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Quem diria que num ano (surpreendentemente) de elevadíssimo nível, iríamos ter a 16 de setembro aquele que será, provavelmente, o dia mais marcante do ano para o Atletismo? Não quero ser desonesto comigo próprio: a nível internacional, vimos coisas fantásticas este ano, a começar pela fantástica temporada indoor, por resultados assombrosos nos Universitários Norte-Americanos, por uma Diamond League toda ela de elevadíssimo nível (sim, no Mónaco tivemos provavelmente o melhor meeting da história), vimos aqueles que foram uns dos melhores Campeonatos Europeus da história e o aparecimento de novas estrelas um pouco por todas as disciplinas.
A nível nacional, também tivemos surpreendentes marcas, o aparecimento de novas estrelas e a subida de patamar para muitos dos nossos valores mais emergentes. É difícil escolher o que foi o melhor num ano em que muitos (os mesmos de sempre, os que adoram falar mal e prognosticar o cataclismo a cada canto) diziam que seria terrível para o Atletismo (o primeiro sem Bolt, sem Farah em pista, sem eventos globais).
Mas o dia de ontem ficará, indubitavelmente, na história da modalidade, pela queda de vários recordes e todos eles com alguma surpresa à mistura – seja pelas marcas obtidas, seja pelos protagonistas em alguns casos. E ainda tivemos também direito a uma enorme marca nacional numa disciplina que estava também a precisar de algo assim. Seria difícil pedir melhor!
Maratona de Berlim (1/2) – Kipchoge já está no topo do mundo e por lá continuará
Muito se dizia que era uma inevitabilidade. Mais dia, menos dia, Eliud Kipchoge iria fazer aquilo que lhe faltava fazer: bater o recorde mundial. Em Berlim, pareciam estar reunidas todas as condições para tal, tal como fizemos referência no nosso artigo de antevisão. O tempo estava próximo do ideal: os pacers, que em Berlim já têm a fama de se comportarem bem, estavam entre os melhores do mundo e tínhamos o melhor maratonista da história ultra motivado. Bem, por esta altura, para alguns, Kipchoge ainda precisaria de bater o recorde mundial para ser considerado o melhor da história. E fê-lo, claro. Mas fê-lo de uma forma que nunca será alvo da mínima contestação ou discussão sobre quem é, à data de hoje, o melhor da história. Correu em 2:01:39, tirou 1 minuto e 18 segundos ao anterior recorde, uma marca que certamente durará muitos anos a ser atualizada. A não ser que o próprio Kipchoge a bata.
Quanto à prova, o ritmo que o queniano pediu às 3 lebres, que tinha exclusivamente para si, foi quase seguido ao segundo. Pediu 61 minutos de passagem à Meia, deram-lhe 61:06. Por volta dos 25 km, a última lebre que o acompanhava cedeu ao ritmo e Kipchoge enfrentou sozinho quase toda a segunda metade da prova. Imaginem lá: ainda o fez mais rápido! Correu a “segunda Meia” em 60:33, voltando a conseguir um split negativo na carreira! A parte mais lenta da prova de Kipchoge foram os 10 primeiros km (29:01), altura em que muitos de nós levantavam a sobrancelha, pensando que estava a ir num ritmo demasiado elevado.

Fonte: Berlin Marathon 2018
Com apenas 18 anos, Kipchoge venceu o título mundial nos 5.000 metros. Com 33 anos, esmaga o recorde mundial da Maratona. Sabem qual era a melhor da Maratona no dia em que foi campeão mundial em pista? Era 2:05:38! No final da prova de Berlim, Kipchoge, que durante a prova foi sempre dando a ideia de que estava fresco e iria mesmo bater a marca, mostrou-se como só os verdadeiros campeões da vida se sabem mostrar. Festejou, claro, mas festejou emocionado, primeiro com o seu técnico de longa data (Patrick Sang), agradecendo também a todos os que o apoiaram e fizeram este percurso, mostrando a humildade de sempre. Kipchoge correu onze maratonas na sua carreira (mais a do projeto Breaking2), venceu dez e não perde desde abril de 2014. No final da prova de ontem, um jornalista perguntou-lhe se ele se sentia um herói depois da fantástica marca e prova. Kipchoge respondeu: “sinto-me agradecido”. Esta resposta de Kipchoge resume bem a personalidade do queniano, que é uma estrela dentro e fora de competição.
Já se sabia que iria ser uma batalha contra o relógio e duvidávamos que alguém pudesse rivalizar com o novo recordista mundial. E assim foi. Seguindo sempre um grupo de lebres mais atrasadas, o segundo e o terceiro classificados também foram quenianos: Amos Kipruto terminou em 2:06:23 e Wilson Kipsang em 2:06:48. Destaque ainda para o primeiro grande resultado na Maratona para o recordista mundial da Meia-Maratona: Zersenay Tadese (ETH) correu em 2:08:46 para o quinto lugar.
Maratona de Berlim (2/2) – Pela primeira vez na história, 3 mulheres abaixo de 2:19
A prova feminina, apesar de não ter tido ataque ao recorde mundial, também teve direito a recordes e a história. Na verdade, as três mulheres que terminaram na frente bateram a marca que era a anterior melhor marca da Maratona de Berlim e que durava desde 2005! Todas elas correram em terrenos de duas horas e 18 minutos, algo que acontece pela primeira vez na história de qualquer Maratona feminina. Em relação ao andamento, até meio da prova, Tirunesh Dibaba dominava, como era expectável, tendo passado à Meia num belo tempo de 69:03, embora o grupo da frente (que na altura era ainda de cinco) tenha passado essa distância bastante junto. Antes dos 25 km, a queniana Gladys Cherono assumiu o controlo, procurando repetir o título da temporada passada. Após os 30 km, conseguiu distanciar-se de Ruti Aga (EHT) e fez os últimos quilómetros da prova sozinha, disparando para mais uma vitória em Berlim.

