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Ciclismo | Os «Wonderkids» a manter debaixo de olho em 2021

Ricardo Rebelo · 8 min

Foto: Giro D'Italia

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Com o grosso das movimentações no mercado de transferências praticamente ultrapassado, a atenção das equipas do patamar cimeiro da UCI centra-se agora naquilo que é a gestão de recursos e planeamento tático para a muito aguardada temporada de 2021.

Os briefings quanto ao delineamento de objetivos prometem dar continuidade a um denominador comum à época transata: o papel cada vez mais sério dos jovens na frente de ataque às múltiplas competições do calendário ciclístico internacional. Segue-se, por isso, uma análise sobre cinco nomes que, depois de em 2020 terem exibido todo o seu potencial, comprometem-se a brilhar em qualquer palco, num futuro não muito longínquo.

Para a eleição desta mão-cheia de talento, foram tidos em conta aspetos como os resultados alcançados no presente ano civil, a projeção do potencial do atleta sustentada em prestações nos seus primeiros anos como profissional e ainda a obrigatoriedade de deterem uma idade inferior a 25 anos até ao dia 31 de dezembro de 2020.

Foto de Capa: Giro D’Italia

1.

João Almeida (Deceuninck-QuickStep) – 2020 foi particularmente especial para as hostes do ciclismo português. As proezas de João Almeida e Rúben Guerreiro, no Giro d’Itália, simbolizaram um verdadeiro grito de acasalamento entre o povo português e a modalidade em questão, já que a vibração observada obteve, inegavelmente, níveis que há muito tempo não se sentiam no nosso país. O ciclista de 22 anos, natural das Caldas da Rainha, envergou a rosa durante 15 dias, batendo vários recordes nacionais, como a melhor classificação de sempre de um português – quarto posto – no Giro d´Italia (destronou o quinto lugar de José Azevedo), por exemplo.

Se entendermos que esta foi a sua primeira participação numa grande volta, o resultado verificado e as aparições consistentes em literalmente todas as etapas notabilizaram uma grande esperança em crescimento dentro da Deceuninck-QuickStep. As qualidades reveladas, sobretudo nos três contrarrelógios onde o “Duro das Caldas” se fez notar, anteveem um conjunto de potencialidades perfeitas para o nascimento de um voltista completo. O perfil perspetivado compreende um ciclista de capaz de se defender na alta montanha e de fazer a diferença no contrarrelógio. Valores como a persistência, a capacidade de sofrimento e uma mentalidade ofensiva imperam naquilo que é a sua forma de correr e certamente serão qualidades essenciais para as grandes batalhas que se avizinham.

Relativamente a 2021, e depois da cobiça de outras equipas do pelotão internacional, João Almeida vai mesmo continuar a correr e a evoluir no viveiro de talentos belga. O calendário a longo prazo do português permanece uma incógnita, no entanto, a nova temporada certamente presenteará o atleta com a participação em várias das melhores provas do ciclismo mundial e com a possibilidade de liderar, sendo a ideia da responsabilidade máxima numa grande volta para João Almeida tudo menos improvável.

2.

Marc Hirschi (Team Sunweb) – Uma vitória de etapa no Tour de France e numa das clássicas das Ardenas – La Flèche Wallonne – chegaram para colocar Marc Hirschi no envelope das maiores promessas do ciclismo mundial. O atleta de 22 anos, caracterizado pela sua explosividade e combatividade, somou várias prestações de qualidade, não apenas nas provas acima mencionadas, mas também na Liège-Bastogne-Liège (segundo lugar) e nos campeonatos do mundo, em Imola, Itália (terceiro posto na prova em linha).

O jovem helvético da turma germânica da Team Sunweb, ao contrário de outros elementos desta lista, foi iluminado pelos principais holofotes muito recentemente. Depois de em 2018 dar nas vistas no escalão sub23, sagrando-se campeão mundial no respetivo escalão, foi só em 2020 que se pôde assistir à confirmação de todo o seu potencial ao mais alto nível. O descendente de Fabian Cancellara, se assim lhe quisermos chamar, enuncia-se como um ciclista capaz de rolar bastante bem, com uma ponta final assinalável e portador de uma capacidade fantástica em terrenos ingremes, explosivos e de curta duração.

Obviamente que as suas características não se assemelham exatamente às do seu compatriota, no entanto, e com uma carreira inteira pela frente, não há como não olhar para Marc Hirschi como um futuro especialista proeminente em clássicas de um dia, havendo espaço e potencial para trabalhar outras temáticas, como provas no empedrado ou na especialidade do contrarrelógio. Natural de Berna, Marc Hirschi já conquistou uma posição de respeito no pelotão, falta agora manter a consistência e definir-se como o tipo de ciclista que quer ser, definir-se como um puncher de elite e, talvez, mais do que isso, até porque há habilidade para mais.

3.

