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A ANTEVISÃO: VENDO FUGIR O FC PORTO NO TOPO, AOS ENCARNADOS SÓ RESTA SAIR INTACTOS DA CASA DA GRANDE SENSAÇÃO DESTA LIGA
«A nós compete-nos olhar para nós. Não é agradável olhar para a classificação. Quem não gostar de olhar, não olhe, e quem não sentir nada pode olhar.» Foi assim, lacónico, que Marco Silva abordou a já histórica sequência do FC Porto, de começar o campeonato com nove vitórias consecutivas. O Benfica está bem e recomenda-se, como ficou patente pela segunda parte feita em Nicósia na quinta-feira passada, mas entra, à condição, a oito pontos dos Dragões, no difícil desafio desta segunda-feira. «Já disse aos jogadores que temos de olhar para nós e ganhar os nossos jogos. A partir do momento em que preparámos a temporada, não previmos estar à frente ou atrás, sabendo que iríamos jogar muitas vezes depois dos nossos adversários, porque, competindo na Liga Europa, sabemos que isso vai acontecer. Não adianta gastar energia naquilo que não controlamos.»
E, realmente, o Benfica tem feito a sua parte. Os recordes ofensivos sucedem-se e obrigam às comparações com Jesus e Eriksson, a estatística aproximando a actual equipa de outras, das que conseguiram conciliar nota artística e troféus. E, à boa maneira dos dois referidos, é na crista da onda que Marco Silva aproveita para dar ar do seu perfeccionismo e exigência – ainda mais impressionantes que as dinâmicas de futebol associativo: «Também gosto de sofrer poucos golos. Gosto de incutir nos jogadores a ideia de que não há ninguém que consiga atacar bem sem ter a capacidade de não sofrer golos. Fiquei muito satisfeito com o resultado frente ao Omonia, mas furioso com o golo sofrido. Quando recuamos tantos anos na história de um clube da dimensão do Benfica, que habitualmente é dominador e que teve grandes jogadores com grande capacidade ofensiva, é sinal de que estamos a fazer as coisas bem. Sempre foi meu objetivo que as pessoas sentissem que é o Benfica que está a jogar, independentemente de não sermos perfeitos, porque estamos muito longe disso. Sou o primeiro a dizer que há um caminho muito grande para percorrermos em todos os aspetos daquilo que queremos para o Benfica, mas estou satisfeito com a abertura e a abordagem dos jogadores, que querem sempre melhorar.»
A explicação é boa, percebe-se bem a intenção: exigir dos jogadores tanta concentração a defender como têm de criatividade a atacar. Sentindo-se confortável em todas as instâncias do jogo, a equipa estará pronta para qualquer desafio: «Não estamos no clube para ser os mais bonitos da festa ou os que vestem melhor; queremos, sim, progredir como equipa e ganhar títulos.»
Ciente da filosofia do treinador, seguiu a comitiva com uma novidade – John Durán -, que, afinal, já está pronto para ir à luta e contribuir. A inusitada recuperação, que de meses previstos passou a dias, foi «uma excelente notícia» para Marco Silva, anúncio feito com uma pitada de ironia e um sorriso mal disfarçado. O que resume bem o estado de alma encarnado: prontos e confiantes.
Mas ao melhor ataque opõe-se… a melhor defesa do campeonato. Petit, por estes dias, constrói nos Açores projecto de ambição europeia. À matriz de qualidade brasileira, juntou-se-lhe a qualidade portuguesa na espinha dorsal dum onze coeso, sem grandes fragilidades aparentes. Só no último fim-de-semana a equipa conheceu finalmente o sabor da derrota – foi uma das afectadas no tsunami que dizimou primodivisionários na Taça –, e agora apostam-se as fichas todas numa resposta forte, para manter a invencibilidade no campeonato e fazer aquilo que nunca foi feito: ganhar ao Benfica em casa.
«Aprendemos a lição, analisámos e corrigimos. Agora voltamos ao campeonato, estamos numa fase boa, sabendo que vamos defrontar um candidato ao título e também a passar um bom momento. Esperamos ter uma boa reação, jogando em nossa casa, perante os nossos adeptos. O adversário tem individualidades e um coletivo forte, em termos ofensivos marca muitos golos… mas estamos nesta posição com mérito e vamos jogar olhos nos olhos»
Não há medo. A confiança abunda também deste lado. Depois do atabalhoado 13º lugar em 2025-26, o projecto açoriano tenciona o regresso imediato ao contexto europeu. O único pormenor (pormaior) que pode afectar a preparação e o desenrolar dos acontecimentos: Djé Tavares foi expulso com o Mafra, no fim-de-semana, e cumpre castigo.
O escolhido do apito é Cláudio Pereira, da associação de futebol de Aveiro. No VAR estará Rui Soares, de Santarém.
