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Diamond League 2018 – Os 16 vencedores de Zurique: Kipruto até descalço!

Pedro Pires · 12 min

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Decorreu ontem em Zurique o primeiro dia de finais da Diamond League, com a consagração de 16 campeões, que levaram para casa o troféu de Diamante, bem como o prémio de 50.000 dólares.

No geral, os resultados ficaram ligeiramente abaixo do esperado a nível de marcas, com exceção para os Lançamentos, onde assistimos a um grande nível no Dardo e no Peso! Existiu também muita emoção nas provas do meio-fundo e do fundo e na velocidade Noah Lyles não desiludiu! Destaque ainda para a vitória de muitos nomes “suspeitos”, atletas habituados a estas andanças, que nem eram dados como os principais favoritos (Dalilah Muhammad, Ekaterini Stefanidi ou Conseslus Kipruto à cabeça).

Vamos então às finais:

100 metros (F): Uma falsa partida de Blessing Okagbare (NIG) pode ter mudado toda a história desta final. Marie-Josée Ta Lou (CIV) apenas tinha vitórias em 2018 (nos 100 metros) e Dina Asher-Smith (GBR) vinha de um tempo líder mundial igualado com a costa-marfinense, com o brilharete de Berlim. Mas ambas não conseguiram reagir à fantástica partida de Murielle Ahouré (outra costa-marfinense), nada intimidada com a falsa partida da nigeriana, uma vez que ela sabe que será sempre mais rápida que as adversárias a sair dos blocos e nos primeiros 60 metros de prova. Havíamos alertado para essa possibilidade na nossa antevisão e o troféu acabou mesmo por ir para a atleta que já havia conquistado o título mundial dos 60 metros em pista coberta este ano.

Ahouré correu em 11.01 (-0.5), com Dina Asher-Smith na segunda posição em 11.08 e Ta Lou na terceira em 11.10. Uma vez mais, Ta Lou não conseguiu sagrar-se vencedora numa final, voltando a ficar com um gosto amargo na boca.

200 metros (M): Já se perspetivava que seria um duelo entre Noah Lyles e Ramil Guliyev, com um ligeiro favoritismo para o norte-americano e foi isso mesmo que se comprovou na pista. Os dois já saíram da curva na frente da prova – depois de Lyles não ter partido bem, outra vez – e a vantagem que Noah Lyles aí tinha, ainda se alargou até ao final. O norte-americano fortíssimo, mais uma vez, correu em 19.67 segundos (-0.2), a apenas um centésimo de igualar o recorde do meeting que pertence a Usain Bolt. Antes da prova começar e depois da mesma terminar, Noah Lyles deu o seu espetáculo particular em pista, algo a que nos já vem habituando, o que se tem tornado por si só um outro motivo de interesse.

No segundo lugar, Ramil Guliyev, o turco mais uma vez consistente abaixo dos 20 segundos (19.98), mas desta vez sem conseguir terminar tão forte quanto em Berlim. No terceiro, Jereem Richards (TTO), próximo do seu melhor, em 20.04 segundos.

400 metros (M): Era uma das provas que se previa com um nível menos forte e tal veio-se a confirmar também. Steven Gardiner (BAH) estava a ser o mais rápido em pista, quando começou a abrandar, não conseguindo terminar, ficando-se por cerca de 300 metros de prova. Pensou-se que poderia ser um agravamento da sua lesão na perna esquerda, mas curiosamente desta vez o problema foi na direita (o que não quer dizer que não possa estar relacionado, por, por exemplo, o atleta tentar proteger-se, em demasia, da lesão anterior). Assim, a vitória foi naturalmente para Fred Kerley em 44.80.

A pista 4 vazia após a lesão de Gardiner
Fonte: IAAF

O segundo lugar para outro norte-americano, Nathan Strother em 44.93 e o campeão europeu Matt Hudson-Smith (GBR) a chegar em terceiro em 44.95 segundos.

800 metros (F): Caster Semenya foi ainda mais dominante do que habitualmente, uma vez que foi sozinha para a frente da prova desde muito cedo e nunca mais largou a liderança terminando em 1:55.27.

A enorme vantagem de Semenya
Fonte: IAAF

Mais um belo tempo da sul-africana, que teve que adotar aqui uma estratégia diferente, muito por culpa da ausência de lebres nesta final, ao contrário do que é habitual em eventos Diamond League. Depois, veio a maior surpresa! Francine Nyonsaba não terminou nem em 2º nem no 3º lugar – aliás, terminou em 6º. Foi a primeira vez que a atleta terminou uma prova da Diamond League fora dos 3 primeiros lugares, tendo-se estreado no Mónaco em 2012! No segundo lugar, ficou a norte-americana Ajee Wilson, ao correr em 1:57.86 e no terceiro chegou a jamaicana Natoya Goule com um tempo de 1:58.49.

