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Sob o coro de latidos como som de fundo, João Henriques entrou na arena das entrevistas do Bola na Rede desde o seu Ribatejo. Connosco recordou uma carreira de treinador que já conta com mais de vinte anos e que começou com um estágio no velhinho José de Alvalade. A alma ribatejana não o deixou cair perante as dificuldades e pela AF Santarém foi pegando o touro quase tantas vezes quanto os títulos que por lá conquistou. No Médio Oriente chocou com uma cultura diferente, em Fátima subiu aos céus da Segunda e junto ao mar de Matosinhos deixou Homens, aqueles que conheceu Bebés. Na capital do móvel não teve tempo para assentar a mobília, mas a devoção ao futebol levou o CD Santa Clara a estender-lhe a mão. Numa faena quase impossível, retribuiu com as duas melhores épocas na história dos açorianos. Por agora, aguarda com expetativa a chegada de uma proposta condizente com a sua qualidade, na certeza porém de que a oportunidade há-de surgir.

– A certeza de querer ser treinador e a dificuldade de o ser –

“Eu precisei de vinte anos para chegar aos campeonatos profissionais e há outros que precisam de dois dias”

Bola na Rede (BnR): Deixe-me começar esta entrevista com um agradecimento público, em nome do futebol português, por ter sido o treinador do único clube da Primeira Liga que aceitou abdicar das regalias de jogar na sua casa para o bem da saúde pública. Obrigado.

Quem era o João Henriques antes de ser treinador?

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João Henriques (JH): O João Henriques é treinador desde a altura da faculdade. No último ano do curso, já sentia esse apelo e já existia essa veia. Antes disso, era um jovem que queria ser jogador – e fui, mas a um nível amador – e que estava a tirar a licenciatura em Educação Física, mas sempre com o intuito de ser treinador de futebol.

BnR: Estreia-se nos bancos com apenas 23 anos, como treinador estagiário dos sub-19 do Sporting CP, e lidou de início com alguns futuros craques, casos de Marco Caneira ou Luís Boa Morte. Que memórias guarda desse ano?

JH: Essa primeira experiência estava inserida num trabalho de Metodologia do Treino, do quarto ano da faculdade, no qual tínhamos de fazer um estágio de duas semanas para, depois, escrever um relatório, mas acabei por ficar até ao final da época e assistir àquela equipa ser campeã nacional de sub-19. Foi o primeiro trabalho com jogadores de seleção, de muita qualidade, e foi, também, o entender uma realidade completamente diferente daquela que eu tinha vivido há pouco tempo como jogador. A diferença do Sporting – e dos clubes grandes – para os demais era muito grande, sobretudo na metodologia e nas condições de treino. Naquela fase, ter estado no Sporting Clube de Portugal foi muito gratificante e o bichinho começou exatamente ali, ao ver aquela qualidade toda e, ainda por cima, a equipa sagrar-se campeã nacional. Mas também foram tempos difíceis, em que andava, com o meu carro, atrás do autocarro do Sporting, porque não era permitido ao estagiário ir junto da equipa. O próprio trabalho, em termos estatísticos, ainda era feito à mão: filmava os jogos e depois fazia aquela recolha muito rudimentar dos dados; para bem de todos nós, as condições de trabalho evoluíram depressa e bem. A forma de estar e de lidar com os jogadores foi outro dos ensinamentos que retirei: alguns já com determinado ego porque eram jogadores de seleção e para os quais, estar ali, já era muito fácil. O campeonato era reduzido e apenas na última fase havia mais competitividade e rivalidade. A minha maior memória é precisamente essa: o perceber aqueles egos de jovens que, com aquela idade, já muito grandes.

BnR: Nunca quis ter outra profissão?

JH: Não. Eu fui para a Faculdade de Motricidade Humana com o objetivo de ser treinador, não obstante gostar da área da Educação Física, mas o meu objetivo não passava por ser professor durante muito tempo. Era mais uma forma de ter uma rede para poder andar no trapézio à vontade e, quando tivesse de cair, estava salvaguardo pelo trabalho de base.

João Henriques começou como treinador estagiário no Sporting CP e demorou anos até chegar aos campeonatos profissionais em Portugal, com o CD Fátima.
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

BnR: A mudança para Lisboa foi pacífica?

JH: Sim, tranquilo. Sempre me adaptei muito bem às mudanças todas. Fui muito habituado pelos meus pais, desde novo, a viajar bastante e estar em vários sítios, e isso permitiu-me chegar a Lisboa e adaptar-me facilmente à realidade da cidade.

BnR: O que o fez voltar para Tomar?

