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Creio que já todos vimos filmes de Hollywood no qual aparecem motoqueiros a percorrer uma estrada que parece não ter fim, a famosa Route 66, conhecida por atravessar grande parte dos Estados Unidos, começando em Chicago e terminando na Califórnia. O que muitos não saberão, é que existe uma estrada similar em Portugal que também atravessa o país de Norte a Sul, começando em Chaves e terminando em Faro, a mítica Nacional 2. Esta estrada nasceu como um incentivo a mobilizar a população para o interior do país, sempre esquecido pêlas pessoas do litoral e pelos governantes, fazendo uma espécie de oposição ao centralismo português e ao litoral, através de um excelente aproveitamento das muitas valências do nosso interior. Naturalmente, foram-se estabelecendo clubes de futebol em volta desta estrada, clubes com orgulho em ser do interior e que, tal como a Nacional 2, têm muitas histórias para contar.
GD Chaves

Começando a nossa viagem pelo início, como convém sempre, é inevitável falar do GD Chaves, nosso conhecido dos grandes palcos do futebol nacional. A 27 de Setembro de 1949, após uma vitória do Flávia Sport Clube no Campeonato Distrital, que lhe garantia o acesso à 3ª Divisão, nasceu um novo clube, resultado da fusão entre os dois rivais da cidade, o Atlético Clube Flaviense e o já referido Flávia, o Grupo Desportivo de Chaves que conhecemos.
Com este enterrar do machado de guerra, deu-se início a uma bonita história desportiva, com altos e baixos, onde o Chaves, clube ideal para potenciar o talento de jovens jogadores, como o explosivo Davidson, ou o mágico Fábio Martins foi trilhando o seu caminho num país cada vez mais centralizado e com tendência para subestimar o potencial futebolístico que a Região de Trás-os-Montes, nomeadamente a histórica cidade de Chaves, podia oferecer ao país.
A primeira participação do clube na primeira divisão data da época 1986/1987, onde conseguiu um fantástico sexto lugar que deixou a maioria do país atónito, desabituado de ter clubes transmontanos na elite do futebol. A época seguinte traria uma surpresa ainda maior: os Valentes Transmontanos voltam a deixar o país boquiaberto com um inédito 5º lugar que lhes abria as portas europeias, onde tiveram uma representação que muito deve orgulhar o clube, já que falamos de uma equipa que em anos anteriores lutava para chegar à primeira divisão portuguesa.
Mas foi já neste século, em 2010, que o GD Chaves atingiu, quiçá, o auge da sua história, ao carimbar a passagem à final da Taça de Portugal, na 2ª mão das meias-finais, com um bis de Edu Machado no prolongamento, flaviense de gema, a deitar por terra as aspirações do Naval 1º de Maio. Só faltou levar a taça para Trás-os-Montes, mas o FC Porto não deixou, vencendo na final por 2-1.
Após uns anos mais duros, com descidas de divisão e possíveis declarações de insolvência, o GD Chaves renasceu, com novos investidores, chegando de novo aos palcos maiores do futebol português em 2016/2017 e após a despromoção do ano passado, lutam hoje por voltar a honrar a sua região, os Valentes Transmontanos.
Vale sempre a pena ver o GD Chaves a jogar, pela história do clube, pela paixão dos adeptos e pela cidade maravilhosa, onde a paisagem é deslumbrante e o legado romano permanece intrínseco à cidade.
SC Régua
Seguindo para Sul pela Nacional 2, acabaremos por chegar ao Peso da Régua. Esta cidade com vistas maravilhosas para o douro, conhecida como a capital internacional do vinho e da vinha, tem também um clube que representa o melhor do bairrismo, do amor ao futebol e da humildade portuguesa: o SC Régua. Fundado em Janeiro de 1944, por um grupo de rapazes, trabalhadores nas oficinas do Corpo da Companhia Nacional dos Caminhos-de-ferro, este clube nasceu com o nome de Clube União Ferroviário. A equipa foi crescendo, ganhando maior visibilidade, mas continuou a viver exclusivamente da boa vontade e do suor desses humildes trabalhadores ferroviários.
Em Setembro desse ano, resolveu-se mudar o nome com que foi fundado para Sport Clube da Régua, para melhor representar a cidade.
No entanto, a essência do clube mantém-se. Os fundadores do clube, pautados pela sua humildade, o bairrismo, a força e o entusiamo, continuaram o seu apelo aos valores da população, fazendo do SC Régua, efectivamente, o clube da cidade, e por isso, merecem um lugar na história deste clube, que a meu ver, representa o que de melhor Portugal tem. Da minha parte, desejo que este clube volte às divisões cimeiras do futebol português, por onde já conquistou um honradíssimo terceiro lugar na segunda divisão e para onde espero que volte.