1500 metros (M): Esperava-se que fosse uma disputa a dois entre os quenianos Timothy Cheruiyot e Elijah Manangoi e foi isso que aconteceu. E se até aos 100 metros finais, as coisas até pareciam equilibradas, na reta da meta Cheruiyot disparou e Manangoi não conseguiu esboçar qualquer reação.

Cheruiyot a renovar o título da Diamond League, coroando uma época de grande nível
Fonte: IAAF

Cheruiyot, que é o líder mundial, revalidou o título na Diamond League correndo em 3:30.27 e Manangoi foi segundo em 3:31.16, vendo Ayanleh Souleiman (DJI) chegar colado a si em 3:31.24. Curioso é observar que Cheruiyot venceu todos os 4 duelos com Manangoi em provas Diamond League nos últimos 12 meses, enquanto que, no mesmo período de tempo, perdeu as 3 finais de grandes campeonatos que disputou com Manangoi: Mundiais, Jogos da Commonwealth e Campeonatos Africanos!

5000 metros (F): Era uma das provas mais esperadas da noite e não desiludiu! Não se sabia que tipo de estratégia seria adotada, mas havia em pista protagonistas capazes de se adaptar a qualquer tipo de prova. O tempo não foi o mais rápido, o que se explica pelo facto da corrida “não ter partido” demasiado cedo, tendo existido várias alterações de ritmo ao longo da mesma, provando-se bastante tática. No entanto, isso foi o suficiente para retirar Genzebe Dibaba do jogo, que mais uma vez não soube lidar com a estratégia adotada pelas adversárias. A atleta etíope volta em 2018 a apresentar-se cansada na fase da época em que deveria estar no seu pico, tendo voltado a mostrar o seu melhor rendimento na temporada indoor e nos primeiros tempos da temporada outdoor. Terminou longe, no 6º lugar, num pouco habitual tempo de 14:50.24. Na frente da prova, um duelo apaixonante entre Hellen Obiri (KEN) e Sifan Hassan (HOL), com uma volta final daquelas que dará gosto rever várias vezes, com as duas atletas a dar tudo o que tinham e não tinham.

A queniana venceu em 14:38.39, tendo corrido a última volta na casa dos 58 segundos, com os 200 metros finais a serem percorridos em 27.39 segundos! No final, Sifan Hassan mostrou-se frustrada por ter feito uma prova de grande valia e de ter sprintado desde muito cedo, sem que isso tivesse chegado para a conquista do Diamante, terminando em 14:38.77. No terceiro lugar, chegou a etíope Senbere Teferi, em 14:40.97.

400 metros barreiras (M): Sabia-se que iria ser uma prova equilibrada entre Karsten Warholm – o campeão mundial – e Kyron McMaster – o vencedor da Diamond League 2017. McMaster acabou mesmo por revalidar o título, com uma chegada ao limite, decidida no photo finish! O atleta das Ilhas Virgens Britânicas terminou em 48.08 e o norueguês em 48.10, não sendo suficiente o seu derradeiro esforço. No terceiro lugar, chegou Yasmani Coppelo (TUR) em 48.73 segundos.

No final, podia perceber-se a frustração de Karsten Warholm por desperdiçar esta oportunidade de vencer o Diamante, num dia em que Abderrahman Samba não estava em prova. Para o ano, além de Samba, haverá Rai Benjamin, pelo que se prevê que a dificuldade será ainda maior. Interessante é também constatar que daqui a uma semana na final da IAAF Continental Cup, Samba, McMaster e Warholm estarão lá todos, uma vez que todos representam um diferente continente!

400 metros barreiras (F): A irregularidade da campeã olímpica Dalilah Muhammad (USA) retirava-lhe algum do favoritismo à entrada para esta final de ontem. Além disso, Janieve Russell (JAM) e Shamier Little (USA) vinham fazendo uma boa época, com emocionantes duelos pelo caminho. Acontece que ontem a campeã olímpica estava naqueles dias em que parece de um outro nível. Controlou a prova, agarrou-se à liderança e na entrada para a reta da meta já poucas dúvidas existiam de que ela não deixaria a vantagem fugir, também ela revalidando a conquista do troféu.

https://www.youtube.com/watch?v=bGt70XVt8TU

No segundo lugar, chegou Shamier Little em 54.21 e no terceiro a jamaicana Janieve Russell em 54.38, parecendo chegar a esta fase da época já cansada, o que se compreende por a época ao ar livre, no seu caso, ter iniciado bastante cedo com os Jogos da Commonwealth, onde se sagrou campeã.

