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O SL Benfica vai a votos no dia 28 de outubro. Não vamos escolher apenas o presidente do clube para os próximos quatro anos. Vamos escolher o tipo de clube a que queremos pertencer. Referendaremos valores, mais do que pessoas.
Benfiquistas, dividem-nos as opiniões, une-nos o amor ao clube. Esse amor, que antecede em mim as lembranças mais antigas, deveria permitir que cada um de nós expressasse uma opinião sobre o clube sem acusações e ódio. Nem sempre é assim. Mas lembrem-se que cada um de nós quer o melhor para o clube e será nesse espírito que votaremos nas próximas eleições. É sobre esse momento, o momento em que colocaremos a cruz, que vos quero falar.
O Benfica de Vieira é incomparavelmente melhor que o Benfica de Vale e Azevedo porque o Benfica de Vieira ganha muito mais, tem mais fôlego financeiro e tem um projeto desportivo alicerçado em boas infraestruturas e muita qualidade na formação. Isto não ocorreu por obra e graça do Espírito Santo: é trabalho do atual presidente do Benfica. Isso está para lá de qualquer debate, e ainda bem, porque é também completamente irrelevante para a eleição desta semana. Nesta eleição, não vamos decidir se a presidência de Vieira foi ou não foi melhor que as más presidências anteriores. Foi melhor, ponto final. Esse debate está resolvido há mais de uma década.
O que vamos decidir é se ainda faz sentido continuarmos com a presidência de Vieira, ou se está na hora de lhe pôr fim de forma lúcida, esclarecida e serena, da forma mais democrática possível: votando.
Vou-vos explicar porque é que, na minha opinião de benfiquista com 25 anos de quotas pagas, a presidência de Vieira deve terminar. Peço-vos que inspirem profundamente: as razões são sobretudo três e estou certo que não concordarão com todas. Algumas são, julgo, absolutamente inegáveis.

A primeira razão é a seguinte: o projeto desportivo de Vieira está exausto. Dezassete anos é muito tempo: muito mais tempo do que qualquer pessoa, por melhor que seja, se deve manter à frente de uma qualquer instituição. Vieira propôs-se a reposicionar o Benfica no topo do futebol português e a verdade é que o Benfica melhorou bastante face aos 17 anos anteriores. Contudo, Vieira falhou: feitas as contas, nesses 17 anos, o Benfica venceu 7 campeonatos nacionais, contra 10 do Porto; 3 taças de Portugal, contra 5 do Porto; supertaças, ganhámos 5 contra 8 do Porto; 0 títulos europeus, contra 3 do Porto. Somos, no seu mandato, os reis da Taça da Liga. Não me dá gozo nenhum dizer isto, mas os factos são os factos, e do ponto de vista desportivo, melhorámos, mas ficámos aquém tanto da promessa de Vieira como das obrigações do Benfica: ser os melhores em Portugal. Fazer melhor que o péssimo pode não chegar; não chegou.
Ficámos aquém em larga parte por culpa do Presidente e da sua estratégia de venda de ativos sem reinvestimento no plantel (custando-nos, entre outros, o sonho do penta) e do reforço do plantel em quantidade, mais do que em qualidade (vide os camiões de jogadores que entraram e saíram sem honra nem glória).
Outra dimensão essencial do projeto desportivo de Vieira é o Benfica europeu. Durante os dezassete anos de Vieira, duas finais europeias na prova secundária são o que há para mostrar. “Ah, e é mau?”. Não é mau: é pouco, muito pouco, sobretudo quando no reverso da medalha temos a pior prestação de sempre do Benfica na Liga dos Campeões e foram mais as vezes que ficámos para trás na fase de grupos do que aquelas em que o conseguimos passar.
Há benfiquistas que dizem que não podemos julgar Vieira pelo projeto europeu, porque hoje em dia, no futebol, as equipas portuguesas não têm hipótese, por causa dos orçamentos dos grandes clubes. Digam isso aos adeptos dos seguintes clubes que chegaram às meias finais da Liga dos Campeões nos últimos 17 anos: Porto (vencedor), Mónaco (duas vezes), Deportivo, PSV Eindhoven, Villarreal, Lyon (duas vezes), Schalke 04, Roma, RB Leipzig. Ou que venceram a Taça UEFA/Liga Europa nesse período: Valência, CSKA, Zenit, Shakhtar. Somos menos que estes clubes, nenhum deles um grande europeu, alguns de meio de tabela ou já fora dos seus campeonatos principais? Não aceito.
Chegar à final é bom, é, mas nos últimos 17 anos, chegaram também à final da Liga Europa, não vencendo, Middlesbrough, Espanyol, Rangers, Werder Bremen, Fulham, Braga, Bilbao e Dnipro. É este o campeonato do Benfica? Isto chega? Não chega.

