Publicidade

Uma estrela reinventada | Estrela da Amadora 2-2 Gil Vicente

Manuel Brito Henriques · 6 min

Bandeira do Estrela da Amadora
Foto: Pedro Barrelas/Bola na Rede

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Pouco antes do Clássico, o Estrela da Amadora e o Gil Vicente abriam o apetite para uma tarde de futebol muito agradável

Pouco antes do Clássico que marcou a jornada 25 da Primeira Liga, o Estrela da Amadora e o Gil Vicente abriam o apetite para uma tarde de futebol muito agradável. Para além dos 500 adeptos que vieram de Barcelos para demonstrar o apoio à equipa de César Peixoto – numa iniciativa que deve ser enaltecida e congratulada, já que o clube garantiu transporte e bilhete gratuito aos seus associados – e de mais de três mil adeptos estrelistas que pintavam grande parte da bancada de vermelho, branco e verde, o embate entre estes dois emblemas garantiu emoção do início ao fim do jogo. Murilo de Souza abriu o placar nos primeiros 15 minutos, através da marca dos 11 metros. No segundo tempo, entre os 54 e os 66 minutos, os amadorenses consumavam a reviravolta, depois de Jovane Cabral e Abraham Marcus fazerem o gosto ao pé. Contudo, a festa tricolor durou meros instantes porque, através de uma combinação indireta entre Elimbi, Héctor Hernández e Santi García, surgiu o golo do empate. Com o 2-2 registado no marcador final, o Estrela da Amadora acaba a presente jornada na 12ª posição, com 25 pontos – mais três do que o clube que ocupa o lugar de acesso ao playoff de manutenção –, e o Gil Vicente mantém-se no quinto lugar, desta feita com 41 pontos.

O duelo no Estádio José Gomes teve duas partes distintas. Com Sydney van Hooijdonk e Leandro Antonetti lesionados, João Nuno foi, uma vez mais, obrigado a adaptar-se ao que o contexto exige. Como tal, o ex-treinador do Belenenses iniciou a partida sem uma referência ofensiva clara. Jovane Cabral funcionou como falso nove, baixando para criar superioridade e, teoricamente, ajudar a ligar a defesa ao ataque ou promover brechas na última linha defensiva – através de arrastamento de um dos centrais – com Stoica a procurar atacar o espaço entre a defensiva gilista e o guarda-redes Lucão.

No primeiro tempo, tendo o Gil Vicente chegado à vantagem nos minutos iniciais, César Peixoto procurou controlar o jogo sem bola, contrariando a intenção da equipa da Reboleira em ligar por dentro. Como tal, construindo o Estrela da Amadora, na maioria das vezes, num três mais um – com Jansson a lateralizar para junto dos defesas, e Sola como médio de apoio à construção – e procurando sistematicamente o corredor central, os galos de Barcelos montaram a estratégia com o intuito de cobrir essa zona. Apesar de se estabelecerem na base de um 4-4-2 em momento defensivo, o extremo do lado da bola saltava da linha intermédia para pressionar o jogador que construía no seu corredor. Para além disso, dependendo do lado em que estava a bola, Santi García e Héctor Hernández alternavam entre saltar num dos defesas e marcar Sola, para não permitir ao médio angolano rodar e ver o jogo de frente.

O bloco compacto e subido dos barcelenses frustrava o ataque organizado dos estrelistas, que caíam na tentação de explorar um jogo mais direto, procurando as tais desmarcações de Ianis Stoica nas costas da defesa. Ainda no primeiro tempo, o técnico tricolor procurou avançar Jansson para o lado de Sola, mas nem por isso o futebol do Estrela foi mais eficiente. Contudo, quando, nas ínfimas vezes em que o posicionamento defensivo da primeira fase de pressão gilista errava, chegando o esférico ao espaço entre as últimas duas linhas – isto é, a Paulo Moreira e Jovane -, a equipa da casa criava perigo, como demonstrado pelos dois golos anulados a Ianis Stoica.

Adeptos do Estrela da Amadora
Fonte: Ana Beles/Bola na Rede

Na segunda parte, porém, João Nuno identificou o que não corria tão bem. Desde logo, com as saídas de Luan Patrick e Alexandre Sola para as entradas de Rodrigo Pinho e Eddy Doué, com Kevin Jansson a baixar definitivamente para central com e sem bola, a equipa reinventava-se dentro das quatro linhas. A panóplia de dinâmicas e nuances que o treinador de 40 anos tem levado a cabo desde a chegada ao Estrela da Amadora ficou ainda mais clara quando a construção passou a ser feita com mais jogadores e o centro do jogo foi variando com mais frequência. Ao contrário do que se passou na primeira parte, os laterais apoiavam a construção e Paulo Moreira baixava de forma mais recorrente para junto de Doué. Ao mesmo tempo, a presença de Rodrigo Pinho e respetiva capacidade para segurar a bola permitia aos extremos alargarem mais o campo e a Jovane ver o jogo de frente. Dessa forma, o futebol estrelista tornou-se mais apoiado, versátil e, resumidamente, imprevisível.

