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Vila Nova de Gaia, 1986. O sustento da naturalidade é oriundo dos dados explanados na internet. Eduardo Moreira, treinador de profissão e filho da experiência por gozo e ambição foi pantera negra ainda imberbe e (depois de ler Kafka?) transformou-se em “pau para toda a obra” e abraçou inúmeros desafios – vocábulo que o estimula constantemente. Cresceu sustentadamente, defende. Construiu escadas até atingir o seu topo e não um simples cume. Falou de futebol à semelhança de quem o vive e respira. E lembrou um mestre já desaparecido. Para ler, no Bola na Rede, a entrevista com técnico de futebol e comentador-residente do Bola na Rede TV.
«Sempre quis chegar ao topo. Mas sabia perfeitamente que precisava de uma escada, de trabalho… foi isso que fiz no Boavista e no Salgueiros»
Bola na RedeRegressemos ao ano zero, ao prólogo desta caminhada. Quando é que o futebol começou a suscitar interesse e em que período é que tomaste a decisão de querer ser treinador?
Eduardo Moreira: O futebol entra na minha vida desde muito novo, quando era jovem e comecei a praticar a modalidade. Mas, sinceramente, nunca tive assim muito jeito nem grandes aptidões para a prática; então, cedo percebi que não ia fazer uma carreira ao nível daquelas que ambicionava o sonhava. Deixei o futebol por volta dos 15, 16 anos e – felizmente – fruto de um convite de uma pessoa muito próxima e amiga, o professor José Moreira, ingresso nas camadas jovens do Boavista FC com 17 anos. Mesmo sem saber muito bem aquilo que era o futebol e o que o mesmo exigia, foi aí que comecei a dar os primeiros passos neste mundo, a treinar jogadores mais novos que eu um ano (na altura), belíssimos a grande maioria deles porque o clube sempre foi uma referência nacional ao nível da formação.

Bola na RedeRelativamente aos nossos registos, estiveste seis anos no Bessa, três deles como treinador-adjunto das camadas jovens (sub-15, sub-17 e sub-19), uma como preparador físico e duas como treinador-adjunto dos seniores. Para ti, é mais do que um clube? Quais foram as razões de uma permanência longa?
Eduardo Moreira: Acima de tudo, foi com o sentimento de grande gratidão que eu abracei essa oportunidade de me abrirem as portas no mundo do futebol, juntamente com um departamento que reunia grandes nomes, na altura, com quem eu aprendi e cresci muito. O Boavista FC acabou por ser a minha casa e eu não pensava noutra coisa. Não pensava em gestões de carreira, para onde iria a seguir ou algo do género. Cresci como homem ali, evoluí ali. Existia um sentimento de compromisso e um sentimento de gratidão enormes. Mesmo de motivação porque estávamos sempre a disputar acessos às fases finais, aos títulos nacionais, contra as melhores equipas (FC Porto, SL Benfica e Sporting CP). Era algo que me motivava realmente. Foi ali uma mistura de sentimentos mútuos e obviamente que essa etapa fica marcada para sempre na minha carreira.

Bola na RedeSeguiu-se o SC Salgueiros. Por que razão te mudaste? Consideraste um projeto mais aliciante?
Eduardo Moreira: Sim. O Boavista FC, para concluir o capítulo, foi o encerrar de um ciclo – digamos assim – e o acompanhar do clube numa trajetória descendente, com tudo aquilo que aconteceu. O clube sofreu uma reestruturação profunda, com várias e entradas e saídas. Para terem uma noção, pouca gente restava do meu último ano para o ano no qual entrei. Aí, decidi aceitar a proposta do SC Salgueiros, precisamente por ser também um clube de referência na zona Norte, por ter uma mística e um peso tremendo e por estar muito bem organizado em termos de futebol de formação pelo professor José Manuel, onde eu pude ter contacto com outro tipo de organização e outro tipo de metodologias. Eu saí de um registo onde disputávamos títulos e passei para um registo competitivo onde o objetivo era subir as equipas aos escalões nacionais. Estive lá dois anos, percorri todos os escalões de formação e culminei com o futebol sénior (ainda Salgueiros 08). Foram dois anos bem vividos e de muita aprendizagem. Contudo, no fim desse período, concluo que o percurso no futebol de formação estava já traçado, porque já me sentia preparado para outros desafios, como o futebol sénior… Não queria estar a treinar formação contrariado, não deixei que isso acontecesse, porque considero ser uma falta de respeito para com os miúdos. Decidi sair, na altura, para nada. Fui trabalhar para outras áreas, enquanto procurava uma oportunidade no futebol sénior.