3.000 metros obstáculos (M): É daquelas provas que vai perdurar na história e que um dia contaremos aos nossos netos. Conseslus Kipruto é o atual campeão mundial e olímpico. No entanto, o queniano não chegava a Zurique como o grande favorito. Não estava a ser a sua melhor temporada a nível de marcas e de consistência e até havia um marroquino – El Bakkali – que havia sido Prata nos Mundiais do ano passado, que este ano já havia corrido abaixo dos 8 minutos, sendo o líder mundial. Tudo se agravou para Kipruto quando cedo na prova – e quando dizemos cedo, foi com apenas pouco mais de 1 minuto decorrido – perdeu o seu sapato esquerdo, sendo obrigado a fazer assim a grande maioria da distância – e com obstáculos, claro! Mas sabem que mais? Kipruto venceu o Diamante e venceu-o de forma épica, ao sprint, batendo El Bakkali!

O queniano terminou em 8:10.15, o marroquino em 8:10.19, com o norte-americano Evan Jager na terceira posição em 8:13.22. Após a prova, Bakkali não conseguia esconder o seu desapontamento, terminando em lágrimas. Kipruto, esse, foi o herói da noite e o mais aplaudido na hora da entrega dos troféus!

Salto em Altura (F): Com 7 atletas a falhar a altura de 1.90 metros, cedo começou-se a desenhar o desfecho da competição. Apenas duas passaram a 1.94 metros, sendo que a alemã Marie-Laurence Jungfleisch terminaria no terceiro lugar com 1.90 metros. 1.94 metros foi o salto máximo de Yuliya Levchenko, sendo que a vitória de Lasitskene foi ainda mais fácil do que era esperado, bastando um salto válido de 1.97 metros (e ela até falhou a primeira tentativa).

Mais uma vitória para a russa que voltou a demonstrar-se pouco satisfeita com o resultado
Fonte: IAAF

Depois, a russa, não conseguiu qualquer salto a 2 metros, parecendo demonstrar algum desgaste – físico ou mental? – nesta altura da temporada. Em declarações, no final, voltou a mencionar que a nível do resultado não é bom e que esperava mais. Nada que a deva preocupar em demasia: as outras atletas encontram-se na mesma situação e o que saltou foi o suficiente para conquistar mais um diamante – o seu terceiro na carreira.

Salto Com Vara (F): Mais uma vez, a grega Ekaterini Stefanidi provou que está talhada para os grandes momentos, para finais, para onde realmente importa o desempenho! E mais uma vez, nós não tínhamos apostado nela! Stefanidi tem neste momento o título olímpico, o título mundial, o título europeu e a Diamond League. Todas as grandes competições ao ar livre são dela. É certo que perdeu o título de pista coberta para Sandi Morris (USA) nesta temporada e que não vinha a fazer a época mais deslumbrante a nível de marcas, mas ontem, e já depois do título europeu, foi a Zurique fazer o seu melhor salto da temporada e com 4.87 metros sagrou-se a vencedora da edição 2018, o seu terceiro troféu de Diamante consecutivo.

Morris, mais uma vez atrás de Stefanidi, terminou na segunda posição com o melhor salto a ficar-se pelos 4.82 metros, mas ganhou um outro diamante e (acreditamos) com mais significado: foi proposta em casamento por Tyrone Smith, o seu companheiro, também ele atleta, também saltador, mas no Comprimento! Voltando ao desporto, no terceiro lugar ficou a russa Anzhelika Sidorova, que também saltou como melhor 4.82 metros.

Salto em Comprimento (M): Não foi o melhor dos concursos que vimos este ano – longe disso – e a vitória de Luvo Manyonga (RSA) até esteve perigosamente em risco. À entrada para o último salto, quem liderava o concurso era o outro sul-africano, Ruswahl Samaai. Ambos tinham saltado 8.32 metros, mas o segundo salto de Samaai era maior do que o de Manyonga (8.30 / 8.25). Mas no último salto, Luvo Manyonga sacou o melhor de dentro de si e fez mais 4 centímetros do que anteriormente, com os 8.36 (+0.3) a serem suficientes para vencer o troféu e evitar o mesmo desfecho dos Campeonatos Africanos.

