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Domínio Total, Estrela de Campeão… E um Pequeno Gigante

Francisco Sampaio · 6 min

Oliver tem perfume no seu futebol Fonte: FC Porto

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Neste domingo disputou-se no Estádio de Dragão, acima de tudo, uma grande partida de futebol. Não uma grande partida sob o ponto de vista tático, isto é, na ótica do treinador, mas um jogo vertiginoso, daqueles que conseguem empolgar o mais enfadonho dos adeptos de futebol.

Taticamente o jogo esteve longe de ser perfeito, na medida em que este se encontrou “partido” durante longos períodos de tempo. Consequentemente, existiu com frequência a sensação de que nem o FC Porto nem o SL Benfica estavam verdadeiramente a controlar o jogo. Ainda assim, foi evidente o domínio do FC Porto ao longo de grande parte do encontro, domínio esse que se manifestou quer sob o ponto de vista individual quer sob o ponto de vista coletivo.

O 4-4-2 de Rui Vitória inclui um médio de cobertura defensiva e um box-to-box responsável pela organização ofensiva. O 4-4-2 de Nuno Espírito Santo tem precisamente as mesmas características. O meio-campo do SL Benfica, com Samaris e Pizzi, tende a ser pouco sólido, limitação também partilhada pelo meio-campo do FC Porto. Porém, foi na interpretação das dinâmicas do sistema que o FC Porto se destacou do seu adversário.

Foi com tremenda facilidade que, ao longo de todo o jogo, o FC Porto ultrapassou a primeira fase de construção. Danilo esteve sistematicamente marcado por Gonçalo Guedes ou Mitroglou, mas Óliver Torres teve sempre a inteligência de baixar para terrenos mais recuados para pegar no jogo. Óliver acabou por ter sempre muita liberdade e tempo para pensar o jogo e colocar a bola a circular. O pequeno gigante espanhol teve ainda oportunidade de surgir em zonas mais adiantadas do terreno de jogo e de, nessas ocasiões, aparecer entre linhas e acelerar o ritmo do FC Porto (quase sempre por via de passes em busca da subida dos laterais).

A tendência foi a de juntar Óliver a Diogo Jota e Alex Telles no corredor esquerdo, mas fica sempre a dúvida sobre como poderia ter sido se a opção fosse massacrar o corredor oposto, onde estaria Eliseu ao invés de Nélson Semedo. É certo que Rui Vitória começou a perceber a influência de Óliver no jogo da equipa azul e branca e este começou a dispor de menos espaço, mas foi aí que Nuno Espírito Santo, claramente, indicou a Otávio que em alternativa ao espanhol deveria ser ele a pegar no jogo em terrenos mais recuados. Assim sucedeu, e o SL Benfica continuou a ser totalmente incapaz de travar a primeira fase de construção do FC Porto.

No cômputo geral, o SL Benfica esteve francamente mal sob o ponto de vista tático. André Silva foi jogando de costas para a baliza e soltando a bola para Diogo Jota, que, movendo-se sempre em alta rotação, baralhou por completo as marcações da defesa encarnada. O SL Benfica foi encostado às cordas durante toda a primeira parte, com um trabalho de transição defensiva absolutamente notável por parte do FC Porto (asfixiante, quase a fazer lembrar o FC Barcelona de Pep Guardiola), e acabou por ir recuando cada vez mais a sua linha defensiva. Já o FC Porto teve tudo no seu jogo: largura, profundidade, reação à perda da bola rápida e agressiva.

Diogo Jota e Óliver Torres são duas das figuras do FC Porto Fonte: FC Porto
Diogo Jota e Óliver Torres são duas das figuras do FC Porto
Fonte: FC Porto

Ao longo da partida Pizzi foi sendo marcado com rigor e, em resultado desse trabalho dos jogadores do FC Porto, o SL Benfica foi apresentando um futebol muito menos criativo do que é habitual. Otávio merece uma nota de destaque neste particular, na medida em que trabalhou arduamente para impedir a ligação entre o meio-campo e o ataque do SL Benfica.