Bola na RedeEntre adultos e miúdos, qual a casta que requer um maior cuidado e preocupação? Qual foi o maior desafio?
Eduardo Moreira: Eu acredito no crescimento sustentado e acredito também que, para seres bom treinador, competente, tens que ter experiência, é fundamental. Durante o meu trajeto de carreira, eu quis passar por tudo para me preparar e para fazer aquilo que faço hoje. Com os treinadores que trabalho e com os que ofereço mentoria, costuma dizer que não faço distinção entre treinadores de primeira, segunda ou terceira divisão. Faço uma distinção clara entre treinadores de formação e treinadores seniores! Porque a abordagem, a metodologia e a forma que tens de liderar, na formação e nos seus vários patamares, é muito especifica, é muito concreta e isso requer valências diferenciadas. Por essa razão se veem, por vezes, treinadores que até teriam capacidade para subir de nível, mas que aquela é a vocação deles, é ali que eles se sentem bem e concretizados. Só assim é que faz sentido treinar a formação! Eu pensei e procedi de tal forma, preparei-me até atingir o futebol sénior. Porque foi sempre o que quis verdadeiramente e para o qual trabalhei a minha vida toda. Sempre quis chegar ao topo. Mas sabia perfeitamente que precisava de uma escada, de trabalho… foi isso que fiz no Boavista e no Salgueiros. Trabalhar na formação tem especificidades muito bem traçadas e um dos requisitos é que estejas lá por inteiro e que tenhas capacidades pedagógicas para exercer. Futebol sénior já é outro mundo, já tens que ter outro tipo de lidar com a pressão, lutar por vitórias, lutar por resultados. Estás sujeito à ingratidão do resultado… e isso não é para todos!
«Tive que crescer rápido. Felizmente, tive dois treinadores que me ajudaram muito: o Henrique Nunes e o mestre Vítor Oliveira»
Bola na RedeChegaste a Arouca na temporada 2010/2011 para – também – fazeres parte da História, na primeira época que o clube disputa a segunda divisão. Na altura, sentiste o peso da responsabilidade?
Eduardo Moreira: Como já tinha dito, quando saí do Salgueiros, fui trabalhar noutras áreas, mas sempre à cata da tal oportunidade no mundo do futebol sénior. Não esperava que a mesma surgisse com tamanha rapidez. Sim, claro que senti o peso da responsabilidade. Fui uma vez mais testado e posto à prova, e uma vez mais tive que mostra serviço, trabalho. Tive que crescer rápido. Felizmente, tive dois treinadores que me ajudaram muito: o Henrique Nunes, numa primeira época, e o mestre Vítor Oliveira, numa segunda época. Foram tempos difíceis porque o próprio clube também se estava a adaptar a outra realidade, ao que era o futebol profissional e conheceu uma reestruturação interna que foi prolongada no tempo. Para mim, individualmente, foi um desafio extremamente aliciante pelo facto de perceber coisas simples como, por exemplo, o feedback em treino para os jogadores profissionais que é extramente diferente e algo que deve ser trabalhado. A realidade do futebol profissional não se assemelha, em nada, àquela que é a realidade do futebol regional/distrital. Tivemos plantéis com muita qualidade. Foram dois anos nos quais obtive um crescimento rápido e maior conhecimento.
Bola na RedeDe 2012/2013 a 2015/2016, estiveste em quatro clubes distintos. Avintes, como treinador principal, União de Lamas, Nogueirense e Valadares Gaia como treinador-adjunto. A primeira época como treinador principal de uma equipa sénior assustou? Quais foram as razões que conduziram a esta instabilidade profissional?
