
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Wenderson de Arruda Said de batismo, mas somente Wender para o mundo do Futebol. O gosto pelo Desporto Rei surgiu desde muito cedo devido ao seu pai professor de Educação Física, que inclusive o treinava a guarda-redes. O “Mirim” percebeu que era mais à frente no terreno que poderia fazer a diferença e deu certo: estreia-se aos 19 anos no Brasileirão, mas confessa que isso o fez deslumbrar um pouco. Como é sabido, no Futebol há sempre tempo para alterar a forma de abordar o jogo, algo que o extremo entendeu na perfeição e assim conseguiu conquistar uma passagem para jogar pela Naval. Em Braga, teve a oportunidade de brilhar ao mais nível, o que lhe levou até a Alvalade onde acabou por não ser muito feliz e optou pelo regresso ao Minho, onde viria a meter os arsenalistas na Europa. Lisboa e Chipre foram as paragens seguintes antes de arrumar as botas e abraçar a carreira de treinador. Em mais um exclusivo Bola na Rede, eis então Wender Said.
– Do início como guarda-redes até à galinha de Aprígio Santos –
Bola na Rede (BnR): Como surgiu o Futebol na tua vida?
Wender (W): Surgiu desde criança. O meu pai era professor de Educação Física, então o Desporto sempre esteve em voga na minha família. Desde muito cedo, acompanhava-o em algumas aulas de Andebol, Voleibol, Atletismo, Futsal, e também o meu pai foi treinador de algumas equipas amadoras na minha cidade e árbitro. Sendo assim, o Futebol e o desporto estiveram sempre presentes desde muito cedo na minha vida.
BnR: E com que idade exatamente começas a jogar?
W: Como disse anteriormente, comecei desde muito cedo. Quando era mais novo, ia para a rua brincar e jogar futebol, e ali havia muita gente da minha faixa etária e lembro-me de disputar aqueles torneios na terra batida, dois contra dois, três contra três, em que as balizas eram feitas de pedras que encontrávamos no chão. Foi aí que comecei a jogar com alguma frequência e a alimentar o sonho em ser jogador de Futebol. Tive de sair da minha cidade que é uma cidade pequena no interior do Mato Grosso para ir para Cuiabá jogar numa equipa maior, tinha 14 anos.
BnR: A tua posição era de extremo, mas no início da carreira ainda te aventuras a jogar como guarda-redes. O que teve peso na escolha de um lugar mais avançado no campo?
W: Era engraçado, pois era uma posição que me atraía. Usar luvas e o poder tocar a bola com a mão cativava-me muito. Realmente tinha alguma técnica, não tinha medo da bola e era muito ágil. Recordo-me que o meu pai me chutava bolas durante muito tempo para me treinar nessa posição, caía para um lado e para o outro, mas de repente percebi que era bom com os pés e por vezes na baliza, a decisão que temos durante um jogo é salvar um ou outro lance, e vi que jogando na linha poderia ter mais poder de decisão sobre o resultado final da partida. Muitas vezes estava na baliza e a equipa precisava de ganhar, lá ia eu jogar na linha e quando já estávamos a vencer por três ou quatro, voltava para a baliza.
BnR: Sei que a primeira alcunha no Futebol era “Mirim”. Como surgiu esse nome e em que momento passas a ser apenas Wender que todos os adeptos em Portugal facilmente reconhecem?
W: Tu estudaste bem (risos). Isso foi quando cheguei a Cuiabá com 14 anos, e é uma história engraçada e fui treinar para o Uirapuru com os juvenis que eram mais velhos que eu três anos. Há um jogo em que a equipa está a perder por um a zero, sou lançado e faço a assistência para o golo do empate. A seguir, faço uma grande jogada, deixo a bola para o meu colega marcar que faz o 2-1 e vencemos a partida. No dia seguinte, o mister no balneário falou sobre esse jogo e disse que a equipa tinha jogado muito mal e não era aceitável, e teve de recorrer a um garoto que era um “mirim” e ainda falou: “Olha lá para ele, nem corpo tem, tanto que é magro e tal! Tive de colocá-lo para virar o jogo” e assim ficou essa alcunha (risos). Todos começaram a chamar-me de “Mirim”. Aos 17, eu ia estrear-me na equipa principal do Dom Bosco, e o treinador – o professor Hélio Machado – e o preparador físico Gilmarzinho – que foi um grande amigo, trabalhou muitos anos comigo quando estive em Mato Grosso e infelizmente já faleceu -, olham para mim e comentam: “Não podemos ter um jogador no elenco com o nome de Mirim, porque não é nome de jogador de Futebol”. Perguntaram pelo meu nome e disse que era Wenderson, e eles voltaram a falar entre si: “Mirim? Nunca conheci um jogador com esse nome, e muito menos Wenderson. Vamos acertar isso!”. Eles repararam no meu nome, tiraram a parte final (-son), ficou só Wender. “O que é que você acha?” e eu disse que era perfeito, porque para eles (Wender imita a voz dos treinadores) “Mirim não é nome de jogador, e até acabar de dizer Wenderson no jogo, você já perdeu a bola!” (risos). E assim ficou Wender.
BnR: Em 1994 ao serviço do Operário de Mato Grosso, fazes um hat-trick na final do campeonato estadual. Foi nesse momento que passas a acreditar de que irias ser jogador de Futebol?
W: Sem dúvida. Eu estreei-me em 1992 no Dom Bosco, no ano seguinte vou para o Operário, onde faço um ano consistente, ainda para mais num clube com maior poder financeiro e torcida em Mato Grosso, e vamos à final do estadual e perdemos. Em 1994, eu começo a fazer golos e torno-me no artilheiro do campeonato estadual, e quando chegámos outra vez à decisão, fiz esses três golos. Até hoje, eu sou o único jogador que fez três golos na final do estadual mato-grossense, e olha que o maior jogador da história do futebol mato-grossense é conhecido como o Bife que jogou no Porto e Belenenses na década de 80 e ainda hoje é o maior artilheiro de sempre do campeonato estadual, mas não conseguiu fazer três golos na decisão e eu sim (risos).
BnR: Aos 19 anos, dás um grande salto e estreias-te no Brasileirão pelo Sport Recife, onde jogas ao lado do Juninho Pernambucano. Como foi essa mudança?