Remco Evenepoel (Deceuninck-QuickStep) – A reencarnação de Eddy Merckx – o campeão dos campeões – continua a sua jornada em direção ao Olimpo. O “canibal” em questão, este ainda com apenas 20 anos, ganhou uma fama imensa e suscitou comparações com o melhor ciclista do século XX pela sua enorme capacidade em praticamente todas as corridas em que participou desde que deixou o futebol de formação do Anderlecht e começou a pedalar em Schepdaal, Flandres.

O resto… tem sido História. Dos escalões de formação até à primeira divisão da UCI, o belga não tem sentido a pressão, conquistando classificações gerais e etapas com relativa facilidade. Onde quer que haja um pedaço de asfalto e Remco Evenepoel, o Plot Twist gira sempre em torno do mesmo, mas será que o miúdo predestinado vai confirmar tudo o que se diz sobre ele?

2021 será uma bela introdução a essa questão, sobretudo depois do contratempo acidental em território transalpino. Recorde-se que uma queda muito grave no Giro di Lombardia acabou por o forçar a terminar a temporada antecipadamente, mas, antes disso, o prodígio da Deceuninck-QuickStep limpou a concorrência em vários países, inclusive em solo português, com a conquista da Volta ao Algarve e mais duas etapas. O ano que se segue torna-se essencial para ver se Remco consegue escalar mais um degrau e elevar a sua veia vitoriosa para cenários ainda mais importantes, como conceituadas provas de uma semana ou até mesmo numa grande volta.

O que é certo é que este é um caso atípico em vários sentidos. Faz muito tempo que ninguém atingia este patamar com apenas duas décadas de vida. Faz muito tempo que não se descortinava um ciclista de dimensão tão equilibrada, capaz do melhor em alta e média montanha, capaz de fazer diferenças enormes no esforço individual e suficientemente audaz para se lançar ao ataque, seja de onde for e seja nas mais variadas circunstâncias. A garra, aliada ao talento, deixam água na boca, contudo, na elite desportiva, não há nada garantido. Se Remco Evenepoel está sujeito a ser tão bom como muitos pregam, o nascimento da lenda poderá muito bem acontecer num futuro muito próximo.

4.

Filippo Ganna (Ineos Grenadiers) – A verdade é que o nome de Filippo Ganna já não é de todo desconhecido dentro daquilo que é o Mundo do ciclismo. O italiano, campeão do mundo de contrarrelógio e detentor de um currículo invejável na pista, faz parte deste conjunto de craques muito pelas expectativas crescentes relacionadas com a sua explosão em termos de resultados e influência nas grandes provas do World Tour.

Originário do circuito oval, o “comboio” de 24 anos é um atleta que impressiona pela sua capacidade física distinta, especialmente no contrarrelógio, onde tem arrebatado a concorrência por onde quer que passe. Para além da coroa de melhor contrarrelogista do mundo, Top Ganna pulverizou tudo e todos em quatro exibições espetaculares que culminaram em quatro vitórias em etapa no último Giro d´Itália.

O hype sobre a ideia de vermos mais um ciclista tão jovem a afirmar-se como um polivalente e vitorioso corredor para 2021 é muito real, sendo que as suas características, aliadas a uma margem de progressão enorme, fazem prognosticar a confirmação de um dos melhores contrarrelogistas do mundo para a próxima década.    A correr numa das melhores equipas do pelotão internacional e a triunfar de forma tão esclarecedora, ainda que seja quase que exclusivamente em solo italiano, a versão mais requintada de Filippo Ganna talvez cause ainda mais alarido com uma crescente quota parte de espetáculo e vitórias noutras grandes competições. Seguindo o ritmo diabólico a que o atleta italiano nos tem habituado, quiçá 2021 seja o ano mais avassalador de todos para o melhor rolador do atual pelotão internacional.

5.

Tao Geoghegan Hart (Ineos Grenadiers) – A par de nomes como Enric Mas, Jai Hindley, Aleksandr Vlasov, David Gaudu ou Daniel Martínez, o desportista da Ineos Grenadiers foi aquele que mais sucesso conseguiu dentro da geração de voltistas ou escaladores abaixo dos 25 anos. O britânico com costelas irlandesas foi o protagonista máximo na edição 103 do Giro d´Itália, conquistando a camisola rosa na última etapa, em Milão.

A prova italiana serviu de ponto de partida para alguns jovens no convívio com os grandes, sendo que Tao foi aquele que melhor aproveitou esta maré de oportunidades, proporcionadas, em boa verdade, por uma clara transição de geração dominante nas provas que exigem elevadas cargas de capacidade física. Justamente sobre esse tema, Tao demonstrou ser o climber mais esclarecido, sempre com o seu fiel escudeiro Rohan Dennis, numa épica luta contra João Almeida e a dupla da Team Sunweb, Hindley e Kelderman.

E agora? O que esperar de Tao em 2021? A Ineos Grenadiers conta com mais três grandes tubarões sedentos por uma vitória numa das três grandes: Carapaz, Bernal e Thomas. Depois de um triunfo numa competição tão prestigiada, é complicado entender como é que a hierarquia do conjunto britânico vai funcionar, particularmente porque temos em cima da mesa quatro vencedores de pelo menos uma grande volta.

Ricardo Rebelo

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