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“Os outros iam passando e Aloísio ia ficando”

Não é todos os dias que se tem a oportunidade de entrevistar um jogador que foi treinado por Cruyff, Artur Jorge, Bobby Robson e Fernando Santos. Um jogador que dividiu o balneário com Dunga, Bebeto, Gary Lineker, Koeman, Laudrup, João Pinto, Baía, Jorge Costa, Fernando Couto, Sérgio Conceição, Jardel, Ricardo Carvalho, Deco e muito (muito) mais. Como adjunto, acompanhou José Mourinho na glória europeia e voltou a fazer dupla com Jorge Costa no SC Braga, enquanto orientavam João Vieira Pinto, a sua “vítima” favorita. Só podíamos estar a falar de Aloísio: lenda dos dragões. Depois de onze épocas e 474 jogos, que lhe valem até ao dia de hoje a distinção de ser o estrangeiro que mais jogos disputou com a camisola do FC Porto, Aloísio vestiu uma vez mais a camisola e entrou em campo no Bola na Rede

– A glória europeia ao lado de Mourinho, o reencontro com Jorge Costa em Braga e a hipótese de voltar a treinar –

“O Mourinho motivava não só os jogadores, mas também os adjuntos”

Bola na Rede [BnR]: Viva, Aloísio! Ainda te encontras em Porto Alegre?

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Aloísio [A]: Sim, sim. Aqui está muito frio (risos). Aqui é como se fosse o Norte do Portugal.

BnR: Mas já ouvi dizer que podes regressar em breve para Portugal…

A: (risos) Por enquanto não, pelo menos até ao início do ano.

BnR: Foi noticiado aqui em Portugal que o Aloísio tinha ingressado num novo desafio, no comando técnico do União Serpense dos distritais de Beja para a próxima temporada.

A: Isso foi através de um colega meu que vive em Portugal que trabalha com futebol. Mas houve apenas uma conversa com o Presidente do Serpense e uma vontade por parte dele. Sei que houve uma nota que saiu em Portugal como se já estivesse certo a minha ida para o clube como treinador, mas já falei com o Presidente e agradeci o convite. Eu trabalho com uma empresa de agenciamento aqui em Porto Alegre com mais três parceiros e decidi ficar na empresa, pelo menos até ao final do ano e depois, conforme as coisas correrem, poderei mudar de função. Por enquanto fico cá no Brasil.

BnR: Tiveste até 2016 como Coordenador Técnico em Porto Alegre, onde resides atualmente. Durante estes anos tens estado afastado do futebol ou continuas ligado de alguma forma?

A: Eu depois de terminar de jogar, fiquei como técnico auxiliar, fiquei com a equipa B do FC Porto em 2006, treinei em 2007/08 o Vila Meã onde fiquei três meses, depois em 2008 fui para o SC Braga que na altura tinha o Jorge Costa a treinador e eu fiquei como adjunto. Mas a partir de 2008 decidi regressar com a minha família para o Brasil e sempre continuei ligado ao futebol. Fui técnico auxiliar no Caxias, depois trabalhei durante dois anos e meio como gerente de futebol numa equipa que era do Ronaldinho na zona Sul de Porto Alegre e que estava na primeira divisão do Campeonato Estadual. Em 2013 tive no Gil Vicente como diretor desportivo, voltei para o Brasil em 2017 para treinar os sub-20 do Mogi Mirim que era a equipa do Rivaldo. Acabei regressando para Porto Alegre e agora trabalho com agenciamento de jogadores. Já estou aqui há quase um ano, sou um dos sócios e é essa a minha função neste momento.

Fonte: FC Porto

BnR: Já terminaste o curso de Psicanálise Clínica?

A: Não, ainda o estou a tirar (risos). É um curso de um ano e meio e é à distância. Foi uma opção minha por gostar dessa área. Eu já tinha entrado na faculdade em 2015/16 em outro curso que era Gestão Comercial, fiz dois semestres, mas acabei não completando o curso. Agora estou a fazer este à distância e é complicado porque tem de haver um comprometimento muito grande porque é preciso quase duas horas e é preciso estar concentrado. Psicologia tem muitos textos para ler, muita leitura complexa e estou tentando fazer o meu melhor. É uma área que eu gosto bastante porque está relacionado com aquilo que eu faço, que é lidar com pessoas, e para mim é uma forma de melhorar como pessoa.

