
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
17 jogos! 17 derrotas! 10 golos marcados! 89 golos sofridos!
O sol que não brilha em Parchal, Lagoa.
Percorremos Portugal de lés-a-lés. Encontrámos neste imenso e apaixonante país à beira-mar plantado quatro realidades distintas e ao mesmo tempo semelhantes.
Após a ida a Penafiel (ver texto aqui), fomos descendo pelo nosso Portugal até ao próximo destino. Uma viagem longa mas que se fez com um sorriso nos lábios e uma incessante busca por esta realidade do Futebol Português que a cada quilómetro nos apaixona mais.
A segunda paragem foi assim na região algarvia. Aqui estamos nós: bem-vindos ao Parchal, localidade do concelho de Lagoa, onde habitam cerca de 4000 pessoas e também a ASSOCIAÇÃO RECREATIVA DESPORTIVA E CULTURAL MENTES DO DESPORTO.
Nascida em 21/12/2015, estando na sua segunda época de futebol sénior, militando na Segunda Divisão da Associação Futebol do Algarve, a ARDC Mentes do Desporto, e mesmo apesar da sua localizada privilegiada, ainda não sabe esta época o que é vislumbrar a luz do sol, e nem mesmo o nascer desse mesmo sol se consegue mirar no horizonte. Talvez porque todos os dias tenham sido dias de Inverno, de um Inverno rigoroso, tal como é o dia de hoje, onde o sol se esconde e o vento nos quebra.
O que há a dizer deste clube que completou há pouco dois anos? Muito mais do que possam pensar. Talvez tanto que não conseguiremos explanar o suficiente por estas palavras.
Não foi fácil chegar à realidade deste clube. Não foi fácil ouvi-lo. E mesmo ouvindo-o, ou ouvindo parte dele, tivemos de o fazer atentamente, tal como quando ouvimos uma criança de dois anos que fala mas que nem sempre se entende à primeira o que quer dizer.

Fonte: algarveinformativo.blogspot.pt
As dores do nascimento.
A verdade é que após uma primeira época de futebol sénior – época 2016/2017, em que as coisas até não correram mal para um recém-nascido – Décimo-quarto lugar entre 17 equipas, cinco vitórias e seis empates em 30 jogos, a segunda época tem sido um desastre: 17 jogos, 17 derrotas, 10 golos marcados e 89 sofridos.
Não conseguimos obter respostas de alguém da direcção ou de algum membro do actual do plantel, mas obtivemos o testemunho na primeira pessoa de quem acompanhou o início deste segundo ano do Clube. Luís Ralha é o seu nome.
Luís Ralha foi entre Julho e Novembro de 2017, o Presidente da Direcção da ARDC Mentes do Desporto. Com 48 anos, funcionário público/militar desde 1991, jogou futebol e futsal nas distritais do Algarve, autodenomina-se como “uma pessoa trabalhadora, honesta, humilde e de fácil trato”. Mas, no final de contas, sente-se, de certa forma, enganado e magoado.
Luís Ralha declara que aquando da sua chegada ao clube “a finalidade seria dar a conhecer a ARDC MD, dar-lhe visibilidade, fazendo assim crescer a Associação”. No entanto as dificuldades do Clube foram sentidas logo à nascença. Apesar do apoio da Junta de Freguesia, da União de Freguesias Estômbar/Parchal e também da Câmara Municipal de Lagoa ao facultar o Complexo Desportivo de Estômbar para treinos e o Estádio Municipal da Bela Vista, em Parchal (com instalações fantásticas para um clube da Segunda Divisão Distrital) para treinos e jogos oficiais, a verdade é que não houve grande receptividade da população.
Mas como se explica que um clube de Futebol com instalações desta qualidade ao seu dispor e que cria no imediato uma equipa de futebol sénior, não consiga captar a atenção generalizada da população e até mesmo o seu entusiasmo? A resposta dá-a o Ex-Presidente. “No concelho de Lagoa existem mais de 30 colectividades, sendo algumas delas históricas, mesmo não tendo nas suas actividades o futebol sénior. São colectividades uma delas com 30 anos, outra com mais de dez, e o carinho das pessoas está virados para associações como estas, tornando-se difícil assediar essas pessoas para novas colectividades como a ARDC Mentes do Desporto.” Mas mais que isto. Segundo o Ex-Presidente, também algumas das pessoas que estavam e estão à frente desta “pequena criança” são personalidades que não ajudam a que se crie esse carinho e esse sentimento de unidade. Mas disso falaremos adiante.
O pior pecúlio de todo o futebol português!
