– Da desilusão em França à aventura pelo Médio Oriente –

“Quando se leva muito pontapé no futebol, as portas começam-se a fechar e o amor… Não se perde, mas a motivação vai caindo cada vez mais”

BnR: Depois dessa época no Aves termina a tua ligação com o SL Benfica e começa uma série de viagens pelo mundo, que começa no Istres, da Segunda Liga francesa…

JS: Sim, mas no Istres também não correu bem porque assinei contrato e depois recebi uma carta da Federação francesa a dizer que já tinham inscrito dois jogadores e eu não podia jogar… Fiquei o resto da época sem jogar.

BnR: Chegaste lá no final do mercado?

JS: Sim, cheguei lá no fim do mercado de inverno, mas só depois é que repararam que já tinham inscrito dois jogadores. Não sabiam as leis… Foi um problema diretivo e quem sofreu fui eu.

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BnR: E acabaste num clube do terceiro escalão da Alemanha…

JS: Sim… Tens de ser muito forte para aguentar isso. Depois lá parti o pé, mas recuperei e ainda voltei a jogar. Só depois é que fui para a Arábia Saudita.

José Soares num jogo de velhas guardas na Alemanha, país onde jogou durante uma temporada no FC Schweinfurt 05
Fonte: Instagram José Soares

BnR: Pensaste em acabar a carreira nessa altura, na Alemanha?

JS: Sim, pensei. Não foi uma fase positiva da minha vida e, em termos desportivos, pensei em muita coisa, uma delas essa. Durante um ano as coisas correram horrivelmente mal, pensa-se tudo, mas o meu amor pelo futebol falou mais alto. Mas foi uma fase muito difícil desportivamente.

BnR: Como é que aparece a Arábia Saudita?

JS: Foi através de um amigo meu empresário – o Faustino Gomes – que me perguntou se queria ir para a Arábia Saudita. E ainda bem que ele apareceu porque ajudou-me na altura e foi a decisão mais certa para mim. Não foi fácil entrar no país, porque estava habituado a Portugal, a Lisboa e aos nossos costumes, mas como eu sou tipo «cidadão do Mundo» habituei-me com alguma facilidade e pensei pouco, jogava muito, descansava muito e assim foi a minha vida lá. Fiquei um ano seguido e as coisas correram muito bem, joguei sempre, os jogos praticamente todos e readquiri confiança e a vontade de jogar e de reconstruir a minha carreira voltou com mais força ainda.

José Soares num treino do SL Benfica
Fonte: Instagram José Soares

BnR: Como foi o choque de culturas?

JS: Estava habituado a Portugal, à nossa cultura. Aquilo é uma cultura completamente diferente, não estou a dizer que é melhor ou pior, é diferente. Estamos habituados a ser mais abertos – somos europeus –  e de repente entras num país mais fechado, que não é tão aberto ao turismo, que não é aberto em muita coisa. Custou-me um bocado ao início mas, como disse, sou um «cidadão do Mundo» e vou aprendendo. Naquele caso aprendi outra cultura, conheci outras pessoas, trataram-me bem, o que é importante… Estava a fazer o que gostava, recebia relativamente bem, não é o que se paga agora, mas relativamente bem. Fiz uma boa época na Arábia Saudita, joguei muito e voltei ao meu nível.

BnR: Acabaste por ir para o Qatar porquê?

JS: Foi mais pelo lado financeiro, porque o futebol na Arábia Saudita era melhor, os sauditas são melhores jogadores que os qataris. Mas o futebol do Qatar tinha maior visibilidade na altura porque os estrangeiros que iam para lá – Guardiola, Batistuta… – davam muita visibilidade ao campeonato. Tinham lá grandes jogadores juntamente com os jogadores do Qatar, mas grandes jogadores mesmo, de nível mundial.

BnR: Qual foi a pior parte de estar nestes países mais conservadores?

JS: A pior parte? Foi estar longe do Mundo do futebol, não viver aquela adrenalina do dia-a-dia, do calor das pessoas, o calor humano dos jogos na Europa, isso faz falta. Senti falta do calor do futebol, até um bocado das confusões porque, às vezes, estamos nesses países assim, com saudades de uma confusão por causa de futebol, que é o que acontece na Europa. Até o calor humano dos adeptos, dos jornais… Aquelas coisas que reclamamos aqui, mas quando vamos para países tão calmos sentimos muita falta dessas coisas.

BnR: Surpreendentemente, deixas o Qatar para vir para a III Divisão portuguesa, para o O Elvas. Tinhas saudades de casa?

JS: Eu saí do Qatar e, mais uma vez, a decisão não foi certa porque eu achava que ia ter uma oportunidade na Primeira Divisão ou, no máximo  dos máximos, na Liga de Honra. Pensava que podia mas, mais uma vez, as portas não se abriram. Tentei ir para outros países, mas não consegui. Então deixei praticamente de jogar e fiquei em casa.

BnR: Desmoralizaste outra vez?

JS: Desmoralizei porque pensava uma coisa: lutei tanto, voltei a ganhar forma, voltei a jogar com grandes jogadores estrangeiros que lá estão e vi que tinha possibilidade de voltar ao meu nível, mas mesmo assim não aconteceu porque as portas, mais uma vez, fecharam-se e acabei a carreira.

BnR: Acabaste mas sem primeiro passar pelo Badajoz…

JS: Sim, mas foi mais por desporto. Depois perdi um bocado o amor, aquela adrenalina de jogar todos os fins-de-semana vai-se perdendo. Quando se leva muito pontapé no futebol, as portas começam-se a fechar e o amor… Não se perde, mas a motivação vai caindo cada vez mais.

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Flaviense de gema e apaixonado pelo Desportivo de Chaves - porque tem de se apoiar o clube da terra - o João é licenciado em Comunicação e Jornalismo na Universidade Lusófona e procura entrar na imprensa desportiva nacional para fazer o que todos deviam fazer: jornalismo sério, sem rodeios nem complôs, para os adeptos do futebol desfrutarem do melhor do desporto-rei.                                                                                                                                                 O João escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.