BnR: Quando terminaste carreira em 2001, acompanhaste o José Mourinho como treinador-adjunto até 2004. É inegável que Mourinho retirou muito do seu estilo de jogo de Bobby Robson. O que é que o Aloísio retirou de Mourinho e já agora de Bobby Robson?

A: Foram dois grandes profissionais com quem trabalhei. O mister Bob era uma pessoa espetacular que veio no momento da saída do mister Tomislav Ivic. Nessa altura nós não estávamos a jogar um futebol que era habitual. Para além da garra, o FC Porto sempre teve jogadores com qualidade técnica para acrescentar valor à equipa, mas as ideias do mister Ivic eram um pouco contrárias às ideias dos adeptos e dos próprios jogadores. Com a entrada do Bobby Robson o FC Porto teve outra cara e mudou totalmente a forma de jogar e de pensar o jogo. Quem acompanhou o Porto de 93/94 lembra-se que era um Porto diferente. Para mim, como jogador, esses dez anos que eu estive no FC Porto foram das melhores fases minhas e em que eu desfrutei mais. Era um futebol muito bonito, simples e com jogadores que taticamente cumpriam aquilo que o mister pedia porque ele era muito exigente nos treinos. Como equipa éramos muito fortes porque a forma como ele treinava e preparava os jogos era espetacular. Quem trabalhou com ele, como o caso do Mourinho, aprendeu muito da forma dele estar como treinador e da sua metodologia de treino e jogo.

BnR: Apesar de não teres assinado pelo Serpense e, de não teres projetos futuros relacionados com assumir o comando técnico de uma nova equipa, a área do treino é uma área que ainda te continua a despertar interesse?

A: Sim ainda mexe bastante comigo. Já tinha quase desistido e pensei em fazer outra coisa e ter outra função noutra área, mas o sonho ainda está bem presente em mim. Já tive oportunidades para trabalhar em Portugal, mas optei por ficar aqui no Brasil próximo da família. Mas é algo que continua a mexer comigo e só estou esperando um bom projeto para dar seguimento a essa função de treinador.

BnR: Foste treinado por Cruyff, Artur Jorge, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos e muito mais. Acompanhaste José Mourinho e até fizeste, uma vez mais, dupla com Jorge Costa no SC Braga, desta vez na equipa técnica. Uma vez que foste treinado por alguns dos melhores, que tipo de treinador é o Aloísio?

A: Tive a felicidade de treinar com grandes treinadores, primeiro como jogador e depois como técnico adjunto. Para mim, o Mourinho é uma referência. Quando eu comecei a carreira de adjunto, o Mourinho estava começando e estava na sua plenitude. Estava na sua terceira experiência, tinha estado no SL Benfica pouco tempo, no Leiria fez um grande trabalho e depois veio para o FC Porto. Na verdade, ele estava a 120 à hora e foi uma pessoa com quem eu aprendi muito, um excelente profissional e uma pessoa que eu admiro bastante. Aprendi muitas coisas com eles. Tem uma forma única de trabalhar, de organizar o treino e de exigir dos jogadores. O seu posicionamento durante o treino e os jogos é especial. Quando se treina uma equipa grande tem jogadores internacionais por os seus países com muita qualidade e quando esse jogador não joga, como é que se vai motivar esse atleta? Não se pode deixar que esses jogadores relaxem e têm que estar preparados para quando forem chamados. Isso é bem difícil de fazer e o Mourinho sabia fazer bem isso e pegou isso do mister Bob. Eu lembro-me que os jogadores que não eram colocados e que não entravam, na segunda-feira fazia-se a reavaliação do jogo, ele dava nota aos jogadores e conseguia motivar os atletas que não eram convocados. O Mourinho motivava não só os jogadores, mas também os adjuntos. Nós não éramos apenas aquelas pessoas que iam colocar os cones e distribuir as bolas. Nós éramos mais do que isso e ele nos fazia sentir parte. Toda a gente fazia parte, roupeiro, massagista, toda a gente que estava envolvida no processo tinha o seu valor. Foi uma grande aprendizagem para mim, de pensar o futebol e até na forma de estar. Embora pareça que no meu normal eu seja uma pessoa tranquila e calma, eu sou uma pessoa bastante exigente a relação a treinos, horários e do comprometimento do atleta ao nível tático. Me coloco como uma pessoa bem tranquila, mas bastante exigente no lado profissional. É essa a forma que eu me descrevo.

