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Quem viveu o futebol português no início da década de 2000, lembram-se de Fernando Aguiar. Um jogador robusto, aguerrido e crente em cada bola que disputava, “limpando” o meio-campo de Benfica, Beira-Mar ou União de Leiria como um segurança de discoteca “limpa”, de forma agressiva e fria, quem não lhe interessa que lá entre.
Isso era o jogador. A pessoa, nos dias de hoje, é completamente diferente. O RoboCop, alcunha à qual não faz cara feia – «até gosto de ser assim tratado», recebeu o Bola na Rede de forma tranquila e afável, e falou sobre a longa carreira… mas não só.
Houve tempo para falarmos, também, sobre o campeão nacional deste ano, a evolução do trinco e a recente polémica com Simão Sabrosa.
Foto de Capa: SJPF
Do “soccer” ao futebol
A infância de Fernando Aguiar, passada no Canadá, a jogar vários desportos – «era futebol americano, hóquei no gelo, basquetebol…» – permitiu-lhe criar a desenvoltura física que transportou para o “soccer” – «quando chegava o verão, era o prato do dia». Iniciou a sua carreira profissional no Canadá, ao serviço dos Toronto Blizzard, clube do qual se transferiu para Portugal, «por mão de Joe Berardo» – «estive um período à experiência no Marítimo, ofereceram-me um contrato de 5 anos, mas optei por regressar; depois estive no Belenenses, e acabei por ficar na Madeira».

Fonte: Alchetron
Ao serviço do Marítimo, não se afirmou – «hoje em dia há miúdos que chegam à Europa e querem-se afirmar na Primeira Liga, mas não jogam muito e foi o que aconteceu comigo, porque só joguei 7 jogos e tive de descer uma divisão para começar a afirmação». Um passo atrás para dar dois à frente. Fez 4 épocas na Segunda Liga. Duas no Nacional da Madeira, onde fez 42 jogos e outras duas ao serviço FC da Maia, onde registou 62 jogos e… 10 golos.
Aveiro
Da Maia rumou a Aveiro. O Beira-Mar, vencedor da Taça de Portugal na época anterior, estava atento e escolheu-o para apostar na subida. Nessa temporada, para além de conseguir esse objectivo, disputou uma Supertaça e ainda se estreou nas competições europeias (eliminado pelo Vitesse na Taça UEFA). No regresso à Primeira Liga, manteve a regularidade apresentada na temporada anterior e levou o Beira-Mar a um excelente 8º posto – «Aveiro tem um significado especial para mim, porque é uma excelente cidade e porque foram dois anos e meio excelentes, onde atingi o melhor nível na minha carreira e onde dei nas vistas».
Ainda passou mais meia época no clube aveirense, antes de ver concretizada a transferência para o Benfica. O Beira-Mar ficou para trás, mas não ficou, obviamente, esquecido. Em particular, um estádio em especial – «quando jogávamos no Mário Duarte, era diferente, tínhamos sempre muito público junto ao campo, que dava aquela sensação do futebol inglês. Fiquei um pouco triste ao ver o clube sair de lá, e tenho pena que tenha desaparecido [das competições profissionais] tão depressa».
A amargura das lesões
O Benfica interessou-se por ele, chegou à Luz… mas já lá vamos. Porque é um dossiê especial e tem honras de fecho desta peça pelo que representa para Fernando Aguiar. Depois da Luz, e com um empréstimo à União de Leiria e uma lesão pelo meio, surgiu o interesse do Landskrona, clube sueco – «fui para l]a com o menisco um pouco danificado, um bocado pesado, e um jogador como eu tem que estar bem fisicamente».