O projeto desportivo de Vieira não foi um fracasso, mas também não triunfou. O Benfica ganha, mas ganha menos do que o maior adversário nacional, ganha menos do que ganhou em certos momentos da sua história, e continua sem ganhar a nível europeu. Ao fim de 17 anos, a pergunta que me coloco é simples: porque é que continuaremos a insistir que é bom este Benfiquinha, que ganha o suficiente para não ser o Sporting, mas que fica muito aquém do que devia ser? Para mim, não serve: quero melhor.
Qual é o projeto de Vieira para os próximos 4 anos? O que vai mudar? Assume erros? Modifica estratégia? Nada disso. Repete as mesmas promessas e espera que nós acreditemos que agora é que vai ser. O que me leva à segunda grande razão para eu não votar em Vieira: Vieira não respeita nem o Benfica nem os sócios do Benfica.
É a única conclusão possível quando analisamos friamente as suas várias atitudes ao longo dos anos.
Alterou os estatutos para prevenir que outros sócios se candidatassem contra ele; o absurdo é tal que, de acordo com os estatutos, um individuo de 42 anos com 42 anos de sócio não pode ser Presidente. Ter 42 anos de sócio pode não chegar para ser candidato ao clube! Isto é antidemocracia primária e é inaceitável em qualquer parte do mundo. Aceitamos isto no Benfica, porquê?
A Benfica TV parece a televisão nacional da Coreia do Norte, tudo a bater continência ao Presidente, as vozes discordantes paulatinamente afastadas, sem espaço para debates e para cobrir as eleições. “Ah, é para evitar cair no ridículo”. Não admito isto: viver o Benfica de forma democrática exige debate e discussão; o contrário disto é, mais que ridículo, uma farsa e um desrespeito para com os sócios e o seu poder de decidir sobre a vida do clube.
Luís Filipe Vieira mente compulsivamente aos sócios do Benfica. Mente no que importa e no que não importa. Promete sobre coisas estapafúrdias e sobre coisas atingíveis, e não cumpre nem umas nem outras.
Em 2002, garantiu que “temos a coluna vertebral do futuro campeão europeu”. Em 2003, prometeu que os problemas do Benfica desapareciam com ele em 3 anos. Mas de 4 em 4 anos lá nos vem dizer que sem ele o Benfica descambaria de imediato. Então? Estão resolvidos ou não estão resolvidos? Depois, em 2005, ameaçou demitir-se se não chegássemos aos 300.000 sócios até outubro desse ano. 15 anos depois, nem 300.000 sócios (somos aparentemente 230.000) nem demissão. Nesse ano, continuou a alimentar as esperanças europeias: “Em breve seremos o maior clube mundial”. Não era piada, mas se carregarem no link descobrem uma, repetida tantas vezes desde então: “não sei se me recandidato”. A última versão, ouvimo-la a semana passada: “Este é o meu último mandato”. Mentiras repetidas.

Fonte: SL Benfica
Em 2013: “Este é o último ano em que vamos precisar de vender jogadores”.
Há uns meses, antes de empacotar Jota, Florentino, Dantas e Tomás Tavares e de os chutar para outros cantos: “Estes jovens, o Benfica não pode começar a pensar que é para emprestar, temos de arranjar espaço para eles competirem. Se o Mundo virar ao contrário como virou, não temos espaço para loucuras, temos de os ter para competir no Benfica.”
Nas últimas semanas, voltou a acenar com um título europeu do Benfica: “nos próximos 4 anos vou lá chegar”. Porque prometeu ao pai, diz ele. Prometeu ao pai? Promete-nos a todos, de quatro em quatro anos, e continuará a prometer, sem concretizar, até o deixarmos.
A mais recente é esta: em julho de 2019, “Líder das águias garantiu que técnico do Flamengo nunca foi opção para render Rui Vitória”. Esta semana: “Quando chamo Bruno Lage, quando ele entra, se o Jorge tem dito que sim, na altura, não seria o Bruno Lage”. Eu quero rir para não chorar, mas não consigo, porque isto é gravíssimo.
Vieira mente descaradamente aos sócios sobre os planos para o Benfica, sobre a estratégia do Benfica, sobre o rumo do Benfica. É uma vergonha. E, pior: é inegável. Uma coisa é não atingir objetivos, o que acontece a qualquer gestor. Outra coisa é fazer dos sócios parvos, fazer promessas, incumpri-las, repeti-las, e continuar a dizer, dezassete anos depois de pegar no clube, que se ele sai isto vai tudo por água abaixo, deixando-nos sem saber, afinal, que raio de trabalho de consolidação anda ele a fazer.
Imaginem liderar uma empresa, uma associação, o que seja, durante 17 anos, e aquilo colapsar mal vocês saem. De quem é a culpa? Do Vale e Azevedo? Haja pachorra.