CD Tondela

Ao continuarmos a viagem pela EN 2, deixamos o distrito de Vila Real e chegamos a Viseu, onde uma equipa à qual já estamos habituados tem a sua fortaleza; falo do CD Tondela, que já disputa a Primeira Liga desde 2016. Mas nem sempre foi assim. Fundado em 1933, resultado da fusão das duas maiores equipas da localidade, o CD Tondela como todas as equipas, começou por baixo, coleccionando títulos de divisões inferiores, de modo a consolidar a presença do clube nos campeonatos nacionais. O seu esforço e dedicação foi finalmente recompensado quando em 2016 se sagrou campeão nacional da Segunda Liga, alcançando assim o escalão máximo do futebol português, onde em apenas quatro anos, já deixou marcas, como o SL Benfica 2-3 CD Tondela, que na época 2017/2018, assassinou em pleno Estádio da Luz, as poucas esperanças dos encarnados em conseguir um inédito Pentacampeonato e ainda o CD Tondela 5-2 GD Chaves, da época passada que garantiu a permanência dos beirões na Primeira Liga e condenou os transmontanos à descida de divisão. O CD Tondela tem também, uma renomada academia, formando excelentes jogadores, como os títulos das equipas jovens dos Infantis, Juvenis e Juniores tão bem demonstram.
Sertanense FC
Eléctrico FC
Continuando a jornada pelo interior de Portugal, chegamos ao distrito de Portalegre, onde se impõe falar daquele que é considerado o melhor clube Alentejano, pêlos seus feitos desportivos, o Eléctrico FC. Fundado a 1 de Abril de 1929, recebeu o nome devido à profissão dos fundadores: dos quatro fundadores, dois eram funcionários da Central Eléctrica, outro era empregado duma serração próxima à Central e pertencente à mesma empresa, e o último era empregado daquela empresa, mas na secção de refrigerantes.
Quanto ao emblema, o eleito foi um barco por representar a primeira fonte de receita do clube: dois barcos de recreio construídos pêlos próprios fundadores e que navegavam no Rio Sôr.
Para mascote do clube foi escolhida a raposa, por ser um predador de pequenas dimensões mas perspicaz, que apesar do seu tamanho, consegue quase sempre atingir os seus objectivos, passando a perna a animais maiores e mais poderosos. Além disso, partilha uma das cores do emblema do clube, o castanho, além é um animal que não só existe no concelho como se encontra espalhado por quase todo o lado, tal como os sócios e simpatizantes do Eléctrico, numa bonita analogia escolhida pêlos fundadores, diga-se de passagem.
O Eléctrico tem no seu museu inúmeras taças das competições distritais que já venceu, não só no futebol, mas também noutras modalidades, como o basquetebol e o futsal (onde tem vindo a dar cartas) e em muitas outras modalidades; É um clube que vem dar vida ao Alentejo, em particular, à sua cidade, Ponte do Sôr, e por isso mesmo, merece todo o nosso respeito.
SC Farense
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Chegamos ao fim da nossa viagem pela mítica Nacional 2, que termina em Faro; assim, é importante terminar em beleza, com um histórico português como é o Sporting Clube Farense, o mais antigo clube do Algarve. O Farense nasceu a um de Abril de 1910, sob o nome Faro Futebol, fruto da relação de amizade estabelecida entre os jovens da região e os marinheiros de uma corveta aí ancorada. O nome evoluiu para Sporting de Faro, visto que a maioria dos fundadores ser simpatizante do Sporting CP, e daí para Sporting Clube Farense, um dos poucos clubes portugueses nascidos ainda durante a Monarquia.
A questão das cores do equipamento tem uma história engraçada. Como o clube tinha sido criado por adeptos do Sporting Clube de Portugal, quiseram jogar com as mesmas cores dos leões, mas a distância a Lisboa dificultava as viagens e por consequência, o único contacto visual com a equipa lisboeta foi através de fotografias. Acontece que nessa altura, não havia fotografias a cores, o que levou os responsáveis do clube a adoptar o preto e branco como as suas cores. No palmarés do SC Farense encontramos taças de campeões da Segunda Divisão e do Campeonato de Portugal, mas também um registo histórico de 23 presenças na Primeira Divisão, coroadas com um fabuloso 5º lugar, em 1994/1995, além de 45 presenças na Taça de Portugal, cujo auge foi a final de 1989/1990, onde acabaria vencido pelo CF Estrela da Amadora. Portanto, a juntar à beleza natural da cidade e dos seus monumentos e história, os Farenses têm a sorte de um clube histórico na sua cidade. Não é para todos.
Há ainda mais clubes de futebol, e de outros desportos, ao longo da Estrada Nacional 2 que mereciam também umas palavras, porque com certeza também têm histórias para contar e para escrever. Na impossibilidade de escrever sobre todos, fica aqui a minha homenagem aos clubes do interior, que vão ombreando com os restantes, lutando contra o centralismo e esforçando-se por honrar o interior de Portugal. É de valor, quer a sua luta quer a da EN 2.












