
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Há muito em jogo quando se confrontam SL Benfica e Sporting CP, o peso de centenas de confrontos (308) que ajudaram à construção do epíteto de Dérbi Eterno: o confronto de gigantes da capital tem a importância cultural inerente aos dois maiores protagonistas desportivos em Portugal, numa história que se construiu sempre paralela e cheia de peripécias à nascença, que deram azo à criação de lendas várias e momentos inesquecíveis.
Como no futebol o principal ponto de valorização é, e será sempre, o golo, é natural que as principais figuras constituam sempre o leque de avançados em exibição. Peyroteo e Eusébio, os mestres de tiro ao rival (45 e 27, respectivamente) repartem destaque na história como ídolos das multidões e líderes no assalto ao orgulho inimigo. No século XXI, Liedson e Óscar Cardozo (11 e 13) foram os que mais se entusiasmaram nestas ocasiões especiais, gravando o seu nome nos cânticos mais provocatórios das bancadas que se serviram deles como arma de arremesso.
Porém, não é só de nomes icónicos que se constrói a narrativa da rivalidade-mor, existindo espaço para aqueles sem lugar especial no coração dos adeptos para se afirmarem como heróis momentâneos ou, em alguns casos, definindo o momento de glória num dérbi como ponto de partida para um futuro risonho nos seus clubes. Este top servirá para relembrar cinco desses casos curiosos, histórias que mesmo os mais optimistas teriam dificuldades em fantasiar e lances marcantes que assentam invariavelmente no imaginário geral como a prova suprema de que não há jogo como este no Portugal futebolístico.
5.
Abdel Sabry (1999-2000, 33ª Jornada da Primeira Liga) – Corria o campeonato a favor do Leão, com o título quase no bolso, faltando uma vitória de confirmação a duas jornadas do fim. Augusto Inácio, que tinha assumido a equipa com a época em andamento, conseguiu criar dinâmica positiva e o plantel correspondeu com vitórias em catadupa, sobressaindo especialmente o rendimento superlativo de Acosta, olhado com reticências depois duma época de estreia insuficiente.
No outro banco sentava-se Jupp Heynckes, técnico de classe mundial, mas sem ovos para construir uma super-equipa à sua maneira, como o Real Madrid, campeão europeu em 1998. O seu Benfica não era super, era equipa que seguia aos solavancos no último lugar do pódio e pouco mais podia acrescentar em contas de campeonato.
Ainda assim, o alemão acreditava na capacidade da equipa em estragar a festa adversária, curiosidade que Inácio confidenciou em Abril último à SportTV: “Antes do jogo, fomos almoçar os dois ao Solar dos Presuntos. Tudo na desportiva. Ele tinha-me dito: ‘Vais perder, mas vais ser campeão’. No jogo, a tática dele foi estranha, colocou titulares no banco e jogou à retranca. Nos primeiros 20 minutos só deu Sporting. Quando vi que não íamos marcar, pensei: ‘Queres ver que este malandro, num contra-ataque, vai-me estragar a festa?’. O que é certo é que o Sabry marcou, num livre. No final, ele disse-me: ‘Eu disse-te que ganhávamos… Mas vais ser campeão na mesma, porque mereces”.
Ora, foi Sabry o grande herói de um jogo disputado num Alvalade em clima de festa, onde a presença do Benfica, como visitante, apimentava a celebração dos adeptos leoninos, sedentos de títulos depois de 18 anos de impaciente espera.
Acontece que a equipa não correspondeu à histeria geral, que nem um dilúvio vindo dos céus ajudou a dissipar: todos davam por garantidos os três pontos, acreditavam que a sua equipa era melhor e frustrados foram ficando à medida que os minutos de jogo passavam e o resultado se mantinha inalterável, num zero a zero chato. O Benfica esperava retraído, sossegado na rectaguarda e sem grandes ganâncias.
Sabry, gingão fantasista à moda antiga, só entra aos 50’ para liderar os contra-ataques e aproveitar brechas na defensiva adversária, balanceada cada vez mais para a frente. É numa destas situações, já na entrada para o período complementar, que João Tomás é rasteirado junto à linha da grande área. Sabry assume, levanta a gola, beija a bola e mete-a em arco sobre a barreira, deixando Schmeichel e todo os que estavam no estádio pregados ao chão, adiando a grande celebração verde-e-branca e obrigando a mais uma semana de espera, até à vitória em Vidal Pinheiro por 4-0.
4.
Paíto (2004-05, Quartos-de-Final da Taça de Portugal) – Martinho Martins Mucuana, o moçambicano que o Sporting pescou ainda menino no Maxaquene, era o suplente de Rui Jorge naquela sedutora equipa de José Peseiro, finalista da Taça UEFA.
Não que fosse um portento técnico, mas o pé esquerdo arrojado, aliado à velocidade de ponta, constituíam valências que lhe permitiam ser ameaça, quando embalado para o contra-ataque. Naquele fantástico 3-3 (com 2-2 feitos nos primeiros 20 minutos), seria figura de proa recorrendo a um claro exemplo disso mesmo.
