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2022 está a ser um ano de loucos no wrestling. O panorama da modalidade foi completamente alterado, desde cisões graves e rixas no balneário outrora unido da All Elite Wrestling à saída de Vince McMahon do cargo de Chief Executive Officer da WWE.
Estes acontecimentos de bastidores refletiram-se muito no que se viu em televisão, levando a momentos únicos que criaram imensa especulação e antecipação. Alguns foram regressos de lutadores à respetiva companhia. No wrestling, os regressos são uma boa alavanca de “storytelling” e permitem começar um novo rumo para a personagem ou simplesmente uma nova história, sem grandes planos para o que se segue.
É muito frequente que o que separa estes dois cenários seja a apresentação da estrela quando faz o retorno. O momento em que os fãs respondem ao aparecimento do wrestler após um período de ausência é fulcral para perceber a importância do atleta para o público e consequentemente para a empresa, uma vez que no wrestling, o mais importante é vender bilhetes.
2022 foi um ano prolífero no que a este tipo de momentos diz respeito, sendo possível destacar vários em que a vida real serviu para contar uma história, para ligar os fãs ao que estava a ser contado, um aspeto que caracteriza a chamada “Reality Era” à qual Triple H se referia em 2013. Esta forma de “storytelling” tem vindo a ganhar cada vez mais impacto no público e as empresas aproveitam isso.
Foto de Capa: WWE
ANTECIPAÇÃO VS SURPRESA
Sempre existiu muito a conceção de que os melhores regressos tinham de surgir como uma surpresa e que a maior preocupação ao nível de “booking” passava por garantir que a pessoa chegava com uma rivalidade intensa pronta com vista a manter o ímpeto do tal momento.
Um grande exemplo disto foi no Royal Rumble de 2010 quando Edge voltou à competição depois de uma rutura do tendão de Aquiles. Era esperado que o “Rated R Superstar” ficasse até um ano de fora dos ringues, mas regressou de forma chocante em 6 meses e começou a rivalizar com Chris Jericho, rivalidade esta que se materializou num combate da Wrestlemania 26.
Recuando mais, encontram-se outros exemplos como é o caso do regresso de John Cena, também no Royal Rumble, mas em 2008. Cena regressou em tempo recorde de uma rutura total dos peitorais e foi recebido praticamente de forma unânime com aplausos, algo que já era um bocado difícil em 2008.
A acessibilidade das chamadas “dirt sheets” conhecidas por investigar o que se passa atrás da cortina no Mundo do wrestling tornou mais difícil para as empresas manter estes segredos bem guardados, pelo que empresas como a AEW e a WWE tiveram de se adaptar a uma nova forma de criar entusiasmo nos fãs. A AEW fê-lo sobretudo em 2021, com a estreia de CM Punk depois de um período de sete anos fora do wrestling.
As semanas que anteciparam o regresso de Punk foram de um acompanhamento minucioso de todos os desenvolvimentos da história que foi avançada pelo Fightful. Todas as publicações em redes sociais, fossem da AEW, de CM Punk e até dos Living Colour (banda que interpreta a música de entrada de Punk) foram escrutinadas em busca de um sinal óbvio que confirmasse mesmo a ligação de Punk à empresa de Tony Khan.
O sinal mais óbvio foi relativo à estreia do novo programa da AEW, o Rampage que no primeiro episódio foi acompanhado da expressão “first dance”. Como se não bastasse, o show era em Chicago, terra natal de Punk. Parecia demasiado óbvio para não acontecer e portanto, aconteceu mesmo, CM Punk regressou logo a abrir o “show”, para dar logo aos fãs o que tanto querem. Uma entrada memorável, esperada, mas sobretudo antecipada com entusiasmo durante sete longos anos.
Um mês depois foi Bryan Danielson quem se estreou com uma grande ovação, depois de ter sido apontado durante mais de um mês à AEW. Os nomes são grandes e isso favorece muito o peso de um simples regresso, sem precisar de um grande esforço para que seja épico.
A WWE também foi capaz de assumir esta nova abordagem nas estreias, particularmente ao longo deste ano. Destacam-se os regressos de Cody Rhodes e de Bray Wyatt. Cody Rhodes é um dos fundadores da AEW e uma das principais figuras que impulsionou esta marca para o lugar de principal concorrente da WWE.
