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No golfe há os hole-in-one, no basquetebol os buzzer beaters, no futebol americano os hail mary. No futebol, há reviravoltas. E algumas delas são verdadeiramente inesquecíveis.
Quando um dos lados sorri, o outro normalmente fica despedaçado, lavado em lágrimas. Mas não é essa, no fundo, a beleza do desporto que tanto gostamos? A facilidade com que joga com as emoções dos adeptos. Que tão rapidamente os torna tão felizes, e outras vezes tão miseráveis.
Esta semana, o Bola na Rede decidiu abrir o livro de história e juntar memórias de alguns dos mais arrepiantes momentos de superação no futebol mundial. Vitórias, contra todas as expetativas e, muitas vezes, contra qualquer conceito semelhante à lógica.
Ora, acompanha-nos nesta jornada por alguns dos mais memoráveis momentos do desporto-rei.
10.
Bélgica 3-2 Japão- Os oitavos de final do Mundial 2018 protagonizaram aquele que foi, para muitos, o melhor jogo da competição. A bem cotada Bélgica defrontou a equipa sensação do campeonato do Mundo, o Japão, num jogo que muito prometia.
Ao intervalo, o resultado ditava 0-0 entre europeus e asiáticos, apesar dum jogo que estava a ser bem disputado. O verdadeiro espetáculo ficou mesmo guardado para o fim.
Bastaram sete minutos do segundo tempo para que os nipónicos Genki Haraguchi e Takashi Inui marcassem dois golos e colocassem o Japão a vencer a Bélgica por 2-0 aos 52 minutos.
Perante a adversidade, os belgas não desistiram, foram à luta e conseguiram restabelecer a igualdade. O primeiro golo dos diabos surge aos 69’, por intermédio de Jan Vertonghen. O segundo, marcado por Marouane Fellaini, aos 74 minutos.
Com o empate, o jogo ficou ainda mais competitivo e nenhuma das equipas queria perder o acesso aos quartos de final da maior prova do mundo. As tentativas de golo repetiam-se e com igual frequência para as duas formações. As exibições luxuosas dos guarda-redes, Thibaut Courtois e Eiji Kawashima, somente acrescentaram entusiasmo a um jogo que foi um grande hino à modalidade que tanto amamos.
Ninguém conseguia tirar os olhos da televisão; e ainda bem, porque o golo da vitória belga chega apenas ao minuto 94, com origem numa defesa de Courtois que lançou um contra-ataque letal. Thomas Meunier acaba por assistir o mais improvável dos heróis – Nacer Chadli, o jogador que quase nunca marca e acabara por levar a seleção belga aos ‘quartos’ do Mundial 2018, na Rússia.
Depois da batalha parecer perdida, os belgas retaliaram e conseguiram enviar os dignos vencidos para casa. Os samurais apenas se podem orgulhar da brilhante prestação em solo russo.
9.
Reading FC 5-7 Arsenal FC- Na 4.ª ronda da Taça da Liga Inglesa 2012-13, ditou o sorteio que o Arsenal FC viajasse até Reading para defrontar o clube na cidade, no Madejski Stadium. O que a turma de Arsène Wenger não contava era estar a perder 4-1 ao intervalo, diante dum modesto Reading FC, que acaba até por ser despromovido na temporada em questão.
Com golos de Jason Roberts, Mikele Leigertwood, Noel Hunt, e ainda um de Koscielny na própria baliza, os Gunners pareciam verdadeiramente derrotados aquando do fim do primeiro tempo, com apenas um golo do Theo Walcott para a equipa londrina. Giroud, Koscielny e, novamente, Walcott foram os responsáveis para empatar o jogo a quatro bolas e levar o jogo a prolongamento.
O improvável Marouane Chamakh, colocou os Gunners em vantagem pela primeira vez na partida aos 103 minutos, mas o Reading não se fez de vencido e voltou a empatar a partida no minuto 115, com um golo do russo Pavel Pogrebnyak. 5-5 e já todos contavam assistir a um desempate por grandes penalidades. Menos o Arsenal.
A loucura só acabou com o apito final do árbitro. O Arsenal volta a saltar para a frente do marcador aos 121 minutos, com mais um golo de Theo Walcott que acaba por completar neste jogo o seu primeiro hattrick pelo Arsenal. E deu tempo para o (ainda) improvável Chamakh bisar e fazer o sétimo dos londrinos aos 123 minutos.
A visualização do vídeo acima disponível é aconselhada, até porque este é um daqueles jogos que pode ter fugido da memória, mas que vale mesmo a pena recordar.