Fonte: Berlin Marathon 2018
No final, Cherono terminou em 2:18:11, uma marca que é o novo recorde desta Maratona e também um novo recorde pessoal para a atleta queniana de 35 anos. Com a marca, a atleta subiu a segunda queniana mais rápida de sempre e quarta a nível mundial, apenas atrás dos “monstros” Paula Radcliffe, Mary Keitany e Tirunesh Dibaba! No segundo lugar, ficou a etíope de apenas 24 anos, Ruti Aga, não só cumprindo o objetivo de baixar pela primeira vez dos 2:20, mas fazendo-o em grande estilo, com um tempo de 2:18:34, sendo já a 2ª etíope mais rápida da história. No terceiro lugar, ficou a favorita Tirunesh Dibaba, a etíope que é provavelmente a melhor fundista da história e que ainda conseguiu recuperar perto do final, terminando em 2:18:55, tornando-se na segunda mulher da história a conseguir fazer 3 Maratonas abaixo dos 2:19 (apenas Radcliffe o fez e foram 4 vezes).
Do lado português, no quadro de elite, tínhamos 3 representantes em prova. Para Catarina Ribeiro e Inês Monteiro as coisas não correram tão bem quanto o esperado: ambas as atletas não terminaram a prova, abandonando já depois da metade da prova. Já Carla Salomé Rocha foi mais uma vez enorme! No ano passado, havia-se estreado na distância com a grande marca de 2:27:08 em Praga, mais tarde correu no Porto, e este ano foi a Berlim, não só melhorar a sua marca pessoal, como melhorando de forma clara para 2:25:27, um tempo que a coloca como a sétima portuguesa mais rápida da história da distância! E fê-lo com splits negativos (1:13:41/1:11.46). A portuguesa foi a melhor europeia entre as presentes, terminando a prova na 8ª posição.
Meia-Maratona de Copenhaga – Sifan Hassan é especial. Mas já não sabíamos isso?

Fonte: European Athletics
Comecemos pela prova feminina. Muita gente pensava que Sifan Hassan iria fazer, em Copenhaga, a primeira Meia-Maratona da sua carreira. Mais ou menos verdade. É que, como a própria fez questão de relembrar antes da prova, ela já tinha feito por uma vez esta distância quando tinha apenas 18 anos! Ainda assim, esta seria a sua primeira tentativa séria na distância, num ano que foi sensacional a nível de marcas para a atleta holandesa, que foi campeã europeia nos 5.000 metros, bateu o recorde europeu nessa distância e venceu os 3.000 metros na Continental Cup, batendo o recorde nacional holandês! Com uma corrida bastante inteligente e sem se deixar incomodar quando até parecia “estar a perder” a frente da prova, a holandesa terminou em primeiro lugar com um tempo de 1:05.15, um novo recorde europeu e uma marca que a coloca como a oitava melhor de sempre na distância! E no caminho para essa marca bateu recordes europeus nos 15km e 20km e o holandês dos 10km. Impressionante! No final, a atleta, integrante do Oregon Project, não conseguia esconder o seu contentamento, referindo que esperava correr em 1:08 e que a marca alcançada foi uma muito agradável surpresa numa época bastante desgastante. Há 4 anos atrás, a marca de Hassan seria recorde mundial e acontece num ano em que a atleta treinada por Alberto Salazar apresentou resultados de elevadíssimo nível dos 800 aos 5.000 metros. Certamente uma grande experiência para tentar os 10.000 na próxima época, como havia feito menção após a prova da Diamond League de Birmingham.
No segundo lugar, a etíope Ababel Yeshaneh correu pela primeira vez na casa dos 1:05 (1:05:46), entrando também no top-10 da distância e passando a ser a melhor etíope da história (Hassan nasceu na Etiópia, mas representa a Holanda)! No terceiro lugar, a favorita, Joan Chelimo Melly (quarta da história) tentou impor um ritmo elevado na frente, andou em passagens de recorde do mundo e acabou por pagar caro por isso, cedendo bastante nos quilómetros finais e terminando em 1:06:15. Os primeiros 5 km de Melly foram a um ritmo 3:02/km e terminou a prova a um ritmo de 3:42, em visíveis dificuldades.
Na prova masculina, o grande favorito, Abraham Cheroben, sentiu limitações físicas logo aos 5 km e ficou fora do grupo da frente. Ainda assim, a prova terminou com um registo impressionante de oito homens a fecharem abaixo de uma hora, algo que apenas havia acontecido por duas vezes na história da Meia-Maratona! A vitória foi para o jovem queniano, de apenas 20 anos, Daniel Kipchumba, que correu em 59:06, exatamente a mesma marca que havia feito em Stresa em Abril deste ano, igualando o seu melhor pessoal. Começou a um ritmo de 2.50/km e terminou a 2.44/km, demonstrando que tem ainda muito para dar, prometendo ser um caso sério no futuro.

