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Manuel Ventura Cajuda de Sousa, o treinador que não festeja golos, esteve à conversa com o Bola na Rede e dá-nos uma lição de bola à antiga. De ideias claras e discurso assertivo, fala-nos do passado em Leiria, na Madeira e no Minho, onde foi Tio e herói, enquanto dá lições de liderança, gestão de plantel e psicologia. Fora de Portugal, encontra a desorganização no Zamalek, onde teve 10 presidentes num ano, descobre o “filão” nos Emirados Árabes Unidos, onde os seus desejos eram ordens e não faltava nada, e aprende que na China a palavra mais é importante é “mas”. Por fim, partilha os seus objetivos para o Leixões e a sua visão sobre o estado do futebol português e os desafios para o futuro.
– A ocasião faz o treinador –
Bola na Rede [BnR]: Como é que surge a oportunidade de ser treinador?
Manuel Cajuda [MC]: Não fazia parte do meu horizonte enquanto jogador, foi uma questão de oportunidade, foi-me dada pelo Presidente do Farense na altura, o sr. Fernando Barata. Eu não queria ser mas ele foi de tal forma insistente no pedido que acabei por ficar como ajudante do Mladenov. Continuei como jogador e capitão e disse que ajudava como capitão, não como um futuro treinador, porque não fazia parte dos meus horizontes. Depois comecei, colaborei e ajudei com honestidade perante o compromisso que tinha feito.
BnR: Quando é que conseguiu mudar o “chip” de jogador para treinador?
MC: Penso que levei algum tempo para despir a camisola de jogador, cerca de 10, 11 meses e então comecei a achar que era qualquer coisa de fascinante a carreira de treinador. Agarrei-me a ela com unhas e dentes, tive sorte, consegui progredir, tenho jeito, continuo a adorar e acabei por, e espero continuar, a fazer uma carreira que me orgulho, que me dá satisfação e que foi aquilo que foi possível fazer.
BnR: Quais os treinadores que o influenciaram mais na sua carreira de treinador?
MC: Eu sou muito pouco influenciável (risos). Não me deixo influenciar com facilidade, tento sim absorver as coisas que eu acho que são boas, que são úteis e que me fazem evoluir. Isso também quer dizer que não vou referenciar seja quem for pelo aspeto positivo, porque ao fazê-lo estou seguramente a desapreciar alguns que não forem nomeados e isso não me parece justo. Aprendi com todos, aprendi com bons, com maus…
BnR: O que é que aprendeu com os maus treinadores?
MC: Foi muito importante aprender a não fazer algumas das asneiras que eu vi serem cometidas enquanto atleta, sobre as diferentes áreas. De todos tirei um pouco e juntei aquilo que fui aprendendo desde o início, quando comecei do zero. Na altura, depois desse conhecimento que fui adquirindo, juntei imaginação, hoje chama-se criatividade, e fui utilizando os conhecimentos que fui adquirindo sempre com a imaginação, o que quer dizer que fiz, pelo menos na minha ótica, aquilo que é mais aconselhável.
BnR: É mais difícil treinar a equipa e ensinar os processos de jogo ou gerir as pessoas, os egos? Ou seja, é mais difícil o trabalho no treino e depois durante o jogo ou a gestão do plantel/humana?
MC: Talvez seja mais difícil gerir o plantel/parte humana. Também é verdade que atualmente o conhecimento está mais acessível a todos, incluindo aos jogadores, eles hoje têm um maior conhecimento do que é a sua profissão, dos parâmetros em que ela se deve gerir. O pôr em prática no treino penso que é a parte mais fácil, o que acho interessante e para mim é fundamental é conseguir transmitir e fazer com que os jogadores aceitem essa ideia, esse princípio, essas regras. Depois é muito mais fácil pôr em prática no campo aquilo que são as nossas ideias, os nossos métodos de trabalho, o nosso modelo de jogo e a forma como o modelo de jogo vai influenciar a utilização dos sistemas táticos. Não basta dizer que tenho uma ideia, é preciso fazer com que eles compreendam primeiro e depois aceitem as ideias e aquilo que nós pretendemos pôr em prática.
BnR: Chamaram-lhe louco há vinte e tal anos quando foi o primeiro treinador em Portugal a ter um psicólogo na equipa. Como é que se apercebeu dessa necessidade?
