Uma nova novela africana | Senegal 1-0 Marrocos

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Em Rabat, no Prince Moulay Abdellah, os adeptos de Marrocos iam fazendo a festa e pintando as bancadas de vermelho, esperando quebrar um enguiço que dura desde 1976. No sentido contrário, os adeptos do Senegal, a jogarem a mais de 2500 km do próprio país, não se inibiam de dançar, cantar e fazer barulho, numa forma de demonstrar apoio aos seus jogadores para, consequentemente, repetirem o feito conseguido em 2021. No prolongamento, depois de tanta polémica, Pape Gueye gelou o estádio e levou o Senegal a conquistar a segunda Taça das Nações Africanas (CAN) da história do país.

Depois de ambas as seleções terem feito um torneio praticamente perfeito, chegava o dia de uma destas nações se tornar a maior do continente africano. Marrocos, jogando em casa e tendo evoluído muito nos últimos anos, partia para este jogo como favorito. O Senegal, porém, para além de ter feito uma CAN praticamente irrepreensível, não podia ser menosprezado. Não só a qualidade individual é muita, como, duas edições antes, havia celebrado a vitória desta mesma competição.

Partindo de um 4-3-3, as duas seleções, desde cedo, pretendiam pegar no jogo, reconhecendo, todavia, as qualidades do adversário, resguardando-se quando necessário. Reflexo da evolução do futebol africano, bem como da presença de tantos jogadores nas principais ligas europeias, o jogo ficou marcado pela forte componente tática. Como tal, entre tentativas de desencaixar da marcação, nomeadamente através da lateralização de um dos médios senegaleses ou da transformação de um 4-3-3 tradicional num losango a meio-campo, com a centralização de Brahim Díaz e consequente criação de uma vantagem numérica para o lado de Marrocos, eram as bolas paradas e transições ofensivas rápidas os momentos do jogo que estavam na origem das maiores oportunidades de golo. Logo nos primeiros quatro minutos de jogo, Pape Gueye demonstrava uma enorme vontade em fazer abanar as redes da baliza de Bono. Após pontapé de canto, o jogador do Villarreal apareceu ao segundo poste, mas o guarda-redes marroquino defendeu esta primeira tentativa de golo. Posteriormente, para o lado da seleção da casa, Saibari ia expondo Idrissa Gana Gueye a algumas perdas de bola na primeira fase de construção, sendo o primeiro elemento da sua equipa a saltar na pressão e, em duas ocasiões, esteve perto de inaugurar o marcador, recuperando a bola e correndo rapidamente em direção à baliza de Édouard Mendy.

O trabalho de casa das duas equipas técnicas estava à vista. Muitas vezes, Marrocos fazia El Kaabi baixar, Saibari atacar a última linha defensiva, e, posteriormente, o avançado do Olympiakos juntava-se novamente ao ataque, criando-se uma situação de igualdade numérica com a última linha senegalesa. O papel defensivo de Sadio Mané foi fundamental para que a equipa não caísse nesse engodo, baixando para uma linha de cinco, quando era preciso. O dinamismo e a batalha tática eram um constante. Nicolas Jackson, por exemplo, caía muitas vezes para as faixas, dando espaço a diagonais de Ndiaye ou de Mané. Mais uma vez, esses movimentos eram prontamente identificados, não permitindo criar vantagens significativas. No lado senegalês, havia alterações na saída de bola e construção, começando num 4-3-3, mas mutando-se num 3-2-5, muito pela versatilidade dos vários jogadores. O duplo-pivô, constituído por Pape e Gana Gueye, era essencial para a criação de espaços. Contudo, nenhuma oportunidade de perigo se originava através de ataque organizado.


Ao 37.º minuto, por Ndiaye, o Senegal voltou a ter uma oportunidade clara de golo…mais uma vez parada por um intransponível Bono. Nesse lance, Marrocos procurou reagir rapidamente à perda da bola, movendo os jogadores para o lado onde o esférico se encontrava, o extremo do Everton manteve-se aberto e Jackson encontrou-o. No segundo tempo, a toada do jogo manteve-se. Marrocos continuou a dar maior protagonismo à sua ala esquerda, em momento ofensivo, procurando ganhar vantagem através da capacidade de Abde Ezzalzouli no um contra um e respetivo apoio de Saibari. O Senegal ia efetuando trocas posicionais, entre o interior direito e Ndiaye ou entre os três homens da frente.

Aos 57 minutos surge a grande oportunidade de golo de Marrocos. El Khanouss lateralizou, recebendo uma bola de Hakimi, e, de forma exímia, encontrou o ponta-de-lança, que não conseguiu enquadrar o remate com a baliza de Mendy. Tirando essa oportunidade, até ao tempo de descontos não houve ocasiões flagrantes. As equipas iam-se adaptando uma à outra, numa batalha estratégica intensa, tendo o Senegal, inclusivamente, montado uma linha de cinco no momento sem bola, o que permitiu à equipa ter maior controlo dos movimentos de rotura dos médios contrários e haver uma cobertura mais próxima de Ismaila Sarr, que defendia o extremo esquerdo marroquinho. No momento com bola, a construção a três e a largura dada por Sarr e Diouf contribuiu para o crescimento do Senegal no jogo. Aos 89 minutos, Mbaye colocou, mais uma vez, Bono à prova.

