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A Norte-Americana que preferiu ser Jamaicana e conquistar o mundo

Pedro Pires · 10 min

A Norte-Americana que preferiu ser Jamaicana e conquistar o mundo

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Quais são as vossas melhores memórias de quando tinham 16 anos? Certamente que têm memórias positivas desses tempos, mas muito provavelmente isso não incluirá a de ser um duplo campeão mundial da velocidade, muito menos num campeonato de sub-20, onde eram os mais novos em prova. Essas serão as memórias que a jamaicana Briana Williams terá para sempre, depois de, neste verão, em Tampere, na Finlândia, ter batido toda a concorrência em provas onde nem era a favorita. Agora está nomeada para atleta revelação do ano (o prémio “Rising Star” da IAAF) e é bem provável que no dia 5 de dezembro venha a vencer esse galardão, levando para casa mais uma inesquecível memória deste 2018.

Jamaicana ou Norte-Americana?

Briana nasceu nos EUA, filha de pai norte-americano e de mãe jamaicana. Tal como outra jovem promessa de quem falamos na semana passada – Armand Duplantis –, sempre teve como local de residência os EUA, tendo feito toda a sua formação em terras do tio Sam. Tal como Armand Duplantis, Briana Williams, de forma algo surpreendente, escolheu representar a Jamaica em competições internacionais. A confusão ainda se adensa mais quando percebemos que foi a sua própria mãe – jamaicana – a fazer uma página pessoal de Facebook para a filha, com a menção “futura campeã olímpica norte-americana”! Acontece que Briana, tendo cidadania de ambos os países, pediu à mãe para retirar essa menção, uma vez que ela própria decidiu competir pela Jamaica.

 

Embora os EUA sejam conhecidos por pagar melhor financeiramente às suas estrelas maiores do Track (não falemos aqui de contratos milionários com marcas, de casos como Usain Bolt), Briana sentiu o apelo de representar o país jamaicano quando, desde bem cedo – a atleta todos os anos visita e passa algum tempo na Jamaica –, percebeu as diferenças na forma como os jamaicanos e os norte-americanos vivem o Atletismo. A própria mãe, em entrevista ao Jamaica Observer, explica um pouco dessas razões: “O Atletismo nos EUA é aborrecido, nada parecido com o que vemos nos campeonatos jamaicanos. Eu acredito que essa tenha sido a principal razão pela qual ela escolheu representar a Jamaica. Foi uma decisão só dela.”. Assim, Briana – a não ser que um dia protagonize uma polémica transferência – será sempre vista por todos nós como a “jamaicana”, ainda que, até aos seus 15 anos, tivesse revistas da especialidade norte-americana a fazerem referências a si como “a grande promessa norte-americana da velocidade”. Curioso, não?

As marcas/conquistas

2017 foi o ano em que Briana Williams deu a conhecer ao mundo aquilo em que se poderiam traduzir as boas indicações na pista – por exemplo, em 2015, já havia sido a melhor nos EUA na sua faixa etária. Não só baixou pela primeira vez dos 12 segundos nos 100 metros, como o fez nas 10 vezes em que competiu nesse ano (alguma delas ainda com 14 anos). Curiosamente, o resultado que espantou o mundo chegou numa prova em que a mesma não venceu. Nos Nacionais Juniores Jamaicanos, com 15 anos, correu em 11.30 (+1.6), sendo segunda atrás de Kevona Davis, uma outra grande promessa jamaicana (a completar 17 anos este dezembro), que, nesse dia, bateu o recorde nacional juvenil ao correr em 11.24.

2018 ainda se viria a revelar melhor…
Fonte: Wikimedia

2018, no entanto, começou com uma “bomba”. Logo na sua 2ª competição do ano, Briana Williams correu, ainda em março, um tempo de 11.13 (+1.7), sendo o tempo mais rápido alguma vez feito por uma jovem de 15 anos – agora igualado, mas já lá vamos. A atleta estava a poucos dias de completar os 16 anos e esta era a última oportunidade para conseguir tal recorde de idade, surpreendendo o mundo com uma marca, que, para se ter uma ideia, lhe daria, por exemplo, um recorde nacional em Portugal por 8 milésimos! A “chocante” marca de Briana Williams viria a despertar cada vez mais atenções na jovem jamaicana, que tinha como grandes objetivos da época os Carifta Games, em Nassau, ainda nesse mês e, principalmente, os Mundiais Juniores, mais para o final da temporada.