MC: Não me parece que tenha sido um ato de inteligência da minha parte. Parece-me acima de tudo que foi um ato de compreender e aceitar que o futebol, já nessa altura, precisava de ciências envolventes que podem ajudar a praticar um melhor futebol. De há uns anos para cá, começou a aparecer a psicologia mais direcionada para o desporto e o futebol. É um dos fatores importantes porque no fundo é a ciência que estuda o comportamento humano. Muitas vezes não é a que antevê o comportamento humano, é a que estuda o comportamento humano. Eu comecei a perceber que não entendia tudo do comportamento dos meus jogadores e era preciso que alguém me falasse sobre isso para poder gerir melhor o meu grupo.
BnR: No fundo, ver e entender a pessoa para lá do jogador.
MC: Sim. O comportamento das pessoas às vezes é inexplicável, provoca-nos uma série de interrogativas às quais nós de momento não somos capazes de encontrar resposta mais imediata e nada melhor que ter na minha equipa técnica alguém que me pudesse fazer compreender, tirar melhor rendimento dos jogadores e ensinar-me aquilo que queria. Porque se olharmos bem, não é de agora, há já alguns anos que se fala na forma tática, na forma técnica, na forma física, na forma psicológica e todos esses aspetos são importantes. Eu tinha necessidade de aprender e solicitei isso.
BnR: Como é que o grupo lidou com isso na altura?
MC: Foi muito estranho na altura porque toda a gente entendeu mal, inclusivamente os jogadores pensaram “Nós não somos malucos, não precisamos de um psicólogo”. Mas aquilo que eu entendi logo é que um psicólogo não era só para os jogadores e hoje cada vez tenho mais essa ideia, que o psicólogo é para o grupo. O grupo inclui, na minha opinião, o treinador, a equipa técnica, os roupeiros, o departamento médico, todos aqueles que verdadeiramente fazem parte do grupo. Portanto, o psicólogo é para o grupo, não é para os jogadores e às vezes o meu conselho é que os treinadores bem precisam de ter um psicólogo ao lado, precisam mais do que os jogadores.
BnR: Na União de Leiria, chega à final da Taça de Portugal em 2002/03. Era missão impossível derrotar aquele FC Porto de Mourinho?
MC: Impossível não era mas que era muito difícil era. Aliás, difícil não porque não conseguimos. O FC Porto de José Mourinho era uma equipa que fez “só” isto, ganhou a Liga dos Campeões e a Taça UEFA em dois anos seguidos. Ainda por cima tinha uma característica muito interessante, é que tinha levado três ou quatro jogadores da União de Leiria, portanto eu fiquei com a equipa enfraquecida. Fomos capazes de lutar com eles, perdemos 1-0, o jogo não foi muito fácil para o FC Porto. Lembro-me que se dizia que uma final entre o Leiria e o FC Porto não era uma coisa emocionante e eu respondi ao José Mourinho “Qualquer final que tivesse o FC Porto era um jogo muito interessante”. O Leiria é que ia fazer parte dessa situação. Ganharam os melhores, ganhou o FC Porto, ganhou o melhor treinador.

Fonte: Facebook Manuel Cajuda
BnR: O que é que disse aos jogadores antes do jogo?
MC: Esses jogos não têm grandes argumentos para um treinador os estar a motivar. O próprio jogo em si, vejamos pela parte dos treinadores: eu sempre ouvi os meus colegas dizerem que é um sonho estar no Jamor. Para mim, o sonho já estava concretizado, eu estive no Jamor. O mesmo acontece aos jogadores. A questão emblemática à volta da Taça, a prova rainha do nosso futebol, não a prova mais importante mas a prova rainha, é conseguir chegar ao Jamor. Isso dá uma visibilidade, quer aos jogadores, quer aos treinadores e até aos clubes, que provoca vários tipos de motivação. Aquilo que é necessário fazer naquela altura é agarrar em todos os “rios” motivacionais e tentar juntá-los ao serviço do grupo mas penso que não é tão necessário motivar num jogo desses.
BnR: Quem era esta equipa da União de Leiria?
MC: Muitos, os craques eram todos. Jogadores de eleição… O Helton, o Silas, o capitão Bilro. Havia uma série de jogadores mas não é elegante da minha parte referir só alguns. Claramente uma das melhores equipas da União de Leiria, pelo menos pelos resultados que alcançou. Foi a melhor época de sempre da União de Leiria, nunca ninguém fez igual. Há um 5º lugar também um ou dois anos antes com o Manuel José só que nós somámos esse 5º lugar e a final da Taça de Portugal, com a consequente qualificação para a Taça UEFA.
