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“Tradition kann man nicht kaufen” (a tradição não se pode comprar) lia-se numa das dezenas de tarjas espalhadas pelas bancadas do DDV-Stadion em Dresden, que Sábado à tarde acolheu o escaldante encontro entre o SG Dynamo Dresden e o RB Leipzig, recém promovido à Bundesliga, a contar para a primeira ronda do DFB Pokal (Taça da Alemanha).
O futebol vive-se com intensidade e paixão em Dresden, mas o encontro de Sábado era muito mais do que um simples jogo de futebol entre clubes oriundos de duas cidades da antiga RDA. Fundado em 2009, fruto da compra de um clube dos escalões inferiores do futebol alemão, de seu nome SSV Markranstädt, o RB Leipzig tem como suporte a máquina financeira da conhecida bebida energética Red Bull GmbH, que tinha por objectivo, aquando da criação do clube, uma subida rápida ao escalão maior do futebol alemão, algo que se veio a realizar no final da temporada passada, quando o RasenBallsport Leipzig terminou a sua campanha na 2.Bundesliga no segundo lugar da classificação geral, cinco pontos atrás do campeão SC Freiburg. Esta ascensão meteórica e os milhões que a possibilitaram criaram muitas inimizades no bem estruturado futebol alemão e não escaparam também à crítica do público em geral.

Fonte: SG Dynamo Dresden
O SG Dynamo Dresden, os seus representantes, adeptos e jogadores fazem, também eles, parte dessa massa critica do fantasma financeiro que representa o RB Leipzig e, aquando da promoção do jogo do passado Sábado no seu website, fizeram questão de não colocar nem o emblema nem o nome da equipa forasteira, marcando apenas no calendário a data da partida com o emblema do Dynamo ao lado de uma bola de futebol dentro de um escudo. O Director Desportivo e antigo jogador da formação de Dresden, Ralf Minge, foi peremptório ao afirmar que o encontro frente ao RB Leipzig não poderia ser visto como um dérbi, uma vez que segundo ele, para que haja um dérbi, é necessário algo mais do que proximidade geográfica, deixando assim no ar, que o verdadeiro dérbi aconteceria caso o Dynamo enfrentasse o 1. FC Lokomotive Leipzig, esse sim, um histórico emblema da antiga RDA.
O ambiente criado na semana que antecedeu a partida levou as autoridades a tomarem as devidas precauções e fez com que a federação de futebol alemã nomeasse para o jogo Felix Brych, um árbitro internacional com enorme experiência e que na temporada passada esteve presente em várias partidas da UEFA Champions League.
Com 29222 adeptos nas bancadas, o ambiente que se vivia do DDV-Stadion era electrizante e as mensagens menos simpáticas dirigidas ao RB Leipzig surgiam de cada canto do estádio. O SG Dynamo Dresden que, orientado pelo experiente Uwe Neuhaus, viveu um momento de excelência na temporada passada, após ter-se sagrado campeão na 3.Bundesliga e tendo por isso ascendido de categoria, procura agora reunir forças para sobreviver a uma das ligas mais competitivas do velho continente, como é caso da 2.Bundesliga. Assim, tinha no encontro de Sábado à tarde uma janela de motivação extra para os desafios agrestes que estão para vir.
Munido do espírito de luta que o caracteriza, o Dynamo media forças com uma equipa de milhões, que conta nas suas fileiras com diversos internacionais de vários países como são os casos de Naby Keita, Yussuf Poulsen, Stefan Ilsanker, Marcel Sabitzer, Peter Gulacsi, Emil Forsberg e o irmão de Sami Khedira, Rani, também ele internacional jovem pela Alemanha, mas nem por isso baixou os braços. A perder por 2-0 ao intervalo após os golos de Marcel Sabitzer aos 15 minutos de jogo e de Dominik Kaiser da marca dos 11 metros já em período de descontos, Uwe Neuhaus fez entrar o versátil lateral direito Nils Teixeira para a segunda metade, de forma a obter maior profundidade naquele flanco e a sua entrada conferiu outro andamento atacante à equipa. Aos 47 minutos, também da marca de grande penalidade, o possante avançado alemão Stefan Kutschke reduziu para o Dynamo, castigando uma falta sobre o jovem internacional pela Alemanha e estrela da companhia, Marvin Stefaniak. Os homens da casa carregavam e, no minuto 78, o mesmo Stefan Kutschke, com um disparo bem colocado de fora da área, empatava a partida, aproveitando o golo para mais uma vez (já o havia feito a seguir à grande penalidade) provocar os adeptos visitantes, apontando para o emblema do Dynamo na sua camisola e dizendo que ele nasceu e pertence ali, fazendo assim uma clara alusão às origens dúbias do RB Leipzig.
A partida continuou a ritmo frenético até ao final, com oportunidades para os dois lados, e teve em Marvin Schwäbe um herói de último minuto, quando o jovem guarda-redes alemão do Dynamo fez uma defesa incrível ao cabeceamento do avançado dinamarquês Yussuf Poulsen, levando o jogo para prolongamento. Do tempo-extra nada de muito importante a registar, com excepção de um remate cruzado de Akaki Gogia, que chegou recentemente à formação de Dresden por empréstimo do Brentford FC, que passou junto ao poste da baliza do húngaro Peter Gulacsi.

Fonte: SG Dynamo Dresden
A decisão da partida foi então tomada nas grandes penalidades e aí a “sorte” sorriu ao SGD Dynamo Dresden, que sairia vencedor do encontro. Os homens da casa não falharam nenhuma grande penalidade e viram o seu guarda-redes Marvin Schwäbe parar com classe o disparo de Dominik Kaiser, para assim garantirem um lugar na próxima eliminatória do DFB Pokal.
O romantismo tende a desaparecer do futebol e quase regularmente assistimos à proliferação dos grandes grupos financeiros num desporto onde o elemento principal deveria ser o talento e não o capital. “Kult gegen Kommerz”, “Tradition gegen Brause-Millionen” (“Culto contra Negócio”, “Tradição contra os milhões”) – eram estes os títulos da imprensa alemã nos dias que antecederam o jogo deste Sábado. No final, o SG Dynamo Dresden, que em tempos coabitou entre os grandes do futebol europeu e foi 8 vezes campeão da antiga RDA, puxou dos galões e mostrou que, realmente, há coisas que no futebol, assim como na vida, não se podem comprar.
Foto de capa: SG Dynamo Dresden














