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Os Mundiais Juniores de Tampere que decorreram esta semana foram uns campeonatos recheados de surpresas, de recordes vindos um pouco de todo o lado e de estrelas, claro. Portugal teve, no geral, uma honrosa prestação, com a melhor pontuação desde 2002, destacando-se o quarto lugar de Mariana Machada e mais uma série de bons resultados que fazem acreditar num futuro esperançoso para o nosso Atletismo.
Os Portugueses
O 4º lugar de Mariana Machado nos Mundiais Juniores de Tampere é um enorme feito da atleta de Braga, sendo o grande destaque da participação portuguesa na Finlândia. Já se sabia que Mariana estava a ter uma época de grande qualidade, com a obtenção do recorde nacional júnior – em 4:13.31 – sendo à entrada para estes Mundiais a 5ª melhor a nível mundial. Em Tampere mostrou que não teme os grandes desafios e, aos seus 17 anos (fará 18 em Novembro), foi à cidade finlandesa realizar uma grande prova e correr em 4:14.93, o seu segundo melhor tempo de sempre, nunca, ao longo da prova, demonstrando qualquer medo de andar no grupo da frente. A medalha de Mariana Machada iguala o feito de Carla Sacramento na mesma distância (foi 4ª em Plovdiv, em 1990) e desde 2006 que Portugal não alcançava uma posição tão elevada (quando Patrícia Mamona foi 4ª no Triplo Salto). Mais uma vez, Mariana Machado, que é filha de Albertina Machado, assume-se como uma das maiores esperanças portuguesas no meio-fundo.
Na restante comitiva, existem outros bons resultados a destacar. Dois atletas conseguiram recordes pessoais e outras marcas de enorme valia foram obtidas na Finlândia. Marcelo Pereira (1:49.49 nos 800 metros) e Catarina Lourenço (24.03 (+0.2) nos 200 metros) foram os atletas que bateram as suas melhores marcas e, com isso, conseguiram o apuramento para as fases seguintes, no caso, as meias-finais. A atleta da Fundação Salesianos entrou para 2018 com um melhor pessoal de 24.54 (+0.3) e, certamente, por essa altura não imaginava a bela prestação que viria a ter nos Mundiais.
Outro atleta que conseguiu passar para a fase seguinte foi Emanuel Sousa que viria a ser 12.º classificado na final do Disco. A segunda melhor prestação portuguesa nos Campeonatos foi, no entanto, o nono lugar do declatonista Manuel Dias! Esteve muito próximo de bater o seu próprio recorde (que é também a melhor marca nacional com os engenhos juniores), fez 7212 pontos e conseguiu recordes pessoais no Salto em Altura (1.83 metros), no Salto Com Vara (4.60 metros), no Lançamento do Dardo (46.82 metros) e nos 400 metros (em 49.81!).

Fonte: FPA
Ainda assim, nem tudo foi um mar de rosas na nossa prestação. É verdade que alguns atletas valem mais (e as suas posições nos rankings mundiais e as marcas alcançadas anteriormente são prova disso) do que o que fizeram em Tampere, mas cada caso é um caso e existem muitos fatores que podem explicar isso. Através das conversas com vários atletas e através também de uma simples observação das redes sociais (onde podemos ver as comitivas estrangeiras constantemente em estágios internacionais ou em torneios com concorrência de elite), percebemos que a nossa exposição a eventos internacionais e a contextos mais competitivos continua a ser deficitária. Muitos atletas têm a sua primeira grande experiência no estrangeiro logo em campeonatos europeus ou mundiais, o que acaba por ser um choque e até acabam por voltar dessas experiências mais desencorajados do que quando partiram. As nossas palavras para esses atletas é para que continuem a trabalhar. Eles sabem o que valem e os resultados obtidos não mentem. Cada atleta tem os seus timings e as suas fases de desenvolvimento e é importante não saltar etapas. Estar presente em fases finais de grandes campeonatos já demonstra que fazem parte de uma elite.
Briana Williams. Mas não só.

Fonte: IAAF
Dos campeonatos, o grande destaque será mesmo a atleta jamaicana Briana Williams que chegou a estes Mundiais com apenas 16 anos (feitos em Março deste ano…) e que sai da Finlândia com duplo Ouro nos 100 e 200 metros. Williams não era a principal favorita em nenhum dos dois eventos. Essa honra estava reservada a Twanisha Terry nos 100 metros e a Lauren Williams nos 200 metros, duas norte-americanas. Nos 100 metros, Terry parecia em grande forma e até bateu o recorde dos campeonatos nas semi-finais em 11.03 (+0.4). No entanto, a jamaicana trazia algo na manga e na final conseguiu pressionar Terry com uma partida fantástica – aliada à má partida da norte-americana – e aos 40 metros da prova já levava uma vantagem que se revelou imbatível. Nos 200 metros, a história foi diferente. Sabia-se do forte arranque de Briana Williams, mas também se sabia que os 200 metros não eram a sua disciplina favorita e que nunca havia baixado dos 23 segundos. No entanto, a marca de 22.50 (-0.1) que fez na final revelou-se uma extraordinária surpresa e que se traduz num novo recorde dos campeonatos! O tempo é também o mais rápido na história feito por qualquer atleta juvenil não-americana e é um novo recorde nacional jamaicano sub-20 (sim, Williams tem 16!).
Outras grandes figuras apareceram e mostraram o seu valor no grande palco de Tampere. Armand Mondo Duplantis não falhou no Salto Com Vara e saltou um novo recorde dos campeonatos (em 5.82 metros) que deverá permanecer uns bons aninhos, antes mesmo de ter tentado ainda mais história acima dos 6 metros (não era o dia).

