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As grandes competições são o palco das grandes estrelas, das grandes histórias e das grandes surpresas. Onde brilha quem chega mais longe, mas também quem, pelas várias razões, ficou para trás nas primeiras fases do Mundial.
A fase de grupos é, por excelência, o local das grandes histórias. Seleções teoricamente inferiores que se batem com as maiores potências mundiais, jogadores mais desconhecidos que brilham à frente de todas as câmaras e minutos mágicos. Este ano não foi exceção e a mudança no critério de desempate beneficiou o espetáculo e as surpresas que ficarão para sempre nas nossas memórias.
Este é assim um onze alternativo do torneio. Alternativo porque só reúne jogadores eliminados ou na fase de grupos ou nos oitavos de final e que, mesmo assim, se destacaram. E alternativo porque tenta fugir às crónicas candidatas que caíram cedo, como a Alemanha – Musiala foi mesmo um dos melhores jogadores do Mundial – e a Espanha – Gavi e Pedri são jogadores para marcar uma geração.
Um jogador por posição, um jogador no máximo por país. Este é um onze alternativo do Campeonato do Mundo 2022.
Wojciech Szczesny (Polónia)
O Mundial da Polónia foi dececionante e, curiosamente, o único bom jogo dos polacos ditou a sua eliminação. Szczesny foi o obreiro que permitiu a chegada aos oitavos e, na fase de grupos, foi certamente o melhor guarda-redes no torneio. Quatro defesas que seguraram o empate contra o México, cinco que garantiram a vitória frente à Arábia Saudita (incluindo uma grande penalidade defendida), nove contra a Argentina, num jogo onde além de defender uma grande penalidade foi fundamental para garantir o apuramento com base no saldo de golos, e mais cinco defesas contra a França, insuficientes ainda assim para garantir a continuidade em prova. Numa seleção algo desligada da prova, salvou a Polónia de um vexame.
Pervis Estupiñan (Equador)
É uma locomotiva no corredor esquerdo. O modelo de jogo equatoriano dá protagonismo aos laterais, tanto ofensivamente, com muito espaço para explorar partindo de trás, como defensivamente com encaixes nos laterais ou nos alas, deixando campo aberto ao adversário. Neste contexto, Estupiñán destacou-se. Não sendo um jogador muito técnico em pouco espaço, tem características que lhe permitem sobressair quando com espaço. Veloz e com facilidade em se projetar e em ganhar na velocidade e no físico foi o dono do corredor esquerdo. Defensivamente, apesar de algumas falhas no posicionamento e leitura das situações do jogo, compensa com a capacidade de recuperar metros em corrida.
Kalidou Koulibaly (Senegal)
Por alguma razão Koulibaly continua a ser excluído de muitas listas dos melhores centrais do mundo. Foi a referência defensiva de uma seleção senegalesa que, embora privada da maior estrela, arranjou espaço para brilhar à sua maneira. Solidária em campo, competitiva e conseguindo criar problemas sempre que adiou os golos dos adversários, como na estreia contra os Países Baixos e no jogo em que foi eliminada pela brutal qualidade individual dos elementos mais ofensivos de Inglaterra. Num contexto em que Senegal passou inevitavelmente mais tempo a defender que a atacar, Koulibaly foi a referência defensiva, ganhando duelos no ar e no solo, recuperando bolas e liderando uma equipa que precisava do seu perfil dentro de campo. Os erros nos golos ingleses, embora atenuem a qualidade da sua avaliação, não apagam a boa prestação do Senegal, num ano de ouro para os Leões de Teranga.
Harry Souttar (Austrália)
Um Mundial não será Mundial se a Austrália não tiver um defesa central em destaque. Sainsbury em 2018, Souttar em 2022. O genro do treinador não foi convocado após lesão, mas Souttar tratou de fazer esquecer o compatriota. Curiosamente, ambos foram destaque muito pela qualidade de passe. A Austrália, sem grandes armas individuais, apostou num jogo muito direto onde Souttar assumiu protagonismo, através do passe longo. Quer variando o corredor da bola, quer procurando Duke, referência ofensiva pela capacidade de ganhar bolas de cabeça, a Austrália conseguiu chegar à frente. Defensivamente não sendo o jogador mais exuberante fez várias exibições muito sólidas, com particular destaque nos duelos aéreos. Com apenas 24 anos joga no Championship e pode dar o salto.
Ritsu Doan (Japão)
É um extremo esquerdino que joga à direita e que, com Ito, formou uma dupla muito interessante no corredor direito. A maior prova de qualidade foi ter começado os jogos contra Alemanha e Espanha a partir do banco, jogos em que o plano mais conservador de Moryiasu acabou por dar certo. É um desequilibrador nato, com capacidade para receber e partir para dentro (beneficiando da projeção de Ito). Numa altura em que as formações com três centrais estão em voga, ter um jogador com a capacidade de receber aberto e desequilibrar de fora para dentro, é um recurso importante. Marcou o golo do empate contra a Alemanha e aproveitou o Mundial para se mostrar.