Fonte: Joseph Miller Photography/Half-Marathon Copenhagen
No segundo lugar ficou o queniano Abrahm Kiptum, próximo, em 59:09, um novo recorde pessoal. No terceiro lugar ficou o etíope Jemal Mekonnen, que correu em 59:14, demonstrando também uma enorme regularidade e um nome também para acompanhar no futuro. Mas não podemos falar desta prova, sem falarmos também da estreia na distância de Yomif Kejelcha. Numa época verdadeiramente impressionante do etíope de 21 anos (que até começou o ano a sagrar-se bicampeão mundial de pista coberta nos 3.000 metros), estreou-se na Meia-Maratona logo abaixo da hora, com um tempo de 59:17, no quarto lugar! Há 17 dias correu em Bruxelas o seu melhor pessoal dos 5.000 metros em 12:46.79 e quatro dias depois o seu melhor pessoal nos 1.500 metros em 3:32.59.
Decastar – Kevin Mayer redime-se ao tornar-se estratosférico

Fonte: IAAF
Em França, em Talence, decorreu neste fim-de-semana o mítico Decastar, um dos eventos com mais história no mundo dedicado às Provas Combinadas. As atenções estavam todas centradas na estrela local, Kevin Mayer, que é o campeão mundial ao ar livre e em pista coberta (no Heptatlo deste ano em Birmingham), mas que havia falhado em Berlim ao abandonar após três nulos no Comprimento. No primeiro dia, as indicações que Mayer deixara não podiam ser melhores! Havia começado por bater o seu recorde pessoal nos 100 metros (10.55) e no Salto em Comprimento (7.80 metros), obtendo também excelentes resultados no Peso (16.00m), na Altura (2.05m) e nos 400 metros (48.42), fechando o dia com 4563 pontos. Estava em ritmo de recorde mundial, embora as expetativas mais calculistas nos dissessem que só um segundo dia de luxo lhe poderia fazer bater a enorme marca do norte-americano Ashton Eaton, de 9.045 pontos, alcançada nos Mundiais de Pequim em 2015.
Acontece que o segundo dia foi mesmo do outro mundo! Começou a manhã com 13.75 nas barreiras e 50.54m no Disco e no período da tarde fez 5.45 metros na Vara (o seu melhor em competições ao ar livre) e um grande recorde pessoal de 71.90 metros no Dardo. Faltava apenas uma prova e parecia não haver volta a dar: Mayer caminhava mesmo para o recorde mundial! No final da sua penúltima prova, o próprio francês confessou que se falhasse esse objetivo, merecia ser castigado fisicamente pelo público presente no recinto! Entrou para os 1500 metros à vontade e, sem arriscar muito, correu em 4:36, tornando-se o novo recordista mundial do Decatlo com 9.126 pontos, sendo o primeiro homem da história a passar a mítica barreira dos 9.100 e o terceiro a passar os 9.000, pulverizando a anterior marca de Eaton em por 81 pontos!
O anterior recordista, Ashton Eaton, reagiu nas redes sociais demonstrando grande desportivismo e felicitando Kevin Mayer, ao mesmo tempo que respondeu de forma enigmática quando questionado se pretendia regressar para “recuperar” o seu lugar como número um. Cenas dos próximos capítulos! Para já, o mundo é de Kevin Mayer.
Foto de Capa: Abbott World Marathon Majors