W: Foi uma mudança radical para mim. Sair de um estado onde o futebol não é tão divulgado e visto por muitos, e depois estar logo de seguida no campeonato brasileiro a jogar contra os grandes clubes e com grandes “feras”. Nesse ano, tínhamos o Juninho Pernambucano, o Leonardo que fez história no Sport Recife e Vasco da Gama e até esteve no Belenenses no final da sua carreira, e algo que começas a olhar ao teu redor e reparas que estás a jogar no Maracanã contra o Flamengo ou Morumbi contra o São Paulo, e apercebeste da realidade totalmente diferente. Tem também aqueles contratempos, ser tão jovem e chegar a esse patamar, de repente a cabeça em alguns momentos não ajudou muito.
BnR: Começam a aparecer algumas distrações fora de campo que podem prejudicar o rendimento.
W: Sem dúvida, na minha opinião o mais complicado é o ‘extracampo’, a vida fora dos relvados. As coisas vêm muito fácil, todo o mundo te conhece e começas a sair mais vezes e a não ter uma vida tão saudável e é por aí que uma carreira pode-se perder.
BnR: Em 1999, vens para Portugal. Como se processa a vinda para a Naval 1.º de Maio?
W: Eu tive um crescimento muito rápido no futebol aos 19 anos em que cheguei à primeira divisão. Depois houve uma fase em que subi tanto, a cabeça não estava tão bem, depois fui para o Botafogo e comecei a sair muito, o teu foco já não é apenas o treino e o jogo. Fui para o estadual de Minas (Gerais), que é um campeonato mais ou menos, mas não se compara ao do Rio de Janeiro ou São Paulo. Assinei pelo Democrata de Valadares, pois disseram-me que muitos jogadores de lá estavam a ir para Portugal e pensei logo “Quem sabe se isso não pode ser uma boa hipótese”. Houve uma conversa com o empresário Adelson Duarte que trouxe imensos jogadores para Portugal, desde o Vitória de Guimarães, o Sporting de Braga, Marítimo, sobre essa possibilidade e aí comecei a destacar-me no campeonato, tanto que fui considerado o melhor extremo esquerdo do campeonato. Surgiu a hipótese Atlético Mineiro, mas era pouco tempo, tanto que só me queriam dar seis meses de contrato para jogar o campeonato brasileiro. Ao mesmo tempo apareceu essa oportunidade de vir para Portugal, e o Adelson apresentou-me algumas equipas com quem tinha contactos, só que nessa altura o Democrata deixou-me de pagar. Fiquei à espera de que ele trouxesse treinadores de Portugal no final da época para assistirem ao vivo os jogadores, sendo que alguns deles tinham visto a minha cassete antes.
BnR: Tempos clássicos (risos).
W: Sim, naquele tempo ainda se observavam jogadores dessa forma (risos). Gostaram muito das minhas exibições, só que nesse momento o Democrata deixa de me pagar e fui embora do clube, pois não me pagavam e não conseguia estar a viver essa situação. Na semana seguinte, a equipa ia ter três jogos – Quarta, Domingo e Quarta -, e foi nessa sequência de jogos que o Adelson leva o treinador do Marítimo, Naval e outro que já não me recordo. Quando eles chegam para ir ver o jogo, só que não estava lá (risos). O empresário ligou-me mal soube a perguntar por que não iria jogar, e eu respondi: “Adelson, já estou em Mato Grosso na minha casa”. E ele disse: “Não acredito que você fez isso!”, e eu: “Claro que fiz, estou aí no clube esse tempo todo e não recebo. Aqui em casa, estou tranquilo e sem fazer despesas”. “Não, tu estás doido e amanhã ligo-te.”. No dia seguinte, volto a falar com ele e diz-me que os treinadores não gostaram de nenhum outro jogador e o treinador da Naval, o Raul Águas na altura, queria levar-me mesmo sem me ter visto a jogar ao vivo, pois tinha gostado do que viu na cassete. Isso foi no final de maio, eu tinha de estar no início de julho em Portugal para a pré-temporada, e falei para o Adelson “Então se é assim, deposita o dinheiro na minha conta, não jogo mais aqui em Mato Grosso e fico à espera para ir para Portugal”. Na segunda, ele depositou o dinheiro e pensei logo “Agora sim, eu acredito que é verdade que vou para Portugal” (risos). E foi assim que vim para a Naval.
BnR: Como foi a adaptação a Portugal? Sentiste alguma dificuldade nos primeiros tempos?
W: Confesso que foi um pouco estranho, pela seriedade dos treinos, a disciplina e o rigor, a intensidade de jogo no começo da aventura. É engraçado pois o treinador que me trouxe não chegou sequer a iniciar o campeonato. Houve uma divergência com o presidente, o Aprígio Santos, e ele saiu antes do início do campeonato. Chegou depois um novo treinador, o José Dinis, quando a equipa já estava toda montada, com outro princípio e estilo de jogo, onde tivemos de nos adaptar rapidamente. No primeiro ano, eu estranhava o porquê de num jogo ter sentido que tivesse feito uma boa partida e já me dava garantias que fosse jogar no jogo seguinte, e algumas vezes isso não acontecia e não gostava, ia falar com o treinador a perguntar o porquê de muitas das vezes não jogar de início, ao que ele dizia “Jogamos de forma diferente, e tu só queres estar na frente, vir para trás está quieto. Vamos jogar fora, entras na segunda parte e rebentas com eles na segunda parte” (risos). Era difícil gerir isso, até perceber que o futebol é para frente e para trás.
BnR: Estás três anos na Figueira da Foz, onde jogas 98 partidas e marcas 33 golos. Que importância teve a Naval na tua carreira?
W: Quando cheguei ao clube, dei-me muito bem com o presidente Aprígio Santos e estou-lhe muito grato. Tudo o que eu pedia e necessitava, ele estava sempre pronto a ajudar. Assinei por três anos, em que no primeiro ano o objetivo era não descer de divisão, e para quem não conhece de facto o campeonato pode achar que é pouco, mas na verdade a Naval nas duas vezes anteriores em que subiu à Segunda Liga, descia no ano seguinte e felizmente conseguimos atingir o pedido. Nessa época fiz sete golos, na seguinte marquei 10 e no terceiro ano fiz 16, e esse último foi crucial para ir para a Primeira Liga. Desde o primeiro ano tinha uma proposta da Académica, falavam sempre muito, mas como tinha contrato com a Naval era mais difícil sair. No segundo ano, falou-se no Paços de Ferreira, mas preferi ficar na Naval, pois ia receber menos e não estava no meu pensamento ir para a Primeira Liga ganhar menos do que já recebia, por mais que isso fosse o meu objetivo desportivo. No último ano do contrato, as coisas estavam a correr bem e até em janeiro já tinha 10 golos marcados no campeonato, então foi algo natural essa ascensão à Primeira Liga.