No final de tudo, entre insultos e agressões a sócios em plena Assembleia Geral, ainda acha que não recebe lições de benfiquismo de ninguém. Eu não quero um presidente que acha que não tem nada a aprender sobre o benfiquismo. Um presidente do Benfica tem de aceitar lições de benfiquismo de todos os benfiquistas que tenham alguma para lhe dar. É o trabalho dele, mas Vieira não respeita os sócios. E quem não respeita os sócios não merece a nossa confiança.
Finalmente, a terceira grande razão para não votar em Vieira centra-se nos casos de polícia, para mim claríssimos, que o rodeiam e à sua presidência. Não me vou alargar muito aqui: Vieira é um criminoso condenado em tribunal, com trânsito em julgado, por roubo e, daí para cá, colecionou tanto na esfera profissional como na esfera privada um leque de casos e casinhos que manchariam a reputação de qualquer pessoa no mundo.
Mas porquê é que não mancham a sua imagem perante os benfiquistas? Não seremos nós, benfiquistas, sensíveis ao facto de o nosso presidente, o nosso representante, ter provocado perdas de 225 milhões ao Novo Banco, quando tantos dos nossos concidadãos e consócios perderam as poupanças todas com a queda do BES? Ou de o nosso presidente ter custado aos cofres da Caixa – ou seja, aos nossos cofres – mais de 20 milhões de euros? O presidente do Benfica não pode ser um caloteiro!
Não nos incomoda ser representados por um individuo envolvido (sabemo-lo por emails que, ainda que ilegalmente obtidos, continuam a ser reais) em sacos azuis de jornalistas, marcação de prostitutas e pagamentos a delegados da Liga, investimento em bruxos, cujo nome é constantemente envolvido em esquemas de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal?
“Ah, é tudo uma cabala”. Como assim? Não leram os emails? Acham que são falsos? Então porque é que o FC Porto foi condenado por “apropriação de segredo”? Se os emails são fabricados, não houve apropriação de segredo!
E não conhecem as acusações da PJ e do Ministério Público? Não leram sobre o escândalo da OPA do Benfica, um péssimo negócio de onde sairia beneficiado em muitos milhões do clube um grande amigo e sócio de Vieira? As escutas no caso Lex? As decisões judiciais no E-toupeira?
Benfiquistas, eu também queria acreditar que é tudo mentira e viver na ilusão de que o ex-condenado por roubo de um camião que elegemos para Presidente há 17 anos pode ser mentiroso compulsivo, mas é pelo menos uma pessoa que aprendeu com os erros do passado e que respeita a lei, estando a ser vítima da maior cabala da história de Portugal, que percorre múltiplos casos, com vários coautores, em diversas áreas e tempos da sua vida. Mas eu sou uma pessoa razoável: não me peçam para viver em La La Land. “Ah, só querem mandar abaixo o presidente do Benfica”. Era um mau argumento para defender Vale e Azevedo, é mau argumento para defender Vieira.
Tentei demonstrar que Vieira não serve para o Benfica porque não fez do Benfica, sequer, líder doméstico; porque manipula, muda as regras e mente aos sócios do Benfica; e porque arrastou o nome do clube, durante anos, para casos onde ele nunca devia ter estado, de dívidas, de corrupção, de evasão fiscal, de desonestidade. Isto não é o Benfica!

Há a possibilidade de tudo o que eu aqui escrevi não ter convencido o verdadeiro Vieirista. É possível, porque o verdadeiro Vieirista tem sempre um último trunfo, que desafia qualquer lógica e qualquer argumento: “deves querer voltar ao tempo do Vale Azevedo”.
Meus amigos: nós estávamos no maior buraco da história do Benfica. Eu nunca mais quero voltar ao tempo do Vale Azevedo. Mas também nunca mais quero passar por um tempo como o de Vieira, onde por cada título nacional leio uma manchete que me envergonha, onde por cada grande noite de glória vejo mais uma mentira desvelada. O Benfica não começou com o Vale e Azevedo e espero que não acabe com o Vieira. O Benfica era um grande europeu, era dono e senhor do campo em Portugal, tinha prestígio, respeito e líderes que foram exemplos para os nossos pais e poderiam ser exemplos para os nossos filhos.
Ser “o Maior de Portugal” não é um direito do Benfica: é uma responsabilidade. O Benfica tem uma grande responsabilidade não só para com os Benfiquistas, mas também para com o país. É a maior instituição privada portuguesa numa altura em que a democracia, as instituições e alguns direitos fundamentais se encontram em perigo. O Benfica, que é seguido cega e religiosamente por milhões de pessoas no nosso país, tem de continuar a representar os valores do fair-play, da inclusão, da tolerância, da transparência, da democracia e da honestidade.
“Ah, eu quero é que o Benfica ganhe”. Eu também, mas quero muito mais que isso: quero que o Benfica me orgulhe; e quero que o presidente do Benfica não seja, como é Vieira, a negação absoluta e direta de todos esses valores.
Na quarta-feira, eu votarei para acabar com a presidência de Vieira. Não quero só um presidente novo: quero, sobretudo, o meu clube de sempre.









