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Se em pista coberta a atleta etíope tem demonstrado sucessivamente a sua superioridade, o mesmo não tem acontecido de forma tão acentuada ao ar livre. Depois de um 2014 de altíssimo nível, a atleta etíope viria a conquistar o título mundial um ano depois em Pequim, já depois de alcançar o recorde mundial dos 1.500 metros.
A medalha de Pequim é, ainda assim, o único Ouro em eventos globais de uma atleta que um dia se pensou que poderia vir a ser ainda maior do que a sua irmã. Será ainda possível?
O domínio absoluto na Pista Coberta

Fonte: IAAF
Genzebe Dibaba, irmã mais nova da recordista mundial dos 5.000 metros – Tirunesh – cedo pareceu que poderia vir a ser tão dominante quanto a sua irmã o foi. Tirunesh, mais velha quase 6 anos, tem um impressionante registo em eventos globais, onde soma 8 medalhas de Ouros, 1 de Prata e 3 de Bronzes entre as distâncias dos 5.000 e os 10.000 metros. Tem também 4 Ouros mundiais conquistados no Crosse como sénior.
O perfil de Genzebe é diferente do da sua irmã, mais talhada para a meia do que para a longa distância, também mais talhada para provas indoor e todo o mundo percebeu isso quando em fevereiro de 2014 alcançou 3 recordes mundiais de pista coberta no espaço de 15 dias! O seu estilo marcado pelo controlo das provas, capaz de correr desde cedo sozinha, mas também com a capacidade de realizar voltas finais estonteantes, permite-lhe encarar com facilidade provas mais rápidas, sendo os 1.500 metros a sua distância de eleição.
Depois do brilharete de Birmingham, a atleta etíopa soma já 5 títulos mundiais em pista coberta. O primeiro foi logo em 2012, em Istambul, quando ainda tinha 21 anos, na prova de 1.500 metros. Dois anos depois iria a Sopot conquistar o título nos 3.000 metros, conquista que viria a repetir em 2016 em Portland. Para Birmingham, em 2018, a atleta tinha elevadas expectativas de fazer o que nunca alguém tinha feito e fez mesmo.
Mesmo diante de competição de peso de alguns dos nomes mais fortes a nível mundial – Sifan Hassan, Laura Muir ou Hellen Obiri estavam presentes – a atleta foi totalmente dominadora e no fim-de-semana alargado de Birmingham alcançou a dobradinha, com vitórias esclarecedoras nos 1.500 e nos 3.000 metros. A atleta parecia, assim, dissipar algumas dúvidas que vinham de prestações do ano transato, mostrando estar próxima da sua melhor forma, mas ainda faltava a temporada ao ar livre.
O domínio de Genzebe na Pista Coberta não deve, ainda assim, ser unicamente explicado através dos títulos. Na verdade, a atleta não perde uma prova desde 2010 (!), um registo verdadeiramente impressionante, especialmente para um(a) atleta do meio-fundo.
Se a sua superioridade em pista coberta ainda precisar de validação, podemos também referir que a etíope tem em sua posse todos os recordes mundiais de pista coberta das distâncias entre os 1.500 e os 5.000 metros! 1.500 metros, Milha, 2.000 metros, 3.000 metros, 2 milhas, 5.000 metros…nunca ninguém correu mais rápido do que ela num pavilhão em qualquer ponto da história em qualquer destas distâncias!
https://www.youtube.com/watch?v=k_mdSvi1nfI
O domínio ao ar livre que foi de curta duração
O ano de 2014 de Genzebe Dibaba foi tão marcante que até lhe valeu no início de 2015 um galardão Laureus de desportista do ano. Foi a primeira personalidade do desporto etíope a arrecadar o prémio e para isso muito contribuíram as fantásticas prestações em pista coberta, bem como alguns importantes feitos ao ar livre, como a marca líder mundial nos 5.000 metros e a vitória nos 3.000 metros da Continental Cup.
Ainda assim, quando falamos da competição ao ar livre, apesar de apresentar excelentes marcas desde 2012, foi em 2015 que vimos o melhor de Genzebe, tendo sido considerada a atleta do ano pela IAAF. Começou o ano a correr os 5.000 metros com vários tempos de enorme valia, com o grande destaque a serem os 14:15.41, em Julho, em Paris, marca que a coloca, ainda aos dias de hoje, como a 4ª atleta mais rápida da história da distância. Apenas 4 dias depois foi a Barcelona percorrer os 1.500 metros em 3:54.11, marca que significava um grande recorde pessoal e que é ainda hoje a sua segunda melhor marca na distância.