Era Vice-Presidente Executivo da All Elite e chegou mesmo a dizer em entrevistas que nunca iria voltar à WWE. A 15 de fevereiro, Cody e Brandi Rhodes saíram oficialmente da AEW. Os motivos nunca foram clarificados e a saída parece ter ocorrido em bons termos, uma vez que várias fontes corroboraram que o atleta continuou a lutar na AEW até mais de um mês depois do término do seu contrato (no fim de 2021).
Foi logo apontado à WWE, sendo mesmo avançado por várias fontes que na mesma semana em que saiu da AEW, começaria a treinar no WWE Performance Center, em Orlando. A caminho da Wrestlemania, a especulação aumentava em relação à estreia de Cody. Sempre que havia uma vaga para preencher num combate, os fãs pensavam que o “American Nightmare” se ia estrear. O interesse em ver como a nova versão de Cody Rhodes, capaz de se mostrar como “main eventer” em todas as grandes empresas de wrestling do Mundo, era imenso.
Com poucas semanas para o “Grandest Stage of Them All”, surgiram notícias sobre a estreia de Cody Rhodes, numa feud com Seth Rollins. Nesse momento, a WWE foi capaz de usar a especulação a seu favor e começou uma história sobre a frustração de Rollins por não ter um combate na Wrestlemania.
A duas semanas da Wrestlemania, Vince McMahon diz a Rollins num segmento do Raw que o 4 vezes campeão mundial ia efetivamente ter um combate contra um adversário à escolha de McMahon. O adversário seria apenas revelado na noite do combate. Até nesse momento quando parecia extremamente óbvio que aquela seria a estreia de Cody Rhodes, houve pessoas a especular sobre um possível regresso de Shane McMahon.
Mas, no dia 4 de abril, primeira de duas noites da Wrestlemania, foi mesmo Cody Rhodes quem desceu a rampa. A reação foi fantástica logo quando a frase “Wrestling has more than one royal family” foi ouvida por todo o AT&T Stadium.
It’s been officially 6 months since Cody Rhodes made his WWE Return and Wrestle Seth Rollins at Wrestlemania 38!😎
Just Wow and I get chills every time I watch this. What a return, what a pop!🔥👏🏽pic.twitter.com/k0ByihQafQ
— 🔥 ❌ GOAT GOD 🔥 ❌ #JohnnyWrestlingSZN (-_•) (@GOATGOD_1000) October 2, 2022
Bray Wyatt estreou-se, recentemente, no Extreme Rules. Foi mais um nome que voltou muito graças ao afastamento de Vince McMahon da administração da WWE, uma vez que Wyatt tinha sido despedido em julho de 2021. Uma das mentes mais criativas do negócio, Wyatt criou duas personagens marcantes: o “eater of worlds”, uma espécie de líder de culto; e o “Fiend”, uma autêntica obra-prima de “storytelling”.
A personagem consistia num um homem com duas faces. Uma mais infantil, inspirada na série “Blue’s Clues”, que apresentava a “Firefly Fun House”, um segmento em que Wyatt assumia comportamentos mais joviais e dotados de uma aparente ingenuidade e inocência. Mas durante estes segmentos, apareciam vestígios de uma outra entidade: o “Fiend”. Um lado que encarnava todo o ódio e mágoa de Bray Wyatt em relação a todos aqueles que se atravessaram no seu caminho, no passado.
Esta personagem levou os fãs a analisar bem todas as suas ações e a prestar atenção a todos os seus segmentos, à procura de detalhes que ajudassem a prever a ação seguinte do “Fiend”, nomeadamente o efeito que tinha sobre aqueles que enfrentava. O “Fiend” só aparecia mesmo quando Bray Wyatt se cruzava com um antigo rival. Era uma personagem que assumia a missão de destruir psicologicamente os seus adversários.
Foi todo este estilo de mensagens crípticas que levou muitos fãs a perceber que Wyatt podia estar prestes a regressar logo quando no Smackdown de 16 de setembro, a música “White Rabbit” dos Jefferson Airplane, começou a tocar durante um intervalo. As luzes apagaram-se, permitindo aos fãs ligar as lanternas dos telemóveis como é habitual nos concertos de música… e nas entradas de Bray Wyatt. Como se isso não bastasse as luzes da arena ficaram vermelhas no final da canção, cor característica do “Fiend”.
