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Benfica | O pequeno-almoço de João Palhinha

João Francisco Gomes · 3 min

João Palhinha Benfica
Foto: Carlos Silva / Bola na Rede

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E agora que está oficialmente no Benfica, fica a pergunta que realmente importa: afinal, qual é o pequeno-almoço de João Palhinha?

Há cerca de uma semana e meia, João Palhinha foi finalmente oficializado como reforço do Benfica. Chegava ao fim uma verdadeira telenovela. Daquelas que enchem manchetes de jornais, programas televisivos, horas e horas de emissão, minutos e minutos de debate, e praticamente todos os segundos do dia a dia jornalístico e televisivo em Portugal.

Uma telenovela que, pelo caminho, se foi alimentando de todos os problemas de Palhinha. Alguns relevantes, outros nem por isso. E que encontrou também nas redes sociais terreno fértil para crescer. Durante semanas, parecia que tudo o que se discutia era João Palhinha. O salário, o custo da operação, os encargos para o Benfica, as condições do negócio. Até surgiram, em jeito de brincadeira, publicações a calcular quanto custaria Palhinha aos cofres da Luz por levar marmitas para casa ou por outras despesas absolutamente insignificantes.

E agora que está oficialmente no Benfica, fica a pergunta que realmente importa: afinal, qual é o pequeno-almoço de João Palhinha? Come ovos com fiambre ou prefere ovos com queijo? É que, se vamos calcular todos os custos, mais vale irmos até ao fim.

João Palhinha Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A pergunta é absurda. E é precisamente por isso que serve o propósito desta crónica.

Isto não é uma crítica a João Palhinha. Nem sequer é, verdadeiramente, uma crítica à transferência. É uma crítica à forma como fazemos jornalismo desportivo e à dimensão que damos a determinados assuntos. É uma reflexão sobre um sensacionalismo que, muitas vezes, transforma o acessório em essencial e acaba por nos afastar daquilo que deveria estar no centro de tudo: o futebol. É certo que qualquer adepto quer conhecer melhor as contratações do seu clube. Quer saber quanto custam, quanto vão ganhar, de onde vêm, que percurso fizeram e o que podem acrescentar à equipa. A chamada silly season e o mercado de transferências são, por isso, terreno fértil para jornais, televisões, redes sociais e plataformas digitais. Geram cliques, audiências, publicidade e horas de conteúdo.

Mas talvez devêssemos, de vez em quando, colocar a mão na consciência e perguntar: será que é isto que realmente nos interessa? Será que, depois de jantar, um adepto de futebol que quer simplesmente sentar-se no sofá e acompanhar um programa desportivo precisa de passar mais vinte minutos a ouvir se João Palhinha come ovos com fiambre ou ovos com queijo? Será que esse pormenor lhe permite perceber se a contratação é boa? Ou será que seria mais interessante discutir o que Palhinha pode oferecer ao Benfica, como pode encaixar no sistema, que problemas pode resolver, que características acrescenta ao meio-campo e de que forma pode alterar a dinâmica da equipa?

Talvez o problema esteja precisamente aqui: perdemos demasiado tempo a falar sobre tudo aquilo que rodeia o futebol e cada vez menos tempo a falar sobre o futebol.

João Palhinha Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

E a responsabilidade não é apenas dos jornalistas. É de todos. Dos adeptos que consomem, dos clubes que alimentam determinadas narrativas, dos comentadores que lhes dão palco, dos jornalistas que as transformam em conteúdo e das plataformas que recompensam tudo aquilo que gera mais cliques e mais indignação.

Porque quando alimentamos constantemente este tipo de narrativa, ela deixa de ficar confinada ao mercado de transferências. Chega às conferências de imprensa. E hoje, demasiadas vezes, um treinador entra numa sala de imprensa preparado para falar de futebol e acaba a responder durante vinte minutos sobre uma polémica criada por um jornal, uma publicação nas redes sociais ou uma declaração de um comentador.

O jogo passa para segundo plano. A polémica passa para primeiro.

E talvez seja este um dos pequenos grandes problemas do estado atual do futebol: já não discutimos apenas quem joga, como joga ou porque joga. Discutimos tudo aquilo que acontece à volta do jogo. E quanto mais nos afastamos do relvado, mais espaço damos ao ruído.

No fim, João Palhinha continuará a ser João Palhinha independentemente do que come ao pequeno-almoço. O que deveria realmente interessar-nos é aquilo que fará quando entrar em campo.

Porque, se chegámos ao ponto em que o debate sobre uma contratação se resume a saber o que um jogador põe no prato de manhã, talvez esteja na altura de perguntarmos se ainda estamos a falar de futebol.

Ou se estamos apenas a falar do pequeno-almoço de João Palhinha.

João Francisco Gomes

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