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Mais uma vez, os NCAA – os campeonatos universitários norte-americanos – voltaram a mostrar performances e resultados impressionantes, caindo mesmo recordes de várias décadas. No entanto, há um fantasma que continua a pairar sobre as marcas alcançadas no evento.
Sha’Carri voou…e virou já profissional!
No passado dia 8 de Junho, Sha’Carri Richardson espantou todo o mundo ao correr os 100 metros em 10.75 segundos, uma marca que coloca a jovem de 19 anos no top-10 da história mundial da distância. Para se ter uma ideia da marca, fazemos um simples exercício: retiramos da equação a estratosférica (e muito suspeita) marca de Flo-Jo, os inatingíveis 10.49 que se mantêm como recorde mundial e vemos que a atleta mais rápida a seguir é Carmelita Jeter, com os seus 10.64 segundos corridos em Xangai em 2009. Pouco mais de um décimo de diferença para a marca de Richardson! Os 10.75 destruíram o anterior recorde mundial júnior – 10.88 de Marlies Göhr – que durava desde 1977!
A jovem ainda voltaria à pista 45 minutos depois para correr os 200 metros em 22.17, tornando-se também na nova recordista mundial júnior da distância (o anterior recorde pertencia a Allyson Felix desde 2004) e na primeira mulher da história (de qualquer idade) a correr no mesmo dia 100 metros abaixo dos 10.8 e 200 metros abaixo dos 22.2. Antes de entrar para esta temporada, os melhores pessoais de Sha’Carri eram de 11.28 aos 100 metros (em 2017) e de 23.28 nos 200 metros (também em 2017).
Poucos dias depois, Sha’Carri anunciou que iria já deixar a Universidade, tendo optado pela imediata profissionalização, provavelmente atraída por um contrato milionário e pela opinião de alguns especialistas, como Ato Boldon, que afirmou que este é o melhor momento para a atleta capitalizar o seu valor, pois será difícil melhorar muito mais as suas marcas, ainda que tenha apenas 19 anos, feito em Março deste ano.
Não foi apenas Sha’Carri a brilhar
O nigeriano Divine Oduduru, a jamaicana Janeek Brown ou os norte-americanos Grant Holloway e Daniel Roberts foram outros atletas com performances verdadeiramente do outro mundo. Janeek Brown, de 21 anos, correu os 100 metros barreiras em 12.40 segundos (2ª de sempre nos universitários), o que a torna na atual líder mundial do ano da disciplina. Oduduru, de 22 anos, que já vinha dando sinais de ser um outro atleta em 2019, correu os 100 metros em 9.86 (o que era marca líder mundial à data) e os 200 em 19.73 pouco tempo depois, tornando-se no 2º melhor resultado de 100 e 200 no mesmo dia (apenas abaixo dos 9.77/19.71 de Gatlin há 5 anos em Bruxelas). Nas barreiras masculinas, Grant Holloway (21 anos) e Daniel Roberts (21 anos) já vinham fazendo uma temporada incrível, competindo entre si e batendo recorde pessoais a cada meeting.
Na final de Austin, excederam-se e se Daniel Roberts igualou o anterior recorde universitário com 13.00, Grant Holloway correu abaixo dessa marca com os 12.98 a destronarem um recorde (de Renaldo Nehemiah) que durava desde 1979!
Porque os NCAA são considerados meetings de categoria inferior?
No dia seguinte a estas grandes performances sucedem-se sempre publicações e comentários de atletas, treinadores, jornalistas, fãs, que consideram injusto o facto das finais dos Campeonatos Universitários Norte-Americanos serem considerados pela IAAF um meeting de categoria C, abaixo de muitos meetings pelo mundo fora que se encontram numa categoria superior (as provas de qualificação para as finais dos NCAA ainda têm categorias bem mais abaixo, F). Esta classificação assume especial importância agora que os pontos para os novos rankings da IAAF são obtidos em função da categoria do ranking, podendo performances como a de Sha’Carri significarem menos pontos do que tempos na casa dos 11 segundos em outros meetings.
O que, à partida, pode parece uma grande injustiça, tem, na verdade, dois lados da mesma moeda. Se existe quem defenda que estes campeonatos deveriam estar ao nível de, pelo menos, campeonatos nacionais; há também quem defenda que não deveriam sequer ser reconhecidos e não deveriam ser atribuídos quaisquer pontos, devido ao facto da NCAA (a organização que gere o desporto universitário norte-americano) não ser signatária e não cumprir com as normas da WADA, a agência internacional antidopagem. Assim sendo, os agentes da WADA ou os agentes da USADA (agência norte-americana antidopagem) não têm qualquer autoridade em eventos da NCAA. Mais, a NCAA tem uma política de controlo anti doping interna, não sendo comunicados quaisquer resultados à agência nacional e à agência internacional, tendo a organização carta branca para proceder como bem entender (oficialmente, comprovando-se a utilização de substâncias, existirá um período de suspensão de 1 ano para primeiras infrações). Existem mais aspetos organizativos que não agradam totalmente à IAAF (como o facto de provas verem o seu sentido ou horário alterado em função do vento, por exemplo), mas o principal entrave chama-se anti-doping.

Fonte: WADA
Assim sendo, é com cautela que sempre olhamos para os resultados que saem dos Universitários norte-americanos. Se é verdade que muitos atletas mostram que valem isso ou mais quando atingem a senioridade (Michael Norman e Sydney McLaughlin serão os mais recentes exemplos disso), também existem muitos outros atletas que nunca conseguem como seniores voltar a mostrar marcas que se aproximem das conseguidas na Universidade. Claro que não queremos com isto dizer que isso está diretamente relacionado com o doping (em todos países o mesmo acontece, embora num grau menor), mas podemos dizer, com autoridade, que o facto da organização não seguir o código internacional levanta muitas interrogações e leva sempre a que os resultados sejam encarados com moderada cautela.

Fonte: NCAA
Foto de Capa: LSU