BnR: E aquela história que envolve o presidente da Naval e uma galinha preta?
W: Isso foi numa fase em que nós estávamos sem ganhar em casa há algum tempo, e ele soltou a galinha preta de um lado do campo para ela passar dentro da baliza para ver se a bola entrava (risos). Só que começou a chegar o início do jogo, e ninguém estava a conseguir apanhar a galinha, tanto que até foram chamar os jogadores para ajudar a pegar a galinha. Até me lembro que houve alguém que chutou a galinha, e o presidente ficou bem chateado por quase matarem a sua galinha (risos).
BnR: E depois disso tudo, acabaram por vencer esse jogo (risos)?
W: Ganhámos sim. Depois até dissemos ao presidente “Passe a galinha mais vezes durante a semana, deixe ela andar ali dentro da baliza” (risos).
BnR: Visto que tiveste uma passagem importante pela Naval onde até chegas a ser capitão, ficas-te triste com o que aconteceu ao clube? E tens acompanhado o ressurgimento do projeto?
W: Acompanho sim, tenho amigos na Figueira (da Foz) e Buarcos também. De certa forma, foi muito triste pois é um clube que me diz muito e projetou-me aqui em Portugal. Tenho um carinho imenso, tanto que, quando assinei pelo Braga, pensei: “Será que me vou adaptar à cidade de Braga? Vou gostar assim tanto como gosto da Figueira e das pessoas de cá?”. A Naval era um clube muito familiar com pessoas simples e que davam tudo pela equipa. Havia um grande carinho dos adeptos para com os jogadores, e pensava se também iria ser assim em Braga. Felizmente, acabou tudo por dar certo e vou todos os anos à Figueira onde tenho amigos e torço para que a Naval volte a ocupar o espaço que sempre teve no Futebol nacional.
– A caminho de Braga –
BnR: Antes de assinar pelo Sporting de Braga, sei que estiveste perto do Vitória de Guimarães. O que aconteceu para teres optado pelos bracarenses?
W: É verdade, nesta quarentena ao arrumar uns papéis em casa, acabei por encontrar os contratos que assinei com o Vitória de Guimarães antes (risos). Lembro-me que no final de janeiro, o Adelson ligou-me a dizer que eles estavam interessados em mim e queriam-me contratar. Quando soube disso, falei: “Olha muito bem, é um clube tradicional da Primeira Liga. Vamos em frente”. Ele falou em valores, e recordo-me que nesse tempo tinha um Fiat Punto e arranquei da Figueira da Foz para Guimarães para me reunir com o Adelson. Chegados lá, almoçámos com o presidente do clube, o Pimenta Machado, depois conversámos e ficou tudo certo, fomos então assinar o contrato e pegar o dinheiro do prémio de assinatura, pois estava no último ano de contrato com a Naval e já podia assinar por outro clube em janeiro. Recebi o envelope com o dinheiro, comecei a contá-lo e reparei que havia algo de errado, voltei a contar e continuava a dar errado, e disse ao presidente: “Presidente, alguma coisa está mal. Conto, conto e não dá certo”. E ele “Vou ajudar a contar então” e começamos todos a contar o dinheiro. Entretanto, o Pimenta Machado pede para lhe mostrarem o contrato, e digo: “O que está mal é essa parte do ilíquido, pois falámos em líquido e não ilíquido” (risos). Pois ilíquido tinha de ter os descontos, e o que ficou acordado foi líquido.
BnR: O “i” no início faz toda a diferença (risos).
W: O presidente “Ah está bem, foi a secretária que se enganou, vou pedir-lhe para fazer a alteração e trazer a parte em falta”. Isso acaba por se resolver, assino, recebo o que faltava e vou-me embora para a Figueira da Foz. No regresso, rezei o caminho todo para o carro não falhar pois tinha aquele dinheiro todo comigo, tanto que vim na estrada a 20km/h (risos). Cheguei à Figueira, enviei o dinheiro para o Brasil, e passadas duas semanas, trouxe a família para conhecer Guimarães, fomos passear e visitámos o castelo e até disse “É aqui que vamos agora morar”. Chega final de Março, o Adelson começa-me a ligar e diz “Ó Wender, o Braga está interessado em você” e eu “Tu queres complicar a minha vida? Já assinei o contrato”. “Não fica descansado que eu resolvo isso”, “Mas isso não vai dar confusão? Posso ficar um tempo sem jogar e levar com um processo”. “Não, fica descansado que eu trato disso”, e digo “E outra coisa: eu já enviei o dinheiro para o Brasil (risos). Já não tenho sequer um euro daquele dinheiro que recebi”. “Não, fica tranquilo e até vou arranjar uma outra forma de receber algo do Braga também” e eu “Ah, melhor ainda (risos). Vamos nessa então”. Vou depois ao Braga, eles queriam ter-me como reforço e deram um pouco mais de prémio de assinatura, só que o contrato era de dois anos e tinha assinado um contrato de três anos com o Vitória de Guimarães. Comecei a ver, e até os valores eram inferiores aos do Vitória, só que depois falei “Eu já peguei o dinheiro do Vitória e não vou ter de devolver. Estou a receber este dinheiro do prémio de assinatura do Braga, e se juntar os dois prémios vai dar o valor do último ano de contrato. E se o Adelson está a fazer isso, é porque o Vitória não me quer muito” e então decidi assinar pelo Braga, apesar do contrato ser apenas de dois anos, mas mentalizei-me que ia trabalhar muito para prolongarem o contrato. Foi esse o meu pensamento e felizmente correu tudo bem. Passado um tempo, eu depois fiquei a perceber o porquê de não ter ficado no Vitória: nesse ano, havia a regra de um clube ter apenas quatro ou cinco estrangeiros que poderiam jogar, e eles precisavam de um ponta-de-lança, tanto que contrataram o Ferreira que jogava no Farense, e necessitavam que um estrangeiro saísse para ele poder jogar. Assim, eles aceitaram que fosse negociado sem dar qualquer justificação e acabei por vir para o Braga e correu tudo bem.