BnR: Na época seguinte, consegue a qualificação para a Taça UEFA com o CS Marítimo. Depois no ano seguinte só faz um jogo e sai. Porquê?
MC: É realmente uma das melhores épocas, mesmo agora passados estes anos todos, e há o apuramento para a Taça UEFA. Depois na segunda época eu sou demitido após o primeiro jogo.
BnR: Porquê?
MC: O porquê não é muito interessante. Provavelmente terá havido alguma coisa que não correu bem no relacionamento entre mim e o sr. Presidente [n.d.r. Carlos Pereira]. Hoje continuo amigo dele, continuo a dizer que ele é um extraordinário presidente, acho que é dos melhores que tive. Mas houve coisas que ele não entendeu ou que pelo menos entendeu de uma forma diferente da minha. É presidente, está no direito de alterar, alterou. Continuo a dizer, e já falei disso com ele depois, há algumas coisas que ele eventualmente terá razão e outras que ele eventualmente terá entendido de uma forma diferente. Eu só posso ser responsabilizado por aquilo que digo, não por aquilo que os outros deduzem, só posso ser responsabilizado por aquilo que faço e não por aquilo que os outros deduzem que eu faço. O erro está repartido entre as duas partes.
BnR: Disse há uns tempos que faltava intensidade ao futebol português. Sente que isso se deve ao pouco tempo de jogo útil que temos em Portugal?
MC: Há que esclarecer uma coisa muito pequena. Eu quando digo que falta intensidade ao futebol português não estou a falar mal do futebol português ou dos meus colegas, estou apenas a dizer que o futebol português melhorará muito se tiver mais intensidade. Aliás, os melhores campeonatos na Europa dizem-nos exatamente isso: Espanha, Inglaterra tem muito mais, Alemanha também, até a Itália tem uma intensidade grande. Nós em relação aos cinco melhores campeonatos da Europa temos uma pausa de intensidade. Essa pausa de intensidade muita gente entende logo que é um défice de trabalho físico. Não é só, mas também é. Eu considero que há pouca intensidade na forma de pensar e aqui incluo logo o aspeto primordial que é a visão, quer a direta quer a periférica, porque se percebe muito pouco daquilo que cada jogador tem na envolvência da visão periférica.
BnR: Essa pouca intensidade está relacionada com a velocidade a que se joga?
MC: Sim, somos lentos a pensar quando ganhamos a bola, somos lentos na recuperação da posse de bola, somos lentos a reposicionar no aspeto tático e esse pensamento pouco intenso provoca … levamos mais tempo a executar, mais tempo a querer surpreender o adversário. Levamos muito tempo a definir aquilo que queremos construir, a fase de construção é excessivamente grande, mesmo que seja em segundos é excessivamente grande, e isso permite sempre ao adversário a contra-arma de se reorganizar. Um exemplo fascinante é o Liverpool FC, porque eles praticamente parece que não têm fase de construção. Parece que constroem a uma velocidade impressionante, não estão à espera do erro do adversário, eles provocam o erro do adversário e aqui se traduz a falta de intensidade que eu gostaria, como treinador e como espetador porque vejo muitos jogos, ver melhorada. Aquilo que digo e aponto como uma deficiência que me parece evidente, em relação aos restantes campeonatos da Europa ainda é mais evidente, só com muito diálogo se consegue melhorar. Gostaria muito que no futebol português todos os jogos fossem entre duas equipas que querem ganhar, taco a taco. Há muitas equipas em Portugal que dizem que enfrentam o adversário cara a cara… cara a cara mas parados (risos).
– Herói incontestável no Minho –
BnR: É conhecido em Braga como o “Pai do Braga”. Qual a explicação?
MC: Não, não, de longe (risos). Pai do Braga são os milhares de adeptos, dirigentes, jogadores que passaram antes de mim. Muita gente me fala nisso, eu digo sempre que Pai não, um Tio afastado.
BnR: Mas um Tio muito importante…
MC: O Tio também acaba por ser importante. Eu quando fui para Braga, o clube tinha ficado em 15º ou 16º, ficou na linha de água, não desceu por um golo. Entrei quando acabou o campeonato, por isso fui buscar o SC Braga ao 15º lugar e deixei-o na Taça UEFA. Em 2001, o Braga ficou no 4º lugar e apurou-se para a Taça UEFA. Há uma evolução fantástica porque os processos foram todos renovados.
BnR: Como foi essa renovação?