O mistério foi-se adensando, sobretudo quando apareceu um código QR no RAW de 19 de setembro, onde aparecia o vídeo de um jogo da forca, no qual se respondia à pergunta “Who killed the World?”, referência à expressão que Wyatt usava na sua primeira personagem: “He’s got the whole World in his hands”. Estes sinais de continuidade, por si só, já eram cativantes, mas a atenção ao detalhe foi o melhor.
Por exemplo, ao fazer “scan” num dos códigos, o espetador era conduzido a um pequeno vídeo que repetia a mensagem do jogo da forca. Mas o fascinante estava no próprio código HTML do vídeo. Uma das funções era executada duas vezes, mas com um resultado diferente distinguido pelas duas frases “No man is ever truly good” e “No man is ever truly evil”, uma referência à música de Aleister Black (atualmente na AEW como Malakai Black), quase como uma tentativa de criar dúvida nos fãs. Seria mesmo Bray Wyatt?
Estes detalhes eram constantes, tinham de ser extraídos pelos espetadores, uma boa utilização de storytelling baseado em Alternate Reality Games, um modelo de videojogos em que a escolha do jogador influencia o desenvolvimento da história. O momento do antecipado regresso, da revelação sobre quem estava por trás da figura do “White Rabbit” era impacientemente aguardado pelos fãs.
Tudo apontava para o Extreme Rules. Nesse momento, depois do “main event” e de parecer que o espetáculo ia chegar ao fim sem qualquer revelação, as luzes apagaram-se e começou a tocar uma música com a tal expressão “He´s got the whole World in his hands/He’s got the whole wide World in his hands.”
Depois, no meio do público apareceram pessoas com disfarces das personagens dos segmentos da Firefly Fun House, desde o Ramblin Rabbit ao Mercy the Buzzard e por último, o próprio Fiend. Os fãs estavam em êxtase, mas o momento alto foi quando uma porta se abriu e saiu um homem mascarado. Quando destapa o rosto, é nada mais, nada menos que Bray Wyatt. A reação dos fãs foi alucinante, uma das maiores ovações de 2022.
Ainda há muito mistério em relação ao que Wyatt vai fazer com esta nova personagem e até sobre aquilo em que a mesma consiste. Mas a apresentação do conceito tornou extremamente óbvio que era o regresso de Bray Wyatt, teria sido uma desilusão se fosse outra pessoa. E assim é que se vende um regresso baseado na antecipação, não apenas na surpresa.
We still have chills from #BrayWyatt‘s #ExtremeRules return!#SmackDown pic.twitter.com/Q5z63fnweC
— WWE on FOX (@WWEonFOX) October 15, 2022
O NOVO “KAYFABE”
Um aspeto comum tanto no regresso de Cody Rhodes e de Bray Wyatt é que foram utilizados muitos elementos da vida real de ambos os lutadores como forma de criar expetativa nos fãs. No caso de Rhodes, através das várias notícias que circulavam sobre o futuro do “American Nightmare”, nomeadamente em relação a um eventual regresso à AEW.
No caso de Wyatt, usou por mais do que uma vez, o código postal de Windham Lane, uma travessa da cidade de Corbin, no Kentucky. Windham como referência a Windham Rotunda, o verdadeiro nome de Bray Wyatt.
A AEW é uma empresa muito habituada à transição de elementos da vida real para o ecrã. Vice-Presidentes Executivos como os Young Bucks e Kenny Omega são acusados por vários fãs e até por lendas da indústria como Jim Cornette de destruir a credibilidade do wrestling, de tornar demasiado óbvio que se trata de um desporto com resultados combinados, afastando a atenção de muitos apreciadores.
A AEW tem vindo a demonstrar que este não é necessariamente o caso, gerando histórias como a perseguição do título mundial por “Hangman” Adam Page, na qual imensos fãs ficaram emocionalmente investidos. Outro exemplo disto ocorreu já este ano. Maxwell Jacob Friedman (MJF) é uma estrela em ascensão, um autêntico diamante em bruto, particularmente no microfone, mas também no ringue.
