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JO: Brasil x Alemanha. Depois do Knockout!

Paulo Sousa · 6 min

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Hoje, há jogo da final do futebol masculino nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Um combate de pesos-pesados!

Brasil como anfitrião no canto vermelho, Alemanha como visitante no canto azul. Cenário quase idêntico ao do último confronto oficial entre a Canarinha e a Mannschaft, excepto o facto de não ser uma final como agora. Ainda assim, encontram-se, de novo, numa competição de grande dimensão internacional (embora algumas seleções queiram fazer parecer que não). Sensivelmente dois anos depois deste fatídico dia para os Brasileiros – em que os Alemães marcaram um golo por cada dia da semana – podemos afirmar que o “futebol sambado” está aí e se faz presente de novo no ringue.

No Brasil sente-se o entusiasmo e o clima de vontade: primeiro, de conquistar o Ouro, e, segundo, de lançar o primeiro soco de vingança! Hoje, haverá uma oportunidade de poder lavar a cara após as lágrimas derramadas. Acredite-se ou não, hoje ainda há quem chore esse dia, ou, no mínimo, quem faça questão de o recordar. Na minha opinião o Brasil está a precisar deste jogo para sarar as feridas do passado; para se livrar desta “malapata” e enfrentar o futuro do futebol de uma vez por todas com otimismo e sem olhar para o passado.

Embora haja muito boa gente que afirme que nada tem a ver este jogo – uma Final dos Jogos Olímpicos – com aquele do Mundial, no fundo do baú das emoções sabemos que para o povo brasileiro a diferença não é muita. Em questões de orgulho ou de ego, ou entre inimigos, não há jogos a sério ou jogos da treta. Este é o primeiro assalto após o knockout do último combate, e é a doer!

Eu não creio que a resposta à evolução ou à estagnação do futebol brasileiro esteja dependente deste jogo, mas para um povo imediatista – que vê nos resultados o processo (e o progresso) – esta é sem dúvida uma forma de perceber se tudo está igual ou se tudo melhorou. Acredito que no final do jogo, independentemente do resultado, o brasileiro vai sentir que algo está melhor porque dificilmente se repetirá o equivalente a mais uma semana cheia de golos.

De um lado – no canto vermelho – um elenco luxuoso que se apresentou na máxima força, com uma defensiva muito consistente, sem qualquer soco no estômago consentido, e ainda demonstrou evolução massiva na ofensiva, com golpes de ataque letais nos últimos três combates realizados. Foram seis jogos realizados, doze golos marcados e zero sofridos, três vitórias por knockout e dois por desempate de pontos no final. É um sério candidato ao título. Neste canto temos o… Brasil!

Do outro lado – no canto azul – uma figura conhecida pela sua eficácia e pela sua eficiência. Algo instável na atitude, postura defensiva, mas sempre com uma concentração exímia, que lhe permite desferir golpes no timing certo. Ao longo da competição veio confirmando o seu favoritismo e evoluiu em termos de solidez e consistência de combate. Enfrentou adversários de peso e alguns outsiders. Apesar dos sustos não se fragilizou! Foram seis jogos realizados, 21 golos marcados (embora metade contra um ‘peso-morto’) e cinco sofridos, as mesmas três vitórias por knockout e duas por desempate de pontos no final. Se alguém duvidava, eles fizeram por esclarecer. Neste canto temos a… Alemanha!

Caros amantes do jogo, este combate tem passado e futuro envolvidos. Vencerá quem estiver melhor no presente! Porém, há que reconhecer que temos na final as duas melhores seleções do torneio. Vai ser um desafio de muitas emoções. Acho que nem os alemães – naturalmente os residentes na Alemanha – percebem o que está em jogo – além do ouro, claro – ou como estão os brasileiros a viver este acontecimento. Pura dicotomia; o entusiasmo versus o receio.

No estádio teremos duas claques bem distintas. Claro que ambas com muito apoio e a torcer muito pelos seus pupilos, mas diria “distintas” desde as cores até à festividade! De um lado a turminha do amendoim – todos vestidos de amarelo – a saltar, a gritar, a criticar e até a invocar todos os santos. A vitória tem de ser deles e de preferência por números expressivos. Do outro lado da arquibancada, teremos os gringos de uniforme e pele branca, com cânticos organizados e talvez sentados pacientemente, acreditando no ditado ‘O futebol são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha’. De amarelo os alemães só terão o cabelo e a fresquinha nas mãos. Aí os brasileiros não perdem a oportunidade. Também gostam de cerveja!