MC: Na altura a equipa chamava-se a lojinha dos 300. Houve a necessidade de fazer alguma renovação e alguns sacrifícios. Um ano, os jogadores tinham que levar os equipamentos para casa e lavá-los. Isso foi aceite pelo grupo porque havia essa necessidade, era preciso alguém sacrificar-se pelo clube. Houve necessidade de construir um plantel com base nos escalões de formação, cheguei a ter 14 jogadores oriundos dos escalões de formação na equipa principal. Tive que lançar jogadores, tive que fazer um Braga diferente. Por isso, os 4ºs lugares que o Braga faz agora, para ser simpático, não me dizem nada. Isto não é depreciativo porque eu quando deixei o Braga deixei-o no 4º lugar.
BnR: Diz isso porque o Braga tem hoje em dia melhores condições?
MC: Sim, penso que hoje tem muito melhores condições. Tem pelo menos a obrigatoriedade de se assumir como um dos candidatos aos três primeiros lugares da classificação, um 4º lugar já é uma coisa perfeitamente natural para o Braga. Perante aquilo que o Braga cresceu, e cresceu muito depois, devo saudar a direção do Braga, Presidente Salvador e todos os treinadores e jogadores que vieram a seguir e a massa associativa. Mas a evolução em termos classificativos não foi para além daquilo que eu deixei.
BnR: Conseguiu a subida de divisão pelo Vitória SC em 2006/07. O que esteve na base do sucesso dessa época?
MC: O mesmo que esteve na base do sucesso das outras equipas. Houve um conjunto de pessoas que me ajudaram, roupeiros, jogadores, administração, e que compreenderam o meu projeto. Nesse aspeto, vou confessar uma coisa. Quando fui para o Braga disse que a primeira coisa que era importante para mim era tornar o Braga o clube mais importante do Minho. Com as classificações que consegui, o clube ficou à frente do Vitória de Guimarães. Quando fui para o Vitória, voltei a dizer o mesmo, para mim o que é importante é tornar o Vitória de Guimarães o clube mais importante do Minho. No ano em que lá estive, terminámos em 3º lugar e o Braga ficou mais atrás de nós. Portanto, aquilo que é uma satisfação pessoal não contra um clube nem contra o outro, é conseguir nos anos em que lá estive fazer daquelas equipas as mais fortes do Minho.

Fonte: Facebook Manuel Cajuda
BnR: Tendo em conta a rivalidade entre os dois clubes, os adeptos do Braga levaram a mal a sua ida para o Vitória SC?
MC: Todos não, alguns sim. Falaram-me nisso mas compreenderam depois. Passei momentos fascinantes com a “guerra” entre eles. Recordo-me de uma vez no meu prédio, eu era treinador do Vitória e vivia em Braga, e um vizinho disse-me “Mister, se não fosse por si, eu queria que o Vitória se afundasse”. E eu ria e dizia “Epa, você está-me a querer mal”. Já me pediram imensas vezes para fazer comentários em jogos entre o Vitória e o Braga e eu nunca fiz nem irei fazer. Porque basta eu ter uma palavra que pode ser verdadeira e sincera, imaginemos num derby do Minho e eu digo que o favorito é uma equipa, para que isso do outro lado seja mal recebido. Farei sempre silêncio absoluto em relação a estas equipas porque eu não quero perder um amigo de Guimarães nem um amigo de Braga.
BnR: Conseguiu a melhor classificação de sempre do clube na Primeira Divisão e o apuramento para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Que recordações tem dessa época e do dia em que garantiram o 3º lugar?
MC: Esse dia foi só a confirmação, tivemos a felicidade de fazer um campeonato extremamente regular, oscilámos quase sempre entre o 2º e o 3º lugar. Lembro-me muitas vezes de ir à flash interview no sábado, os outros só jogavam no domingo, e dizia “Hoje vou dormir no 2º lugar, amanhã não sei”. Andámos sempre naquela luta.
BnR: Ficaram muito perto do Sporting não foi?
MC: Foi. Penso que é na última ou penúltima jornada que perdemos a luta direta com o Sporting mas foi sempre até ao fim a luta pelo 2º lugar. Depois de alcançar isso tudo, só me deixou um travo amargo na carreira ter saído de lá. Eu não queria sair do Vitória de Guimarães, é uma história que nem vale a pena falar sobre isso, acabei por ser afastado. Na altura, entendia que o Vitória tinha todas as condições para fazer aquilo que eu disse em relação ao Braga que é meter-se na luta pelos três primeiros do campeonato. Tem uma massa associativa fantástica, um estádio fabuloso, tem condições e tem uma doutrina própria do futebol em Guimarães.
