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As finais dos Jogos de Tóquio foram adiados para 2021, o que parecia uma inevitabilidade, sendo a primeira vez – excluindo os períodos de guerra mundial – que se passarão cinco anos entre duas edições de Jogos Olímpicos. A situação mundial assim o obriga e a certeza é que para o ano que vem a celebração do desporto mundial será ainda maior e mais efusiva.
Entretanto, de forma a aguçar o apetite e aumentar ainda mais a nossa fome de Jogos Olímpicos, vamos procurar, este ano, em artigos regulares – intercalados com outros que se justifiquem – relembrar os melhores momentos da História dos Jogos.
No artigo desta semana, partilhamos 12 finais especiais de 100 metros, todas elas vencidas por atletas norte-americanos/as ou jamaicanos/as, o que comprova o domínio destas duas potências no que à velocidade diz respeito. E sim, foi de propósito que decidimos excluir a vergonhosa final masculina de 88.
Foto de Capa: Olympic
1.
Berlim 1936, Medalha de Ouro: Jesse Owens (USA) – 10.3 – Muitos já conhecem a história de Jesse Owens – e nós também lá iremos, mais aprofundadamente, num artigo futuro – e é incontornável que faça parte desta restrita lista.
Nuns Jogos Olímpicos utilizados pela propaganda Nazi para mostrar o poderio germânico e a superioridade da raça ariana, Jesse Owens fez mais pela igualdade e contra a discriminação do que o próprio COI tinha tido coragem de fazer. Em três dias consecutivos, o norte-americano venceu os 100 metros, o salto em comprimento e os 200 metros, sendo que esta prova foi a primeira em que alcançou o Ouro.
O feito terá deixado visivelmente irritado Adolph Hilter, mas o que poucos comentam é que Owens sempre se sentiu ainda pior tratado no seu próprio país e pelo seu presidente, onde a igualdade entre etnias ainda era uma enorme utopia. Por tudo o que esta vitória significou, mas também pela facilidade com que Owens espalhou magia, com a sua elegância e técnica de corrida, será sempre uma corrida para a história.
2.
Roma 1960, Medalha de Ouro: Wilma Rudolph (USA) – 11.0 – Também um símbolo de luta e resistência, Wilma Rudolph teve que lutar contra a adversidade desde bastante cedo, tendo sido a 20ª nascida de 22 irmãos.
Toda a história de Wilma não parecia caminhar para se tornar uma campeã olímpica. Lutou contra a pneumonia cedo, mas foi a poliomielite, aos seus cinco anos, que lhe retirou a capacidade de andar. Até aos doze anos, nunca caminhou de forma normal, mas o tratamento e massagens a que foi sujeita todos os dias pela sua mãe e duas vezes por semanas num hospital a mais de 80km de casa, permitiram que aos doze anos voltasse a andar e começasse a praticar desporto. Começou no Basquetebol, mas foi no Atletismo que brilhou, com a sua primeira qualificação olímpica logo aos 16 anos, onde foi bronze na estafeta 4×100.
Quatro anos depois, foi a Roma conquistar o Ouro nos 100, 200 e 4×100 metros, tornando-se na primeira norte-americana a fazê-lo. A marca não foi recorde mundial à altura apenas devido ao vento irregular, mas Wilma foi detentora de recordes mundiais aos 100 e 200 metros, alcançados em outras ocasiões.
3.
Cidade do México 1968, Medalha de Ouro: Jim Hines (USA) – 9.95A – Jim Hines foi o primeiro homem a correr os 100 metros abaixo dos 10 segundos.
Foi nos Nacionais norte-americanos, em Sacramento e, pouco tempo depois, foi correr em 9.95 nos Olímpicos do México, sendo este o primeiro tempo eletronicamente cronometrado abaixo da barreira dos 10 segundos. Manteve esse recorde mundial por 15 anos. Muitos atribuem essa marca e, especialmente, a durabilidade do recorde, ao facto de ter sido alcançado em altitude – aliás, a marca que o viria a ultrapassar, também seria alcançada em altitude por Calvin Smith – mas a verdade é que Jim Hines já era a grande estrela da velocidade na altura e era, com certeza, o melhor atleta do mundo nessa fase.
Numa altura em que o mundo – e os EUA em concreto, com o assassinato de MLK poucos meses antes – viviam sob fortes tensões raciais que marcaram a década de 60, foi mais uma vez um atleta negro a bater um recorde que sempre tinha feito parte do imaginário dos velocistas pelo mundo fora. Pela primeira vez se correu abaixo dos 10 segundos e ainda hoje essa barreira psicológica é de especial importância na carreira de qualquer atleta.