Eduardo Moreira: Assustar não assustou, até porque foi um passo premeditado. Serviu, sim, para alimentar e estimular a minha ideia. Preparou-me muito para aquela que era a minha ideia, porque eu queria ser treinador principal. Aquilo que vivi, demonstrou-me precisamente o contrário. Cometi erros e tomei decisões menos acertadas que proporcionaram também o meu crescimento. Nessa altura, não estava preparado para ser treinador principal e necessitava de voltar outra vez à estaca zero: ser treinador-adjunto. É precisamente aí que eu defino o meu objetivo! Daí essa instabilidade que falam. Mas não deixa de ser uma instabilidade premeditada, criada por mim e de modo que eu pudesse viver essas experiências. O Futebol Clube de Avintes pertencia à primeira distrital da AF Porto, o Nogueirense pertencia à Divisão de Honra da AF Porto, Valadares Gaia pertencia à Divisão de Elite da AF Porto e o União de Lamas à Divisão de Elite de AF Aveiro. Portanto, trabalhei com vários treinadores nessas equipas, lidei com vários jogadores de diferentes divisões, factos que permitiram sustentar aquele que é o meu conhecimento e aquela que é a minha carreira. Estava e tinha condições para estar no futebol principal, mas lá está, queria fazer a escala, queria fazer o caminho…

Bola na RedeA polissemia da palavra “experiência” constitui uma fórmula de classificar tanto esta entrevista como a carreira do Eduardo. Na temporada 2016/2017, junta-se ao Fiães FC (Futebol Feminino). Era – uma vez mais – algo que sempre teve a curiosidade de experimentar ou foi só mais uma daquelas situações em que quis agarrar o desafio?
Eduardo Moreira: Sim. Se não me engano, antes de entrar para o União de Lamas, concluí o Nível III de Treinador UEFA A e tive de fazer um estágio e o período para término do mesmo seria de três anos, obrigatoriamente num campeonato nacional. Na altura, infelizmente, não tinha essas orientações de carreira, nem tinha essas possibilidades de poder estar num campeonato nacional sénior (como entendia que merecia); portanto, como precisava de trabalhar, ingressei em contextos distritais e o meu estágio foi-se protelando no tempo até ao limite imposto pela entidade. O Fiães FC parte de uma iniciativa pessoal, conhecia muito bem o presidente, porque ele tinha sido meu chefe de departamento no Boavista FC e eu sabia que eles tinham futebol feminino. Não queria voltar para o futebol de formação, estava riscado. Pedi-lhe o favor de me deixar ficar ali, também para concluir o meu estágio. Não fazia parte dos meus objetivos de carreira treinar Futebol Feminino. O que é certo é que começo a treinador-adjunto com a Mara Vieira, depois a Mara sai e eu acabo por ficar como principal. Curiosamente, nessa mesma época, surge a possibilidade de ir para o SC Varzim, na Segunda Liga. Foi tudo muito repentino. Já tinha o meu estágio em andamento, já tinha os papéis e os documentos todos assinados para trabalhar no Fiães, mas a proposta do SC Varzim era irrecusável. Deste modo, na medida do possível, conciliei os dois clubes, os dois trabalhos, alto rendimento de manhã, Futebol Feminino à noite, o que se veio a revelar uma experiência fantástica. São realidades diferentes, mas cada vez mais próximas. O futebol feminino teve um crescimento enorme!
Bola na RedeNa linha de sucessão deste raciocínio, em jeito de brincadeira, queremos desfazer uma dúvida: as mulheres são chatas até no Futebol ou continuam com aquele dom de interiorizar mais rápido aquilo que lhes é transmitido?