BnR: Isso aconteceu sem teres a noção da rivalidade história entre o Sporting de Braga e Vitória de Guimarães.
W: Não, eu na altura já tinha a perceção da rivalidade existente entre os dois clubes. E ainda bem que ninguém sabia que tinha assinado pelo Vitória, senão ia ser um caso bem complicado (risos).
BnR: Acabas por te estrear na Primeira Liga. Quais foram as maiores diferenças sentidas entre a Primeira e Segunda Liga ao nível do ritmo de jogo?
W: Ao nível do ritmo de jogo não se nota tanto, é mais por causa do terreno. Na Segunda Liga, os terrenos são mais pesados, o futebol é diferente. É mais compacto, mais de luta e parece que toda a gente está atrás da bola e há pouco espaço. E na Primeira Liga, o futebol é mais bem jogado, onde todos os jogadores conseguem ocupar o seu espaço de forma racional, e é um jogo diferente. Não fica tanto aleatório, às vezes quando se ouve falar em Segunda Liga, associa-se a um futebol mais de força e poder físico, pois os treinadores usam muito o princípio de chegar rapidamente à baliza ou ficam à espera de uma bola parada para poder definir um jogo, é mais nesse sentido.
BnR: Em Braga, apanhas o Jesualdo Ferreira como treinador da equipa. O que aprendeste com ele?
W: Aprendi muito. Trabalhei com o Jesualdo Ferreira durante dois anos e meio. No princípio, eu apanhei o espanhol Fernando Castro Santos. Tinha coisas muito boas no treino, ao nível da intensidade e exercícios. Só que, quando chegávamos aos jogos, treinávamos a semana inteira de uma forma e ele pedia outras coisas, e não te dava tanta liberdade para colocar o teu potencial em prol da equipa. Quando o Jesualdo veio, isso foi crucial para o momento difícil que estávamos a atravessar, e, no início dessa época, senti que o Fernando Castro não confiava muito na equipa e nos jogadores que tinha, o que acabou por se refletir na época menos positiva que fizemos em que lutámos para não descer de divisão. Com a chegada do Jesualdo que tinha outro princípio de jogo e uma mentalidade diferente, foi aí que o meu futebol deu um salto, ainda mais com o que ouvia dele: a forma como um extremo tem de virar o corpo para não perder a velocidade, os apoios dos pés e isso foi interessantíssimo aprender com ele.

BnR: E tens alguma história engraçada com o Jesualdo Ferreira?
W: Tenho algumas. O Jesualdo sempre foi o treinador muito esperto, ele via o que tinha de ver, e às vezes o que tinha de ver não via e isso faz uma diferença total. Lembro-me que no segundo ano dele – ele chegou em março de 2003 -, na época 2003/2004, tínhamos o Pena na equipa e era um jogador difícil de controlar, e há uma confusão no final do treino na Ponte no 1.º de Maio, o mister estava a ir embora, só que o Pena começou a bater boca com outro jogador, a discussão foi ficando mais acesa, e o Jesualdo continuou o caminho para o balneário e aí alguém começa a chamá-lo “Professor, Professor! Olhe a confusão!” e ele: “Não, não, já estou a ir embora e tenho de ir!” (risos).
BnR: Não queria resolver o problema (risos).
W: Sim e foram os adjuntos que tiveram de ir lá resolver a confusão (risos). Porque se ele vai lá, era obrigado a tomar uma decisão que às vezes pode ser drástica, não é? De repente, tinha de tirar o Pena da equipa para o jogo no dia seguinte, então achou melhor não se envolver na discussão. Felizmente não foi nada de grave, os adjuntos chegaram, falaram e a discussão acabou rapidamente. Mas se o treinador se envolve na confusão, teria de tomar uma atitude que poderia prejudicar a equipa, já que o Pena era importante para nós.
BnR: Atuas ainda no 1.º de Maio. Tens alguma memória especial desse mítico estádio?
W: Eu costumo dizer que peguei duas fases do Sporting de Braga, que era esse contexto de nós passarmos ali no 1.º de Maio e às terças havia a feira, então tínhamos de passar ali no meio dos feirantes para chegar ao campo de apoio. Alguns jogadores até paravam para fazer compras, umas meias e assim (risos).
BnR: Aproveitavam para fazer as compras da semana (risos).
W: Sim aproveitavam, e também para conversar com os adeptos, não havia treinos à porta fechada, já que ali dava para ver tudo. Eram outros tempos. A seguir passamos a jogar no Estádio Municipal, já havia outra estrutura, os treinos à porta e o Braga a ser o que é atualmente.
BnR: No final da época 2004/05, acabas por ser premiado como “Melhor Extremo” da Primeira Liga. Estavas à espera de ser o vencedor no meio de tão fortes concorrentes?
W: Naturalmente, eu já estava feliz por estar entre os três finalistas e participar na gala de entrega dos prémios. Estás a competir contra o Quaresma que estava em grande forma com os seus 21 anos e o Simão igualmente, mas com 25, e eu já com 30 anos no meio deles. Só por isso já estava feliz por estar entre os candidatos a esse prémio. E quando ganhei esse prémio, sinto que foi merecido pois fiz uma grande época, assim como o Jorge Luiz que foi o melhor lateral desse campeonato. Aquele lado esquerdo do Braga funcionava de olhos fechados, até podíamos estar no escuro e cada um conseguia encontrar o outro (risos). Isso veio premiar o trabalho feito durante a época e deixou-me bastante feliz, e sinto que é um dos meus grandes marcos no Futebol português.

– Meia época em Alvalade e Regresso ao Minho –
BnR: De seguida, dá-se a saída para o Sporting CP, num processo que durou quase até ao fim do mercado de verão. Chegaste a duvidar de que virias mesmo para Alvalade?