JH: No fundo, foram as colocações: era mais fácil ser colocado em Tomar, na área de Educação Física, e assim foi. No ano de estágio da licenciatura fiquei em Lisboa, mais concretamente em Cascais, e fui treinar o Atlético Clube de Portugal, onde tive a minha primeira experiência a solo como treinador. A partir do momento em que as pessoas de Tomar souberam que voltei licenciado e com experiência de treino – e como tinha sido atleta do clube há pouco tempo – acabei por começar a treinar os sub-13 do União de Tomar.

BnR: Por lá ficou até emigrar, tendo passado por diversos níveis e clubes da AF de Santarém. De que modo rentabiliza, atualmente, esta vivência nas divisões amadoras do futebol português?

JH: Em termos de base experimental, no campo, para fazer muitos testes e para continuar a crescer, foi extraordinário. Passar por vários escalões de formação, passar para adjunto de futebol sénior, depois ter essas experiências de subidas de divisão, de vencer taças e supertaças do Ribatejo, ser campeão distrital (…), a minha ambição sempre foi vencer. Por isso é que deixei de jogar cedo: percebi que ia ser apenas mais um nesses campeonatos das terceiras e segundas divisões nacionais e que nunca chegaria à Primeira Liga. Se houve algo que sempre soube ver foi a qualidade. Seria um jogador como a maioria e isso sabia-me a pouco. Fui sempre muito habituado a ganhar, até como jogador do União de Tomar na formação: campeão distrital, campeonatos nacionais e, depois, uma experiência pelo futebol de salão, com uma subida à primeira divisão nacional. Como treinador, senti que podia ser muito mais do que aquilo que fui como jogador. O trajeto foi este. A primeira experiência no Sporting foi ver os outros a trabalhar e serem campeões nacionais; no Atlético as coisas também me correram muito bem e, quando volto ao União de Tomar, sou convidado pela equipa técnica dos seniores para integrar a equipa como adjunto, acumulando com os sub-13, e a equipa A sobe do campeonato distrital à terceira divisão e é campeã distrital – mais um título. Tudo isto foi alimentando o que mais queria e mais desejava, que era continuar a aprender, a evoluir; passei por balneários completamente diferentes, paguei para treinar, investi na minha formação para depois ter este know-how. Houve clubes muito difíceis, sem material, sem adjuntos, sem condições, com os jogadores a chegar em cima da hora do treino vindos do trabalho, muito cansados; havia jogadores profissionais, semiprofissionais, vindos do estrangeiro à procura de um sonho, os que apenas se querem divertir e nós temos de apoiá-los a todos. Tudo isto serve-nos para olharmos para trás e saber de onde vimos. Acho que isto é muito importante: saber de onde vimos para chegar onde queremos.

Quando chegou ao CD Santa Clara, João Henriques já tinha tido uma breve experiência na Primeira Liga ao serviço do FC Paços de Ferreira.
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

BnR: Se o nome João Henriques tivesse associado um passado como jogador, teria tido mais facilidades?

JH: Não tenho dúvidas nenhumas. Houve uma altura em que, pelo sucesso que teve José Mourinho, foi aberto um pouco de espaço a treinadores vindos da formação académica e da parte teórica, mas senti sempre grandes dificuldades. A resposta era sempre a mesma: não tens experiência. E atualmente vemos treinadores sem experiência absolutamente nenhuma a terem oportunidades que eu ainda não as tive. O ex-jogador tem a porta logo aberta porque há o reconhecimento de que esteve muitos anos num balneário, logo vai ser bom treinador. Continuo a dizer: independentemente de onde vem, o treinador pode ou não ter competência. Um treinador vai-se moldando: há coisas que são inatas, há outras em que é preciso conhecimento. Eu precisei de vinte anos para chegar aos campeonatos profissionais e há outros que precisam de dois dias.

BnR: De que forma a costela ribatejana se manifesta na sua personalidade?

JH: Acima de tudo, a coragem de enfrentar as coisas de frente. Aqui, no Ribatejo, diz-se que pegamos os touros pelos cornos e é assim que encaro as coisas: sem medo e com muita coragem. Enfrentar as dificuldades com um sorriso nos lábios e com muita confiança. Costumo dizer aos jogadores: vamos sorrir para a adversidade e é isso que nos faz persistir e sermos abnegados à procura daquilo que queremos. Foi isso que me manteve vivo na procura do meu sonho, porque houve alturas muito difíceis que me deram vontade de desistir. Tentamos, tentamos, e voltamos a levar negas – apesar de até haver gente que reconhece que as coisas foram bem feitas, mas parece que nunca chega para ter uma oportunidade. Foi preciso esta alma ribatejana para continuar à procura daquilo que queria e que acabei por conquistar.

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