Eduardo Moreira: Acima de tudo, existem duas grandes diferenças que separam o Futebol Feminino do Futebol masculino. Primeiro, o fator curiosidade, porque as raparigas são muito mais curiosas do que o jogador masculino; em segundo lugar, tem a ver com a capacidade de intuir porque, como sabemos, as mulheres têm essa capacidade muito mais desenvolvida (risos) do que o género masculino. Conseguem perceber algumas coisas mais rápido. Agora, em termos de metodologias e de trabalho, não há diferenças substanciais. A realidade que vivi apresentou-me uma lacuna – que penso estar a ser solucionada nos dias de hoje – que tem a ver com o tempo de prática desportiva, seja por questões físicas ou motoras. O jogador masculino é introduzido na prática desportiva muito mais cedo e tem um período de duração mais longo. A jogadora feminina não, começa a praticar desporto muito mais tarde e isso conduz a uma destreza motora menor. Foi uma experiência muito enriquecedora, porque estava num contexto de pressão de segunda liga, muito competitivo e, à noite, estava quase num oásis, entrava naquilo que é a verdadeira essência e o gosto pela aprendizagem, pela prática. Foi quase um ano de terapia!
Bola na RedeSeguiu-se o Cesarense (2017/2018). Que análise se pode fazer dessa época? Qual o feedback geral?
Eduardo Moreira: Lá está, mais um contexto competitivo diferente, Campeonato de Portugal! Tinha muita curiosidade para perceber qual seria a abordagem porque, para todos os efeitos, eu vinha habituado ao Campeonato Distrital, onde tens de gerir a questão de os jogadores trabalharem, de trabalhares ao final do dia. Ou seja, tens de gerir uma série de questões que são específicas, desse patamar. Também tinha tido, no passado, a exigência do futebol profissional e do cume da exigência, vamos dizer assim. Faltava aquele intermédio, aquele hiato e eu queria perceber como é que isso funcionava! Então, surgiu essa possibilidade de acompanhar o Carlos Secretário no Cesarense… Nós tínhamos um grupo de trabalho absolutamente extraordinário, dos melhores que eu tive até hoje, homens com um caráter incrível, jogadores com uma qualidade tremenda (a maioria deles deu o salto, outros continuam no mesmo patamar, mas a lutar para dar o salto). Foi uma experiência que – infelizmente – terminou por fatores externos, prematuramente, mas que enriqueceu muito o meu conhecimento e o meu trajeto, e onde deu para criar uma amizade íntima com o Carlos Secretário, pela mão de um grande amigo meu, que é o Cândido Costa. Eu tinha sido treinador dele no Arouca e ele também fazia parte nossa equipa técnica, entre outras funções no clube.
«Tive a oportunidade de trabalhar com o Ricardo e sabia que era uma pessoa que, mais tarde ou mais cedo, iria dar o salto para a Primeira Liga»
Bola na RedeLavrada a terra de Cesar – digamos assim – foi tempo de invadir o território estrangeiro. Assumir uma equipa amadora, em França, representa o mesmo que assumir uma equipa amadora em Portugal?
Eduardo Moreira: A equipa não era amadora, era uma equipa completamente profissional. O campeonato no qual a equipa estava inserido é que era semiamador. Mas o nosso contexto era estritamente profissional, porque foi uma equipa que, em dois anos, desceu da Segunda Liga, em França, fruto de vários fatores. Era um clube que não pertencia àquele patamar, evidentemente. E isso, desportivamente, foi um dos fatores que me levou a aceitar a proposta quando ela surgiu, porque, terminada essa época no Cesarense, tinha os olhos postos numa Segunda Liga, como é óbvio. Não fazia parte, mais uma vez, dos meus planos de carreira, emigrar tão cedo, mas eu comecei a ponderar e redefinir estratégias, porque se eu queria atingir o objetivo de treinador a médio prazo, eu tinha que viver aquela experiência porque, no futuro, essa possibilidade estaria sempre em cima da mesa. Portanto, decidi conjuntamente com a família e lá fomos. O clube tinha uma direção maioritariamente portuguesa, o treinador já era um conhecido meu (o Secretário). Nós tínhamos a possibilidade e levar alguns jogadores daqui para reforçar a equipa. Os objetivos assentavam na luta para vencer os jogos todos, para subir de divisão e para ser campeão. Tínhamos umas condições absolutamente extraordinárias e fizemos uma época incrível, batemos todos os recordes que existiam, conseguimos o título e a subida de divisão. Pessoalmente, foi fantástico porque queria perceber o que era emigrar, estar fora do país e da minha zona de conforto, voltar outra vez à escola para aprender uma língua que já tinha tido há muito tempo atrás: até nisso o profissionalismo do clube foi tremendo porque, todos os dias, existia um professor capaz de nos ensinar! Tomei a decisão de não continuar na época seguinte por diversos aspetos: primeiro, por questões familiares e por existirem prioridades na vida; em segundo lugar, porque sentia que o meu caminho como treinador-adjunto estava muito próximo de conhecer o fim, fruto da minha vontade, da minha crença, da minha mentalidade. Mas faltava-me o derradeiro objetivo: a primeira liga!