W: Sim, em muitos momentos cheguei a pensar nisso, porque não é natural que uma “novela” dessas comece no primeiro dia da nova época, e até antes, pois já se estava a falar em vários jornais de que o Sporting me queria, o mister José Peseiro me queria e que iam fazer de tudo para me levar. A nova época começou a 4 de julho, e o processo só foi finalizado no dia 29 ou 30 de agosto, já bastante perto do fecho de mercado. Se eu soubesse o que sei hoje, naturalmente não teria ido para lá. A nível contratual foi bom para mim e para o Braga que recebeu o dinheiro que pretendia, mas agora uma novela dessas é um enorme desgaste e espera, o que leva a uma maior ânsia por aquele jogador. Não é bom um jogador perder a pré-temporada, pois acho que a pré-temporada é momento de socialização para os jogadores se conhecerem, é aquela convivência toda que vai dizer qual vai ser o nível da tua performance durante o ano. Vendo bem as coisas atualmente, teria feito de forma diferente.
BnR: Apesar disso, os primeiros jogos de Leão ao peito foram excelentes: estreias-te com uma vitória sobre o Benfica para a Liga e no jogo seguinte mais um triunfo contra o Halmstads na Suécia para a eliminatória da Taça UEFA, onde fazes um golo e uma assistência. Esperavas ter esse início em grande?
W: Isso prova que eu não era assim tão mau, não é? (risos). A minha intenção era chegar ao clube e jogar, só que houve algumas conversas e a equipa jogava em 4-4-2 losango, era o meio-campo que tinha um homem a mais e o ataque tinha outro mais próximo do Liedson, e houve aquelas conversas dentro do balneário: “A equipa vai ficar mais desprotegida assim e tal…” e houve esse desconforto. A intenção do mister Peseiro era colocar o Douala de um lado e eu no outro lado, com o Liedson na frente.
BnR: Apostar num 4-3-3.
W: Sim, e já na minha primeira semana antes do jogo com o Benfica, houve essa conversa por parte dos jogadores e ficou uma certa dúvida no ar. No sábado, temos o jogo contra o Benfica em que me estreei e vencemos. A seguir, há esse jogo com Halmstads em que marco um golo e até na segunda mão volto a marcar. Só que nisso tudo há uma mudança muito rápida, o homem que me queria tanto saí e é promovido o Paulo Bento que veio com ideias claras daquilo que pretendia que era lançar muitos jovens na equipa como os casos do Nani, Varela, Rui Patrício e entre outros. Comecei logo a ver que não ia ter tanto espaço na equipa e então preferi regressar ao Braga.
BnR: O José Peseiro foi quem teve um papel importante na tua ida para Alvalade, mas acaba despedido em outubro de 2005 devido à forte contestação dos adeptos, um pouco também devido às perdas do campeonato e da Taça UEFA na mesma semana na época anterior. Isso impediu uma possível afirmação no Sporting?
W: Sem dúvida, acho que isso foi crucial. Quando cheguei já encontrei um balneário bastante pesado por essas derrotas, ainda para mais a Taça UEFA em que o Sporting perdeu na final em casa e era o sonho de todos os jogadores e do treinador vencer essa competição, e já havia esse peso no balneário. Depois, só trabalhei com o mister Peseiro nem foram dois meses, pois cheguei no final de Agosto e ele em outubro saiu. Só tenho de agradecer-lhe por toda a força que fez para me levar para o Sporting, mas com a saída tão rápida acabas por ver que as coisas não estavam a convergir para que desse certo, e então acabo por preferir voltar ao Braga.
BnR: Depois regressas ao Braga em janeiro, e logo no primeiro jogo, por ironia do destino, jogas contra o Sporting e fazes um bis. Essa partida foi especial para ti, tendo em conta o que se passou nos meses anteriores?
W: Foi muito especial, por que quando isso acontece, tu vês que afinal não confiavam assim tanto em ti (risos). Eles emprestaram-me e permitiram que jogasse, em que poderiam ter-me segurado mais um pouco, mas o Sporting sempre foi um clube correto comigo e só tenho que agradecer por isso. Depois é algo natural, eu joguei com um pouco mais de “ganas”, pois já colocava isso em campo, e naquele jogo ainda mais. Felizmente para mim, as coisas correram bem e o Braga venceu o jogo.
BnR: Em 2006, foste importante na eliminatória contra o Chievo Verona que carimbou a passagem do Braga à fase de grupos da Taça UEFA. Que memórias guardas desses jogos?
W: (Wender esboça um sorriso) Até hoje, isso é um momento fabuloso de lembrar. O meu período no Braga sempre foi a subir, a elevar a minha performance não só a nível individual, mas também do clube. Já eram muitos anos que o Braga não ia à Taça UEFA, e eu e os meus colegas conseguimos colocar esse Braga forte na Europa. Na primeira tentativa (2004/2005), perdemos com o Hearts da Escócia e não conseguimos entrar. E era crucial entrarmos na fase de grupos e foi um ano espetacular. No primeiro jogo ganhamos por 2-0, em que assisto de livre o Paulo Jorge para o primeiro golo e fiz o 2-0 de penalty. Fomos lá jogar bastante confiantes e estávamos bem, e do nada sofremos dois golos e tivemos de ir a prolongamento. No prolongamento, há um lance de cruzamento em que estou a correr da esquerda para dentro, o Maciel está à minha frente e a bola vem certinha para eu cabecear, só que com o Maciel na minha frente, quase que tive de empurrá-lo (risos). Quando vejo a bola passar por ele, já tinha feito o movimento instintivo de cabecear (Wender faz o movimento de cabecear) e a bola toca na minha cabeça e ombro, que a faz tocar no relvado e enganar o guarda-redes. Até hoje não sei como é que o golo direto, mas o importante é que a bola entrou.

BnR: A partir dessa presença, o Braga acabou por consolidar ano após ano a sua posição nos primeiros lugares da Liga e começou a ir às competições europeias com maior frequência. Enquanto atleta, como viste esta evolução do clube no panorama nacional desde a tua chegada em 2002?
W: Fiquei feliz, no primeiro ano foi mais difícil em que felizmente conseguimos manter na Primeira Liga. Segundo ano acabamos em quinto, o terceiro em quarto e assim adiante. Depois poder jogar os jogos todos para vencer, e fico feliz por muitas vezes ser recordado na rua pelos adeptos e faço parte da história desse grandioso clube. Também estive na formação do Braga como treinador, e é um clube e uma cidade que me diz muito e foi uma felicidade enorme.
