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«Faltam mais líderes e referências no FC Porto» – Entrevista BnR com Aloísio

Nélson Mota · 41 min

«Faltam mais líderes e referências no FC Porto» – Entrevista BnR com Aloísio
Foto: FC Porto

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“Os outros iam passando e Aloísio ia ficando”

Não é todos os dias que se tem a oportunidade de entrevistar um jogador que foi treinado por Cruyff, Artur Jorge, Bobby Robson e Fernando Santos. Um jogador que dividiu o balneário com Dunga, Bebeto, Gary Lineker, Koeman, Laudrup, João Pinto, Baía, Jorge Costa, Fernando Couto, Sérgio Conceição, Jardel, Ricardo Carvalho, Deco e muito (muito) mais. Como adjunto, acompanhou José Mourinho na glória europeia e voltou a fazer dupla com Jorge Costa no SC Braga, enquanto orientavam João Vieira Pinto, a sua “vítima” favorita. Só podíamos estar a falar de Aloísio: lenda dos dragões. Depois de onze épocas e 474 jogos, que lhe valem até ao dia de hoje a distinção de ser o estrangeiro que mais jogos disputou com a camisola do FC Porto, Aloísio vestiu uma vez mais a camisola e entrou em campo no Bola na Rede. 

– A glória europeia ao lado de Mourinho, o reencontro com Jorge Costa em Braga e a hipótese de voltar a treinar –

“O Mourinho motivava não só os jogadores, mas também os adjuntos”

Bola na Rede [BnR]: Viva, Aloísio! Ainda te encontras em Porto Alegre?

Aloísio [A]: Sim, sim. Aqui está muito frio (risos). Aqui é como se fosse o Norte do Portugal.

BnR: Mas já ouvi dizer que podes regressar em breve para Portugal…

A: (risos) Por enquanto não, pelo menos até ao início do ano.

BnR: Foi noticiado aqui em Portugal que o Aloísio tinha ingressado num novo desafio, no comando técnico do União Serpense dos distritais de Beja para a próxima temporada.

A: Isso foi através de um colega meu que vive em Portugal que trabalha com futebol. Mas houve apenas uma conversa com o Presidente do Serpense e uma vontade por parte dele. Sei que houve uma nota que saiu em Portugal como se já estivesse certo a minha ida para o clube como treinador, mas já falei com o Presidente e agradeci o convite. Eu trabalho com uma empresa de agenciamento aqui em Porto Alegre com mais três parceiros e decidi ficar na empresa, pelo menos até ao final do ano e depois, conforme as coisas correrem, poderei mudar de função. Por enquanto fico cá no Brasil.

BnR: Tiveste até 2016 como Coordenador Técnico em Porto Alegre, onde resides atualmente. Durante estes anos tens estado afastado do futebol ou continuas ligado de alguma forma?

A: Eu depois de terminar de jogar, fiquei como técnico auxiliar, fiquei com a equipa B do FC Porto em 2006, treinei em 2007/08 o Vila Meã onde fiquei três meses, depois em 2008 fui para o SC Braga que na altura tinha o Jorge Costa a treinador e eu fiquei como adjunto. Mas a partir de 2008 decidi regressar com a minha família para o Brasil e sempre continuei ligado ao futebol. Fui técnico auxiliar no Caxias, depois trabalhei durante dois anos e meio como gerente de futebol numa equipa que era do Ronaldinho na zona Sul de Porto Alegre e que estava na primeira divisão do Campeonato Estadual. Em 2013 tive no Gil Vicente como diretor desportivo, voltei para o Brasil em 2017 para treinar os sub-20 do Mogi Mirim que era a equipa do Rivaldo. Acabei regressando para Porto Alegre e agora trabalho com agenciamento de jogadores. Já estou aqui há quase um ano, sou um dos sócios e é essa a minha função neste momento.

Fonte: FC Porto

BnR: Já terminaste o curso de Psicanálise Clínica?

A: Não, ainda o estou a tirar (risos). É um curso de um ano e meio e é à distância. Foi uma opção minha por gostar dessa área. Eu já tinha entrado na faculdade em 2015/16 em outro curso que era Gestão Comercial, fiz dois semestres, mas acabei não completando o curso. Agora estou a fazer este à distância e é complicado porque tem de haver um comprometimento muito grande porque é preciso quase duas horas e é preciso estar concentrado. Psicologia tem muitos textos para ler, muita leitura complexa e estou tentando fazer o meu melhor. É uma área que eu gosto bastante porque está relacionado com aquilo que eu faço, que é lidar com pessoas, e para mim é uma forma de melhorar como pessoa.

BnR: Quando terminaste carreira em 2001, acompanhaste o José Mourinho como treinador-adjunto até 2004. É inegável que Mourinho retirou muito do seu estilo de jogo de Bobby Robson. O que é que o Aloísio retirou de Mourinho e já agora de Bobby Robson?