BnR: Na pré-eliminatória da Liga dos Campeões contra o Basileia, sente que o Vitória foi “empurrado” para fora da competição?
MC: Não foi empurrado, levou um pontapé enorme. É uma eliminatória que é clara, a dois minutos do fim fazemos um golo que nos dá a passagem, um golo perfeitamente legal que ainda hoje ninguém percebe, mesmo com VAR ou sem VAR, não havia na altura mas nem era preciso para ver que era um golo legal. Só que aquele árbitro auxiliar holandês marcou o fora-de-jogo e assim que o jogo acabou fugiu para o balneário. Foi uma vergonha. Não adiantou o Platini pedir desculpa ao Vitória SC, porque o erro estava feito. Isso prejudicou muito o processo que eu queria implementar no Vitória porque eram uns milhões que ia receber na altura e levou depois o clube a atravessar um deserto enorme.
– Instabilidade no Egito, fartura nos Emirados e “mas” na China –
BnR: Como surge a hipótese de treinar o Zamalek?
MC: Foi um agente árabe que trabalhava muito com o futebol. Vive na zona de Cascais, é muito meu amigo e devo-lhe muito. Eu tinha feito uma carreira boa no Marítimo, depois saí e tive ali algum tempo no Beira-Mar e ele apareceu com uma proposta para ir para um grande clube, um clube enorme de África e do futebol africano. O Zamalek estava numa crise mas tinha vencido cinco vezes a Liga dos Campeões Africanos. Eu tinha quatro mil pessoas a ver os treinos. É um clube com cerca de 20 milhões de adeptos, o Al-Ahly do Manuel José era o melhor na altura e tinha até mais nessa situação. Apareceu-me essa possibilidade, eu nunca tinha trabalhado fora e alguma vez tinha que dar o passo e nada melhor que ir para um grande clube, mesmo sabendo de antemão que o clube estava a atravessar uma fase muito crítica.
BnR: O que se passava?
MC: Durante um ano tive 10 presidentes. Era sempre o mesmo, entrava de manhã, saía à tarde, voltava no outro dia. Havia uma guerra entre uma comissão administrativa e o presidente, que é o presidente atual. Fui jogar um jogo de avião, parti com um presidente e quando aterrámos ele diz-me “Mister, já não sou o presidente outra vez”. Sobrevivi a isso tudo com elegância, ficámos em 2º lugar e fomos à final da Taça do Egito contra o Al-Ahly do Manuel José.
BnR: Que condições de trabalho encontrou?
MC: Completamente diferentes. Todas as condições de trabalho que encontrei nos países para onde fui, não têm nada a ver com as que tive em Portugal. Na altura, o Zamalek estava a reconstruir o seu complexo desportivo, treinávamos muitas vezes em campos alugados, jogávamos em estádios diferentes e tivemos as inerências e os prejuízos da nova organização do clube. Ainda bem que fui, porque a riqueza que construí para mim, não financeira, mas riqueza cultural, riqueza do comportamento social, perante condições que não eram as que os melhores clubes tinham em Portugal, fez-me pensar mais e aceitar as minhas realidades, pondo o meu conhecimento em prática. Daí eu dizer, quando perguntam se eu tenho ideias sobre futebol, “Felizmente sou um homem sem ideias”. Porque as ideias só crescem perante as minhas realidades, nada adianta eu ter ideias e dizer “Vou para a China e vou fazer assim”. Chego lá, a realidade é completamente diferente. Agora, perante as minhas realidades, eu utilizo o meu conhecimento em função das minhas realidades e em função daquilo que são as condições naturais em que eu posso trabalhar.
BnR: Como foi a mudança para os Emirados Árabes Unidos?
MC: Curiosamente, tive a mesma sorte do Zamalek, o Al-Sharjah era na altura o clube que tinha mais títulos, hoje não sei. Apanhei sempre essa situação de passar por transformações no aspeto administrativo do clube e até ao ano passado nós fizemos a melhor classificação dos últimos 15 ou 20 anos do Al-Sharjah. No ano passado foi campeão graças a Deus, fiquei muito satisfeito por isso. O futebol é menor em relação ao futebol português mas tem todas as condições. Em termos de novas tecnologias e aquilo que se fala hoje em dia em Portugal, comparado com aquilo que eu tinha nos Emirados era uma brincadeira. Eu tinha tudo do melhor.