BnR: Juntando os anos todos ao serviço do Braga, joga 195 jogos e faz 47 golos – não me esqueci dos dois marcados na Liga Intercalar (risos) – e ainda ajudas a conquistar a Taça Intertoto em 2008. Sentes que conseguiste deixar uma marca no clube minhoto?
W: São números bastante significativos, a verdade é essa. Acho que se for ver a história do clube, vai encontrar poucos jogadores com esse número entre jogos e golos, ainda para mais um jogador que não era ponta de lança. Fui o melhor marcador da equipa por duas vezes, ao nível do número de assistências nem se conta então, mas sinto que o grande handicap disso tudo é olhar na história dos meus quase seis anos no Braga, é que o clube só venceu uma vez sem eu estar em campo. Só por isso podes ver a importância de um jogador devido a esses números tão substanciais.
BnR: No início dessa época em que conquistas a Taça Intertoto, acabas por ir para o C.F. “Os Belenenses” devido a um desentendimento com Jorge Jesus. O que aconteceu de facto? E ficas-te magoado pela forma como terminou a ligação ao clube?
W: De certa forma, sinto que não saí da forma que merecia. A decisão da saída não foi do clube, mas sim do mister e do diretor desportivo, na altura o Carlos Freitas, que devem ter tomado essa decisão em conjunto. Só que a história é totalmente diferente daquela contada há uns dias pelo Mossoró quando falou sobre o Jorge Jesus. Ou seja, não contou a história real, até porque quem está de fora por vezes lembra-se de alguns factos, mas esses podem ser soltos. A verdade é que apenas contei essa história a uns amigos, mas nunca em público ou entrevista, pois não valia muita pena recordar isso.
BnR: Força.
W: Já que o Mossoró falou sobre a forma como o JJ gritava e era de certa forma autoritário, rigoroso e disciplinador, só que aconteceu um desgaste na pré-temporada, sobre capitães, isto e aquilo. Chegou o primeiro jogo contra o Sivasspor na Turquia, sou o capitão de equipa, e o Jorge Jesus tinha um pequeno boneco que dava no final ao jogador que fosse o melhor em campo em cada jogo. Após esse jogo, ele disse “Wender, fizeste o que pedi e assim, foste o melhor em campo” e deu-me o bonequinho. Na semana seguinte foi o jogo da segunda mão, fui capitão, ganhámos, voltei a ser o melhor em campo e fico com o boneco outra vez no cacifo. Isso foi a uma quarta e depois só voltaríamos a jogar na outra semana. Regressamos aos treinos e senti que ele pretendia fazer alguma mudança, passam dois/três dias e o Jorge Jesus coloca o César Peixoto no meu lugar, se não me engano. Colocou-o e fiquei tranquilo na minha, só que no dia seguinte, terça-feira – e íamos jogar na quinta contra Zrinjski Mostar da Bósnia e Herzegovina -, há um desentendimento entre mim e o Raul José, onde eu estou com a bola, vou e faço um golo. O Raul José apita e diz que a bola saiu, e realmente a bola tinha saído um pouco. Passados três minutos, a outra equipa tem o mesmo lance e ele dá golo. E nisso, vou questionar e falo: “F**a-se, ao bocado fiz a mesma coisa, parou o jogo e não foi golo. Agora acontece do outro lado e já é golo?!”. Aí, ele veio falar comigo e de repente vem o Jorge Jesus a correr. Ele estava atrás da baliza, veio a correr até mim e começou a falar: “Quem sabe e manda sou eu” e apontou-me o dedo na minha cara. Eu vendo aquilo, afastei o dedo dele da cara, pois não gostei da forma com que ele estava a falar comigo e disse: “Mister, você é que manda, tudo bem. Agora dessa forma não”. Ele voltou a barafustar e a dizer “Eu é que mando”, e eu “Mister, você é que manda, mas dessa forma não” e voltei a baixar o dedo dele. E ele ali, numa situação à JJ, diz “Acabou o treino, toda a gente para o auditório!” e lá fomos. Chegou ao auditório, e começou a dizer: “Já disse que isso é para bom andamento do treino e para o treino fluir. Agora vocês querem acabar com o treino e tal, e é tudo faltinha!”. Aí, pedi permissão para falar e disse: “Mister, eu só questionei porque é que de um lado foi de uma forma e do outro lado foi de outra forma, apenas isso”. “Mas isso é para o bom andamento do treino!”, e eu “Se é para o bom andamento do treino, peço desculpa e acabou. Se vai ser dessa forma para todos os jogadores, tudo bem”. Ele voltou a falar e disse “Pronto, está tudo resolvido”. Pronto, se estava tudo resolvido, é por que estava tudo apaziguado no meu pensamento. Na quarta temos treino novamente, achei que não ia ser convocado depois do que tinha acontecido, mas acabei por ser chamado, fiquei no banco e a equipa estava empatada e ele colocou-me na segunda parte, ganhámos 1-0 com um golo do (Roland) Linz. Depois disso, treinámos sexta e sábado, e há jogo no domingo contra o Leixões para a Taça da Liga e perguntei para mim mesmo “Será que ele me vai convocar?”, mas voltei a ser convocado e fui outra vez para o banco. Começamos a ganhar 1-0, 2-0, 3-0 e 4-0 e nesse jogo não precisou de mim, mas no anterior em que estava empatado e um pouco mais apertado, já necessitou que eu entrasse, mas sem problema. Na segunda, estávamos de folga e, às dez da manhã, o meu telefone começou a tocar. Vejo que é o Carlos Freitas, que me diz “Vem aqui ao clube que temos uma reunião – e era dia 20 e tal de agosto – para falarmos”. Pensei logo que alguma coisa estava errado. Cheguei lá e era para me dizer que o mister não contava comigo, tanto que achei estanho, “pois isso foi na terça passada, hoje é segunda e estava tudo bem, e agora isso? Vocês estão de brincadeira comigo…”. “Não, não é isso. Foi a decisão que ele tomou”. “Tudo bem, vamos resolver isso”. Depois fui falar com o presidente e ele queria que eu fosse pedir desculpa ao treinador, só que na minha ideia ia ficar “parado” a treinar sozinho e como era o meu último ano de contrato, tinha de resolver a minha vida. Havia a hipótese Académica que tinha o Domingos Paciência, mas preferi ir para o Belenenses porque no meu entender tinha uma equipa com mais nome a nível de jogadores e foi uma época mediana da minha parte. O engraçado é que depois quem veio para o Braga foi o Domingos Paciência, se calhar se tivesse ido para a Académica, poderia ter voltado ao Braga. Na minha cabeça, pensava que o Jorge Jesus, que tem muita qualidade enquanto treinador, ia ficar muitos anos no Braga e foi por isso também que quis sair, pois sentia que ele ia manter-se muito tempo à frente da equipa e não tinha como ficar lá no meu último ano de contrato dessa forma. E essa foi a história, não da forma como o Mossoró contou.