4.
Los Angeles 1984, Medalha de Ouro: Carl Lewis (USA) – 9.99 – Foi a primeira vez desde Hines – e a primeira vez sem altitude – que um homem correu uma final olímpica abaixo dos 10 segundos. Mas não foi só isso. Lewis foi aos Jogos de LA com o objetivo de replicar os feitos de Jesse Owens e de sair desses Jogos com quatro ouros. E assim o foi.
Além dos 100 metros – uma prova onde somou cinco ouros globais no final da sua carreira -, venceu nos 200 metros (o seu único grande título global nesta distância), venceu nos 4×100 barreiras e no Salto em Comprimento, especialidade onde alcançou oito ouros globais (mais não foram porque naquela altura os Mundiais eram a cada quatro anos). Foi aqui que se iniciou a glória olímpica de Lewis, lembrando ainda que quatro anos depois, em Seul, não teve o “momento ao vivo” e a medalha dos 100 não viria a ter o mesmo sabor. Lewis sempre se queixou muito de não ter o reconhecimento que deveria ter no seu próprio país.
Muitos atribuem isso às suas polémicas e à sua pouca humildade. A verdade é que é, indubitavelmente, um dos maiores da história.
5.
Los Angeles 1984, Medalha de Ouro: Evelyn Ashford (USA) – 10.97 – Tal como a barreira dos 10 segundos nos homens, a barreira dos 11 segundos nas mulheres sempre foi um fator psicológico importantíssimo na carreira e evolução da performance de uma atleta. E a primeira a conseguir fazê-lo em Jogos Olímpicos foi a norte-americana Evelyn Ashford, que baixou por mais de 30 vezes dos 11 segundos.
A atleta chegou a estes Jogos Olímpicos como a recordista mundial e não desiludiu, passando com grande mestria e superioridade em todas as eliminatórias. Na final, chegou à meta com uma grande margem e, claro, um recorde olímpico no seu bolso. A vitória deixou-a solta e motivada para ainda mais. Poucas semanas depois, em Zurique, viria a melhorar o seu recorde pessoal e mundial para 10.76 segundos!
6.
Seul 1988, Medalha de Ouro: Florence Griffith-Joyner “Flo-Jo” (USA) – 10.62 – Evitámos a prova masculina, mas não o podemos fazer no feminino. A marca de Flo-Jo permanece como recorde olímpico e é a 3ª marca mais rápida da história da distância. As primeiras duas também pertencem a Flo-Jo que correu inacreditáveis 10.49 segundos nos trials norte-americanos, em Indianapolis, dois meses antes, marca que ainda é hoje, por larga margem, recorde mundial.
A história de Flo-Jo, que se tornou na (esmagadoramente) mais rápida atleta da história no espaço de poucos meses deixa-nos desconfortáveis, não há como negar. Em 1987, aos 28 anos, a norte-americana tinha como melhor pessoal para apresentar 10.96 segundos, uma marca que a colocava como uma atleta de elite, mas nem sequer como a nata da elite, com zero títulos globais individuais para mostrar. Nos 200 metros, nunca até 1988 havia corrido mais rápido do que 21.96 segundos (baixou dos 22 apenas em 1987).
De repente, em 1988, uma nova Flo-Jo apareceu, batendo de forma nunca antes (nem depois) vista os recordes mundiais da velocidade feminina, com 10.49 segundos aos 100 metros e 21.34 segundos (!) aos 200 metros. Enormes suspeitas adensaram-se no que diz respeito à forma como obteve tais marcas (súbitas alterações físicas na atleta não ajudaram a reduzir essas suspeitas), mas nunca foi comprovada a utilização de substâncias dopantes. A atleta nunca mais competiu depois dos Jogos de Seul, o que também não contribuiu para calar os seus críticos, que conectaram a atitude com o aumento de controlos anti doping fora de competição no pós-Seul. Flo-Jo faleceu muito cedo, aos 38 anos, e as dúvidas sempre pairarão no ar.