BnR: Por exemplo?
MC: Tinha um Cybex no meu posto médico, uma máquina enorme. Uma vez pedi sete bicicletas para fazer os treinos de recuperação, no outro dia tinha 25 bicicletas no posto médico, todas novas. Fazíamos o nosso tempo de recuperação com professores de hidroginástica na piscina, afastando um pouco o que era a recuperação dentro de campo, era completamente diferente no aspeto mental e psicológico. Os jogadores gostavam, recuperavam mais depressa. Aprendi muito sobre isso lá e é uma pena que os clubes aqui não possam fazer isso.

Fonte: Facebook Manuel Cajuda
BnR: Na sua passagem pela China, sentiu que o futebol lá está a evoluir rapidamente e a subir o nível, principalmente com a entrada de jogadores estrangeiros?
MC: Tudo na China é complexo. Quando digo que é complexo não estou a ser negativo, estou a ser positivo. Muita gente pensa, por exemplo, que os chineses não são inteligentes. Os chineses são muito mas muito inteligentes, sabem perfeitamente aquilo que querem, aquilo que procuram e aquilo que fazem. Acredito que eles têm potencial, pelo menos financeiro, mas foi onde eu aprendi que “mas” é a palavra mais importante do mundo.
BnR: Como assim?
MC: Por exemplo, pedes ao Presidente autorização para fazer alguma coisa e ele diz “Pode, mas…”, e qualquer coisa a seguir. Quando cheguei à China o Presidente ouviu-me, disse-me que ficou encantado com as propostas de trabalho que eu fiz, a inovação que eu queria, mas disse-me “Gostei muito de o ouvir, nós gostamos muito dos estrangeiros, mas tu estás na China”. E eu percebi. O futebol vive muito de ações multidisciplinares, de comportamento, quando falam no modelo de jogo, parecendo que não, não é tão visível mas é importante. O estado político do estado onde estamos, a política regional e a política local, todas essas coisas me ensinaram a cometer menos erros.
BnR: Quando um treinador perde o balneário é o início do fim?
MC: Não, é o fim do fim (risos). Em termos de liderança, os liderados são as coisas mais importantes que um líder pode ter. Um líder que não tiver liderados não tem justificação e quando nós perdemos aquilo que é a parte mais importante, quem faz o espetáculo, que são os jogadores… Quando se perde o balneário, quando os liderados deixam de acreditar naqueles que exercem o poder de uma forma democrática, uma liderança aceitada passar a ser uma liderança totalitária, a maior parte das vezes está perdido o controlo. Pode não ser numa semana acaba por ser na outra.
– Ambição no Leixões e o futuro incerto –
BnR: Foi contratado pelo Leixões em janeiro deste ano. O que é que a direção lhe pediu?
MC: Fui contratado pelo Leixões numa tentativa de recuperar o atraso provocado por 10 jogos consecutivos sem ganhar. Não me exigiram que eu subisse de divisão, na altura não era impossível subir, mas pediram-me para fazer uma tentativa para recuperar disto. Confesso que a equipa estava, sob o aspeto psicológico, mental, não diria totalmente derrotada mas estava com grandes danos por 10 jogos sem conseguir ganhar. Nos últimos seis jogos em casa não tinha ganho nenhum, era preciso acima de tudo recuperar os jogadores e perdemos 2/3 semanas. Ainda por cima, tivemos logo a sorte menos feliz de, nos seis jogos que fizemos, jogámos com o primeiro, o segundo e o terceiro, não foi com os últimos.
BnR: Qual o balanço que faz até ao momento?
MC: Recuperámos a mística e quando o campeonato foi interrompido o Leixões já estava numa situação muito agradável em termos de comportamento no campo, já fazia vibrar os adeptos, já tinha um futebol muito mais interessante. Foi uma pena termos que interromper, estava extremamente satisfeito, já íamos no terceiro jogo consecutivo sem perder. Defrontámos o Farense, que na altura estava na liderança com o Nacional, e colocámos o Farense no 2º lugar. Defrontámos de uma forma muito clara, muito positiva, sendo superior em quase todos os parâmetros do jogo e foi uma pena esse processo evolutivo do Leixões ter sido interrompido, como foi tudo. Aquilo que depois na altura eu falei, quer com o diretor do futebol, quer com o presidente, foi que perante a situação do afastamento de 12 ou 13 pontos era muito difícil o Leixões subir de divisão.
BnR: Qual é então o objetivo atual?