Mas, menos de duas semanas depois dessa prova de Barcelona, foi ao Mónaco correr a mesma distância em impensáveis 3:50.07, um grande recorde mundial, batendo uma marca (3:50.46) que se pensava imbatível – e que sempre levantou muitas interrogações – da chinesa Yunxia Qu, datada de Setembro de 1993.
As marcas que Genzebe trazia para os Mundiais de Pequim tornavam-na como a principal favorita para a final dos 1.500 metros e uma das principais nos 5.000 (Ayana já tinha corrido ligeiramente mais rápido do que ela nesse ano). Primeiro realizou-se a qualificação e a final dos 1.500 metros, que se traduziu numa final – como é habitual em eventos globais – bastante tática e lenta, com a vitória controlada de Genzebe no seu único título global. Na final dos 5.000 metros, acabou por acusar algum cansaço e ficou-se pela medalha de Bronze.
Um ano depois, tinha a oportunidade no Rio de alcançar o seu primeiro Ouro olímpico. Tinha sido um ano estranho para a atleta etíope com poucas provas realizadas decorrentes de alguns problemas físicos e problemas com o seu treinador e consequente preparação. Ainda assim, afirmava estar na sua melhor forma na antecâmara para os Jogos, embora desta vez a prova tática tenha beneficiado Faith Kipyegon, que fez uso de um enorme kick final para bater Genzebe, que se viria a ter que se contentar com a Prata.
2017 estava a ser outro ano marcado por alguma inconsistência, tendo a atleta começado bastante bem em a época ao ar livre, mas perdendo fulgor na chegada aos Mundiais de Londres, tendo uma dececionante prestação. Na final dos 1.500 metros, totalmente irreconhecível, foi a mais lenta das que terminaram a prova, no 12.º lugar. Não se sentindo nas melhores condições acabaria por abdicar de participar na prova dos 5.000 metros.
Por fim, tivemos 2018. Um ano daqueles que os atletas não-europeus gostam de apelidar como “ano-off” devido à ausência de grandes eventos globais. Tal facto não parecia ser motivo de incómodo para Genzebe. Afinal a etíope teve um dos seus melhores anos da carreira em 2014, sem eventos globais ao ar livre.
Depois de uma irrepreensível temporada em pista coberta, poderia pensar-se que a atleta iria arrancar para um ano muito rápido ao ar livre e os 3:56.68 nos 1.500 metros de Chorzów – que acabaram mesmo por ser a marca líder mundial do ano – pareciam também indicar isso. Venceu os 5.000 em Eugene, mas terminou a época de forma muito tímida com desapontantes prestações nos 5.000 metros de Rabat (6ª) e depois na final da Diamond League em Zurique, onde também foi apenas 6ª em 14:50.24.
Pista Coberta x Ar Livre
Genzebe Dibaba é uma atleta de elite tanto em pista coberta quanto ao ar livre e possui algumas das prestações mais marcantes da história do meio-fundo em qualquer tipo de ambiente. Não podemos também esquecer que além do título mundial de 2015, é também a recordista mundial dos 1.500 metros ao ar livre. Ainda assim, é indesmentível que o enorme sucesso e avassalador domínio da atleta em pista coberta não tem tido exatamente o mesmo seguimento ao ar livre.

Fonte: IAAF
Muitos poderão apontar que um dos fatores que explica essa diferença a nível de títulos é o facto de algumas dessas atletas que a bateram ao ar livre não apostarem na pista coberta – e é verdade tanto para Almaz Ayana, como para aquela que tem sido a dominadora nos 1.500, Faith Kipyegon. Ainda assim, isso não explica a fraca prestação de Genzebe nos Mundiais de Londres por exemplo.
Recorde-se também que em 2012 a atleta já vencia títulos globais indoor, mas ao mesmo tempo falhava o apuramento para a final dos Jogos de Londres ao lesionar-se em pista, enquanto que no ano seguinte viria apenas a ser 7ª (nos 1.500 metros) nos Mundiais de Moscovo. Mesmo olhando para exemplos mais recentes, Genzebe tem sido batida ao ar livre por algumas atletas que em pista coberta não conseguem alcançar o seu nível, como Hellen Obiri ou Sifan Hassan.
É claro que o estilo de corrida da atleta também se beneficia no ambiente indoor, onde a própria se confessa à vontade, não tendo qualquer problema com a repetição e as muitas voltas à pista. Ainda assim, foi esta mesma Dibaba que um dia disse que pretendia bater todos os recordes ao ar livre, desde os 800 metros aos 10.000 metros.