Bola na RedeNo momento em que terminou a temporada no clube francês, e no seio desse turbilhão de emoções que já tratou, pensou, em algum momento, permanecer em França e construir o seu caminho no país?
Eduardo Moreira: Sim, sim. E tive propostas e oportunidades para isso, não só em França, como também em Portugal! Mas faltava-me aquele objetivo. Eu tinha obrigatoriamente que regressar a Portugal e, regressando, não fazia qualquer tipo de sentido fugir daquilo que tinha traçado há anos e pelo qual sempre lutei. Nunca foi um cenário que alimentasse demasiado. Primeiro, queria fazer a tal escada e continuar a evoluir e a crescer. Nós subimos a faltar-nos cinco jogos para o fim e nessa altura eu já tinha a decisão alinhavada. O que restou do campeonato serviu para preparar o regresso a casa, como se costuma dizer.

Bola na RedeE é mesmo o que acontece, apesar de uma paragem breve no frio febril da Serra da Estrela, no início de 2019/2020. É caso para dizer que teve direito a mais um queijinho para vingar em Portugal?
Eduardo Moreira: Sem dúvida! A minha história no Sporting da Covilhã foi curta, com duração de cerca de seis meses. Mas foi tremendamente intensa e foi um clube que me apaixonou. Quer o clube, quer as suas gentes. Ficará sempre marcado na minha carreira e na minha memória, porque as pessoas são diferentes, são especiais e porque também correu tudo de feição, sejamos sinceros. Tive oportunidade de trabalhar com um grandíssimo treinador, o Ricardo Soares, juntamente com o seu treinador-adjunto, o Maurício: acima de tudo, são duas pessoas incríveis e depois são uns profissionais natos, muito capazes. Aprendi e fui muito feliz nesse período. Voltei a encontrar jogadores com quem tinha jogado contra e outros que foram meus no Boavista (caso do Gilberto, o capitão do Covilhã). O plantel e o balneário eram fantásticos e constituídos por grandes homens. A direção então… (Suspiro)… Não há palavras! Tive a oportunidade de trabalhar com o Ricardo e sabia que era uma pessoa que, mais tarde ou mais cedo, iria dar o salto para a Primeira Liga, porque já lá tinha estado – tinha mais que condição e competência para isso. Eu tomei a decisão muito rapidamente de me juntar e aprender com ele e, simultaneamente, de cumprir o meu objetivo, que se veio a concretizar em novembro…
Bola na RedeExatamente. O Eduardo segue na comitiva de Ricardo Soares para Moreira de Cónegos. Nessa mesma temporada, o clube termina na oitava posição e realiza um campeonato confortável, mas a equipa técnica acabou afastada de cena. Compreendeu a decisão?