BnR: Já entrevistei o Maciel e o Derlei e ambos me falaram, pelos piores motivos da época de 2004/05, época em que foram treinados por Vítor Fernandez e Luigi Del Neri. Para o Aloísio, que fazia parte da equipa técnica e que acompanhou de perto, o que é que correu mal naquela época pós-Mourinho e pós-conquistas europeias?

A: Eu vou falar dar o exemplo do Vítor Baía. Quando o Vítor Baía saiu para o Barcelona em 1996 tentou-se arranjar um substituto e é difícil arranjar um substituto para o Vítor Baía. Você vai tentar arranjar um substituo do mesmo nível, mas não é igual. Lembro que o FC Porto teve o Hilário, o Rui Correia, veio o Kralj, o Andrzej Wozniak, mas nunca estiveram ao nível do Vítor Baía, apesar de serem bons profissionais e bons guarda-redes. No caso do Mourinho também foi isso. O Mourinho chegou ao FC Porto, viu e venceu, deixou uma imagem espetacular, de unidade, de um FC Porto campeão, conseguiu uma grande união e essa vontade de ganhar coisas. Por isso, é difícil substituir um treinador que ganhou tudo. Vieram outros treinadores, no caso do Del Neri e do Fernandez, mas talvez com ideias diferentes. Eram bons treinadores, mas não eram o Mourinho. Não se conseguiram enquadrar na forma de jogar do FC Porto, nem na identidade do que é o Porto. Ainda havia jogadores naquele grupo que tinham sido campeões europeus e por exemplo, o Del Neri não respeitou o estatuto de alguns jogadores e aquilo que representavam para o clube. Era muito trabalho, pouca conversa. Faltou diálogo, faltou alguma experiência para o Del Neri entender o que era o FC Porto. O Vítor Fernandez acho que era um bom treinador e vinha com o rótulo da forma de trabalhar e treinar, mas não teve sorte e pegou no FC Porto num mau momento. Havia por trás todo um trabalho de três anos do Mourinho que era difícil esquecer.

BnR: Venceste a Taça UEFA e a Taça dos Campeões Europeus como adjunto. Sentiste-te realizado por teres conseguido estas conquistas mesmo que fora dos relvados, ou ficou alguma mágoa de não teres ganho enquanto jogador?

A: Tem duas situações da minha carreira, que não é deixar-me triste, mas que poderiam ter acontecido: não ter disputado um Mundial pela seleção do Brasil e não ter conseguido uma conquista europeia pelo FC Porto, pelo menos uma Taça UEFA, a Champions era bem complicado. Talvez sejam essas as minhas duas lacunas da carreira, mas o que eu ganhei no FC Porto supera tudo e depois tive a felicidade de conseguir fora do campo, o título da Taça UEFA e da Champions, até mesmo da Taça Intercontinental, para mim foi um grande prémio e fico muito satisfeito por ter tido oportunidade de trabalhar no FC Porto, de trabalhar e jogar com grandes jogadores e grandes treinadores.

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O Nélson é estudante de Ciências da Comunicação. Jogou futebol de formação e chegou até a ter uma breve passagem pelos quadros do grande Futebol Clube do Porto. Foi através das longas palestras do seu pai sobre como posicionar-se dentro de campo que se interessou pela parte técnica e tática do desporto rei. Numa fase da sua vida, sonhou ser treinador de futebol e, apesar de ainda ter esse bichinho presente, a verdade é que não arriscou e preferiu focar-se no seu curso. Partilhando o gosto pelo futebol com o da escrita, tem agora a oportunidade de conciliar ambas as paixões e tentar alcançar o seu sonho de trabalhar profissionalmente como Jornalista Desportivo.                                                                                                                                                 O Nélson escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.