Quando o prolongamento se iniciou, tanto Benfica como Sporting já esperavam pacientemente a decisão dos penalties, num choque tático entre a rebeldia verde e a disciplina encarnada imposta por Trappatoni, sábio de andanças superiores.
Ora, após 110 minutos intensos que remetiam as equipas para uma trégua confortável, quando já ninguém tinha paciência para grandes correrias, Paíto decide investir pela ala esquerda após perda de bola adversária – passa facilmente por João Pereira, invade em condução o território adversário e vê-se, já perto da grande área, frente a frente com o gigante Luisão.
Arriscou, soube ser atrevido, imaginou um caminho alternativo por entre as pernas do brasileiro – toque por dentro e vai buscá-la mais à frente, num momento de futebol de rua, que só acabou num remate em força perante um desconcertado Quim.
O golo não chegou para a vitória leonina, já que Simão empatou perto do fim e o Benfica superiorizou-se nos penáltis, mas o lance genial do pequeno lateral é a melhor imagem de um dos melhores dérbis deste século.
3.
Yannick Djaló (2007-08, Meia-Final da Taça de Portugal) – Não que fosse o mais improvável dos protagonistas à época, dado o impacto com que surgiu na equipa principal pela mão de Paulo Bento.
Ainda assim, o potencial imenso que demonstrava ainda não o colocava imediatamente como figura incontornável nem aposta a tempo inteiro – existiam Liedson e Derlei mais à frente, Vukcevic, Moutinho e Izmailov um nível acima no centro do terreno.
Mas, naquele dia, foi ele quem assumiu as despesas da equipa e se evidenciou como a mais mortífera lança apontada à baliza encarnada na remontada histórica: o Benfica saiu para o intervalo com dois golos de vantagem e cabia ao Sporting, perante um Alvalade XXI cheio, ajeitar o fato de gala e impedir a hecatombe que se adivinhava.
O momento definidor do possível melhor jogo da carreira do extremo português é aos 84 minutos, instantes depois de ‘Cebola’ Rodriguez ter reposto a igualdade em 3-3.
Entretanto, a entrada de rompante do Leão tinha invertido o rumo da partida, mas o uruguaio fazia questão de colocar novamente o Benfica com hipóteses de seguir em frente, ideia que Yannick fez questão de exterminar no lance de resposta, numa cavalgada imparável por terrenos adversário e que culminou num remate potente à entrada da área – ainda que o ressalto em Luisão tenha ajudado na trajectória até ao ângulo superior, foi golo de belíssimo efeito e golpe final numa noite mágica.
2.
Lazar Markovic (2013-2014, 3ª Jornada da Primeira Liga) – Tal como no caso de Djaló, era um jovem com fama de craque, descoberto pelo Benfica na prolífica escola do Partizan, mas recém-chegado à Luz e sem a importância de outros elementos.
Com Salvio na equipa, era expectável que o sérvio acumulasse mais minutos no banco que no relvado, mas o momento em que pega na redondinha ainda perto do círculo central e vai ultrapassando adversários, com a calma e naturalidade dos grandes predestinados, ajudou à consolidação do prodígio entre os mais influentes no lado encarnado.
Foi ali que se iniciou a afirmação entre as grandes figuras do conjunto, que a lesão grave de Salvio ajudou ser definitiva pouco depois, permitindo mais oportunidades a Lazar e o tempo de jogo necessário a explanar todo seu talento.
Foi aquele lance, ainda em Setembro e num Benfica a reencontrar-se com ele próprio, num golo que garantiu um empate em jogo cinzento, que Markovic começou a demonstrar a sua qualidade excepcional enquanto futebolista de elite, que se confirmou substancialmente pela sua influência na conquista de todas as competições internas, na chegada à final da Liga Europa e, finalmente, pela forma apressada com que o Liverpool o contratou, no final dessa temporada.
1.
Victor Lindelof (2016-17, 30ª Jornada da Primeira Liga) – Ao central sueco que Rui Vitória consolidou na equipa principal, pouco talento para a bola parada era reconhecido.
Aliás, ninguém imaginava nenhuma apetência especial para a finalização, apesar do seu jogar de pantufas e cabeça levantada. Nunca tinha demonstrado em campo, havia na equipa especialistas suficientes para nunca chegar à sua vez.
Surpresa das surpresas, Lindelof assume a marcação num dérbi em Alvalade que até nem corria bem aos encarnados, dada a qualidade que os homens de Jorge Jesus impunham no relvado, controladores implacáveis de um jogo que dominaram quase na sua totalidade.
O Benfica pouco merecia aquele golo, mas a forma exemplar como o central enviou a bola sobre a barreira e deixou Patrício boquiaberto e colado ao relvado, desculpa a inépcia da equipa. Rui Vitória percebeu o significado daquele momento, mandou a equipa aguentar atrás e trocou Felipe Augusto por Mitroglou minutos depois, arrumando definitivamente a questão e mantendo o Benfica no comando dum campeonato que seria o 36º da vida do clube.
Artigo revisto por Joana Mendes