Eduardo Moreira: Só um reparo (risos). A equipa técnica não saiu no final dessa temporada, saiu foi muito cedo na temporada que se seguiu (risos). Os motivos que levaram as pessoas a sair desconheço, porque já não estava lá… Eu tomei a decisão de sair no final da época, tendo uma conversa franca com o treinador, com o Ricardo e disse-lhe que estava na hora, que queria seguir o meu caminho; ele aceitou, ajudou-me muito e temos uma relação absolutamente extraordinária porque, acima de tudo, é uma pessoa que compreende a competência, a capacidade e qual era a ambição. Portanto, foi o culminar de tudo. Mas ainda ficou por concretizar um objetivo, ainda estou atrás dele e hei de consegui-lo: conseguir fazer o UEFA PRO, o IV Nível. Mas, no final dessa época, mais uma vez, um balneário fantástico, jogadores de elite. Percebi o que era trabalhar numa Primeira Liga, pude constatar, analisar e operacionalizar aquilo que achava, que idealizava ser de uma maneira, pude dialogar com os jogadores e preparar-me para aquilo que seria o primeiro passo para o resto da minha vida, que é ser treinador principal de Futebol.

Bola na RedeTranspondo a bola para o outro lado do campo… Encontra o mesmo prazer na formação de treinadores ou na área de mentoria de treinadores, assim como encontra no facto de (querer) ser treinador principal?
Eduardo Moreira: Já há vários anos que dou formação em diversas áreas, porque, desde o prólogo, há quase 19 anos, eu desempenhei variadíssimas funções: de “chega-me isso” a preparador físico, primeiro adjunto, segundo adjunto, operacionalizador, metodólogo de treino, em vários contextos, divisões e situações. Possuo, desde cedo, esse lado pedagógico que sempre tive – sou professor de formação – e, portanto, comecei a dar formação a treinadores em diversas áreas, para diversas empresas diferentes e comecei a realizar esse caminho até fazer aquilo que faço hoje (dar cursos de formação de treinador UEFA C e UEFA B nas associações distritais) e fazer mentoria a treinadores: este foi um projeto que estava na minha cabeça há uns anos, mas, fruto dos patamares onde andei e do trabalho que tinha, nunca o consegui materializar; então, quando saí do Moreirense FC, resolvi então avançar e faço-o de forma individual, colaboro também com a FutMagazine, que é uma plataforma para treinadores, onde também faço mentoria. É curioso porque tenho oportunidade de trabalhar com treinadores de todo o mundo. Desde a América do Norte à América do Sul, à China, a África, ao Reino Unido, etc. Isso é algo que me satisfaz bastante, também por estar em contacto com realidades completamente distintas. Além disso, integro o painel de comentadores do Porto Canal.
«Muitos clubes preferem aquilo que é rápido e imediato em vez de privilegiarem o trabalho e a sua formação»
Bola na RedeA palavra “formação” veio à baila e pretendemos versar sobre ela, embora num contexto diferente. Defende que os clubes portugueses devem assentar nos seus pressupostos aí a sua aposta?
Eduardo Moreira: Sim, cada vez mais. Aliás, a própria Federação está a realizar um trabalho notável nesse sentido, com a criação do campeonato das equipas jovens (os Sub-23), das equipas bês, com a implementação da obrigatoriedade de uso – na Liga 3 – dos jogadores formados localmente… A meu ver, bem. Temos muita qualidade no nosso Futebol de formação, vários jogadores com um talento incrível. Agora, no percurso inverso, são conhecidas as dificuldades financeiras que os clubes ditos mais pequenos apresentam nesse campo de análise. Uma coisa é a estratégia que se pode valorizar através do futebol de formação, outra questão é procurar investimento externo, de modo que se possam resolver os problemas imediatos, a curto-prazo. Temos exemplos disso no Futebol português, que não irão redundar numa permanência longa e que, por sua vez, darão prejuízo económico ao clube. Muitos clubes preferem aquilo que é rápido e imediato, em vez de privilegiarem o trabalho e a sua formação, o treino, o poder apostar consciente e consistentemente nos jovens. Exige tempo, paciência e conhecimento. Mas todos sabemos que a sociedade quer tudo para ontem, portanto… Ainda bem que a nossa Federação está a dar passos que obriguem a essas situações, porque temos jogadores de enorme qualidade cá. Basta ver pelas Seleções jovens, constantemente a dar cartas e constantemente produtoras de talento!