Tyler Adams (Estados Unidos da América)
À semelhança de praticamente todos os jogadores convocados, Tyler Adams é o presente e o futuro dos norte-americanos. Foi, a par de Musah – outro dos talentos do meio-campo –, o jogador que mais se destacou pela seleção que tem um projeto claramente pensado para brilhar em casa, em 2026. É um motor no meio-campo, com grande abrangência de área coberta, com capacidade no desarme e inteligência no posicionamento, roubando bolas e parando transições. Com bola não é o mais qualificado, mas cumpre. Beneficia do contexto no clube para se destacar na seleção. Os EUA não foram além graças às debilidades no setor defensivo que Tyler Adams foi escondendo tanto quanto pode.
Aissa Laidouni (Tunísia)
Aos dois minutos da estreia da Tunísia contra a Dinamarca, Laidouni celebrou um corte como se de um golo se tratasse. As bancadas recheadas de tunisinos entraram em êxtase, e em ebulição ajudaram a Tunísia a empatar o primeiro jogo. Embora eliminada na fase de grupos ainda fez uma gracinha contra a França das segundas linhas e muito da capacidade competitiva se deve ao meio-campo. Skhiri e Laidouni encheram o campo, garantindo capacidade para sair – usando o passe curto e o passe longo – e segurando atrás, cobrindo uma grande área de campo. As exibições de Laidouni foram superlativas, mostrando argumentos no desarme e na antecipação. Por agora ainda joga na Hungria, mas ainda vai a tempo de jogar numa das Big-5.
Hwang In-beom (Coreia do Sul)
Se Adams e Laidouni se destacam pela capacidade de preencher o campo no momento sem bola, parando transições e permitindo à equipa sentir-se mais confortável em organização defensiva, Hwang In-beom é um médio diferente. Muito mais refinado tecnicamente que os companheiros de posição, organiza a saída de bola coreana, garantindo calma e gerindo os tempos de jogo. Joga por dentro, assumindo riscos no passe interior, ou por fora, procurando passes longos para os corredores e brilha cada vez que pega na bola. Num futebol asiático muito técnico por definição, destaca-se dos demais pela qualidade com que joga e faz jogar. Tem na seleção o protagonismo que nunca teve pelos clubes (andou muito tempo perdido na Rússia e está agora na Grécia). Ainda vai a tempo de o ter.
Mohammed Kudus (Gana)
O Gana vive a reta final da transição de gerações. Da seleção mágica de 2010, atormentada por Suárez e pelo fantasma do penalti falhado, só restou Andre Ayew – ligado à eliminação ganesa em 2022, novamente contra o Uruguai e com o fantasma do penalti falhado a repetir-se. Novos nomes assumem o protagonismo, mas nenhum com o impacto de Kudus. É produto do trabalho conjunto do Nordsjaelland com o futebol de formação africano – ganês em particular – que tem revelado talentos. Joga em qualquer posição do meio-campo para a frente fruto da qualidade técnica. É o elemento mais diferenciado do Gana pela capacidade de condução em velocidade e pela facilidade com que ultrapassa adversários e procura o remate. Com apenas 22 anos tem potencial para ser um dos grandes jogadores da próxima década.
Breel Embolo (Suíça)
Uma das imagens do Mundial é a (ausência de) celebração de Embolo no golo marcado aos Camarões. Foi bonita a demonstração de respeito pelo país onde nasceu, num mundo cada vez mais globalizado. Dentro de campo está longe de ser o patinho feio que muitos preconizam. Contribui em apoio, recebendo e tocando de frente ou rodando sobre o adversário, mas também na profundidade, atacando as costas da defesa em diagonais difíceis de travar. Marcou dois golos nas vitórias da Suíça contra Camarões e Sérvia, sendo um dos nomes chave no apuramento suíço. Continua a ser algo subvalorizado, mas bem a tempo de cumprir com todas as expectativas.
Vincent Aboubakar (Camarões)
Se é verdade que o Mundial permite descobrir novos jogadores, também permite reencontros com talentos “perdidos” em ligas mais alternativas. Depois de brilhar em Portugal ao serviço do Porto, encontrou na Arábia Saudita o novo espaço para brilhar. Tem na seleção um palco maior – e bem mais ao seu nível – do que na liga nacional. Se há palavra que define Aboubakar é ousadia. Vai contra as regras do bom senso e contra a banalidade do fácil e do normal, e é destaque por isso. Para a história ficam o golaço de chapéu no empate de loucos contra a Sérvia e a expulsão contra o Brasil depois de tirar a camisola ao celebrar o golo. As polémicas afirmações e a confiança são marcas do avançado de quem se pode esperar tudo menos passar despercebido. Num futebol cada vez mais robotizado fazem falta jogadores como Aboubakar.












