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Kyle Shanahan e Sean McVay: Entre a razão e a emoção

André Amorim · 5 min

Kyle Shanahan e Sean McVay: Entre a razão e a emoção
Foto: NFL

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Pela última vez na temporada 2021-2022 iremos ter um duelo entre os San Francisco 49ers e os Los Angeles Rams. As duas equipas, orientadas pelo guru ofensivo Kyle Shanahan, e o mestre ofensivo Sean McVay, têm raízes muito idênticas, cresceram com filosofias muito próprias, mas a realidade é que esta final de conferência da NFC será decidido mais pelas suas diferenças do que propriamente pelas suas similaridades.

Os dois treinadores cruzaram caminhos em 2013, quando faziam parte da equipa técnica dos Washington Football Team, que era liderada por Mike Shanahan. Nessa equipa, Kyle Shanahan assumia o papel de protagonista na chamada de jogadas ofensivas e Sean McVay trabalhava como treinador de tight ends.

Kyle Shanahan acabou por seguir caminho nas temporadas seguintes para Cleveland e, eventualmente, para Atlanta, acabando por evoluir e desenvolver os esquemas ofensivos, wide zone, no jogo de corrida, e west coast no jogo de passe, até encontrar o seu esquema muito único, extremamente particular e quase mágico. Acabou por dar relevância a Kirk Cousins, em Washington, e elevar o jogo de Matt Ryan quase ao nível de MVP, o que lhe valeu, em 2017, o lugar de Treinador Principal dos San Francisco 49ers.

Sean McVay, também em 2017, foi contratado para Treinador Principal dos Los Angeles Rams. Depois da saída da família Shanahan de Washington, acabou por assumir o papel de coordenador ofensivo, onde demonstrou que consegue tornar um quarterback mediano num excelente quarterback e começou a ser rotulado como o novo “mago ofensivo”. Usava e abusava igualmente do esquema de wide zone em termos de corrida e incorporou variações modernas de play action para promover a mobilidade e verticalidade no jogo de passe.

As temporadas entre 2017-2018 e 2019-2020 foram pautadas, para ambos os treinadores, pela evolução dos seus esquemas de corrida, dentro do sistema wide zone. Na mente, e no mundo, de ambos os treinadores, correrem a bola dentro deste sistema era o protagonista principal do filme de terror que tentavam desenhar para os adversários; abrir o interior do relvado para os seus quarterbacks e correr rotas cruzadas eram o actor secundário; e o play action era o twist que deixava tudo e todos em pânico.

Para Sean McVay, o sucesso foi quase imediato, quer pelos recursos humanos que tinha à sua disposição, quer pelo caminho que foi pautando e que o levou a visitar o Super Bowl na temporada 2018-2019. Nessa temporada, ninguém tinha resposta, McVay começou a usar e abusar do 11 personnel – 1 running back e 1 tight end– e o seu trio de wide receivers começou a semear o caos. A capacidade de mascarar formações, utilizar movimentações antes do snap e iludir defesas foi pioneira de alguma forma.

Nesse ano não havia resposta, McVay dominou a NFL, até que no Super Bowl LIII encontrou Bill Belichick, que colocou fim ao terror de McVay. Nesse Super Bowl McVay perdeu 13-3 e foi colocada a grande questão: será que McVay foi exposto?

No que toca a Kyle Shanahan, o seu momento chegou em 2019-2020, quando guiou os 49ers ao Super Bowl. A sua filosofia e abordagem foi muito idêntica àquela que McVay conseguiu rapidamente colocar em ação, em Los Angeles. De alguma forma, podemos dizer que ambas as equipas tiraram a mesma licenciatura, mas que os 49ers optaram por se especializarem, num longo e intenso mestrado, talvez doutoramento, em corridas de power e counter. Jogadas utilizadas para demonstrar a dominância das linhas ofensivas, versatilidade do jogo de corrida e deixar as defesas adversárias completamente perdidas, explorando essa hesitação.

Nesse ano, os 49ers chocaram a NFL, mas no Super Bowl LIV encontraram pela frente o inevitável Patrick Mahomes e os Kansas City Chiefs, e até perto do final tudo parecia que ia de acordo ao plano, até deixar de ir: será que Shanahan tem limitações?

As similaridades entre os dois treinadores são por demais óbvias,  o mesmo podemos dizer naquilo que tem pautado os seus caminhos. Podemos encontrar explicações, mais baseadas na análise de informação, dotadas de mais razão e argumentos, ou explicações mais orientadas a estilos de gestão e onde a emoção ganha destaque.

  • Será que Jimmy Garoppolo era simplesmente melhor do que Jared Goff a correr este sistema?
  • Será que os 49ers, com o seu jogo de corrida mais imperativo, colocavam mais receio nos adversários do que os Rams com as suas movimentações de ilusão?
  • Será que o uso e fullback (kyle Juszczyk) é mais profícuo do que usar três wide receivers (Cooper Kupp, Van Jefferson e Robert Woods – agora OBJ!) e explorar a força sobre o disfarce?
  • Ou será que Kyle Shanahan é simplesmente melhor do que Sean McVay quando se depara com um adversário que é capaz de ajustar? Este jogo pode dar-nos a resposta definitiva a esta questão.

A realidade é que Sean McVay, este ano, colocou a equipa de Los Angeles num autêntico “tudo ou nada”, sendo que a aquisição de Matthew Stafford revolucionou a forma dos Rams de jogarem, adicionando toda uma nova camada de possibilidades, abrindo o jogo de passe a novas dimensões, ao mesmo tempo que mudou toda a identidade da equipa de Los Angeles – muito mais talentosa e capaz de rasgos de génio.

Já Kyle Shanahan continua a ser “pão com manteiga”, continua a ser capaz de desenhar esquemas ofensivos de corrida perante qualquer adversário, encontra formas criativas de envolver os seus jogadores e, acima de tudo, continua a abrir o campo para Jimmy Garoppolo que está longe de ter o talento do seu adversário de posição, mas que tudo aquilo que faz é ganhar.

Apesar de Kyle Shanahan ter ganho os últimos 6 jogos contra os Rams, tendo no processo vencido três defesas distintas, lideradas por três treinadores distintos (Wade Philips, Brandon Staley e Raheem Morris) a realidade é que existe uma constante nessas derrotas e o seu nome é Sean McVay.

A narrativa para mim é clara, este jogo tem aroma de Super Bowl, vamos ter frente a frente dois mestres na arte ofensiva da NFL, dois irmãos, ambos com as mesmas crenças e os mesmos valores, com ideias que se foram moldando ao longo dos últimos 5 anos e filosofias que cresceram em direções opostas.

Neste encontro tão familiar, a valer uma viagem ao Super Bowl, vamos descobrir qual dessas filosofias foi construída da forma mais acertada – a resposta é dada dia 30 de Janeiro pelas 23h30 e nós não vamos querer perder.

Foto de Capa: NFL

Artigo revisto por Joana Mendes

André Amorim

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