Correu nos Carifta Games as distâncias de 100 e 200 metros (onde não se sente tão confortável) e venceu o Ouro em ambas as distâncias, com tempos de 11.27 e 23.11 (recorde pessoal à altura), demonstrando que não se deixa intimidar quando tem holofotes sobre si. A preparação para os Campeonatos Mundiais de Tampere correu bem e as indicações eram já bastante positivas. Depois de uma batalha pessoal com Tamari Davis (já lá vamos) vieram as excelentes indicações no meeting Kingston JN Racers Grand Prix e nos Nacionais (séniores) Jamaicanos, ambos nos 100 metros. Na primeira terminou em 11.26, no segundo lugar, atrás de duas atletas de elite (Jenna Prandini e Shelly-Ann Fraser-Pryce), surpreendendo o seu arranque mais rápido que o de…Fraser-Pryce! Depois, nos Nacionais, correu ainda mais rápido, em 11.21, para ser 5ª.

Chegada aos Mundiais, era um dos nomes em destaque e uma das favoritas, embora não fosse a principal favorita em nenhum dos eventos – 100 e 200 metros. Nos 100 metros, a grande adversária e principal favorita era a norte-americana Twanisha Terry, que, com os seus 19 anos, já havia baixado dos 11 segundos, tendo sido a primeira atleta no mundo a fazê-lo em 2018, quando correu em 10.99 (+1.7). Era a grande favorita e, caso fizesse algo semelhante em Tampere, seria a vencedora da final. Prometeu bastante, com os seus 11.03 (+0.4) das meias-finais a serem um novo recorde dos campeonatos. Acontece que nas finais é que se decidem os campeões e, aí, um mau arranque de Terry e um verdadeiramente explosivo de Briana Williams possibilitaram à jamaicana o seu segundo melhor tempo da carreira até ao momento (11.16) e o Ouro nos Mundiais!

https://www.youtube.com/watch?v=QcufJJ5XnDg

No entanto, a surpresa não ficaria por aí. Nos 200 metros, 48 horas depois da final dos 100 metros, as hipóteses de sucesso de Briana Williams pareciam ser ainda menores. Nunca tinha baixado dos 23 segundos e os norte-americanos traziam Lauren Rain Williams (19 anos), com um melhor pessoal, deste ano, de 22.51 (+1.9). Lauren foi a mais rápida nas eliminatórias e nas meias-finais, mas certamente não esperaria a extraordinária marca de Briana Williams na final: a jamaicana correu em 22.50 (-0.1), um novo recorde dos campeonatos e um extraordinário recorde pessoal! A marca é um novo recorde nacional júnior jamaicano (sim, sub-20) e é o tempo mais rápido por uma atleta juvenil não-americana em toda a história. Williams tornou-se na 4ª mulher da história a alcançar o duplo Ouro na velocidade (nos campeonatos).

As rivalidades com Davis – Kevona, Tamari?

Já por aqui falámos de Kevona Davis, outra promessa jamaicana, que tem despertado muitas atenções. É apenas 4 meses mais velha do que Briana Williams, mas, em anos atléticos, isso significa um ano de diferença nos escalões jovens (uma vez que Kevona nasceu em Dezembro de 2000 e Briana em Março de 2001). O recorde pessoal de Kevona Davis de 11.16 (+0.9) foi alcançado na última vez em que ela fez essa distância este ano e foi logo em março, nos campeonatos escolares internos. Infelizmente, lesões afastaram-na dos Carifta Games e mais tarde dos Mundiais, ficando por saber como poderia ser uma final com Kevona, também presente em Tampere. Ainda em março correu em 22.72 (+0.8) os 200 metros (nos mesmos campeonatos), marca que na altura a colocava como a 4ª juvenil mais rápida de sempre, agora 6ª. Caso Kevona tenha um 2019 livre de lesões, pode ser um ano bastante interessante de acompanhar a nível interno jamaicano, com a disputa particular com Briana.

https://www.youtube.com/watch?v=KT6Y1o3Uw8s

Contudo, não é Kevona a única Davis com quem Briana irá competir nos próximos anos. Outra jovem prodígio que tem vindo a despertar muitas atenções é a norte-americana Tamari Davis. Tamari, que ainda é mais nova (nascida em 2003), com 15 anos, igualou em junho a marca nos 100 metros de Briana Williams, com os seus 11.13 (+1.6) nos EUA. Isto coloca as duas como as mais rápidas de sempre com a idade de 15 anos (Tamari já tinha sido a mais rápida de sempre aos 12 anos). Também nos 200 metros, Tamari Davis tem demonstrado resultados do outro mundo, com os seus 22.48 (+1.9), corridos em maio, a serem os mais rápidos de sempre corridos por alguém com 15 anos e a 3ª melhor marca da história em atletas juvenis (sub-18). Nos campeonatos escolares da Florida este ano já se assistiu a um vislumbre do futuro, com o duelo entre Tamari e Briana a quedar-se com uma vitória para cada uma: Briana nos 100 e Tamari nos 200. A rivalidade entre as duas já é visível e assumida em entrevistas. Ambas as atletas são constantemente questionadas acerca disso (também porque ambas estão no sistema escolar norte-americano e no mesmo Estado!) e Tamari não escondeu que procurou a “vingança” na prova de 200 metros, depois de ter ficado bastante desapontada após a final dos 100. Promete…