Bola na RedeAo longo desta entrevista, o Eduardo utilizou muito a palavra “paciência”. E é através dessa deixa que quero dirigir a minha última questão. Para si, o treinador também é uma espécie de pastilha elástica que se cospe quando bem apetece?
Eduardo Moreira: Isso é cultural (risos). Eu não perco muito tempo em busca dos problemas, invisto muito tempo nas soluções consistentes e equilibradas. Quanto mais tempo se perde a pensar se o treinador vai sair rápido ou se o lugar está a prazo, estás a deixar de investir tempo naquele que é o teu trabalho. Existe algo do qual nunca me vou esquecer e que ouvi do mestre Vítor Oliveira: a partir do momento no qual o treinador entra num clube, o próximo passo será sempre a sua saída. Isso não é sempre controlado pelo treinador. Portanto, o importante é, enquanto estiveres, dares o teu máximo e estares 100% focado naquele que é o teu trabalho, o teu compromisso e fazeres aquilo que te compete no tempo em que tu não controlas. Assim que entender que é hora de sair, muito bem. Se tomarem essa decisão por ele, muito bem também, vamos ser felizes para outro lado. Esta é a minha forma de encarar as coisas, porque o mundo do Futebol é vil, muito duro e se tu não tens uma mentalidade muito forte, interpretar aquilo que acontece de forma positiva e olhar para as coisas de uma forma aquisitiva, andas em sofrimento constante. E eu não nasci para sofrer, nasci para viver e ser feliz!
Bola na RedeOlhando para o caso de Arsène Wenger, por exemplo. O treinador francês esteve quase 23 anos ao serviço de um clube inglês, o Arsenal. Não estou a dizer que em Portugal não seja possível acontecer. Trata-se de uma questão de mentalidade?
Eduardo Moreira: Volto a dizer, é cultural. Isso tem que ver com diversos fatores e tudo começa com o porquê da escolha do treinador A em detrimento do treinador B, e quais são esses critérios. Se me falas em critérios sustentados no tempo, de perfil de treinador, de perfil de clube, de perfil de atleta, tudo definido, tudo traçado, é para ali que queremos ir, é este o nosso rumo, precisamos de um treinador com estas características? Provavelmente, nessa situação, a longevidade será maior; se me falares em critérios distintos destes que enumerei, a volatilidade da coisa vai aparecer mais rápido, evidentemente… Portanto, aquilo que eu acho que nós, enquanto classe, devemos pautar, é o respeito pelos treinadores, o respeito por aquilo que é a nossa profissão. E, para exigirmos esse tal respeito, temos que nos dar ao respeito! Temos que perceber aquilo que queremos e aquilo que projetamos para o futuro – não imediato, mas – pensado e estruturado. Urge saber de que forma temos que estar situados no mercado e que objetivos pretendemos atingir. Eu digo isto muitas vezes: eu quero atingir o topo, mas é o meu topo. Não vale nem pode valer tudo! Nem eu estou disposto a isto! Não estou a falar de objetivos ou valores supérfluos, não! Estou a falar de integridade, respeito, do treinador ser líder e independente nas decisões que tomam. Ninguém deve abdicar disso em prol de um objetivo de consumo rápido!
«Vítor Oliveira foi uma pessoa que me marcou profundamente, não só no plano técnico-tático, mas muito pelo perfil de treinador e pela forma de estar no Futebol»
Bola na RedeNão o vamos maçar mais, até porque as posições que queria extrapolar ficaram bem vincadas. Para ultimar, segue-se um joguinho de resposta rápida. Preparado?
Eduardo Moreira: Sempre! (risos).
Bola na RedeTática que privilegia?
Eduardo Moreira: Jogo sempre para ganhar. Quando tenho bola, jogo para marcar. Quando não tenho bola, para recuperar a posse. Esse é o mindset das minhas equipas. Quanto à tática, tenho um modelo preferencial: 4-4-2. Depende é sempre das características do plantel e do momento no qual entras no clube.
Bola na RedeTOP 3 jogadores que gostaria de ter treinado?