BnR: E que tal foi o ano em Lisboa?
W: Foi um pouco diferente, pois tive de ir à última da hora e sem a família, mas é um clube histórico e gostei de vestir a camisola do Belenenses. Fiz seis golos na época e foi um clube que me alegrou muito de representar.
– Experiência cipriota e carreira como treinador –
BnR: Já estavas há 10 anos no nosso país e bem acostumado à vida em Portugal e acabas por rumar ao Chipre em 2009. Como surgiu o convite para ires para lá?
W: A oportunidade surgiu por causa da idade que tinha (34 anos), e os convites que estavam a aparecer eram de equipas da Segunda Liga ou da metade de baixo da tabela da Primeira Liga, mas sempre com salários que não condiziam com o que tinha no meu último ano de contrato no Braga. Então pensei “Se surgir uma proposta que me permita manter o mesmo nível salarial, vou embora para fora” e aí surgiu o Ermis, uma oportunidade para conhecer um novo país e uma nova cultura, e fui feliz no Chipre. Estive quatro anos, é uma ilha agradável para se morar. A nível desportivo correu bem, sempre fui bastante competitivo e na medida do possível sempre fui profissional.
BnR: Que tal foi a experiência no Chipre? Superou as tuas expetativas iniciais?
W: Sim, mas depois é muito peculiar, tinham coisas que chocavam um pouco, e era quase como se estivessem a educar uma criança do tipo se jogares bem, eles pagam-te. Depois tinha outros que estavam numa má fase ou não treinavam muito bem, e faziam de propósito para não pagar. Chegavam ao balneário, reuniam contigo e mais dois atletas, pagavam a eles os dias e a ti não (risos). Mas o presidente do Ermis (Aradippou) era assim, mas felizmente dei-me bem com ele pois sempre fui um bom profissional e joguei quase sempre. O engraçado é que estive lá dois anos e recebi uma proposta do Anorthosis, só que não queriam pagar o que recebia por causa da minha idade. Disseram que era a “oportunidade de uma vida”, e disse que não ia pois tinha 36 anos e preferia ficar a ganhar bem no Ermis do que no Anorthosis (risos).
BnR: Tens alguma história engraçada vivenciada lá?
W: Sim tenho, recordo-me que, quando cheguei ao Chipre, os treinos eram ao final da tarde em que fazia muito calor. Depois pensava: “Nossa, tenho de esperar o dia todo em casa para ir treinar no final da tarde?” (risos). Comecei a falar “Vamos ter de mudar isto. Profissionalismo é treinar de manhã”, mas também era para tomar uma cerveja na praia à tarde (risos). Aí fizemos de tudo para mudar os treinos para a manhã, pois era melhor poder ir à praia à tarde e jogar um futevólei.
BnR: A carreira terminou em 2013 ao serviço do Aris Limassol. Foi difícil para ti tomar a decisão de pendurar as botas? E como foi esse último ano como jogador?
W: Não foi, no ano anterior é que foi mais difícil. Eu vim para Portugal apalavrado com o (Ethnikos) Achnas, pois estive duas épocas no Ermis e ia iniciar o terceiro, mas aconteceu algo que nunca tinha visto antes: o presidente mudou de clube (risos).
BnR: A sério? (risos).
W: Sim, o presidente mudou de clube e era o que me pagava (risos). Porque é que ele mudou? O Ermis era de Pafou, que era uma vilazinha de Larnaca e lá havia também outro clube, o Omonia (Aradippou). O Ermis era de um partido político e o Omonia era de outro partido, e o que ele pretendia na vila era construir um estádio e juntar os dois clubes num só para os adeptos daquela vila ficarem a torcer apenas por um clube. Só que as outras pessoas não quiseram por questões políticas, e então ele decidiu sair do Ermis. Ao sair do clube, ele diz-me “Ó Wender, eu vou sair do Ermis, mas vou ajudar um amigo meu no Achnas e vens comigo.”, ao que perguntei: “Presidente, como é que vou consigo se tenho contrato com o Ermis?”. “Não, não, olha que eles não têm dinheiro para te pagar sem mim. Fica descansado que vou ser eu a pagar o teu contrato”. Lá fui eu e mais dois jogadores para o Achnas com o presidente, pois era ele quem pagava (risos). Eu gostava do Ermis, até cheguei a falar com os diretores para continuar, só que queriam que reduzisse o salário em 50%, mas optei por ir com o presidente Lucas Fanieros – entretanto já regressou ao Ermis -, pois não iam ter dinheiro para manter o meu salário. Joguei no Achnas, fui o melhor marcador da equipa já com 37 anos e no final da época chamaram-me para conversar e disseram: “O Lucas vai sair, nós não vamos conseguir pagar o que recebias, mas podemos dar-te 60% do valor”, ao que respondi “Tudo bem, eu aceito, vou para Portugal de férias e regresso”. Fiz isso, pois conhecia um diretor do clube e acreditei. Quando venho de férias, passado um tempo, pedi para me enviarem a passagem de regresso ao Chipre, mas depois dizem-me que ocorreu um problema em termos financeiros e já não podiam pagar o que tinha ficado acordado. A minha reação foi “Estão a brincar comigo. Saí daí e estava tudo certo, e agora querem-me fazer isso? Então não volto.”. Não voltei porque não tinha o contrato assinado, e estava em casa já a pensar em pendurar as botas, até que, na última semana de Agosto, surgiu uma proposta para ir para o Aris (Limassol). Era um diretor que tinha jogado comigo no Ermis, convidou-me para jogar no clube mesmo com 38 anos e lá fui. Consegui ser o artilheiro da equipa e foi um bom ano.
