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Desporto masculino vs desporto feminino: Um mundo de diferenças

Rodrigo Fernandes · 6 min

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Desporto masculino vs desporto feminino, é tudo muito diferente, em tudo e são poucos os desportos em que o masculino e feminino têm a mesma importância, com talvez o Atletismo a ser a mais próxima. 

Neste artigo, vou tentar abordar o assunto, focando-me em Portugal e tocando até num ponto em grande discussão neste momento na minha região, os Açores. 

Um dos grandes problemas do desporto português é a falta de cultura desportiva que o nosso país tem, sendo este um dos grandes motivos para que não tenhamos ainda mais sucesso nas grandes competições internacionais, masculinas e femininas. Mas neste caso do desporto feminino, o mal não é só português. O desporto ainda é visto como uma coisa para homens, em muitos aspetos da sociedade. 

Quando tirei o curso de treinador de basquetebol foi-me dito que as raparigas só começam – na grande maioria, claro está – a praticar desporto quando entram no sétimo ano escolar, porque é quando ganham alguma autonomia para decidir que querem praticar desporto. Por outro lado, os rapazes começam muito antes, o que é muito positivo. Este exemplo mostra que ainda muitos portugueses acham que o desporto é uma coisa para rapazes, algo que precisa de ser mudado.

Vamos começar a falar de futebol, por ser o desporto rei. O futebol feminino em Portugal só agora está a dar os primeiros passos a sério, sem querer ofender os clubes que muito trabalharam antes desta aposta maior por parte da FPF.  

O orçamento do Sporting no futebol feminino ronda os 600 mil euros, este valor deu para ganhar as três competições em disputa este ano e no ano passado já tinha ganho os dois que disputou com um orçamento ainda menor. Nem vale a pena comparar este valor com o do futebol masculino, em que este orçamento provavelmente não dará para uma equipa da segunda liga se manter naquele escalão. Por curiosidade, o orçamento do Lyon, que domina a Europa do futebol feminino, é de cerca de 8.1 milhões de euros; só o salário do Cristiano Ronaldo é mais elevado do que este orçamento do Lyon, mostrando bem as diferenças existentes entre os dois géneros. 

Uma diferença gritante entre o futebol masculino e o feminino pode ser vista nas últimas duas semanas. A final da Taça de Portugal de ambas as vertentes é no Jamor e se para a final da Taça masculina é a confusão que todos conhecemos com todos a tentarem arranjar bilhete, para a final feminina apenas estiveram presentes 11 714 pessoas no Jamor, o que mesmo assim é a segunda melhor marca do Futebol Feminino em Portugal, ultrapassando a final da Liga dos Campeões de 2014, realizada no Restelo.

Infelizmente viam-se muitas cadeiras brancas no Jamor
Fonte: Sporting Clube de Portugal – Futebol Feminino

Das modalidades mais praticadas em Portugal, a presença dos chamados três grandes ainda não é muito frequente. No Futebol, apenas o Sporting tem equipa, com o Benfica a começar na próxima temporada. No Futsal e no Rugby, os dois grandes de Lisboa têm equipa. No Basquetebol e no Hóquei em Patins apenas o Benfica tem equipa. No Andebol, nenhum dos grandes tem equipa e no Voleibol o Sporting começou esta temporada e o Benfica vai começar na próxima. Se formos ao Atletismo, a tal modalidade em que talvez  masculinos e femininos tenham a importância mais próxima, só o Sporting aposta a sério na vertente feminina, com o Benfica a abdicar desta vertente para apostar apenas no masculino.

Focando-me agora nos Açores. André Amaral, presidente do Clube União Sportiva, campeão nacional feminino de basquetebol, em entrevista após a conquista do título lembrou um assunto que me faz confusão desde que tomei conhecimento dela há alguns anos. 