8.
Liverpool FC 4-0 FC Barcelona- Depois duma desapontante derrota do vermelhão da cidade dos Beatles em Camp Nou, a tarefa de chegar à final em Madrid adivinhava-se hercúlea para o Liverpool. Era preciso remontar um 3-0 contra o todo-poderoso FC Barcelona em Anfield Road. Jürgen Klopp e os seus pupilos a mais não se propuseram do que… divertirem-se. Confissão do próprio carismático alemão, depois do jogo.
Numa noite de sonho para os gloriosos relvados de Anfield, Divock Origi foi o primeiro a abrir o caminho para a remontada com um golo aos sete minutos. Depois, foi a vez de Gini Wijnaldum fazer o segundo e o terceiro golos da partida, aos 54 e 56 minutos respetivamente. A história de uma das mais famosas reviravoltas fica consumada com o inesquecível canto batido rapidamente pelo jovem lateral-direito Trent Alexander-Arnold, que assiste Divock Origi para o golo duma vida.
O Liverpool bateu o FC Barcelona por 4-0, chegou à final e acabou a conquistar a Liga dos Campeões. A sexta da sua história.
7.
FC Barcelona 6-1 Paris Saint-Germain FC- Depois de derrotar o FC Barcelona por 4-0 no Parc des Princes, o Paris Saint-Germain FC acreditava que já tinha conquistado um lugar nos quartos de final da UEFA Champions League em 2016-17. Na segunda mão, faltava aos franceses visitarem o tão temido Camp Nou e era preciso que não fizessem pior figura que os blaugrana quando visitaram Paris. E bem que era difícil fazê-lo.
O FC Barcelona, orientado por Luis Enrique, entrou verdadeiramente furioso para na pior das hipóteses limpar o drástico fracasso de há 15 dias. Era isso que restava ao Barça: limpar o nome, o emblema e a história do clube.
Os culés começaram a dar uma boa resposta; aos 50 minutos ganhavam por 3-0 e estavam perto de empatar a eliminatória quando, em cima da hora de jogo, o sempre letal Edinson Cavani marca um golaço e reduz para os franceses. Com 3-1 no marcador, o FC Barcelona voltava a ter de marcar mais três golos para voltar à eliminatória, em vez de apenas 1 para a empatar.
Ao minuto 88, o resultado ainda estava fixado nos mesmos 3-1 e a esperança já não era muita. Mas Neymar – à altura ainda ao serviço dos catalães – tinha planos diferentes em mente. Começa por arrumar um livre direto na gaveta da baliza defendida pelo alemão Kevin Trapp, fazendo o 4-1. Um minuto depois, Luis Suárez é rasteirado na grande área por Thiago Silva e o juiz aponta para a marca do castigo máximo a favor do Barça. Quem converte o penálti é, novamente, Neymar, que faz o 5-1 aos 91 minutos. No último lance da partida, o astro brasileiro volta a aparecer no jogo e serve, com um cruzamento picado e de pé esquerdo, mas desenhado à mão para Sergi Roberto, que aparece isolado na cara de Kevin Trapp e consuma mais uma das clássicas reviravoltas desta lista.
Num filme merecedor de pertencer à saga “Missão Impossível”, os blaugrana fizeram os franceses orientados por Unai Emery curvaram-se perante a sua indiscutível superioridade, num jogo que foi ganho com o coração. Uma das mais inesquecíveis noites na capital da Catalunha. Aquando do golo marcado por Sergi Roberto, os adeptos do FC Barcelona causaram um mini-terramoto com epicentro no Camp Nou, detetado por medidores da escala de Richter. Que delírio.
6.
AFC Ajax 2-3 Tottenham Hotspur FC 2019- Numa das mais sensacionais épocas da sua história, o AFC Ajax viu o Tottenham Hotspur roubar-lhes a oportunidade de disputarem a sua primeira final da UEFA Champions League desde 1996.
Depois de bater os Spurs em Londres por 0-1, o AFC Ajax estava no céu ao começar com uma vantagem de 2-0 sobre a formação londrina. Mas Lucas Moura foi para Amsterdão para estragar a festa holandesa.
Em quatro minutos, o brasileiro marcou dois golos e empatou a partida em Amsterdão. Dois golos que não chegavam, porque o Tottenham continuava em desvantagem no conjunto das duas mãos.
