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Portugal 1-0 França: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”

Pedro Machado · 6 min

Foto: Seleções de Portugal

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Cabeçalho Seleção Nacional

Deus quis, o homem sonhou e a obra nasceu. Fernando Santos, crente, em Deus e nos seus jogadores, pediu para sonhar, e viu os seus pedidos serem escutados. Fê-lo. Anunciou-o aos portugueses, como que os convidando a entrar no seu sonho.

“Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal”

A obra nasceu. Não encantou, no início. Era uma geringonça que muitos não entendiam em campo e que até nojo chegou a meter de tão informe que parecia ser. Mas, a pouco e pouco, com sorte e a falta dela, foi sendo lapidada até ficar concluída como uma das mais belas obras do futebol português, com a chegada à final. Faltava ser a mais bela. Faltava cumprir-se o sonho. Faltava cumprir-se Portugal.

A taça é nossa! Fonte: UEFA
A taça é nossa! Obrigado, mister
Fonte: UEFA

E cumpriu-se Portugal. Aí está a primeira conquista sénior de um país que tanto futebol deu ao mundo, mas que pouco teve em troca. A recompensa merecida, na bola de Éder (que passou a ser só dele), conduzida até à entrada da àrea pelo rapaz formado na Adémia (a menos de um par de quilómetros de onde esta crónica está a ser escrita) antes de desferir um portentoso remate para o fundo das redes de Lloris.

Um pontapé de raiva, que deu sentido ao sofrimento de nomes como os de Figo, Vitor Baía, João Vieira Pinto, Rui Costa, Nuno Gomes, Pauleta, Paulo Sousa ou… Cristiano Ronaldo.

Um pontapé que entrou na esfera do paranormal e que fez sorrir Eusébio, Coluna, Bento e tantos outros.

Um pontapé que matou a besta das eliminações com franceses após prolongamentos (Euro 1984 e 2000 vêm à memória), que caçou o trauma, que há tanto tempo nos apoquentava.

Obrigado!

A FIGURA

Fonte: UEFA
Fonte: UEFA

Rui Patrício (Portugal) – Sim, Éder também merecia este galardão, e não só pelo golo, mas, provavelmente, não haveria lugar ao momento heróico do jogador do Lille sem a exibição monumental de Rui Patrício, que segurou, com todas as forças, a taça Henri Delaunay, defendendo nada mais nada menos que 7 remates franceses – entre os quais destaca-se a forma como se agigantou perante um cabeceamento-chapéu de Griezmann aos 9 minutos, a forma aplicada como se entregou às bolas enviadas por Sissoko aos 22 e 33, e as estiradas perante as tentativas de Giroud (75) e, novamente, de Sissoko (84).

Para além das defesas, destaca-se ainda a forma irrepereensível como soube sair dos postes e a voz de comando que soube ter quando a equipa se encontrava em apertos.

Gigante.

O FORA DE JOGO

Fonte: UEFA
Fonte: UEFA

Giroud (França) – Conseguiu disferir um remate à baliza de Patrício, mas foi só. Esteve apagadíssimo, não se conseguindo envolver, como tão bem sabe e gosta, com Griezmann e Payet. Mérito, claro, para José Fonte, que lhe limitou os movimentos e ganhou quase todos os duelos perante o adversário do Arsenal, que tão bem conhece da Premier League.

PORTUGAL

À semelhança do que já tinha acontecido frente à Polónia, por exemplo, Portugal entrou algo nervoso. William Carvalho e José Fonte falharam passes e marcações como não é costume e a França foi dominando o meio-campo português na primeira meia-hora da partida, sem que a equipa nacional conseguisse reagir.

A saída de Ronaldo (entrou Quaresma), por lesão, pareceu duro golpe nas ambições lusas, mas a equipa reorganizar-se-ia. Sem referência de àrea, é certo, mas com mais assertividade na circulação de bola, chegando mesmo ao intervalo com ascendente sobre os gauleses.

A segunda parte começou como a primeira, com Portugal a ceder algum espaço perante as investidas do seu adversário, embora se notasse uma maior segurança posicional quando a equipa se encontrava sem posse o que, gradualmente (e ao que a substituição de Adrien por João Moutinho, não será alheia), foi travando o ímpeto francês. A esperança nacional ia crescendo.

Quase era abalada com uma bola ao poste na baliza de Patrício, à passagem do minuto 90, mas cada oportunidade falhada pela França era uma espécie de tónico para os portugueses. Como se soubesse que o desalento e a frustração iriam tomar conta do adversário, tirando-lhe discernimento.