Como talvez saibam o Governo dos Açores dá um apoio financeiro, em troca de um espaço publicitário nas costas da camisola da palavra Açores. O valor deste apoio é diferente entre masculino e feminino e entre modalidades, por exemplo, o futebol recebe mais do que o resto. 

Mas vamos ao que interessa e ao que denunciou André Amaral, e bem, na minha opinião. A diferença entre o valor recebido pelo União Sportiva e o Lusitânia, melhor equipa dos Açores no campeonato masculino é de 330%, 125 mil euros para 38 mil euros. A este valor, o União Sportiva recebeu mais 2050€ por ter sido campeão nacional.  

A palavra Açores no equipamento do União Sportiva
Fonte: FPB

A grande questão é: justifica-se esta diferença entre sexos? Na minha opinião não, até porque o basquetebol feminino tem mais visibilidade na TV, através da Bola TV do que a Liga Masculina que apenas tem transmissões no Porto Canal e na BTV, se bem que A’Bola TV tenha transmitido alguns jogos do Play Off. Além disso, o site da FPB também transmite jogos, tal como algumas páginas dos clubes, isso em ambos os sexos. 

Digo isso da TV porque o principal motivo apontado pelo Governo é o da visibilidade. Não é o único, e todos nós sabemos que os custos de uma equipa masculina tendem a ser maiores do que o de uma equipa feminina, como disse o próprio presidente do União Sportiva. Mas uma equipa feminina vale menos 330% do que uma masculina?

Eu acredito que não, e numa altura em que se defende um maior equilíbrio entre homens e mulheres em vários pontos da sociedade este é apenas mais um passo que tem de se dado. 

A história do desporto coletivo português feminino não é muito grande a nível internacional. Em 2017, estreamo-nos em competições internacionais no Futebol. 2008 foi o ano da única presença internacional do Andebol português feminino. O Basquetebol e o Voleibol português nunca estiveram presentes em competições internacionais, e o Futsal apenas começa a ter competições internacionais oficiais em 2019, com Portugal a começar a qualificação como terceira classificada no ranking da UEFA. No Hóquei em Patins, Portugal já foi campeão europeu por três vezes e finalista derrotado por quatro vezes, no mundial nunca venceu, mas já foi finalista também por quatro vezes. No Rugby, a seleção de 15 é inexistente, mas nos sevens Portugal participa todos os anos no circuito europeu, mas nunca participou no mundial. Em Polo Aquático, o nosso país participou por três vezes no europeu e nunca no mundial. Noutras modalidades olímpicas, mas com pouca expressão no nosso país, como o Softbol – Basebol mas para mulheres, explicado de forma rápida – e o Hóquei de Campo o nosso país nunca participou em competições internacionais.

Em desportos individuais, Portugal até tem alguma história, conseguindo, por exemplo, seis medalhas olímpicas – entre elas dois dos quatro ouros -, fora as conquistadas em outros grandes eventos internacionais. O número de mulheres que participa nestes grandes eventos também tem aumentado, por exemplo, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foram 30 as mulheres que nos representaram, um novo recorde.

Patrícia Mamona é uma das muitas atletas que tem elevado o nome de Portugal no estrangeiro.
Fonte: IAAF

Em suma, vemos que em Portugal ainda existe muito a fazer pelo desporto feminino, mas que nos últimos anos temos melhorado. No entanto, ainda existe muito trabalho a fazer, no desporto português em geral e não apenas no feminino. É preciso vontade de mudar as coisas e não esperar que elas aconteçam porque sim. A sorte dá trabalho, é uma das máximas do desporto. Que se trabalhe muito, para que a sorte esteja a maioria das vezes do nosso lado.

Termino este já longo artigo com duas perguntas – uma delas repetida – para quem de direito pensar: O que se pode e deve fazer para melhorar o desporto feminino em Portugal e já agora ao redor do mundo?; Uma equipa feminina vale menos 330% do que uma masculina? 

Foto de Capa: Seleções de Portugal

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Rodrigo Fernandes

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