Eduardo Moreira: Gostava de ter treinado o Guardiola, o Ronaldo (fenómeno) e o Maldini. Três jogadores absolutamente extraordinários. O Maldini pela classe, pela leitura de jogo, pelo entendimento, pelo posicionamento. O “fenómeno” porque foi dos melhores avançados de todos os tempos e de certeza absoluta que íamos conquistar muita coisa juntos. E o Guardiola pelo seu conhecimento do jogo e do treino, pela abordagem, pela forma como olha para o jogo.
Bola na RedeTop 3 Ligas para ser treinador e três clubes, um de cada liga? Excetuando Portugal…
Eduardo Moreira: As principais ligas europeias. A liga italiana, a liga alemã e a liga espanhola. Relativamente a clubes: todos os que possibilitassem a luta por títulos. Não especifico porque não tenho apreço por algum clube.
Bola na RedePor que razão não escolheu a liga inglesa?
Eduardo Moreira: Porque entendo que quer a liga espanhola, quer a liga italiana, quer a liga alemã são ligas mais ricas para aquilo que é o treinador. Isto pode soar um bocadinho estranho, mas é o que acho. Como acredito no crescimento sustentado, sei que podia fazer esse trajeto e dar os últimos passos da minha carreira em Inglaterra, pois seria o expoente da projeção. Depois disso, finalizar a minha carreira em Portugal.
Bola na RedeÍdolo na área? Caso exista…
Eduardo Moreira: Sou muito eu e, ao longo destes anos, bebi de muitas experiências e consegui formar aquilo que sou. Naturalmente, vários treinadores me ensinaram coisas para o meu jogar, para o meu treinar. Tenho os meus treinadores de referência: Mourinho, Guardiola, o Klopp, o Pochettino, o Simeone, o Nagelsmann, o Mancini… Contudo, mesmo nestes trabalhos que faço com outros treinadores, já encontrei gente muito capaz e com muita qualidade, num nível muito mais baixo e sem a projeção da comunicação social. Como diria o Capelo, nós somos uns ladrões de ideias. Portanto, sou um bocado isso…
Bola na RedeNeste momento, aceitava ser adjunto de um destes treinadores?
Eduardo Moreira: O meu foco é ser treinador principal. Agora, também reconheço que existem realidades que não vivi, enquanto adjunto. Nomeadamente contexto de UEFA Champions League e de Seleções Nacionais. Seria com agrado que experienciava algo do género.
Bola na RedeQuais foram os treinadores portugueses que, de certa forma, influenciaram a decisão de querer ser treinador?
Eduardo Moreira: Vítor Oliveira. Foi uma pessoa que me marcou profundamente, não só no plano técnico-tático, mas muito pelo perfil de treinador e pela forma de estar no futebol. No dia do seu falecimento, fiz uma promessa que durante a minha carreira pretendo defender e honrar. Impulsionou-me muito para a conquista do meu objetivo e para aquilo que sou hoje.
Bola na RedeTreinador com quem mais gostou de trabalhar?
Eduardo Moreira: Quando és treinador-adjunto, tu gostas é de ter trabalho (risos), de fazer muita coisa e de intervir. Eu tive alguns treinadores com quem tive mais liberdade do que com outros. São todos diferentes. Trabalhei com mais de 20 treinadores. Aqueles dos quais gostei mais foram os que me deram mais liberdade para expor as minhas ideias e as minhas metodologias.
Bola na RedePara quando Eduardo Moreira na Primeira Liga, a solo? Esta é a pergunta de um milhão de euros…
Eduardo Moreira: Não depende de mim, por mim já lá estava (risos). Capacidade e competência, acredito que a tenha. Sou realista, acima de tudo. Há muita gente com muita qualidade e que está mais bem preparado do que eu. Limito-me a aprender com eles, nesta fase. Felizmente, tenho a oportunidade de conhecer a maioria deles e os seus trabalhos. Faço o meu caminho para atingir o meu topo.
Artigo revisto por Joana Mendes