A: Foram dois grandes profissionais com quem trabalhei. O mister Bob era uma pessoa espetacular que veio no momento da saída do mister Tomislav Ivic. Nessa altura nós não estávamos a jogar um futebol que era habitual. Para além da garra, o FC Porto sempre teve jogadores com qualidade técnica para acrescentar valor à equipa, mas as ideias do mister Ivic eram um pouco contrárias às ideias dos adeptos e dos próprios jogadores. Com a entrada do Bobby Robson o FC Porto teve outra cara e mudou totalmente a forma de jogar e de pensar o jogo. Quem acompanhou o Porto de 93/94 lembra-se que era um Porto diferente. Para mim, como jogador, esses dez anos que eu estive no FC Porto foram das melhores fases minhas e em que eu desfrutei mais. Era um futebol muito bonito, simples e com jogadores que taticamente cumpriam aquilo que o mister pedia porque ele era muito exigente nos treinos. Como equipa éramos muito fortes porque a forma como ele treinava e preparava os jogos era espetacular. Quem trabalhou com ele, como o caso do Mourinho, aprendeu muito da forma dele estar como treinador e da sua metodologia de treino e jogo.

BnR: Apesar de não teres assinado pelo Serpense e, de não teres projetos futuros relacionados com assumir o comando técnico de uma nova equipa, a área do treino é uma área que ainda te continua a despertar interesse?

A: Sim ainda mexe bastante comigo. Já tinha quase desistido e pensei em fazer outra coisa e ter outra função noutra área, mas o sonho ainda está bem presente em mim. Já tive oportunidades para trabalhar em Portugal, mas optei por ficar aqui no Brasil próximo da família. Mas é algo que continua a mexer comigo e só estou esperando um bom projeto para dar seguimento a essa função de treinador.

BnR: Foste treinado por Cruyff, Artur Jorge, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos e muito mais. Acompanhaste José Mourinho e até fizeste, uma vez mais, dupla com Jorge Costa no SC Braga, desta vez na equipa técnica. Uma vez que foste treinado por alguns dos melhores, que tipo de treinador é o Aloísio?

A: Tive a felicidade de treinar com grandes treinadores, primeiro como jogador e depois como técnico adjunto. Para mim, o Mourinho é uma referência. Quando eu comecei a carreira de adjunto, o Mourinho estava começando e estava na sua plenitude. Estava na sua terceira experiência, tinha estado no SL Benfica pouco tempo, no Leiria fez um grande trabalho e depois veio para o FC Porto. Na verdade, ele estava a 120 à hora e foi uma pessoa com quem eu aprendi muito, um excelente profissional e uma pessoa que eu admiro bastante. Aprendi muitas coisas com eles. Tem uma forma única de trabalhar, de organizar o treino e de exigir dos jogadores. O seu posicionamento durante o treino e os jogos é especial. Quando se treina uma equipa grande tem jogadores internacionais por os seus países com muita qualidade e quando esse jogador não joga, como é que se vai motivar esse atleta? Não se pode deixar que esses jogadores relaxem e têm que estar preparados para quando forem chamados. Isso é bem difícil de fazer e o Mourinho sabia fazer bem isso e pegou isso do mister Bob. Eu lembro-me que os jogadores que não eram colocados e que não entravam, na segunda-feira fazia-se a reavaliação do jogo, ele dava nota aos jogadores e conseguia motivar os atletas que não eram convocados. O Mourinho motivava não só os jogadores, mas também os adjuntos. Nós não éramos apenas aquelas pessoas que iam colocar os cones e distribuir as bolas. Nós éramos mais do que isso e ele nos fazia sentir parte. Toda a gente fazia parte, roupeiro, massagista, toda a gente que estava envolvida no processo tinha o seu valor. Foi uma grande aprendizagem para mim, de pensar o futebol e até na forma de estar. Embora pareça que no meu normal eu seja uma pessoa tranquila e calma, eu sou uma pessoa bastante exigente a relação a treinos, horários e do comprometimento do atleta ao nível tático. Me coloco como uma pessoa bem tranquila, mas bastante exigente no lado profissional. É essa a forma que eu me descrevo.

BnR: Já entrevistei o Maciel e o Derlei e ambos me falaram, pelos piores motivos da época de 2004/05, época em que foram treinados por Vítor Fernandez e Luigi Del Neri. Para o Aloísio, que fazia parte da equipa técnica e que acompanhou de perto, o que é que correu mal naquela época pós-Mourinho e pós-conquistas europeias?