O desempenho de Flo-Jo nessa tarde foi impressionante e nunca ninguém – nem atletas comprovadamente dopadas – conseguiram bater essa marca. Deveria ser consagrado como um momento grande da história, mas as imensas dúvidas e suspeitas que rodeiam as performances da fase final da carreira de Flo-Jo tornam-no apenas como um fantasma que assombra a velocidade feminina, lado a lado com os seus recordes mundiais. Justamente ou não, cada um tirará as suas conclusões.
7.
Atlanta 1996, Medalha de Ouro: Gail Devers (USA) – 10.94 – Depois de ter surpreendido o mundo nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, Gail Devers tornaria-se, em 1996, na primeira atleta da história a conquistar dois ouros olímpicos na distância de 100 metros. E logo ela que nem tinha esta prova como a sua favorita!
Já muito dissemos de Devers – que sempre se considerou uma barreirista e que atingiu a glória no seu evento de eleição – os 100 barreiras – mas nunca a glória olímpica. Já sem barreiras, ficou conhecida por chegadas ao limite em finais globais, saindo sempre por cima. Foi assim quatro anos antes, quando os seus 10.82 superaram os 10.83 de Juliet Cuthbert (JAM) e os 10.84 de Irina Privalova (EUR) e foi assim nestes Jogos de 96 quando chegou à meta com os mesmos 10.94 de Merlene Ottey (JAM) e teve que, mais uma vez, aguardar os resultados para saber se venceria. A pobre Ottey nem sabia como reagir, depois de exatamente o mesmo ter acontecido três anos antes nos Mundiais de Estugarda (na altura, ambas chegaram em 10.82 à meta, com Devers a levar a vitória).
Este pode não ter sido o tempo mais rápido da história, mas estas são as finais que ficam para a história e que fazem crescer o desporto.
8.
Atenas 2004, Medalha de Ouro: Justin Gatlin (USA) – 9.85 – Também esta foi uma final apertadíssima, que acabou por ser vencida pelo norte-americano polémico – à época ainda não tão polémico – Justin Gatlin, no seu único título olímpico da carreira. Mas mais do que os 9.85 de Gatlin, esta final é, para nós, portugueses, especial, porque foi a primeira vez que vimos um português no pódio de uma final olímpica de 100 metros.
Nascido na Nigéria, foi no Portugal que o acolheu que Francis Obikwelu fez chegar o seu nome mais longe, elevando com ele a bandeira nacional. Não se deixou amedrontar pelos gigantes que com ele corriam e esticou-se todo na meta para alcançar a prata (em 9.86) à frente do que era, à data, o campeão olímpico, o norte-americano Maurice Greene (repetiu a marca vencedora de Sidney, com 9.87).
Ficou próximo, Francis, de ser ele o campeão olímpico. Ficará para sempre aquela sensação na garganta do 2º lugar, mas esta foi muito mais uma prata conquistada do que um ouro perdido. História foi feita e é de recordar e recordar.
9.
Pequim 2008, Medalha de Ouro: Usain Bolt (JAM) – 9.69 – É para muitos a final mais memorável da história. Para alguém nascido no final dos anos 80 ou nos anos 90, existirão poucos momentos que tenham sido mais marcantes que aqueles 30 metros finais de Usain Bolt, abrandando bastante, para um recorde mundial à época.
Muitos acreditam – incluindo o seu técnico Glen Mills – que o jamaicano poderia ter atingido uma marca bem mais impressionante (9.52 é o que Mills acredita que teria sido possível), mas Bolt sempre disse que isso são suposições e que foi uma reação espontânea de contentamento ao perceber que a vitoria era sua. Tendo chegado a Pequim como o novo recordista mundial – tinha corrido em 9.72 em Nova Iorque no final de Maio – era já o grande favorito à conquistar do título olímpico, mas foi aí, em Pequim, que o mundo todo o ficou a conhecer e não mais esqueceu um nome que ficará para sempre nos anais da história do desporto. Não desfazendo a importância do recorde de Nova Iorque, há vários exemplos de atletas com recordes que não conseguiram transformar isso em títulos (hello Asafa!). Bolt começou a construir a lenda em Pequim e de uma forma completamente avassaladora, sem dar margem para dúvidas.
Apesar da enorme superioridade, Bolt não era um atleta que deixava as mesmas interrogações de Flo-Jo. Embora nunca tenha apostado fortemente nos 100 metros e por isso não tenha tido grandes registos em escalões jovens; aos 15 anos, Bolt, já se havia tornado no mais novo campeão mundial júnior da história dos 200 metros. Em 2002 e 2003 foi o vencedor do prémio Rising Star da IAAF, que distingue as grandes promessas mundiais, sendo sempre um nome sob olhares muito atentos. 2008 foi o ano em que os resultados seniores começaram a aparecer para aquele que viria a terminar a carreira como o velocista mais consagrado da história.