A esperança voltou a crescer quando Nani fez cruzamento-remate (quando se esperava uma procura por Éder, recém entrado para o lugar de Renato Sanches) que atrapalhou Lloris, com Quaresma, na recarga, de forma acrobaticamente, a atirar à figura. Estavam decorridos 86 minutos e acreditava-se.

Merecemos a festa Fonte: UEFA
Merecemos a festa
Fonte: UEFA

Valia a pena, porque a alma nunca foi pequena. Foi gigante, monumental, estando na base de um prolongamento dominado por Portugal, que teve clímax no golaço de Éder (livrou-se de Koscileny, conduziu a bola e disparou sem medo para as redes da baliza francesaa), fora da àrea, que setenciou o encontro e o vencedor do Euro 2016. Podem beliscar-se, somos mesmo nós!

Confirmou-se a tendência: este foi o Euro da caça ao trauma. O da Itália, que finalmente venceu a Espanha, o da Alemanha que finalmente venceu a Itália, o da França que finalmente venceu a Alemanha e o de Portugal que, finalmente!, venceu a França.

Notas aos jogadores:

Rui Patrício – 9

Cédric – 6

José Fonte – 7

Pepe – 8

Raphael Guerreiro – 6

William Carvalho – 7

João Mário – 5

Adrien – 6

Renato Sanches – 6

Nani – 6

Cristiano Ronaldo – 5

Quaresma – 7

João Moutinho – 7

Éder – 7

FRANÇA

A França considerava-se favorita e não deixou que o estatuto lhe pesasse os ombros. Foi para cima de Portugal com a força de uma missão a cumprir. Uma vitória para dar a um povo que há 16 nada conquistava e que já se habituara a festejar quano o certame era por si organizado. Griezmann, Pogba, Payet e companhia não podiam ficar atrás de heróis como Zidane, Petit e Henry (1998 e 2000) ou Tigana, Platini e Girésse (1984).

Sissoko esteve em noite fantástica, galgando o meio-campo português sem pedir licença (tapado que estava, Pogba, devidamente vigiado por Adrien), sendo a acção do médio do Newcastle o principal ponto de desequilíbrio entre as duas equipas. Entregando-se ao jogo com um sentido posicional notável e uma agressividade incrível.

Portugal pareceu acabrunhado no início do encontro, mas isso foi-se diluindo com o passar do tempo, assim como a influência de Sissoko no jogo, acertado o posicionamento táctico português.

Griezmann não foi capaz de bater Rui Patrício Fonte: UEFA
Griezmann não foi capaz de bater Rui Patrício
Fonte: UEFA

O segundo tempo trouxe uma França igualmente perigosa e desejosa de dar ao seu povo aquilo a que ele está habituado, mas desta vez a barreira portuguesa adensara-se e era mais difícil penetrá-la. Entrou Coman, um jogador de rasgos, um “furador”, saiu Payet, um homem do passe, mais cerebral. E o jogo agitou, com várias iniciativas do jogador da Juventus a dar esperanças aos gauleses de que a bola, mais tarde ou mais cedo, entraria. Não entrou, e Deschamps decidiu refrescar o ataque. Gignac entrou para dentro de campo com a missão devidamente estudada, e aproveitando o cansaço português para dar mais largura ao ataque francês, arrastando, consigo, marcações, o que permitiu potenciar os rasgos de Coman, sem que, porém, perdesse o sentido de baliza… o problema é que esse estava demasiado apurado e atirou ao poste na maior oportunidade de perigo de que dispôs a França.

O jogo foi para prolongamento e os franceses pareceram frustrados com o desfecho dos últimos minutos do tempo regulamentar, criando menos, ainda que a isso não tenha estado alheia a sua menor capacidade física, até pelo dia a menos de descanso.

Portugal ia ganhando mais bolas no meio-campo francês, como que avisando para o perigo que representava… e não foi por falta de aviso que os franceses sofreram o golo de Éder. O tal que deitou por terra toda a ilusão gaulesa.

Notas aos jogadores:

Lloris – 6

Sagna – 5

Koscielny – 5

Umtiti – 5

Evra – 5

Pogba – 4

Matuidi – 5

Sissoko – 7

Payet – 6

Griezmann – 6

Giroud – 4

Coman – 6

Gignac – 6

Martial – Sem tempo

Pedro Machado

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