BnR: E como surge o convite para abraçar a carreira de treinador?
W: Como contei anteriormente, eu fui para o Aris Limassol, faço uma boa época e renovo antes de regressar a Portugal de férias. Só que nessa altura, surgiu a oportunidade de ingressar no Braga para a formação. Pensei logo que possivelmente não iria aparecer uma oportunidade dessas e então aos 38 anos achei que era a hora para terminar a carreira. Liguei para as pessoas do Aris e disse que não ia voltar, devido ao aparecimento da proposta do Braga e acredito que foi a decisão mais correta.
BnR: O começo da nova etapa na tua carreira foi como adjunto. Quais foram os maiores desafios nessa nova função?
W: O primeiro ano foi mais a parte técnica. Tens de fazer um trabalho mais didático, a forma de bater na bola, o que pensas em cada posição, o cruzamento…algo mais técnico-individual para os jogadores. Depois, ao longo do tempo, vais evoluindo na função, pois entrei como adjunto, e aperfeiçoas as outras áreas técnica e tática e o que queres do jogo. Na minha opinião, a formação tem de ser as duas componentes bem juntas para que os miúdos melhorem aquilo que não fazem tão bem.
BnR: Estiveste à frente da equipa B, onde é usual jogadores subirem à equipa A ou receber os atletas pouco utilizados da A. Como é que um treinador gere essas constantes mudanças?
W: Isso é o “calcanhar de Aquiles” de uma equipa B. Gerir essas mudanças, o “entra e sai”, de repente não ter um jogador a semana toda e ele jogar no fim-de-semana ou programares o treino para aquele dia e perdes 5/6 jogadores que vão treinar à equipa principal. Uma equipa B vive à mercê da equipa principal, o que é natural e tem de ser assim. Mas havia casos em que era exagerado, porque alguns miúdos iam para fazer entre 10 a 30 minutos de treino na equipa principal, e muitas vezes não há essa compreensão na equipa A se adaptar só para não utilizar aquele jogador. Mas eles (equipa A) só estão a pensar na vitória e em ganhar, e acho que a equipa A é a que dá a estabilidade do clube todo. Agora uma coisa é certa: um treinador que passe pela equipa B está mais preparado para ter êxito.
De Homem-G⚽️L⚽️ a Mestre da táctica 📋: Wender Said é o novo líder do SC Braga B!
Sabe mais em 👉 https://t.co/BryyriEQpB pic.twitter.com/NU41y0bjX0
— SC Braga (@SCBragaOficial) January 25, 2018
BnR: Na equipa B trabalhas-te com alguns atletas que atuam agora na Primeira Liga como Mamadou Loum, Trincão, Luther Singh, Ibrahima, entre outros. De que forma os ajudaste a estarem mais bem preparados para quando surgisse a oportunidade de alcançar esse patamar?
W: São jogadores de um nível superior que já têm qualidade dentro deles. Agora naturalmente, além da parte técnica, é preciso entender a parte humana do jogador, mas também aquilo que eles podem dar ao jogo e nisso tens de saber usá-los da melhor forma para eles evoluírem e subirem de patamar. No caso do Loum, ele tinha alguma dificuldade em jogar acompanhado, pois tem muita amplitude dentro de campo, ele chega facilmente aos dois lados. Durante esse tempo, fomos verificando essas situações e depois com a própria técnica do jogador, ele acaba por evoluir e chegar por mérito próprio aonde está. O Luther Singh é um jogador irreverente, que gosta de ir para cima do adversário, e ao criares as melhores condições, em determinado momento do jogo, eles acabam por colocar em prática o que tem de melhor, o jogador acaba por evoluir ainda mais.
BnR: Quais são os planos para o futuro, agora que o vínculo com o Sporting de Braga terminou?
W: O vínculo com o Braga acaba no final desta época, e preferi utilizar o resto do tempo para estar mais perto da família, pois foram muitos anos a trabalhar de forma contínua desde a minha estreia em 1992 até ao ano atual e nunca tinha parado de trabalhar continuamente. Optei por parar, já que as propostas que chegaram não foram aliciantes ou credíveis para assumir um projeto do Campeonato de Portugal ou de Segunda Liga. Achei por bem parar para estudar um pouco, mas também para acompanhar mais de perto o ano do meu filho (Yan Said, atleta do Sporting de Braga) que jogou nos sub-19 e agora está na equipa principal. Vou esperar, devo assumir um projeto na próxima época e espero que isso aconteça. Há já alguns contactos e acredito que as coisas vão fluir da melhor forma.
Ao primeiro toque
BnR: Jogador com quem mais gostaste de jogar?
W: Tenho dois com quem gostei de jogar que são o Vandinho e o Jorge Luiz. Fiz uma dupla com o Jorge Luiz, mas o Vandinho jogava pelo corredor esquerdo, e nós os três entendíamo-nos na perfeição.
BnR: Melhor golo da carreira?
W: Foi aquele contra o Halmstads em Alvalade. Estou indeciso entre esse e um que fiz ao Vitória de Setúbal no Municipal pelo Braga, em que dei uma “cavada” (Wender faz o movimento com a mão) e foi muito bonito também. Mas escolho esse pelo Sporting.
Golo aos 1:15:
BnR: Melhor momento da carreira?
W: Sem dúvida, foi a premiação como “Melhor Extremo” em 2004/2005. Estar a competir com o Ricardo Quaresma e Simão Sabrosa, e ser o escolhido foi muito bom.
BnR: Maior frustração da carreira?
W: Não ter um título de maior expressão como a Taça de Portugal pelo Sporting de Braga.
BnR: Adversário mais difícil de ultrapassar?
W: O mais “chato” era o Bosingwa, ainda nos dias de hoje nos jogos da “velha guarda” o é. Ele corria muito, tinha de andar atrás dele e não era fácil (risos).
BnR: Treinador que mais te marcou?
W: Jesualdo Ferreira, sem qualquer dúvida. Foram quase três com ele no Braga e se o tivesse tido antes na minha carreira, talvez poderia ter atingido um patamar mais alto.
BnR: Melhor estádio onde jogaste?
W: Foi o Municipal de Braga, em que me dei muito bem e era muito bom estar lá a sentir o apoio dos adeptos.