10.
Londres 2012, Medalha de Ouro: Shelly-Ann Fraser-Pryce (JAM) – 10.75 – Quando chegámos aos Jogos de Londres, já Shelly-Ann Fraser-Pryce era um nome consagrado. Fazia parte de um conjunto de atletas jamaicanos que tinham relegado os USA para 2º plano e que dominavam agora a velocidade mundial.
Quatro anos antes, não só Bolt tinha voado para recordes mundiais nos 100 e 200 nos Jogos Olímpicos em Pequim. No feminino, o domínio jamaicano tinha sido ainda mais avassalador: das seis medalhas em jogo na velocidade mais curta (100 e 200), a Jamaica havia conquistado cinco! Em 2012 as coisas alteraram-se um pouco (Felix venceu mesmo nos 200), mas nos 100 metros, as atletas jamaicanas voltaram a superiorizar-se. Ainda que o ano anterior tenha sido um ano em cheio para a norte-americana Carmelita Jeter (coroado com a conquista do título mundial), Shelly-Ann já tinha deixado um sério aviso nos trials jamaicanos (10.70) e quando chegou aos Olímpicos de Londres conquistou mesmo o Ouro, tornando-se na 3ª atleta da história (1ª jamaicana) a conseguir defender um título olímpico de 100 metros.
Depois de em 2019 ter regressado em grande com a conquista de mais um título mundial, a jamaicana tinha elevadas expectativas de ir este ano a Tóquio fazer história e tornar-se na 1ª mulher com três títulos olímpicos de 100 metros. Em 2021, aos 34 anos, ainda irá a tempo?
11.
Londres 2012, Medalha de Ouro: Usain Bolt (JAM) – 9.63 – Em Londres, Usain Bolt já era a estrela consagrada, a lenda do atletismo que todos hoje reconhecemos e não defraudou.
Os 9.63 em que percorreu a distância em Londres são o atual recorde olímpico e apenas por uma vez se correu mais rápido em toda a história: ele próprio, Usain Bolt, no seu recorde mundial nos Mundiais de Berlim! Foram mais uns Jogos Olímpicos históricos para Usain Bolt, que conquistou tudo o que havia para conquistar, mesmo sabendo-se já de alguns problemas físicos que atormentavam o astro jamaicano.
Quatro anos depois, nos Jogos Olímpicos do Rio, fez história ao tornar-se no primeiro da história a conquistar três Ouros nos 100 metros, numa exibição menos exuberante, mas suficiente para uma confortável vitória. Esta prova de Londres, no entanto, deverá ficar nos registos por muitos anos. A não ser que um tal de Christian Coleman consiga baixar dos 9.63 em Tóquio. Aos dias de hoje parece improvável, mas…
12.
Rio 2016, Medalha de Ouro: Elaine Thompson (JAM) – 10.71 – Para muitos, foi há quatro anos que se correu aquele que deveria ser considerado o recorde olímpico dos 100 metros femininos. Depois de, em 2015, Elaine Thompson ter entrado no radar da elite do atletismo (Prata nos 200 nos Mundiais de Pequim), foi em 2016 que a jamaicana teve o seu ano de sonho, com a dupla vitória olímpica na velocidade e ambas com excelentes marcas. Nos 100 metros, os seus 10.71 segundos são a marca mais rápida alguma vez corrida em finais de Jogos Olímpicos se excluirmos a polémica Flo-Jo.
A rivalidade com Dafne Schippers que tinha-nos mostrado a holandesa no topo nos Mundiais da temporada anterior (ouro nos 200 metros e prata nos 100, atrás de Shelly-Ann), ganhou novos capítulos no Rio e ambos foram dominados por Elaine Thompson. Curiosamente, desde aí as duas têm tido dificuldades em manter acesa essa rivalidade, tendo, por exemplo, ambas falhado as medalhas nos Mundiais de Doha do ano passado.
Quem brilhou em Doha foi a atleta da geração anterior, Fraser-Pryce, que parecia já estar na fase descendente da carreira, quando foi bronze nesta final do Rio. E em Tóquio, será a vez da geração de Fraser-Pryce, a vez Thompson ou será já tempo para a geração seguinte? Promete!