MC: Antes do campeonato ser interrompido eu já mantinha a mesma ideia de que iria ficar no 3º ou 4º lugar, esse é um objetivo de que eu não abdico e tenho a certeza que o iria conseguir. Agora já não posso, perante todas estas coisas que aconteceram, ter noção do estado em que vamos recomeçar e oxalá recomecemos o mais depressa possível. Aqui enalteço todos os que estão a fazer para que o futebol volte depressa, os dirigentes, a Liga, a Federação Portuguesa de Futebol, o Governo, seguramente estão a fazer para voltarmos o mais depressa possível. Mas o processo do Leixões acabou por ser reconvertido aquilo que era o meu objetivo quando o campeonato foi interrompido era jogar para ficar no 3º ou 4º lugar e não abdicava disso. Agora vamos ver em que condições vamos voltar.
BnR: Que desafios traz esta paragem?
MC: Eu penso que veio trazer uma coisa muito aliciante para todos os treinadores, todos deviam pensar nisto. Esta situação anormal desafia-nos a ver quem arranja agora os melhores argumentos, os melhores métodos de preparação, os melhores métodos de recuperar as equipas. Penso é um desafio fascinante que se põe hoje aos treinadores. Pelo menos para mim está a ser, todos os dias aponto e noto sobre aquilo que poderá vir a acontecer. Não tomo ideias antecipadas, a ideia vai ser no dia em que eu tomar conta da minha realidade. Quando a administração do clube disser que volto ao trabalho, a ideia será em função de como é que os jogadores vão voltar e a partir daí eu escolho de todas aquelas ideias as que eu posso utilizar consoante aquilo que for a minha realidade na altura.
BnR: Que medidas tomou para o plantel durante este período?
MC: Percebi que muita gente fez muita coisa, eu fiz o mínimo possível. Continuo a dizer que há uma lei que a inteligência permite fazer, é a lei do menor esforço. Se eu conseguir fazer tudo com menor esforço só posso ser inteligente. Muita gente esteve nas redes sociais a mostrar treinos, sabendo acima de tudo que a realidade de cada um é a realidade de cada um. 80% dos jogadores moram em casas que não são grandes, são casas alugadas pelo clube. Não moram todos nas casa deles porque a maior parte está fora das suas cidades, não têm grandes espaços para treinar. Aquilo que sempre foi importante para mim foi ajudar os jogadores a perceber o que é estar confinado a um determinado espaço, estar em recolhimento, que é completamente diferente daquilo que é a nossa vivência normal.
BnR: Como prevê que seja o regresso à “normalidade”?
MC: A primeira análise que vamos fazer é os malefícios e os fatores stressantes que este período de confinamento veio trazer. Aquilo que a Direção-geral da Saúde disse é que provavelmente o pico da pandemia seria entre o final de abril e o princípio de maio. Logo a priori, quer dizer que isto vai ser um sacrifício para estar a fazer planos organizados. Não acredito muito num treino online, acredito que os jogadores têm de fazer aquilo que qualquer cidadão tem de fazer para minimizar as perdas em relação àquilo que tinha. Agora, nem todos têm um quintal grande, nem todos têm um jardim, alguns têm uma casa pequena e só podem correr 10 metros em casa. Há muito trabalho que se pode fazer, por exemplo, de flexibilidade, abdominais, agora a especificidade do futebol, sem querer ofender ninguém, é preciso ser artista para estar a controlar num GPS quanto é que uma pessoa corre. Aquilo que era perfeitamente identificável era no aspeto psicológico ajudar ao confinamento das pessoas.

Fonte: Facebook Manuel Cajuda
BnR: Como planeia fazer a recuperação da equipa?
MC: Para recuperar a minha equipa o mais depressa possível dos danos que isto causou, que não sabemos ainda quais foram, tenho de analisar todos os argumentos, fazer uma análise à minha realidade no dia em que voltarmos e a partir daí escolher o melhor processo. Vou alterar o meu método de trabalho, não em função de uma metodologia qualquer mas do conjunto de metodologias que aprendi com o tempo. Muitas coisas vão ter que ser reconvertidas e não me venham arranjar desculpas, na minha opinião como técnico não são precisas seis semanas de preparação para acabar o campeonato. Há muitas formas de pôr as equipas a trabalhar desde que haja condições de saúde para isso.
