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É uma das maiores referências do futebol de formação em Portugal e no estrangeiro, não tivesse ele treinado os escalões jovens do Benfica durante quase 19 anos. Nesta entrevista de vida, João Tralhão partilha connosco a experiência e os ensinamentos de quem trata a profissão de treinador por “tu”, entrando ao detalhe para falar de jogadores como Rui Costa, Fàbregas, Bernardo Silva ou João Félix. Afirma até que este último pode valer mais do que aquilo que custou ao Atlético de Madrid. De discurso metódico e assertivo, características que também identificam o seu estilo como treinador, João Tralhão dá-nos uma autêntica masterclass sobre a sua profissão, e revela ainda o que procura no próximo desafio profissional.

– O desafio de treinar Rui Costa e Fàbregas –

Bola na Rede [BnR]: Tens uma fotografia no teu perfil no Twitter que diz “I’ve always been of the opinion that the most important thing to do is the right thing”. A coisa certa é sempre a mais difícil?

João Tralhão [JT]: Depende da perspetiva. Eu acho que a coisa certa é sempre a mais fácil para mim, porque eu tomo decisões conforme aquilo que sinto, e, quando tomo uma decisão, acredito que é a melhor decisão.

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BnR: Quem são as tuas referências enquanto treinador?

JT: Houve um treinador que me marcou bastante, porque coincidiu com o meu começo a treinar, que foi o José Mourinho. Na altura em que me apaixonei por esta profissão, o José Mourinho tinha “rebentado” aqui em Portugal, com a vinda para o Benfica. Não só pela qualidade dele, mas sobretudo pela mudança que operou no futebol português. Depois, treinadores mais recentes… tenho vários. Gosto muito do Maurizio Sarri, sobretudo das épocas que fez no Nápoles, gosto muito de Pep Guardiola pela filosofia que tem de vida e de jogo. Identifico-me com estes três treinadores de elite. Depois, não tão mediáticos, mas também de elite, identifico-me com vários pessoas com quem trabalhei. Destaco o Luís Tralhão, o meu irmão.

BnR: Já tiveste a oportunidade de dizer ao José Mourinho que ele era uma das tuas referências?

JT: [risos] Olha, as únicas vezes que estive com o Mourinho foi sempre em alturas que implicavam conversas muito rápidas. A primeira vez que estive com ele foi quando nos cruzámos na Gala das Quinas de Ouro. Foi nos bastidores, eu tinha ganho o prémio de Melhor Treinador do Ano na Formação.

BnR: Foi em 2018? Quando ganhaste o segundo título de campeão nacional de juniores?

JT: [João hesita] Ah… É provável, sim. Sim, foi as Quinas de Ouro de 2018, exatamente. Ele tinha recebido o troféu Vasco da Gama, porque tinha expandido os treinadores portugueses para o mundo. Foi recebê-lo, e, ali nos bastidores, cruzámo-nos e falámos um bocado. Mas não tive oportunidade de lhe dizer isso [risos]. As outras vezes que me cruzei com ele foi em trabalho. Mas ainda não surgiu a oportunidade. Um dia espero poder-lhe dizer isso.

BnR: Qual foi o jogador que mais te impressionou na primeira vez que o viste?

JT: [João nem hesita] Foi o Rui Costa. Já era fã dele enquanto adepto de futebol. Já era fã de jogadores como o Rui Costa, Figo, Nuno Gomes… grandes jogadores.

BnR: Temos isso em comum então. Disseste três dos meus jogadores preferidos de sempre.

JT: Exato. Outro, João Pinto no Sporting e no Benfica. Eu cresci a ver esses grandes jogadores portugueses, e depois, quando tive oportunidade de treinar o Rui no último ano dele…

BnR: Com o Chalana, não é? Depois da saída do Camacho.

JT: Exatamente. Fiquei totalmente impressionado pela positiva com o caráter dele e com a forma dele jogar. Era muito diferente de qualquer jogador. Na minha visão, o Rui foi um dos melhores jogadores de sempre.

 BnR: Treinar um jogador como o Rui Costa, ainda por cima na fase final da carreira… como treinador, sentes que ainda há algo que lhe podes ensinar?

JT: Sim, eu acho que o desafio com esse tipo de jogadores, que são completamente diferenciados, são de outro nível. É criar-lhes condições para que eles se sintam ainda motivados para aprender. Quando eu digo motivar para aprender, não quer dizer que o Rui não tivesse essa humildade! Mas são jogadores com uma experiência tão grande, e são tão competentes ao longo de tanto tempo, que dificilmente a perceção que têm é de que alguém lhes pode trazer algo de novo. Por isso, treiná-los é criar um ambiente em que eles possam sentir que estão a crescer ainda. Eu tive essa experiência não só com o Rui, mas também com outros tantos jogadores. Mais recentemente, no caso do Monaco – um excelente jogador, já era fã dele, e depois quando tive oportunidade de trabalhar com ele…

BnR: Acho que sei quem é. Fàbregas?

JT: Certo. Quando trabalhas com um jogador desses, o desafio é sentires que lhes estás a oferecer qualquer coisa de novo e criar-lhes condições para que se sinta motivado para continuar a crescer.

BnR: Tens um feito interessante no currículo. Não é toda a gente que pode dizer que deu uma nega ao Thierry Henry…

JT: [João abre um sorriso] Não é bem assim…

BnR: Eu sei que já tinham trabalhado juntos no AS Monaco e tiraram dois níveis do curso de treinador juntos. O que te quero perguntar é se a família está sempre no centro das tuas decisões?

JT: Sim. Não me orgulho nada em ter… aliás, isso até é algo que me deixa bastante triste. Sou amigo do Thierry e sou um grande admirador dele, não só pelo grande jogador que foi, um dos melhores de todos os tempos, mas sobretudo como pessoa. Identifico-me muito com ele como pessoa, e fiquei bastante triste por não poder ir com ele por razões pessoais. Continuamos amigos e continuamos em contacto, o que me deixa o mais orgulhoso possível. Em relação às decisões, sou uma pessoa de família e as minhas decisões são sempre em função daquilo que eu achar que é o melhor para a minha família.

BnR: Um treinador às vezes é um pai?

JT: Sim, é sempre. Um treinador é sempre pai [risos]. Eu acho que ser treinador é uma responsabilidade grande, porque não só tens de dar o exemplo, como também guiar os jogadores para aquilo que é o melhor caminho. Se fizeres o paralelo com o pai, acho que é igual.

BnR: É mais difícil ser pai ou treinador?

JT: Ambos! [João solta uma gargalhada forte] Têm ambos particularidades muito próximas, como é óbvio, mas ser treinador e ser pai é entusiasmante.

BnR: Ao veres um jogador que te passou pelas “mãos” na formação a brilhar uns anos mais tarde, sentes um bocadinho o orgulho de um pai que vê o filho ser bem sucedido?

JT: Sim, é esse o sentimento. Mais do que tudo, quando recordo a relação que tive com os jovens que estão a ter agora enorme sucesso, o meu maior orgulho não foram os feitos, os títulos e por aí fora. Foi o facto de poder ter contribuído, de alguma forma, para que eles pudessem concretizar o sonho deles. E agora vê-los a jogar ao mais alto nível… brilham-me os olhos sempre que vejo um jogo deles.

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