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WWE – O problema do Crown Jewel

Afonso Viana Santos · 6 min

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Em 2018, a WWE decidiu inovar e fazer algo nunca antes feito: realizar eventos especiais em países estrangeiros. Com a diferença de querer utilizar uma arena enorme, que serviria como palco da Wrestlemania, e criar um card que estivesse à altura desse evento anual. O problema deste conceito começou a partir do momento em que escolheram a localização para o realizar.

Foi anunciado em Março o Greatest Royal Rumble, um evento épico e único à escala mundial a ter lugar na Arábia Saudita. Com ele, foi também anunciado um acordo no qual a WWE se comprometeu a realizar mais eventos deste género naquele país nos próximos 10 anos. E cedo se percebeu as proporções que ambas as partes queriam que este evento tivesse, quando foram anunciadas as participações de John Cena, Undertaker e Triple H, assim como o maior Royal Rumble da história da empresa. Este negócio prometeu revelar-se extremamente útil à empresa norte-americana e ao governo saudita.

Começando pela WWE, estima-se que o evento rendeu entre 40 e 50 milhões de dólares à empresa. Perante estes valores, não é de admirar que esta tenha vontade de cumprir o acordo até ao fim e, quem sabe, renová-lo. Para o governo árabe, estes eventos têm um papel político e económico. 

O actual príncipe saudita tem o objetivo de aumentar a sua popularidade, trazendo anualmente as maiores estrela de wrestling do mundo. E devido ao valor que o povo saudita estará disposto a pagar, este acordo trará também alguma estabilidade às finanças daquele país, que têm sofrido com a redução do preço do petróleo. No entanto, este negócio representa vários problemas para ambas as partes.

Hipocrisia?

Fonte: WWE

A revolução das mulheres no wrestling (particularmente na WWE) já dura há 3 anos e continua de vento em popa, tendo já este ano ocorrido o primeiro Royal Rumble e Elimination Chamber femininos, já para não falar do Evolution. Nesta altura em que a WWE dá tanta importância aos seus talentos femininos, um acordo com o mais opressivo país deste género leva muitos fãs a questionar o propósito desse mesmo acordo. 

O principal propósito é fazer dinheiro. Mas não poderiam realizar estes eventos noutros países? Podem, todos nos recordamos do Super Show-Down, que teve lugar na Austrália. Então porque é que a WWE insistiu em fazer estes eventos na Arábia Saudita? A resposta não é clara, mas a própria empresa quis compensar a sua divisão feminina com o primeiro evento totalmente dedicado a elas. 

O especial Evolution foi anunciado a 23 de julho, quase como resposta ao Greatest Royal Rumble, e a forma da WWE de dizer que as mulheres nunca tiveram tanta importância como agora. Dois meses mais tarde é anunciado o Crown Jewel, mais um evento a ter lugar na Arábia Saudita. E, para cúmulo, estes dois espectáculos estão separados por menos de uma semana. No dia 28 de outubro, estivemos a celebrar a maior vitória das mulheres no wrestling, e passados 5 dias estaremos a discutir e a analisar outro evento que teve lugar no país que mais maltrata e desrespeita as mulheres. 

Tudo isto são questões morais, mas importantes. Afinal, poderemos apreciar o trabalho duma empresa quando somos apresentados por acordos como este?

Entretenimento

Fonte: WWE

É o principal motivo da existência do wrestling: o entretenimento dos fãs. É o principal motivo pelo qual a WWE é a empresa que é hoje. E num evento onde são anunciados alguns dos maiores combates do ano, com participação das maiores estrelas, seria de esperar que estes eventos fossem algo de excepcional. Mas a verdade é que o Greatest Royal Rumble e o Super Show-Down acabaram por desiludir. Mas porquê? Novamente, o dinheiro tem um grande papel.

É por esse motivo que Undertaker já lutou mais vezes no estrangeiro do que na América este ano. É também por isso que Shawn Michaels, ao fim de oito anos, põe fim à sua retirada do wrestling para participar numa rivalidade construída para estes eventos. Tudo isto porque o príncipe saudita pode, logo a WWE dá-lhe o que ele quer.

Outro problema prende-se com a storyline. Shawn Michaels foi dos poucos wrestlers a cumprir a sua palavra quando disse que se ia retirar, e ao longo dos anos rejeitou várias propostas que lhe eram oferecidas para voltar atrás na palavra. Agora, como o dinheiro envolvido é mais, ele volta a calçar as botas mais uma vez. E pior será se for apenas para este evento, porque os possíveis dream-matches com membros do atual roster são imensos. Já que volta da reforma, ao menos que dê aos fãs algo que eles realmente querem. Se não o fizer, provavelmente é porque o dinheiro envolvido não será tanto como o do Crown Jewel.

Já para não falar de Undertaker. Há anos que a reforma parece pairar sobre ele e, sinceramente, penso que já deveria ter acontecido há muito. Ver o Undertaker lutar em 2018 é somente triste e desanimador. Aquele que é uma das grandes lendas, com a melhor gimnick de sempre, obrigá-lo a lutar com esta idade apenas lhe estraga o legado incrível que construiu ao longo de 25 anos. Mas, como já disse, o dinheiro faz mover mundos. 

Contudo, nada disto parece ser o maior problema em volta do Crown Jewel. 

Polémica

Fonte: WWE

Há quatro semanas, um jornalista saudita desapareceu depois de entrar no consolado do seu país, em Istambul. A sua morte já foi dada como certa e até Donald Trump comentou o caso. Este desaparecimento é ainda mais polémico, uma vez que o jornalista era um ávido crítico do governo do seu país e chegou mesmo a pedir exílio aos Estados Unidos o ano passado porque segundo ele: “(..) tinha uma mente independente”.

Claro que a WWE fez uma declaração, dizendo que está a “monitorizar” a situação e que as suas preces estão com a família do jornalista. Esta expressão é a forma correta de dizer que lamenta esta morte, mas não é isso que vai alterar os seus planos. Devido a isto, a WWE já foi criticada pelo acordo que assinou e dois dos próprios lutadores da empresa recusaram participar neste evento. 

Na semana passada, surgiu a especulação de que tanto John Cena como Daniel Bryan não estariam confortáveis em participar no Crown Jewel, devido à polémica que assolou o evento. Isto criou um grande problema interno, uma vez que são duas das principais estrelas que a WWE tem para oferecer e ambos teriam uma participação importante (até do ponto de vista político).

Assim, nesta semana, foram anunciadas as suas substituições. E de forma pouco convincente: Cena porque “contraiu uma lesão”, tal como explicou no Twitter, foi substituído por Bobby Lashley; e Bryan porque decidiu aceitar o desafio de AJ Styles e ter o combate pelo título, esta semana, no SmackDown. Styles venceu e Samoa Joe apareceu do nada para o atacar e garantir que o público saudita tem direito a assistir a um combate pelo WWE Championship.

Todos percebemos o motivo da substituição dos lutadores e isto até seria mais uma boa razão para a WWE cancelar o evento na Arábia Saudita.

No entanto, é certo que não só não vão fazer isso, como vão continuar com estes eventos nos próximos anos.  Tudo isto sempre pelo mesmo motivo: dinheiro.

Foto de Capa: WWE

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Afonso Viana Santos

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