Sem Fejsa na equipa o SL Benfica apresentou grandes dificuldades ao nível da cobertura. Óliver Torres, Otávio, André Silva e Diogo Jota apareceram frequentemente com espaço entre linhas, semeando o pânico junto da defesa do SL Benfica e causando as principais oportunidades de golo para a formação da cidade Invicta. Fica a sensação de que o jogo poderia ter sido diferente com a participação de Fejsa no mesmo, ficando também claro que este se trata de um elemento aparentemente insubstituível no atual plantel do SL Benfica.

A lesão de Luisão no início do jogo acabou por não ser benéfica para a equipa do FC Porto na medida em que o seu substituto, Lisandro López, é muito mais competente no controlo da profundidade. Com a presença de Lisandro em jogo a linha defensiva do SL Benfica pôde subir um pouco mais no terreno, já que ambos os defesas centrais tinham velocidade suficiente para perseguir os avançados do FC Porto sempre que a bola lhes era colocada em profundidade. Com Luisão em jogo seriam previsíveis dificuldades adicionais para controlar André Silva e, sobretudo, Diogo Jota, sempre que estes fizessem uso da sua velocidade.

Rui Vitória esteve bem ao apostar em André Horta para a última meia hora de jogo, na medida em que este permitiu estabilizar o futebol do SL Benfica. É um facto que o clube encarnado nunca se superiorizou ao FC Porto, mas com André Horta em campo foi possível que a equipa crescesse e tornasse o jogo mais equilibrado. Passou a ser evidente um maior critério na circulação e, como tal, uma diminuição do número de perdas de bola.

Para a história e, acima de tudo, para as contas do campeonato fica um empate no Estádio do Dragão. O FC Porto foi mais competente e teve em Óliver Torres o melhor jogador em campo. O prodígio espanhol tem uma garra e uma determinação tremenda em transição defensiva, quando em posse da bola vê mais do que todos os seus colegas de equipa, e por via de uma capacidade técnica acima da média consegue com um ou dois passes desequilibrar por completo as defesas adversárias. Óliver tem tudo para ser um dos melhores do mundo na posição que ocupa, sendo que para tal precisa apenas de treinadores e contextos competitivos que lhe ofereçam os estímulos necessários para o seu crescimento enquanto futebolista. Para o SL Benfica o embate contra o FC Porto serviu, sobretudo, para reforçar a ideia de que as bolas paradas são uma parte relevante de um encontro de futebol e, como tal, um treino adequado deste tipo de lances pode mesmo valer um empate num jogo em que nada o faria prever.

Óliver brilhou frente ao SL Benfica Fonte: FC Porto
Óliver brilhou frente ao SL Benfica
Fonte: FC Porto

Nuno Espírito Santo merece nota de destaque pela ousadia com que dispôs a sua equipa em campo e por, desse modo, ter comprovado uma ideia que sempre procurei disseminar: uma equipa não necessita de ter em campo muitos jogadores com características defensivas. Se o processo de transição defensiva for bem trabalhado, uma equipa dita “grande” precisa de jogadores com qualidade técnica para manter a bola em sua posse e ir procurando criar espaços na defesa adversária. O FC Porto foi exemplo disso mesmo; fez lembrar as equipas de Pep Guardiola pela forma destemida como abordou o jogo, e apenas não alcançou a vitória porque ao mérito do canto apontado pelo SL Benfica se juntou a “estrela de campeão” da equipa encarnada.

Aos adeptos do FC Porto resta agora refletir “a frio” e compreender que, a jogar desta forma, seria altamente improvável que repetindo dez vezes o mesmo jogo o FC Porto não o vencesse na esmagadora maioria delas. Desta feita tal não aconteceu, mas numa equipa mais importante do que o resultado de um jogo isolado é aquilo que esta demonstra em campo, e o FC Porto demonstrou que pode disputar a Liga NOS 2016/17 até à sua reta final: basta para tal que apresente a mesma atitude e as mesmas dinâmicas coletivas com as quais se impôs futebolisticamente ao SL Benfica em pleno Estádio do Dragão.

Foto de Capa: FC Porto

Artigo revisto por: Manuela Baptista Coelho

Francisco Sampaio

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