Pouco depois, estalou a polémica que marcou este encontro. Com o relógio a fixar o 92.º minuto, após pontapé de canto, Seck cabeceou ao poste e Ismaila Sarr, na recarga, encostou para o fundo das redes. Ainda assim, o árbitro havia assinalado falta do número quatro senegalês nesse lance, apitando-a prontamente e impedindo que o golo anulado a Sarr fosse reavaliado pelo VAR. Três minutos depois, Diouf cometeu uma falta infantil sobre Brahim Díaz. O juiz da partida foi chamado pelo vídeo-árbitro e a comitiva senegalesa rapidamente o cercou quando o mesmo foi rever o lance. Indignados pelo facto de Jean-Jacques Ndalalhes ter anulado um golo sem sequer ter permitido ao VAR intervir, os Leões da Teranga não aceitavam o facto de, aos 95 minutos de jogo, poderem estar em vias de perder a final da Taça das Nações Africanas. Pape Thiaw, selecionador do Senegal, ordenou aos jogadores abandonarem o campo. Pouco depois, contrariando as ordens do próprio treinador – que admitiu estar arrependido pela ação tomada -, o antigo astro do Liverpool Sadio Mané foi chamar os colegas de equipa. Ao mesmo tempo, adeptos senegaleses mostravam-se incrédulos e enraivecidos pelas decisões da equipa de arbitragem, abandonando as bancadas em direção ao campo e arremessando cadeiras contra os seguranças presentes no estádio.

Se o drama não era suficiente, Brahim Díaz, que recebeu o prémio de melhor marcador e foi uma das figuras do torneio, acabou por falhar a grande penalidade…ao tentar converter um penálti à panenka, que acabou por ser defendido por Mendy, antigo campeão europeu de clubes pelo Chelsea. Com o 0-0 explícito no marcador do jogo, a decisão final seguia para prolongamento.

Com as pernas a pesarem e depois do falhanço escandaloso de Brahim, o Senegal voltava a ter esperança. Como tal, mal se iniciou o prolongamento, surgia o golo do título senegalês, que teve origem num desdobramento ofensivo rápido. Após perda de bola de El Ayanoui, Mané temporizou, atrasou a bola para Gana Gueye, que, de seguida, encontrou Pape Gueye. Se já havia ameaçado a baliza noutras ocasiões, agora o remate não dava hipóteses ao guarda-redes marroquino do Al-Hilal. Estava feito o 1-0 e o resultado não se alteraria mais. Marrocos foi procurando correr contra o tempo, mas a baliza adversária mantinha-se fechada. Aliás, a outra grande oportunidade deste período de desempate esteve mesmo nos pés de Cheriff Ndiaye. Aos 110 minutos, o jogador que entrou para substituir Nicolas Jackson teve tudo para fazer o 2-0, mas Bono contrariava tudo o que estava ao seu alcance.

Após o apito final, era visível a alegria dos jogadores senegaleses. Ao mesmo tempo, um inconsolável Brahim Díaz não conseguia conter as lágrimas. Marrocos, de forma irónica pelo que foi fazendo ao longo do jogo, recebeu o prémio fairplay. Nas redes sociais, têm surgido vídeo insólitos que demonstram a falta de ética desportiva dos atletas marroquinos. Ao longo de todo o encontro, jogadores de Marrocos tentavam impedir que o guarda-redes suplente senegalês entregasse a toalha que Mendy utilizava para secar as luvas. Em determinadas ocasiões os jogadores marroquinos chegavam mesmo a atirá-la para trás dos painéis publicitários.

Os vários acontecimentos, que em nada tiveram que ver com a estratégia e talento de uma e outra seleção, farão esta final tornar-se memorável na história do futebol. Alguns deles não valorizam o desporto, é certo, mas realçam a competitividade e importância desta competição para os povos africanos. A CAN 2025 teve um papel importantíssimo na promoção do futebol africano. Nota-se uma evolução tremenda no que concerne a conceitos táticos e à qualidade técnica. Esta é uma competição apaixonante, em que o futebol é vivido de forma pura, mas o eurocentrismo nem sempre nos permite sair da barreira socialmente imposta. Isso é transposto para o futebol e para o desporto no geral.

Certamente, tal como tem vindo a acontecer de edição para edição, a próxima CAN será ainda mais eletrizante, bem jogada, competitiva e entusiasmante. Ao mesmo tempo, deseja-se que os valores desportivos não esmoreçam. É fundamental que a CAF tome medidas que visem punir situações que, infelizmente, descredibilizam um torneio tão simbólico.

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