A rivalidade entre MJF e CM Punk elevou muito o nova Iorquino que mostrou um lado mais empático da sua personagem, baseando as suas motivações na desilusão que sentiu quando CM Punk abandonou a WWE. Aqui, Maxwell falou bastante, até mesmo em televisão da “bidding war of 2024”. MJF usa esta expressão para se referir à luta entre a WWE e a AEW para ver quem fica com o jovem lutador, quando o seu contrato chegar ao fim.
Depois deste conflito, MJF avançou para uma rivalidade com Wardlow, o seu guarda costas. Wardlow estava em brasa, os fãs super investidos no jovem lutador que mostrava que os fãs ainda podiam torcer por um gigante. Fez o melhor trabalho da carreira nessa rivalidade.
Contudo, as coisas mudaram um dia antes do Double or Nothing, em que os dois lutadores se iam enfrentar num dos combates mais antecipados da noite. MJF não apareceu, sem aviso, numa sessão de “meet and greet” para promoção do evento e da marca. Ganhou força o rumor de que MJF não iria aparecer no pay-per-view, por discordar com o salário que recebia em função da sua importância para a empresa.
MJF acabou por aparecer e perdeu de forma clara, dando o momento que Wardlow precisava, ainda que diminuído pelos acontecimentos das 24 horas anteriores. Voltou a aparecer no Dynamite do dia 1 de junho. Fez uma promo, na qual criticou Tony Khan por pagar mais a talento vindo da WWE e a lutadores que de acordo com MJF, não se aproximam sequer do seu nível. Pediu, no ar, a Tony Khan que o despedisse.
A promo aconteceu num espetáculo em que administradores executivos da Warner Bros. Discovery estavam a assistir para considerar o futuro dos direitos televisivos da AEW.
MJF não foi referenciado na programação da AEW até ao dia 4 de setembro de 2022, dia do All Out, PPV da AEW. O merchandise de MJF foi retirado do site da AEW, assim como qualquer presença do lutador de 26 anos nos genéricos dos programas televisivos da All Elite.
Primeiro combate do All Out, o “Casino Ladder Match”, por uma hipótese pelo título mundial. Um conjunto de homens mascarados ataca todos os envolvidos no combate. Revelaram-se como sendo um grupo de lutadores liderado por Stokely Hathaway. Chegou o momento de entrar o “Joker”, o participante mistério do combate.
Ao som da “Sympathy for the Devil” dos Rolling Stones, um homem mascarado desce a rampa e Hathaway entrega-lhe a ficha de póquer que simboliza a vitória no combate. A revelação não foi feita aí, mas no fim do “main event”. CM Punk derrotou Jon Moxley para recuperar o título mundial. As luzes apagam-se. Passa na arena o áudio de uma suposta chamada de Tony Khan em que oferece um valor que se entende ser avultado para que a pessoa em questão regresse à empresa, uma vez que é muito importante para os fãs.
Passa um vídeo de uma promo de CM Punk em que virou “heel” na Ring of Honor, uma promo que em conjunto com a “pipebomb” de Punk na WWE em 2011, foram as duas principais referências para o discurso de MJF no dia 1 de junho. Na promo da ROH, Punk diz que a maior coisa que o Diabo fez foi levar todos a acreditar que não existia. Corte para um fundo negro onde aparece o homem mascarado de costas. Tira a mesma, diz a frase “And I am the Devil… Himself”.
A ovação dos fãs foi crescente à medida que se iam apercebendo de que MJF estava de volta. Apesar das acusações de falta de profissionalismo, da falta de referências em televisão, MJF nunca deixou de ter o público nas mãos. A insatisfação de MJF era verdadeira, assim como a pressão feita através da ausência no “meet and greet”. A AEW foi capaz de utilizar estes elementos em prol de uma história e de uma reação que foi das maiores em 2022.
O importante num regresso (e no Wrestling em geral) não está apenas no efeito surpresa, mas na execução. Se o resultado é esperado, tem de se fazer os fãs desejar o resultado. Já dizia Roddy Piper, quando pensam que sabem as respostas, tem de se mudar as perguntas.