Depois de resultados negativos contra equipas que lutam com o emblema da Amadora para se manterem no principal escalão do nosso futebol, o ambiente no Estádio José Gomes era ambíguo. Por um lado, os adeptos incentivavam a equipa. Pelo outro, sentia-se um clima de nervos e angústia ao qual o coletivo não é imune. Todavia, o timoneiro tricolor tem demonstrado, desde que assumiu o cargo de treinador principal do Estrela da Amadora, capacidade para, sobretudo através da disposição tática, garantir conforto aos seus atletas. Naturalmente, o sistema de jogo de João Nuno ainda apresenta falhas. Nomeadamente do ponto de vista defensivo, a fórmula para uma maior solidez ainda não foi encontrada. No entanto, olhar para o jogo como uma folha de Excel, tendo em conta apenas os resultados e golos sofridos, é muito redutor.

Culturalmente, tendemos a olhar para o resultado como definidor de sucesso. O cântico tantas vezes entoado durante o Euro 2016 comprova-o. Embora essa métrica e critério de avaliação nunca me pareçam sustentados e enriquecedores, na realidade de clubes como o Estrela da Amadora o processo deve ser ainda mais tido em conta. O trabalho de um treinador que entra com a temporada a decorrer já é muito complicado, dado que o plantel foi desenhado para alguém com outras convicções e crenças. A solidificação e consolidação de uma ideia de jogo é ainda mais dificultada quando, no mercado de inverno, se registam 14 saídas (três delas de jogadores com muito impacto) e 14 entradas – de jogadores provenientes de contextos variados e que, na sua maioria, não falam português.

João Nuno, treinador do Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas/Bola na Rede

Com apenas 18 jogos cumpridos na Primeira Liga, João Nuno parece já ter chegado à Reboleira há muito tempo. Não só pela quantidade de jogadores que lhe passaram pelas mãos, mas, sobretudo, pelas diversas estruturas, sistemas e dinâmicas que a equipa veio apresentando. Dependendo de quais são os atletas disponíveis – e o jogo frente ao Gil Vicente, como aqui escrutinado, comprova-o -, o Estrela da Amadora pode atuar com uma linha de cinco, três ou quatro; com laterais projetados que mais parecem extremos; com sistemas assimétricos, onde, na verdade, um dos laterais é praticamente um terceiro central; com avançados interiores ou com os extremos a darem máxima largura; com um avançado que jogue em apoio e segure mais bola ou com um jogador de ataque ao espaço…

Dito tudo isto, parafraseando o técnico estrelista, a equipa vive uma “pré-época em andamento”. Talvez o timing não tenha sido o mais correto, porventura deveria ter começado a ser construído com seis meses de antecedência, mas agora é certo que o Estrela da Amadora iniciou um projeto. Caso o clube consiga a permanência, será muito interessante continuar a seguir de perto a transformação e evolução da equipa que joga no Estádio José Gomes. Para já, há uma certeza: não há razões para não equacionar João Nuno como o cérebro deste processo de reconstrução. Se o projeto continuar a assentar na valorização de um futebol positivo, floreado, criativo e elaborado, os bons resultados serão uma certeza cada vez maior.

Manuel Brito Henriques

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes
Opinião

Quatro pontos de distância, muito mais em jogo | Braga x Sporting

O Estádio Municipal de Braga recebe, esta sexta-feira, 9 de outubro, às 20h15, um dos encontros mais aguardados da oitava jornada da Primeira Liga portuguesa 26/27. Braga e Sporting estão separados por quatro pontos, num duelo que pode ter consequências importantes nas ambições das duas equipas. Os leões ocupam o terceiro lugar, com 15 pontos, ainda sem derrotas, mas já a seis do líder FC Porto. Os arsenalistas seguem na sexta posição, com 11 pontos e um jogo em atraso, procurando aproveitar o fator casa para se aproximar dos lugares cimeiros. A equipa de Carlos Vicens chega ao encontro depois de um empate sem golos diante do Santa Clara, numa temporada em que tem revelado consistência defensiva, mas também algumas dificuldades na concretização. Com apenas sete golos marcados em seis jornadas, o Braga apresenta números ofensivos modestos para as suas ambições. Do outro lado, o Sporting de Rui Borges continua invicto, mas os empates consecutivos frente a Famalicão e Arouca impediram os leões de acompanhar o ritmo do FC Porto. A formação leonina soma 17 golos em sete partidas, mas já consentiu oito, um indicador das dificuldades que tem sentido para controlar determinados momentos dos encontros.

Tiago Campos · 4 min de leitura
Ler a crónica

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.