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Medidas restritivas da UCI causam desagrado no pelotão | Ciclismo

André Filipe Antunes · 7 min

Medidas restritivas da UCI causam desagrado no pelotão | Ciclismo
Foto de Capa: Volta à Catalunha

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Nestes últimos dias tem havido uma grande controvérsia à volta das novas medidas implementadas pela União Ciclista Internacional (UCI). A entidade máxima do ciclismo mundial apresentou várias regras novas, que entraram em vigor no dia 1 de abril, mas não foram bem recebidas por todos.

Um tema que tem gerado muito alarido está relacionado com o arremesso de bidões para fora da estrada. Com a nova regra, os ciclistas estão proibidos de largar bidões fora das zonas próprias à descarga de resíduos, que estão localizadas a cada 30-40 quilómetros, durante uma prova. Contudo, os corredores têm a opção de fazer a entrega nos carros, ou a algum elemento da equipa, sempre que for possível. Quem não cumprir é penalizado, seja por uma multa em francos suiços, perda de pontos no ranking UCI, penalização de segundos, ou desclassificação.

Raramente ouvimos falar de um arremesso de um bidon que tenha corrido mal ou de algum incidente, mas por vezes poderá acontecer. No ano transato, Geraint Thomas abandonou na terceira etapa do Giro de Itália, após ter tropeçado num bidon que tinha caído da bicicleta de um ciclista da Bahrain. É verdade que atirar lixo, como os papéis e plásticos dos géis e barras energéticas, é prejudicial para o ambiente, mas será que se pode dizer o mesmo dos bidões?

Em todas as áreas onde existem adeptos na estrada, sem exceção, há sempre alguém que ambiciona recolher um bidon do seu corredor ou equipa preferida para a sua coleção. Em zonas com público é muito fácil de controlar essa “poluição”. Caso seja atirado para a natureza, em zonas sem pessoas, aí sim, já poderá ser considerado prejudicial para o meio ambiente, e deve ser impedido. Com a pandemia, acabam por justificar-se algumas medidas adequadas para evitar o contacto com o público, de forma a prevenir o contágio. As organizações têm de cumprir as normas de forma a minimizar problemas. Falta saber se as medidas serão mais levianas no futuro.

Os primeiros casos de penalização, seguindo as novas regras, não tardaram em aparecer. O corredor Kyle Murphy, da Rally Cycling, foi o primeiro a ser sancionado, com direito a desclassificação, no GP Miguel Indurain, após ter deixado cair um gel do bolso. Mas o caso mais polémico aconteceu com o ciclista de 34 anos, Michael Schär, da equipa AG2R Citroen Team, que foi desclassificado do Tour de Flandres, um dos cinco monumentos do calendário velocipédico, após ter lançado um bidon para um fã que estava na berma da estrada.

Mais tarde, nesse dia, o suíço reagiu e escreveu nas suas redes sociais, começando com: “Querida UCI: Porque é que as crianças começam no ciclismo”. O ciclista relatou sobre a sua história de viagem em 1997, ao Tour de França, com a sua família, descrevendo a atmosfera eletrizante do pelotão e do público como uma mudança na sua vida. “Fiquei infinitamente impressionado com a velocidade e a facilidade com que os corredores conseguiam andar nas suas bicicletas. Não queria mais nada na minha vida, para além de estar eu próprio naquele lugar, como um ciclista profissional”, disse o corredor. “Para além dessa impressão, recebi um bidon de um ciclista. Este pequeno objeto de plástico tornou-me completamente viciado por ciclismo. Em casa, aquela garrafa, lembrava-me todos os dias qual era o meu sonho. Treinava com o meu bidon todos os dias, com muito orgulho. Todos os dias.”