O “coach” Ato Boldon

Briana Williams é também conhecida pelo facto de ser treinada por um ex-atleta, campeão mundial, medalhado olímpico e um dos nomes que mais se destacam no Atletismo depois de terminada a carreira: Ato Boldon. Boldon é considerado um dos principais comentadores desportivos da atualidade; é colaborador da IAAF (onde apresenta o programa IAAF Inside Athletics, onde já entrevistou…Briana Williams) e é um técnico da nova vaga, que tem em Briana Williams e Khalifa St.Fort (uma promessa de Trinidad & Tobago) as suas principais apostas.

Muitas vezes acusado por colegas de profissão de ser um “curioso” que não sabe o que está a fazer, os métodos de Ato Boldon estão, para já, a mostrar-se assertivos, com os resultados a aparecerem a olhos vistos. O técnico continua a sua aposta em não sobrecarregar os seus atletas com demasiadas provas, apostando criteriosamente nas provas a participar e focando o pico de forma para os meses de verão. Boldon começou a sua carreira sem cursos de treinador, sem certificados e raramente é visto a dar conselhos a nível de treinos nas redes sociais – como se vê em muitos técnicos norte-americanos. Confessa que baseia a sua metodologia na sua experiência e naquilo que sabe de outros desportos. Procura atualizar-se tecnologicamente (sem esquecer métodos clássicos), afirmando que os técnicos de outros desportos estão bastante mais avançados – a nível de treinos e de aplicações tecnológicas – do que os do Atletismo, que é onde vê o futuro do treino do nosso desporto.

 

Também em Trinidad & Tobago, Boldon, que foi o primeiro campeão mundial daquele pequeno país das Caraíbas, é alvo de contestação e polémica.

Muitos acusam Ato Boldon de competir contra o seu próprio país, dizendo que o técnico favorece Briana Williams em relação à promessa de Trinidad, Khalifa St. Fort. As acusações são negadas por Ato Boldon, que, ainda assim, não deixa de atacar sucessivamente a Federação Nacional e grande parte dos media, utilizando também, como bandeira, os feitos da jovem St.Fort, afirmando que esta é a mais bem-sucedida atleta nacional dos últimos anos, com 8 medalhas internacionais entre 2015 e 2017. Constata ainda que ele também é parte desse sucesso, explicando o seu 2018 de menor rendimento com a normalmente difícil transição para atleta sénior.

O futuro

Nunca é fácil de projetar o futuro de um(a) jovem, que tanto pode vir a confirmar as credenciais, como pode vir a revelar-se uma enorme promessa sem resultados enquanto sénior. Várias vezes apontada como a maior promessa da velocidade feminina mundial – a norte-americana Candace Hill – enfrentou um ano dificílimo de transição. Em 2018, contou com 0 vitórias e tempo bem longe do que aqueles que já havia feito. A jovem relata aquilo que passou durante este ano num recente artigo para a IAAF, lançado este semana.

Ainda assim, Boldon não deixa de apontar alto e coloca os objetivos de Briana nas grandes competições dos próximos anos, incluindo os Jogos Olímpicos de Tóquio e Los Angeles, relembrando que ele próprio é um dos poucos atletas da história a alcançar títulos mundiais na velocidade quanto jovem e depois como sénior também. Será que veremos Briana já nos Mundiais de Doha? Não será nada fácil. Num país que, na velocidade, (de 100 e 200) conta com nomes como Elaine Thompson, Shelly-Ann Fraser-Pryce, Shericka Jackson ou Jura Levy, a qualificação e apuramento nunca será fácil. Sendo que já não existem Mundiais Juvenis (a última edição foi em Nairboi, em 2017), poderemos ter dois tipos de abordagem de Ato Boldon e Briana: uma abordagem a pensar numa possível qualificação para os Mundiais de Doha, com o foco nos Trials Jamaicanos, ou poderemos ter um ano mais resguardado de Briana, com o foco total na preparação para os Jogos de 2020, em que já terá 18 anos e certamente objetivos superiores. Qualquer uma das possibilidades parece ser forte neste momento – embora, na entrevista ao IAAF Inside Athletics, a jovem tenha dito que quer estar em Doha -, mas, para já, a certeza é a de que 2018 foi um ano que Briana Williams nunca irá esquecer e que a colocou definitivamente nas bocas do mundo.

Briana Williams e Kevona Davis prometem muito para o futuro jamaicano
Fonte: IAAF

Texto revisto por: Mariana Coelho

Foto de Capa: Spikes IAAF

Pedro Pires

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