antas contra o Elvas, entrei a dez minutos do fim para substituir, salvo erro, o Raudnei e marquei logo na estreia. Antes já tinha feito a estreia na Taça de Portugal, naqueles jogos em que os treinadores dão espaço a que outros possam jogar e eu fui jogar contra o Moura, tinha na altura 19 anos.

Domingos marcou logo na sua estreia com 19 anos
Fonte: FC Porto

BnR: Estava nervoso na estreia?

DP: Normal, não muito. Até porque eu pertencia a um grupo que me deu muito espaço e aceitaram-me bem. Acho que se fez com naturalidade e nessa época de estreia ainda consegui fazer 15 jogos, que foi muito bom para mim.

BnR: Vestiu de azul e branco por 16 anos consecutivos, foram sete campeonatos, duas taças de Portugal, seis supertaças e tornou-se o sexto melhor marcador da história dos Dragões. Sei que é impossível resumir tantos anos no FC Porto, mas consegue destacar os momentos que guarda com mais carinho?

DP: Guardo boas recordações, principalmente na minha fase em que comecei a aparecer. Lembro-me quando integrei aquele plantel de campeões europeus. Foi uma geração importante na forma de eu crescer, na transmissão de valores e da tal mística que se fala. Senti que haviam coisas que faziam um grupo forte e era isso que fazia a diferença no FC Porto. Cresci muito com isso, criei uma personalidade também, passei referências e formas de estar daquele balneário que outros me ensinaram a mim.

BnR: Formou uma das melhores duplas de ataque da história do FC Porto com Emil Kostadinov. Foram quatro anos que alinharam juntos, entre 1990 a 1994, e marcaram juntos 148 golos. Qual é que acha que era o segredo do vosso entendimento?

DP: Eu acho que foi o de conseguir conciliar determinadas características de ambos. A questão da velocidade, da mobilidade e da ocupação de espaços corretamente, nós complementávamo-nos. O Kostadinov ainda era mais rápido do que eu, eu tecnicamente era mais evoluído do que o Kostadinov, mas esse complemento é que fazia essa dupla realmente diferente e não haja dúvida que nós, além disso, tínhamos um bom entendimento fora de campo que também ajudava.

A dupla Domingos e Kostadinov (no canto inferior direito) marcou um número combinado de 148 golos
Fonte: FC Porto

BnR: Li umas declarações que ele fez em relação a si, em que ele dizia que você adorava chá, que o Domingos estava constantemente a gozar com a roupa dele e teceu rasgados elogios, dizendo que você foi o colega mais esperto com quem já jogou e o tipo mais inteligente que conheceu. Essa boa relação continua nos dias de hoje?

DP: (Risos) A relação era boa. Ainda a última vez que falamos foi no fim de ano, ele estava na Turquia e estava-me a pedir a opinião de uns sítios para ir jantar. Ainda hoje mantemos essa relação, mesmo as próprias famílias conviviam na altura, foram momentos bons.

BnR: Essa inteligência a que o Kostadinov se refere, considera que era uma das suas melhores caraterísticas, ou seja, essa inteligência emocional compensava o que podia faltar no físico?

DP: Acima de tudo, o que ele quer dizer, se calhar, era mesmo isso. Eu tinha que ter outro tipo de argumentos que pudessem fazer a diferença, porque em relação a aspetos físicos eu não era um jogador forte e era essa inteligência e entender do jogo que eu procurava explorar ao máximo.

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