 

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O ciclista finalizou dizendo que, “ agora sou um destes profissionais, que correm pelas estradas, com tantos espectadores felizes. Durante os momentos calmos da corrida guardo sempre o meu bidon vazio até ver algumas crianças junto à estrada. Depois atiro-os suavemente para que possam apanhá-los em segurança. Há dois anos atrás dei um deles a uma menina ao lado da estrada. Os pais dela disseram-me que a filha não ficou feliz apenas durante um dia, com a garrafa que tinha ganho. Ela ainda fala sobre esse bidon. E talvez um dia, ela venha a tornar-se, assim como eu, também uma ciclista”. “São momentos como este que me fazem amar este desporto. Ninguém pode tirar-nos isso. Nós fazemos parte do desporto que tem maior proximidade com o público, a quem damos bidons, ao longo do percurso. Muito simples. Simples como o ciclismo deve ser.”

Foto de Capa: Volta à Catalunha

Foram vários os ciclistas e fãs da modalidade a demonstrar, através das redes sociais, empatia com o corredor, e o seu desagrado para com esta regra tão rígida da UCI. O australiano Richie Porte escreveu, “bem dito companheiro, existe algum órgão regulador mais fora de contexto com o seu desporto?” Chris Froome reagiu com, “onde é que o nosso desporto está a chegar?”

Na prova feminina do Tour de Flandres, a italiana Letizia Borghesi (Aromitalia Basso Bikes Vaiano) foi também desclassificada, por descartar um bidon fora da zona permitida. Apesar de se ter desculpado por violar a nova regra, achou a desclassificação e a multa um castigo demasiado severo, e que é desapontante saber que haverá menos crianças a experienciar e a sentir a alegria de ter um “prémio da corrida” na berma da estrada. “Ver um sorriso de uma criança quando ela pega num bidon é impagável. Com esta nova regra, veremos muito menos sorrisos e isso, certamente, não é bom para o ciclismo”, referiu a corredora.

Um aspeto importante encontra-se relacionado diretamente com a competição, visto que se prende com o infortúnio de ser apanhado em flagrante por um comissário de corrida ou pelas imagens da televisão. Como consequência poderá haver, por vezes, murmurinho e tentativa de “vitórias de secretaria”. Pois se um ciclista infringe e é penalizado, a sua equipa quererá explicações caso um corredor adversário faça a mesma ação e não sejam tomadas as mesmas medidas. Podem surgir casos caricatos, com corredores da luta pela geral a serem desclassificados.

Também foi anunciado o banimento da posição “super-tuck”, uma posição mais aerodinâmica na bicicleta, com o ciclista sentado em cima do quadro, seguindo-se a proibição de adotar a posição de contrarrelógio durante as etapas em linha, com os antebraços apoiados no guiador.

Esta é uma técnica geralmente utilizada por ciclistas que são exímios em descidas, quando querem aproveitar o terreno para ganhar maior aerodinamismo e velocidade em relação à concorrência, muitas vezes vista em fugas. Alguns ciclistas que são apreciadores de descer assim são: Froome, Mohoric, Nibali, Kwiatkowski, Tim Wellens e Sagan.

A posição de contrarrelógio costuma ser utilizada de forma corrente em terreno plano e em fugas, e acaba por ser uma abordagem a que os corredores estão habituados, o que pode provocar muitos esquecimentos nas primeiras corridas.

Ambas as medidas procuram melhorar a segurança dos ciclistas, mas talvez acabe por interferir em demasia com a corrida e com as técnicas adotadas por cada ciclista. Para a UCI, os pontos de contacto com a bicicleta devem ser o guiador, pedais e o selim, e nenhuma das duas maneiras de correr respeita o que é suposto, tornando o atleta menos apto a reagir aos imprevistos que aparecem na estrada. As posições dos ciclistas profissionais podem levar outros atletas mais jovens, que não têm a mesma destreza e habilidade, a fazer este tipo de manobras, colocando em risco a sua integridade física e a de todos os intervenientes da corrida, isto segundo a UCI.

Por outro lado, acaba por haver uma perda na forma de abordar a corrida pelo ciclista mais criativo e que gosta de arriscar, desprestigiando a componente técnica do ciclismo.

A UCI também tem vindo a trabalhar no sentido de melhorar as condições de segurança nas chegadas das provas, com barreiras bem fixas ao chão, de forma a evitar facilitismos e desastres como a queda de Jakobsen na Volta à Polónia, o que é uma iniciativa muito bem-vinda e necessária para o bem dos principais intervenientes do espetáculo.

André Filipe Antunes

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