O potencial está seguramente lá e isso é comprovado todos os anos, pois desde 2012 que a atleta, em algum ponto da sua temporada, tem alcançado algumas das mais rápidas marcas do respetivo ano. A pressão de seguir os passos de Tirunesh – hoje dedicada à Maratona – e de ser a grande referência internacional etíope sempre esteve nos ombros de Genzebe e não parece que seja esse o motivo que explique a diferença de performances.
No entanto, analisando as performances de Genzebe Dibaba ao longo da sua carreira sénior nota-se um certo padrão que parece apontar para picos de forma numa fase precoce da temporada, o que pode prejudicar na conquista de títulos ao ar livre. Nos últimos 2 anos, as suas melhores performances ocorreram sempre na suas primeiras provas da temporada – independentemente das distâncias. À exceção de 2016 – que foi um ano atípico devido às poucas provas feitas – a tendência para alcançar os melhores resultados nas primeiras provas ao ar livre verifica-se até nos melhores anos da sua carreira.
Este será, portanto, um fator a ter em especial atenção para 2019, um ano em que os Mundiais se realizarão numa fase ainda mais adiantada do calendário civil.
A polémica chamada Jama Aden
Genzebe Dibaba tem estado também no centro das atenções depois do seu ex-treinador, Jama Aden, ter sido detido em Junho de 2016 em Espanha. Aden – que também colaborou com Mo Farah – está acusado de utilizar métodos e substâncias proibidas nos seus atletas, depois de terem sido apreendidas em sua posse várias substâncias consideradas dopantes.
Embora o nome de Genzebe Dibaba nunca tenha estado diretamente implicado em qualquer caso de doping, a verdade que várias atletas chegaram mesmo a cortar relações com a etíope por suspeitarem que as suas performances tenham sido obtidas com a ajuda de substâncias dopantes. O caso mais famoso é o de Laura Muir, que após as finais dos Mundiais de Pista Coberta de Birmingham (Muir alcançou uma Prata e um Bronze), se recusou a cumprimentar Genzebe, afirmando que “a sua associação com um determinado treinador não é saudável para o desporto”. Desde setembro de 2017, e enquanto a investigação e acusação decorrem, Genzebe tem tido o seu treino à responsabilidade de Hussein Shibo e Tolera Dinka, embora tenha sempre evitado falar do tema.
Tendo o escândalo rebentado no verão de 2016 e tendo a atleta falhado algumas vezes desde dessa altura, parte da imprensa norte-americana e especialmente britânica – com a ajuda de certos agentes desportivos – têm lançado sucessivas acusações em relação às performances da atleta. Ainda assim, já depois da polémica, em 2016, a atleta correu os 1.500 metros em 3.57.31.
Em 2017 obteve várias marcas de nível similar na fase inicial da temporada ao ar livre, além de ter até batido recordes mundiais em Pista Coberta. Em 2018 venceu os Mundiais Indoor em duas distâncias, tendo também voltado a obter boas marcas ao ar livre no início da temporada.
2015 é, indiscutivelmente, o ano em que a atleta alcançou as melhores mundiais ao ar livre, mas observando não só as melhores marcas, mas a média dos seus melhores resultados, não se observa de imediato uma correlação que demonstre que os tempos de Genzebe estão mais fracos que em 2014, por exemplo. Não estão é a ser obtidos no local e na época certa ao ar livre.
Pode 2019 ser o ano do regresso aos títulos globais ao ar livre?
Acima de tudo, Genzebe quererá regressar à luta, depois de uns péssimos Mundiais de Londres e de ter falhado também na final da Diamond League de 2018. Será interessante perceber qual a abordagem da atleta à pista coberta, uma vez que parece-nos que a sua excessiva obsessão com provas bastante rápidas – e recordes – nesta fase da temporada tem acabado por prejudicar a sua forma na parte final e decisiva das temporadas ao ar livre.
Os Mundiais de Doha serão apenas no final de Setembro, o que até pode permitir a Genzebe fazer a pista coberta em busca de recordes – como gosta – e depois fazer uma pequena pausa antes de atacar a temporada ao ar livre. Tudo é possível neste ano e toda a planificação poderá ser diferente. Uma coisa parece-nos certa: à beira de completar 28 anos, o ciclo de 3 eventos globais em 3 anos que agora se inicia, é provavelmente a melhor oportunidade que Genzebe terá até ao final da sua carreira de deixar ao ar livre a mesma marca que já deixou nos pavilhões.

Fonte: IAAF
Foto de Capa: IAAF