Manyonga também havia sido o vencedor em 2017. No terceiro lugar, ficou o australiano Henry Frayne, ao saltar 8.16 metros (+1.2).

Triplo Salto (F): Tal como no Comprimento masculino, também aqui se esperava que a marca vencedora fosse melhor. A vencedora, no entanto, foi a esperada Caterine Ibarguen! A colombiana saltou 14.56 metros (-0.3), logo ao segundo ensaio, para a vitória, mas ainda sofreu um valente susto quando viu a jamaicana Shanieka Ricketts fazer um grande salto na sua quinta tentativa, próxima do seu recorde pessoal, salto esse que se viria a verificar ser de 14.55 metros (-0.8)! E como o segundo salto de Ricketts foi melhor que o de Ibarguen, pode-se literalmente dizer que a jamaicana perdeu o troféu e o prémio monetário de primeira classificada por apenas 1 (!) centímetro.

São já 5 os troféus de Diamante que Ibarguen tem por casa!
Fonte: IAAF

No terceiro lugar, ficou outra jamaicana, neste caso, Kimberly Williams, que saltou 14.47 metros (+0.3), também na sua quinta tentativa. Hoje teremos a oportunidade de ver Ibarguen na final do Comprimento em Bruxelas, numa tentativa inédita de juntar o título do Comprimento ao do Triplo no mesmo ano.

Lançamento do Peso (M): Uma das competições mais incríveis de Zurique, com resultados verdadeiramente sensacionais. No primeiro lugar ficou Tom Walsh (NZL), com um fantástico lançamento de 22.60 metros logo à segunda tentativa! A marca obtida significa não só um novo recorde do meeting (destronando uma marca de Randy Barnes de há 30 anos atrás!), mas também um novo recorde da Diamond League para o atleta neozelandês, que tem tido um 2018 de elevado nível, dando continuidade ao seu excelente 2017.

Na segunda posição o norte-americano Darrell Hill, que na sua carreira apenas tinha lançado uma vez acima dos 22 metros e que ontem lançou 4 vezes acima dessa marca! Os seus 22.40 são também o seu melhor da temporada e o mesmo deverá estar a pensar como foi possível apenas chegar para o segundo lugar. No terceiro, o campeão olímpico Ryan Crouser (USA) que lançou também acima dos 22 metros, com 22.18. Na quarta posição, pouca sorte para Darlan Romani, o brasileiro que está numa excelente forma, mas que tem o azar de estar perante uma muito talentosa geração. Lançou 21.94 metros, um lançamento que lhe daria para conquistar 5 Ouros e 4 Pratas em eventos globais (Mundiais e Olímpicos) nos últimos 11 anos!

Lançamento do Dardo (M): Na antevisão pedíramos um lançamento acima dos 90 metros e foi-nos feita a vontade! Andreas Hoffman não conseguiu triunfar nos Europeus, mas foi a Zurique alcançar uma merecida vitória na Diamond League, a coroar uma época de grande qualidade do atleta alemão, que também conquistou o título nacional. Ontem lançou a 91.44 metros, no seu terceiro lançamento, não dando qualquer hipótese à concorrência.

Foi como resposta aos 87.57 metros de Magnus Kirt (EST), marca que viria a dar ao atleta da Estónia a segunda posição. No terceiro lugar ficou Thomas Rohler, o campeão europeu e olímpico, com um último lançamento a 85.76 metros. Foi a primeira grande conquista internacional, como sénior, para Andreas Hoffman.

Lançamento do Dardo (F): Um lançamento de 66.99 metros de Tatsiana Khaladovich (BLR) na última tentativa foi o suficiente para mudar todo o cenário e para dar à atleta da Bielorrussa o troféu em Zurique.

A vitória de Khaladovich surpreendeu
Fonte: IAAF

Até aí quem dominava era a chinesa Liu Shiying que havia lançado 66.00 metros no seu terceiro ensaio, marca que chegou para o segundo lugar. No terceiro, ficou a norte-americana Kara Winger, com o seu melhor da temporada, um lançamento a 64.75 metros. A grande surpresa foi a fraca prestação de Huihui Lyu (CHI), ela que era a grande favorita à vitória ontem, mas que não conseguiu melhor do que um quarto lugar, com 63.53 metros.

Os vencedores de Zurique
Fonte: IAAF

Foto de Capa: Zurich Diamond League

Pedro Pires

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