Fonte: Landskrona
Rescindiu, voltou a Portugal em, mas as coisas não melhoraram muito. Foi para Penafiel, onde esteve duas épocas. Na primeira desceu de divisão, nasegunda mudou de clube – «em duas épocas passei de 12º jogador mais utilizado do Benfica para passar a jogar na Segunda Liga. Foi uma passagem complicada porque a cabeça não estava muito bem, tinha tido as operações ao joelho e também estava a ganhar forma».
De seguida rumou ao Gondomar, onde passou quatro épocas antes de terminar a carreira, em 2008/09. Cinco anos depois, porém, ainda fez um perninha no Pedrouços – «não estava à espera de regressar, mas foi uma boa experiência».
O Benfica de Aguiar
No meio disto tudo, houve o Benfica – «sou uma pessoa relaxada, mas essa é uma paixão que tenho», embora achasse que « merecia passar mais tempo lá, porque quando um jogador é 12º jogador da época e teve um papel fundamental no desenrolar da época, merece ficar mais tempo».
Apanhou um bom balneário, gerido por um homem que o marcou, José Antonio Camacho – «fazia-nos trabalhar mais, dávamos tudo por ele. foi cinco estrelas como homem » -, de quem conta uma história curiosa – «na pré-época e nos estágios, havia sempre um barrilzinho de cerveja. Podíamos ir buscar uma cerveja, mas sem abusar, claro». Uma atitude que ajudou ao trabalho do grupo – «com essa confiança, as pessoas trabalham mais».

Fonte: vida-e-tempos.com
Dentro do balneário da Luz encontrou jogadores e momentos que o marcaram, como Tiago – «está no lote das pessoas com quem me dava mais. Eu, ele e o Ricardo Rocha estávamos sempre a almoçar e a jantar juntos», e acrescenta: «Enquanto pessoa… excelente! Enquanto jogador, também. Daí ter tido a carreira que teve e merece»… e a morte de Miki Féher. Num cenário tenebroso, marcado pela «noite escura, com chuva», viveu «o momento mais difícil da carreira. Isso mexe sempre connosco. Todos os anos, a 25 de Janeiro, lembro-me».
Fora do balneário, mas dentro de campo, apanhou adversários difíceis de marcar nos jogos grandes. Mas houve um mais difícil de marcar que os outros «não sei se foi pela fase, mas um que apanhei que foi muito dificil de marcar, e que por acaso nao teve muito sucesso em Portugal, mas esteve lá fora, foi o Diego, do FC Porto».
Benfica actual
Mágoas à parte, ficou contente com o título nacional conquistado pelos encarnados, embora admita alguma… sorte – «foi um justo campeão, mas teve alguma sorte porque o FC Porto não aproveitou os deslizes. Foi uma equipa que defendeu bem, mas não foi tão fluída como na época anterior, mas isso é normal porque perderam alguns jogadores».
Perderam alguns jogadores, sim, mas não todos. Um dos que ficou, foi Fejsa, de quem Fernando Aguiar fala com a legitimidade de ter jogado na posição do sérvio – «tem a sorte, que também faz parte, de ser campeão por onde passa. Só é pena ter predisposição para lesões, porque podia ter uma carreira muito mais recheada. O Benfica é grande, mas podia jogar naqueles clubes de outro patamar…aqueles que pagam mais (risos)».

Fonte: SL Benfica
Ainda sobre Fejsa – «não sei se é o melhor trinco do mundo, porque aquelas equipas que chegam a finais e meias finais da Champions não jogam com um trinco puro, mas é um dos melhores». Aproveitamos a deixa para perguntar sobre a evolução técnica de um trinco, que às vezes nos parece fazer confundir um 6 com um 8. Fernando Aguiar concorda – «como em todas as profissões e todas as posições, vamos evoluindo no tempo. A parte técnica evolui tambem. Os jogadores vão ficando mais aptos, mais fortes».
Mais apto e mais forte não vai ficar Fernando Aguiar na posição de trinco, abandonada, profissionalmente, há 8 anos – «é sempre muito complicado porque nunca esperamos que aquele dia chegue, ainda por cima antigamente, em que só pensávamos futebol…» – mas ficará, com certeza noutras áreas da sua vida, já que não pretende continuar ligado aos relvados, pelo menos enquanto treinador – «uma pessoa tem de saber olhar para o espelho. Eu olhei para o espelho e vi que ser treinador não é a minha àrea».
Uma clareza e um discernimento que terá ganho com o passar dos anos. Um equilíbrio que o leva a não guardar ressentimentos em relação a situações menos boas, como a que viveu recentemente, depois de Simão Sabrosa, antigo colega de equipa no SL Benfica, o ter colocado no pior onze com o qual partilhou balneário – «já está tudo bem».