10 DADOS RÁPIDOS
- O Benfica nunca perdeu em São Miguel: oito vitórias e dois empates em casa do Santa Clara
- Mas atenção, que é o melhor início de sempre dos açorianos, invictos com 18 pontos em oito jornadas (o anterior recorde era de 2024-25, com 15 pontos no mesmo período)
- Essencial a aposta na consistência e estabilidade: os cinco jogadores com mais minutos em 26/27 são do bloco defensivo (guarda-redes, três defesas e o trinco – Lucas França com 720’, Emanuel Moreira com 737’, Pedro Pacheco com 840’, Guilherme Romão com 811’ e Pedro Ferreira com 766’)
- Daí que não seja de admirar a média de golos sofridos (quatro em oito jogos), melhor que a de Benfica (sete) e Sporting (nove).
- Muito menos que Lucas França registe tantas clean sheets quanto Diogo Costa (5), ou que Pedro Ferreira seja líder no registo de tackles (4,25, Altimira conta 3,75) e desarmes por jogo (2,88 , Palhinha tem 2,00)
- Pouco animador é o saldo de Petit enquanto treinador contra o Benfica: apenas uma vitória (3-2 com o Boavista, em 2023-24) em dezoito jogos, com 44 golos sofridos (2,4 de média)
- À frente, o pragmatismo faz-se notar pela preponderância de Gonçalo Paciência, que assinou 5 dos 12 golos da equipa
- Do lado encarnado, o balanceamento ofensivo que possibilita os 54 golos em 17 jogos (recorde desde 1989-90, com Eriksson) não garante liderança na tabela de remates (157, o Vitória tem 158) nem de remates à baliza (55, e o Porto é mais eficaz com 57). Só mesmo nos xG (13,8, Porto com 12,1), nos toques na área adversária (389, Porto com 289) e na média de posse (63,4%, Sporting conta 59%)
- O Benfica nunca perdeu um jogo ajuizado por Cláudio Pereira (cinco vitórias e quatro empates em nove). Não se encontram, clube e Cláudio enquanto árbitro principal, desde a 18ª jornada de 25/26, no 0-2 em Vila do Conde
- Já o Santa Clara não olha para Cláudio com o mesmo optimismo (sete derrotas e quatro empates em 17 jogos). Não se encontram desde Março, na jornada 27 da época passada (1-0 ao Gil Vicente em São Miguel)
JOGADORES A TER EM CONTA

Vinícius Lopes – No Santa Clara desde 2023, Vinícius pede para si o mesmo reconhecimento que outros (como Lincoln ou Gabriel Silva) tiveram do mercado e de outros patamares competitivos. Depois de oito golos em 24/25 e nove em 25/26, Vinicius tencionará agora, aos 27 anos, ultrapassar finalmente a barreira da dezena de concretizações (conta um golo e duas assistências em nove jogos). A irreverência (é o 4.º da Liga com mais dribles tentados, 27) junta-se à lucidez no último terço (6.º em passes chave, 15) e o Benfica sabe-o bem: em cinco jogos contra as águias, apesar de nunca ter ganho, Vinícius marcou duas vezes.

Aursnes – Notória tem sido a falta de ritmo do norueguês. O golo frente ao Omonia acabou por não disfarçar mais uma exibição apagada de Fredrik, que não mostra ser por agora o bastião de regularidade e consistência que demonstrou desde 2022, fosse em que posição fosse. O regresso à selecção coincide com a baixa de forma e o aparecimento de problemas físicos, o que acaba por levantar questões pertinentes quanto ao estado físico do atleta e quanto à influência que a própria idade poderá ter no seu jogo. E já que o rendimento superlativo de outrora teima em regressar, o jogo em Ponta Delgada será um óptimo teste ao real estado de Aursnes e às suas melhores qualidades: concentração, amplitude posicional, responsabilidade tática, visão alargada do jogo e noção de todos os seus momentos.
XI´s PROVÁVEIS
Santa Clara: Lucas França; Lucas Soares, Emanuel Moreira, Pedro Pacheco e Guilherme Romão; Pedro Ferreira, Tiago Ribeiro e Daniel Borges; Brenner, Vinícius Lopes e Gonçalo Paciência
Treinador: Petit
«O Benfica trabalha muito em triângulos, forçam muito o um contra um às vezes, há de tudo um pouco. Está identificado, mas depois entra a execução dos jogadores e vamos tentar tirar a bola ao Benfica e ter as nossas oportunidades».
Benfica: Samuel Soares; Bah, Tomás Araújo, Lenglet e Dahl; Palhinha e Aursnes; Prestianni, Sudakov e Schjelderup; Pavlidis
Treinador: Marco Silva
«É um excelente trabalho do Petit, que chega a esta jornada sem qualquer derrota. Têm uma boa organização e tentam criar problemas ao adversário, não esperando para ver o que é que o jogo vai dar. Uma equipa muito boa, organizada e bem treinada, que nos vai criar problemas e vai exigir um Benfica ao máximo para conquistar os três pontos, que é o nosso objetivo».
PREVISÃO DE RESULTADO: Santa Clara 1-2 Benfica