BnR: Falou há dias nos “adiantados mentais” que previam retomar a competição já em maio. Sente que os interesses financeiros estão a toldar o discernimento e que se está a menosprezar os perigos desta pandemia? Ou seja, sente que se está a ter pouca consideração pela saúde dos profissionais de futebol ao querer acelerar este regresso da competição sem haver noção do perigo que ainda corremos?
MC: Não, não sinto que as pessoas estão a fazer isso. Compreendo e aceito mas, como lhe disse há pouco, acredito que as pessoas que gerem o futebol, o negócio, o estejam a fazer com todos os cuidados e todas as competências para voltarmos depressa e para que os danos sejam os menores possíveis. Acredito nos dirigentes, acho que essa afirmação dos “adiantados mentais” é um erro, eu podia ter dito de outra forma. Aliás, vi um presidente há dias num jornal que, em vez de dizer “adiantados mentais”, disse “discurso exagerado”. Eu podia ter escrito exagerado, o que eu entendi foi que o post que fiz em relação aos adiantados mentais não tem nada de ofensivo para quem quer que seja.
BnR: Eu não achei que fosse ofensivo, sinceramente.
MC: O que me questiono é como é que alguém pode determinar o fim de uma coisa que ainda não começou ou recomeçou? O adiantado mental para mim são as pessoas que conseguem antever com facilidade aquilo que vai acontecer. Umas vezes acertam, outras vezes não e claramente eles não acertaram, daí que já tenham feito três alterações e já digam que provavelmente os campeonatos vão acabar em agosto ou setembro, portanto não há uma data previsível.
BnR: Tem havido muita gente a dar opinião…
MC: Houve muitas opiniões, eu também dei opiniões e cheguei à conclusão que o melhor era não ser mais um a dar opiniões e esperar que as pessoas que têm essa competência resolvam depressa o problema para voltarmos o mais depressa possível. Seguramente que ninguém mais do que os representantes da Liga, a Liga de Futebol Profissional, a FPF e o Governo estão interessados em que o poder económico do futebol tenha o menor desgaste possível. O futebol a nível mundial pode ser considerado uma das maiores, senão mesmo a maior multinacional que existe, prevê-se que nos próximos 10 anos tenha um crescimento económico na ordem dos 10% de rentabilidade. O Campeonato do Mundo teve um lucro de 9,9 mil milhões de euros. Os dirigentes, que são gente empenhada, são quem pode decidir e eu estou convencido que eles vão decidir o que é o melhor para o futebol. Vai ter que recuperar economicamente como qualquer empresa, vai recuperar, mas não vai deixar de haver futebol e acredito que as pessoas estão a fazer o melhor possível e não estejam a ser egoístas. Se estiverem a ser egoístas, seguramente estão a defender os interesses que eles acham serem os melhores para o futebol.
– Ao primeiro toque –
BnR: Qual é para si o melhor momento da sua carreira?
MC: (risos) Melhor momento da minha carreira… É o ter chegado ao lugar onde todos diziam que eu não era capaz de chegar.
BnR: Um estádio?
MC: Aquele que eu acho mais bonito é o Estádio do Dragão. O que eu acho mais imponente é o Estádio da Luz. O que eu acho completamente diferente, de uma beleza interrogativa, é o do Braga.
BnR: Qual foi o melhor jogador que treinou?
MC: Todos.
BnR: Um guarda-redes?
MC: Todos (risos). Eles sabem quem são. Fico dividido porque são completamente diferentes mas o Quim e o Helton.
BnR: Um defesa?
MC: São tantos já ao longo destes anos, e muitos bons… Geromel.
BnR: Um médio?
MC: Acho que isso é injusto estar a fazer isso. Há uns que são claramente os melhores mas para quem tem o carinho que eu tenho pelos jogadores e para aquilo que eles me deram, não me parece justo estar aqui a fazer esta análise… Eu vou deixar muita gente boa de fora, não me faça isso (risos).
BnR: Ainda ia aqui perguntar-lhe por um avançado mas nesse caso pergunto-lhe por um golo? Seja por que razão for.
MC: Ao longo da minha vida, isso é fácil de reparar, eu nunca me manifestei quando a minha equipa faz golos. Nunca. É muito raro, mesmo. Fiquei sempre impávido e sereno porque eu não me quero manifestar, quero ser um líder sereno. Há uma coisa que é fundamental, mal dos jogadores quando olham para fora do campo e veem um líder perturbado. E eu não quero ser isso. Acho que um golo é um processo natural do jogo e não me vejo a dar saltos, a dar pontapés nas latas quando sofro um golo.