O clímax do drama ficou guardado para o minuto 94. Hakim Ziyech remata ao poste e, no contra-ataque, Lucas Moura faz o hattrick e coloca o Tottenham na final da Liga dos Campeões pela primeira vez na sua história. Sensacional.
5.
FC Porto 2-1 SL Benfica – Uma das reviravoltas que ainda ecoa no futebol português. Com o campeonato praticamente no bolso, o SL Benfica foi até ao Estádio do Dragão para jogar o grande e derradeiro clássico da época 2012-13. Levava dois pontos de vantagem para o FC Porto e, portanto, um empate bastaria para que os encarnados voltassem sossegados à capital.
Aos 19 minutos, o sempre matador Lima, inaugurou o marcador no Dragão a favor das águias e deixou a equipa de Jorge Jesus confortável e com uma vantagem para gerir. Para felicidade dos azuis-e-brancos, Maxi Pereira – à altura no Benfica – desviou involuntariamente a bola para a própria baliza pouco depois e devolveu a igualdade à partida: 1-1.
Assim se manteve o resultado até ao minuto 90+2, quando o recém-entrado Liedson assiste Kelvin, que marca um dos golos mais inesquecíveis do futebol português. O Estádio do Dragão parecia um vulcão que acabara de explodir de alegria e o treinador dos encarnados Jorge Jesus viu, de joelhos, o campeonato a fugir-lhe pelos dedos.
Na última jornada, o FC Porto visita a Mata Real e bate o FC Paços de Ferreira por 3-1, confirmando a conquista dum campeonato onde não estava no primeiro lugar da tabela desde a jornada 10. Foi esta a história do 27.º título de campeão na história dos azuis-e-brancos.
4.
Manchester United FC 2-1 FC Bayern- Uma das mais inesquecíveis.Os bávaros pareciam irredutivelmente superiores e mostraram ao que vinham quando, na final da Liga dos Campeões de 1998-1999, inauguram o marcador logo aos cinco minutos, por obra do matador germânico Mario Basler que bateu Peter Schmeichel de livre direto.
Ao longo da partida, ingleses e alemães foram criando inúmeras oportunidades, sendo que as mais perigosas pertenceram sempre ao FC Bayern que, só na segunda parte, conseguiu acertar uma vez no poste e outra vez na barra.
Não obstante, Sir Alex Ferguson mexe bem na equipa e faz entrar Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjaer. Dois jogadores que se desvendaram cruciais para o que aí vinha.
Jogava-se o minuto 91 quando Sheringham bateu Oliver Kahn, depois de desviar um remate-cruzado de Ryan Giggs. Empata a final que, dois minutos depois, foi ganha com um novo desvio, mas desta vez de Ole Gunnar Solskjaer, que conquistou nesse dia o estatuto lendário que ainda hoje goza no clube inglês. Equipa, adeptos e treinadores abraçaram-se na euforia duma conquista difícil e que se foi tornando cada vez mais inesperada.
Com esta ‘orelhuda’, o Manchester United completa o triplete depois de também ter conquistado a Premier League e a Taça de Inglaterra. Esta equipa do Manchester United FC ficou conhecida durante muitos anos como a dream team por ter realizado aquela que foi, à altura, a melhor época coletiva de todos os tempos.
3.
Watford FC 3-1 Leicester City FC- Depois duma vitória por 1-0 no King Power Stadium, o Leicester City FC foi a Vicarage Road defrontar o Watford FC para tentar garantir um lugar na final do play-off de acesso à Premier League.
Depois dos Foxes começarem a perder, o avançado inglês David Nugent marcou um importante golo fora de casa que deixava o Leicester City na confortável posição de apenas não ter de sofrer dois golos para chegar a Wembley e discutir com o Crystal Palace um lugar no escalão máximo do futebol inglês.
Na segunda parte, o jogador checo Matej Vydra bisou e fez o segundo para o Watford aos 65 minutos, fixando o resultado num 2-1 favorável à equipa da casa, mas insuficiente no conjunto das duas mãos. Ao minuto 95, o árbitro assinala um penálti a favor do Leicester City, que tinha a melhor oportunidade possível para sentenciar a eliminatória. O homem encarregue de acabar com a miséria dos hornets foi o francês Anthony Knockaert, que bateu a grande penalidade e viu o veterano espanhol Manuel Almunia a defender o castigo máximo. Ainda houve direito a recarga, mas Almunia voltou a defender e permitiu o contra-ataque do Watford FC que, numa jogada de insistência, acaba por ver o lendário Troy Deeney a marcar o 3-1, garantindo uma reviravolta épica.