Fonte: Spikes/IAAF
Chespol nos 3.000 metros obstáculos, mais uma vez, provou que já tem um outro andamento e já não é a competições juniores que pertence (algum dia pertenceu?). Correu em 9:12.78, outro enorme recorde dos campeonatos para a atleta que também é, à semelhança de Duplantis, a recordista mundial júnior.
Mas o grande destaque destes Mundiais foi a imprevisibilidade. Muitos dos favoritos não conseguiram justificar esse estatuto e isso foi acontecendo à medida que recordes nacionais de nações com menos tradição iam caindo. Tivemos um campeão da velocidade vindo da Indonésia (Zohri em 10.18 (+1.2) nos 100 metros) e outra da Índia (Hima Das em 51.46 nos 400 metros). Na velocidade ainda, nos 400 metros masculinos, uma enorme surpresa com a derrota do superfavorito Christopher Taylor e a vitória do belga Jonathan Sacoor. Sim, há vida na Bélgica além dos irmãos Borlée! E que vida…Sacoor foi mesmo uma das figuras do campeonato, tendo baixado o seu recorde pessoal por duas vezes. Começou em 46.07 (como o 12º melhor) e terminou com uma medalha de Ouro e com um recorde pessoal de 45.03!

Fonte: IAAF
Nas restantes provas, as surpresas e os vencedores de países pouco habituados a estas andanças foram também uma constante. O Japão venceu a prova de 3000 metros no feminino, com a habitual tática de fugir para a frente da prova, esperando que o avanço chegue para bater as etíopes. Desta vez chegou e Nozomi Tanaka sagrou-se campeã mundial em 8:54.01, numa prova com 15 (!) recordes pessoais. Mas não pensem que a Etiópia saiu sem motivos para sorrir. Além de ter batido os rivais quenianos onde mais dói (o Quénia tinha 15 Ouros consecutivos nos Obstáculos masculinos e viu o etíope Nigate disparar para o Ouro), a marca da etíope Diribe Welteji nos 800 metros é daquelas que pode durar como recorde dos campeonatos. Correu em 1:59.74, baixando a barreira dos 2 minutos. Detalhe? Ela tem apenas 16 anos!
É impossível deixarmos a meia e longa distância, sem referirmos duas das provas mais emotivas dos campeonatos. Os 1500 e os 5000 masculinos tinham dois enormes favoritos, um deles campeão mundial sénior de Pista Coberta (Samuel Tefera nos 1500), o outro vencedor de importantes meetings da Diamond League (Selemon Barega nos 5000). Ambos ficaram surpreendentemente fora do pódio e o jovem norueguês Jakob Ingebrigtsen esteve nos dois! Uma Prata (nos 1500) e um Bronze (nos 5000), este último com direito a recorde europeu. Os vencedores foram os dois quenianos. Zakayo Pingua nos 5000 e Georges Manangoi – o irmão do campeão mundial sénior – nos 1500!
https://www.facebook.com/WorldAthleticsClub/videos/1756819367700226/
A final dos 1500!
Nos saltos, a tradição cubana não desiludiu no Triplo (Jordan Diaz bateu o recorde dos campeonatos, com 17.15), mas viu perder o Ouro no Comprimento para um…japonês! Yuki Hashioka foi o autor do feito, com um salto de 8.03 metros! Já no feminino, além das vencedoras surpreendentes na Vara (Amálie Svabikova, da Rep. Checa, ao saltar 4.51, novo recorde nacional) e no Comprimento (a alemã Riecke com 6.51 metros), temos que falar do enorme salto de Aleksandra Nacheva no Triplo (com 14.18 metros), embora a Bulgária seja tudo menos um país invulgar de ver por aqui.
Nos lançamentos, no feminino, destacamos o Ouro e a confirmação do pleno de títulos para Alexandra Emilianov no Disco (desta vez, 57.89 chegou) e para os Ouros no masculino para países tão distintos quanto a África do Sul (Blignaut venceu no Peso com 22.07 metros), a Jamaica (Kai Chang com um lançamento de 62.36 metros no Disco) , a Grã Bretanha (recorde nacional de Jake Norris com os 80.65 metros do Martelo) e o Dardo para a já habitual Austrália (Lowis com 75.31 metros). Por esta amostra, percebe-se a diversidade de medalhados e vencedores que existiram nestes mundiais. E por falar em diversidade, o que falar da última prova destes Mundiais? O Ouro 4×400 masculino foi para a…Itália! Nunca tal tinha acontecido em qualquer escalão!

Fonte: IAAF
No medalheiro, a grande notícia foi mesmo a “derrota” dos EUA. Foram o país com mais medalhas (18 no total), mas não lideraram o medalheiro (ficaram em terceiro) pois apenas obtiveram 3 medalhas de Ouro, sendo que só uma foi de um Ouro individual (e numa chegada ao limite na velocidade de barreiras, com o Ouro de Tia Jones).A comitiva norte-americana trazia grandes promessas e favoritos em várias disciplinas que acabaram por não cumprir com as expectativas que traziam. Por exemplo, nos 100 e 200 metros os norte-americanos eram os favoritos para os quatro Ouros e não obtiveram um único, sendo que o mesmo se passou com outros atletas que traziam marcas bem acima da concorrência, como é o caso de Tara Davis no Comprimento (foi Bronze). O país com mais Ouros foi o Quénia com seis, seguido pela Jamaica com quatro.

Fonte: IAAF
Foto de Capa: FPA













