Terminou a sétima edição do Campeonato Mundial de Futebol Feminino. Na final, os EUA bateram a Holanda por 2-0 para levantar o troféu pela quarta vez na sua história. Mas, entre o momento em que se deu o pontapé de saída para o Mundial, no dia 7 de junho, em pleno estádio Parc Des Princes, e o momento em que Megan Rapinoe, capitã americana, ergueu a taça, exatamente um mês depois, precisamente no mesmo palco, muita bola rolou e muita tinta correu.

Já falámos de alguns dos principais episódios da competição ao longo deste último mês, mas, naquela que foi uma belíssima celebração do desporto rei, resta ainda lembrar uma das maiores lições que este Mundial Feminino de 2019, na França, nos ensinou.

Inicialmente, o título deste artigo era “Elas também sabem”. Só depois foi alterado para “Elas sabem”. E a razão prende-se precisamente com o que temos visto ao longo dos últimos 30 dias de futebol.

Fonte: FIFA

Talvez até seria melhor jogar a cartada do politicamente correto e dizer que o Futebol Feminino está, em termos competitivos e qualitativos, no mesmo patamar que o Futebol Masculino. Infelizmente, dizer isso é incorreto.

Ultrapassando até as diferenças biológicas que, naturalmente, permitem aos homens ter outro nível de intensidade física no seu jogo, a própria projeção do futebol é muito distinta em ambos os sexos. A história do Futebol Feminino profissionalizado ainda está na sua infância quando comparada com a do Futebol Masculino. Os apoios dados a um são quase amadores quando comparados com os apoios dados a outros. E um homem nunca será julgado, excluído ou estereotipado por escolher calçar um par de chuteiras. Mas isso ainda acontece no desporto rei das mulheres.

O que podemos dizer, sem dúvida, é que elas estão a melhorar. Não relativamente aos homens; relativamente a si próprias. O campo é o mesmo, o desporto é o mesmo e as regras são as mesmas. Mas não adianta comparar o incomparável. Para crescer, o Futebol Feminino tem de olhar para dentro. No mesmo jogo, há golos incríveis, jogadas geniais e defesas impressionantes, mas também há falhanços inexplicáveis, táticas desorganizadas e frangos clamorosos (veja o resumo do Suécia – Inglaterra, jogo do 3º e 4º lugar do Mundial – para compreender melhor isto:

É impossível eliminar os erros humanos no futebol (nem nós assim o queríamos), mas é possível torná-los menos amadores. Isso passa pela profissionalização, pela formação, organização e pela mentalidade, que tem de partir de dentro para fora. Um Futebol Feminino saudável será um Futebol que se foca apenas e só no desporto, não no denominador de sexo que vem a seguir. Um Futebol preocupado em levar ao mundo o desporto rei, ciente das diferenças entre quem o pratica.

A equipa da Jamaica ensinou-nos isso, participando no seu primeiro Mundial após ter estado extinta há apenas três anos. A Inglaterra ensinou-nos isso, carregando consigo as esperanças de uma nação sedenta por sucesso. Alex Morgan, dos EUA, ensinou-nos isso com o seu fantástico futebol e ao não ter medo de realizar aquela infame celebração do chá, que tanto irritou os adeptos britânicos. Marta, do Brasil, ensinou-nos isso ao encarar o Brasil em direto na televisão e dizer às jovens do seu país: “está nas vossas mãos”.

Para elas, a tarefa é fácil: joguem o desporto que adoram, e que nós todos adoramos. Porque, quando aquela bola entra de forma perfeita no ângulo superior aos 90 minutos de jogo, lançando o país num frenesim e numa festa descontrolada, com a cerveja a voar por todos os lados e catalisando abraços a família, amigos ou àquele senhor (ou senhora) que se sentou ao nosso lado, será que o sexo de quem chutou o esférico é assim tão importante?

No final de contas, aprendemos que elas sabem. Sem mas nem “tambéns”. Elas sabem, e cada vez sabem mais.

Foto de Capa: Bola na Rede

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