Neymar terá a oportunidade que não teve em 2014 Fonte: Rio 2016
Neymar terá a oportunidade que não teve em 2014
Fonte: Rio 2016

Assim se espera um jogo intenso, tanto do lado da bancada ou dos prognósticos, como também do jogo. Acredito que se a pressão não existir nos jogadores brasileiros um bom espetáculo estará para surgir! Desse fatídico jogo só Neymar é sobrevivente. Não têm razão para se sentir pressionados. Uma história em cenário semelhante nunca se escreve da mesma forma. O Brasil convocou praticamente os melhores jogadores da nova geração, destacando: Marquinhos (PSG), Douglas Santos (Atl. Mineiro), Wallace (Grémio), Luan (Grémio), Gabriel Barbosa (Santos), Gabriel Jesus (Man. City) e, claro, Neymar (Barcelona). Desde a entrada de Luan e Wallace no onze titular que a equipa ganhou, por um lado, criatividade, com o primeiro, e por outro lado equilíbrio com o segundo. A partir daqui se deu espaço para que Renato Augusto não ficasse com tanta responsabilidade e Neymar com muita cobrança. Se Neymar tiver espaço para pensar um jogo coletivo e não quiser resolver tudo sozinho, o Brasil fica muito próximo de vencer. Com Luan e Wallace o jogo passou a ser mais fluido e permitiu que a dinâmica entre Gabigol, Neymar e G. Jesus se revelasse. Inclusive o lateral esquerdo Douglas Santos mostrou que é um lateral moderno! O Brasil só ganhou, e bem, a partir do jogo que realizou com maior pressão. Com a Dinamarca, na fase de grupos, foi equipa unida.

Do lado alemão, viu-se uma equipa bastante europeia. As quatro fases de jogo bem definidas. Princípios de jogo articulados, com momentos de posse de bola e outros de exploração de espaços vazios. A Alemanha é letal nas transições defesa/ataque. Assim que recupera a bola sabe explorar bem a profundidade e tem nos irmãos gémeos Bender (Leverkusen e Dortmund) o compasso certo do futebol alemão e principalmente em Max Meyer (Schalke04), Julian Brandt (Leverkusen) e Sèrge Gnabry (Arsenal) a eficácia de que tanto falo. Selke (Leipzig) e Petersen (Freiburg) são só um complemento da dinâmica organizada desta equipa. São uma máquina de fazer golos, mas vale lembrar que também consentiram alguns com seleções de menor expressão (três com a Coreia e dois com o México). São um elenco de respeito, desconhecido para muitos dos brasileiros, mas certamente o futuro da seleção alemã. Ainda assim, vale lembrar que ficaram em casa Joshua Kimmich (Bayern), Emre Can (Liverpool), Julian Draxler e Mario Götze (Dortmund). Todos poderiam estar neste elenco pela idade – falando só dos que foram titulares da Alemanha neste último Europeu – mas os clubes não os libertaram e a seleção não fez força para os trazer. O propósito é outro! Para se ter uma ideia, a Alemanha investe bem mais – em dinheiro – na qualidade de formação dos técnicos, nas condições e nas infra-estruturas do futebol jovem do que aquilo que o Brasil, com todos os clubes juntos, investe no futebol profissional do Brasileirão. Importa também dizer que, embora a Alemanha tenha 80 milhões de habitantes para os 200 milhões de brasileiros, é a confederação com mais jogadores federados do mundo. É lógico que se colham os frutos no futuro!

Por fim, acredito que as palavras certas para esta final são respeito e humildade. Ambiciosos devem ser os dois. São potências mundiais do futebol. O Brasil tem aqui a sua grande aposta de futuro e está em condições de dar uma bofetada de luva branca a quem não acreditou. Mas precisa de ter respeito pelo adversário, independentemente de conhecer ou não os nomes dos jogadores adversários, pois o que jogam são os pés, o coração e o cérebro. No caso da Alemanha acredito que, se der a iniciativa do jogo ao Brasil e o deixar empolgar-se com a torcida, poderá transformar o sonho brasileiro em pesadelo. Querem muito vencer, mas vão depender da falta de inspiração brasileira e do facto de apresentarem humildade na forma como abordam o jogo. Terá de ser aquele lutador que aposta no erro do adversário e na baixa da mão que guarda o rosto.

 

Foto de Capa: Brasilpost

Paulo Sousa

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