Mas foi só esta falta de apoio que levou a que, semana após semana, o Clube naufraga-se nas águas algarvias? Não! Claro que não!
“As dificuldades foram várias, nomeadamente a nível da constituição da equipa para a presente época 2017/2018. Houve falta de jogadores portugueses. Os que apareciam eram sobretudo brasileiros e africanos, mas estes por sua vez tinham a dificuldade de apresentar a necessária documentação, para além das inscrições destes jogadores serem mais caras se já tivessem jogado no país de origem ou noutro”, esclarece o Ex-Presidente.
Mas há mais para contar, conforme nos dá a conhecer Luís Ralha: “Andámos em conversações com um grupo com capitais portugueses e angolanos, interessado num contrato de gestão desportiva com a ARDC MD, em Julho e Agosto, mas não chegámos a acordo, e o planeamento começou um pouco mais tarde”.
E prossegue: “O grupo interessado na gestão desportiva deu origem ao que é neste momento os “Unidos de Portimão, Futebol SAD”. Facultava-se o nome e o emblema da colectividade e tratávamos da parte dos campos com a Câmara Municipal. O contrato seria sem terminus. Depois, se o quebrássemos, teríamos de os indemnizar. Se fossem eles a quebrar o contrato não haveria direito a qualquer ressarcimento para a ARDC MD. A vantagem para a Associação seria que, ao ser criada a SAD, um elemento da direcção iria fazer parte da administração do elenco da mesma, e 10% (salvo erro) das acções da SAD seriam para a ARDC MD.”
Assim sendo, foi um início de época em tudo complicado e “adiado” pela ARDC MD. Mas ainda há mais. “A escolha dos jogadores foi-se arrastando. A finalidade era ter um plantel de 22 ou 23 jogadores, o qual foi delineado pelo treinador. Duma maneira geral, o lote maior dos jogadores que foram inscritos, foram escolha do treinador”, confirma-nos o Ex-Presidente. Mas essas escolhas também não terão sido as mais acertadas conformo nos elucida Luís Ralha: “O plantel, na sua generalidade, era fraco. Havia (há) jogadores de qualidade muito duvidosa mesmo para o nível distrital. Para além disso havia falta de maturidade de outros jogadores”. Assim, o Presidente da Direcção haveria de despedir o treinador já no decorrer da temporada futebolística, defendendo que o mesmo era “uma excelente pessoa, mas com falta de pulso”.
E depois “a motivação não era grande, não existindo qualquer incentivo monetário aos jogadores” explica Luís Ralha, que a dada altura pensou nessa possibilidade. Para além dos lanches após os jogos e de alguns esporádicos jantares pagos do seu bolso, o Ex-Presidente estava disponível para, em alguns momentos, incentivar monetariamente e do seu próprio bolso os jogadores. No entanto com a sua saída, em Novembro do ano passado, a intenção acabou por não vingar.

Fonte: AF Algarve
O futuro pouco sorridente.
Luís Ralha bate com a porta. E pior que a sua saída são as razões que apresenta e o futuro que antevê para a ARDC MD. Mesmo não sendo totalmente explícito, o Ex-Presidente afirma de forma categórica que “não foram estes resultados que levaram à minha tomada de posição, mas sim a falta de honestidade e urbanidade de alguns membros do Clube.” E continua: “Vou dar-lhe um exemplo: tínhamos um guarda redes que jogou alguns jogos na época passada na ARDC MD. Disse-lhe lhe frontalmente que não o inscrevia este ano, quando me questionou no fim de um treino em pleno balneário. No entanto, por volta da sexta ou sétima jornada da presente temporada, é inscrito à revelia da minha pessoa”.
Com todos estes episódios, Luís Ralha sai da Associação com a sensação que o futuro não será risonho. Segundo o próprio há “uma equipa com pouca qualidade, uma associação sem sócios, não existindo vontade do elenco directivo de os angariar, talvez porque assim seja mais fácil tomar as decisões que bem entenderem sem ter que as justificar. Existe também pouco desejo de criar novas actividades e pouca receptividade a opiniões, prevalecendo um só rumo.” Tudo isto levou a que Luís Ralha não tenha conseguido liderar este projecto como desejava e veja nas pessoas que estão à frente do mesmo a incapacidade para fazer deste clube um clube capaz de deixar a sua marca.
E assim terminámos a nossa segunda viagem, cientes que cada clube tem a sua realidade e que só indo ao coração dos mesmos se consegue entender essas mesmas realidades. Cientes que até o clube com os piores resultados de todo o futebol português merece a atenção de todos aqueles que vivem e respiram futebol.
Foto de capa: algarvedesporto.pt