O relvado de Vicarage Road encheu-se dos delirantes adeptos da casa, que nunca mais esquecerão o dia em que Deeney passou a ser um dos maiores ícones da história do centenário emblema britânico.
2.
Liverpool FC 3-3 AC Milan- Chegar à final da Liga dos Campões. Viajar até Istambul. Acreditar na conquista dum grande título. Estar a perder por 3-0 ao intervalo. E, ainda assim, cantar de forma ensurdecedora. Quem mais, se não os adeptos do Liverpool FC?
Os italianos tinham a melhor equipa do mundo quando, em 2005, chegam à final da Liga dos Campeões. E fizeram por prová-lo logo na primeira parte, quando Maldini inaugurou o marcador no primeiro minuto de jogo e Hernán Crespo bisou, marcando dois tentos aos 39 e 44 minutos.
Os jogadores que levavam a famous red ouviram o cântico dos adeptos, que ao intervalo cantavam o “You’ll never walk alone”, alto e em bom som, para que o mundo ouvisse que não amam só nas vitórias, e acarinham nas derrotas.
Na segunda parte, o perfume foi outro. Aos 54, o capitão Steven Gerrard faz o 3-1. Aos 56, Vladimir Smicer faz o 3-2. E corria o minuto 59 quando o árbitro assinala penálti a favor do Liverpool. O muito jovem Xabi Alonso remata para a defesa do internacional brasileiro Dida, mas consegue restabelecer a igualdade ao intervalo.
Chegados aos penáltis, o grande herói foi o guarda-redes polaco Jerzy Dudek, que defendeu dois penáltis – um de Pirlo, outro de Shevchenko – e garantiu a conquista da quinta Liga dos Campeões da história dos britânicos.
Desde então, o fenómeno já foi reproduzido milhares de milhões de vezes na internet. Esta final ficou mundialmente conhecida como o “Milagre de Istambul”.
1.
Manchester City FC 3-2 Queens Park Rangers FC- Corria a derradeira jornada da edição 2011-12 da Premier League e os rivais de Manchester partiam para o jogo 38 da temporada em igualdade pontual. O primeiro critério de desempate para apurar o campeão inglês era a diferença de golos e esta corrida era liderada pelo City, que superava a diferença do United por oito golos. Os Cityzens receberam em sua casa um modesto Queens Park Rangers, que sempre deixou algo a desejar ao longo da temporada. Tinha uma vida, teoricamente, mais fácil. Até porque, para ser campeão, o Manchester United tinha de se deslocar até ao Stadium of Light, casa do Sunderland AFC, e fazer um resultado melhor que os Cityzens.
Ao intervalo tudo corria bem, e ambos os candidatos venciam os respetivos adversários por 1-0. Contudo, a segunda parte reservava talvez o maior thriller da história do futebol moderno.
Aos 48 minutos, o veterano francês Djibril Cissé marcou o golo que devolve a igualdade à partida entre Man. City e QPR, deixando o título à mercê do United. Pouco depois, o sempre polémico Joey Barton vê um cartão vermelho direto por agressão a Carlos Tévez e Kun Agüero. Os Citizens ficaram, então, com 35 minutos para marcar um golo ao Queens Park Rangers, agora (ainda) mais fragilizado por estar reduzido a dez. A história complica-se quando, contra todas as expetativas, o internacional escocês Jamie Mackie bate Joe Hart e coloca os Hoops na liderança do marcador.
Ao minuto 92, o City ainda perdia por 1-2 e os Red Devils já celebravam a conquista do título de campeão inglês. Porém, Edin Dzeko reduziu para o City e empatou a partida em Manchester. Imediatamente após o fim da partida no Stadium of Light, que o Man. United acabara por vencer 1-0, a turma de Sir Alex Ferguson abraçava-se e rejubilava com a conquista de mais um glorioso e suado campeonato. Mas não tardou para que as notícias chegassem. Agüero, no Etihad, acabava de marcar o golo duma vida. Com ele, o argentino voltava a colocar os Citizens na frente do marcador e na rota da coroa inglesa.
Com o famoso golo de Kun Agüero, o Manchester City consumou aquela que é, para muitos, uma das mais emocionante reviravoltas da história do futebol. Conquistou, aos 94 minutos, o terceiro título de campeão da sua história e o primeiro dos últimos 44 anos. Foi um jogo que, para além de tudo, ficou para a história por simbolizar a grande mudança de paradigma no futebol inglês.
Artigo revisto por Inês Vieira Brandão