A: Eu vou falar dar o exemplo do Vítor Baía. Quando o Vítor Baía saiu para o Barcelona em 1996 tentou-se arranjar um substituto e é difícil arranjar um substituto para o Vítor Baía. Você vai tentar arranjar um substituo do mesmo nível, mas não é igual. Lembro que o FC Porto teve o Hilário, o Rui Correia, veio o Kralj, o Andrzej Wozniak, mas nunca estiveram ao nível do Vítor Baía, apesar de serem bons profissionais e bons guarda-redes. No caso do Mourinho também foi isso. O Mourinho chegou ao FC Porto, viu e venceu, deixou uma imagem espetacular, de unidade, de um FC Porto campeão, conseguiu uma grande união e essa vontade de ganhar coisas. Por isso, é difícil substituir um treinador que ganhou tudo. Vieram outros treinadores, no caso do Del Neri e do Fernandez, mas talvez com ideias diferentes. Eram bons treinadores, mas não eram o Mourinho. Não se conseguiram enquadrar na forma de jogar do FC Porto, nem na identidade do que é o Porto. Ainda havia jogadores naquele grupo que tinham sido campeões europeus e por exemplo, o Del Neri não respeitou o estatuto de alguns jogadores e aquilo que representavam para o clube. Era muito trabalho, pouca conversa. Faltou diálogo, faltou alguma experiência para o Del Neri entender o que era o FC Porto. O Vítor Fernandez acho que era um bom treinador e vinha com o rótulo da forma de trabalhar e treinar, mas não teve sorte e pegou no FC Porto num mau momento. Havia por trás todo um trabalho de três anos do Mourinho que era difícil esquecer.

BnR: Venceste a Taça UEFA e a Taça dos Campeões Europeus como adjunto. Sentiste-te realizado por teres conseguido estas conquistas mesmo que fora dos relvados, ou ficou alguma mágoa de não teres ganho enquanto jogador?

A: Tem duas situações da minha carreira, que não é deixar-me triste, mas que poderiam ter acontecido: não ter disputado um Mundial pela seleção do Brasil e não ter conseguido uma conquista europeia pelo FC Porto, pelo menos uma Taça UEFA, a Champions era bem complicado. Talvez sejam essas as minhas duas lacunas da carreira, mas o que eu ganhei no FC Porto supera tudo e depois tive a felicidade de conseguir fora do campo, o título da Taça UEFA e da Champions, até mesmo da Taça Intercontinental, para mim foi um grande prémio e fico muito satisfeito por ter tido oportunidade de trabalhar no FC Porto, de trabalhar e jogar com grandes jogadores e grandes treinadores.

– Os anos na Catalunha sob o comando de Cruyff e a reticência em ir para o campeonato português –

“O Cruyff já estava muito à frente do tempo na forma de pensar”

BnR: Porque é que tiveste uma trajetória complicada no início da carreira na formação, antes de ires para o Internacional?

A: Eu nasci numa cidade do interior aqui de Porto Alegre que se chama Pelotas. Nessa cidade tem três equipas, mas na verdade são duas que estão nas ligas nacionais daqui, que são o Brasil de Pelotas, que foi onde eu comecei, e o Esporte Clube Pelotas, que leva o nome da cidade. O Brasil de Pelotas está na Serie B do campeonato brasileiro e o Esporte Clube Pelotas está na Serie D, então o Brasil de Pelotas, a nível de adeptos é a equipa que tem adeptos mais fervorosos e mais fanáticos. É um clube que em 1983 ou 84 ficaram em terceiro lugar no campeonato brasileiro, venceram o Flamengo e tinham uma grande equipa. O meu sonho era jogar no Brasil [de Pelotas] até porque morava perto do clube. O que eu conto é que numa fase da minha vida eu estudava e trabalhava, a minha família era uma família pobre e a minha mãe queria que eu trabalhasse para ajudar em casa. O meu sonho era jogar futebol e se eu trabalhasse não ia poder treinar e jogar futebol (risos). Então eu tive uma conversa com um tio meu que era sargento da brigada e ele foi na minha casa e teve uma reunião comigo (risos). “Vamos falar sério agora, essa coisa do futebol não dá dinheiro e você tem que trabalhar para ajudar a sua mãe”. Foi uma conversa mais ou menos assim, de uma hora e levei um sermão na verdade. Eu era um miúdo, fiquei bastante chateado e desanimado, mas acabei por não desistir. Fui no clube, tinha mudado o treinador e havia um jogo treino à tarde numa quarta-feira e eu falei: “Essa é a minha oportunidade. Tenho que pelo menos tentar e mostrar um pouco do que eu sei jogar para poder estar no grupo”. E foi o que aconteceu. Mudou o treinador numa semana, o treinador foi o que assumiu os juvenis naquela época, era um senhor que trabalhava na secretaria do clube, entendia um pouquinho de futebol e aí no jogo de treino, na segunda parte, ele me colocou com a equipa titular. Acabei por ficar no grupo e numa semana a minha vida mudou totalmente! Eu estava para deixar de jogar, entrou um treinador que me viu e eu consegui mostrar alguma qualidade.

BnR: “Aloísio foi o melhor que vi jogar, um Baresi muito refinado”. Sabes quem disse esta frase?

A: Não (risos).

BnR: Domingos Paciência. Aproveito esta deixa para perguntar quais eram as referências do jovem Aloísio?

A: Na minha época aqui no Brasil quando comecei a jogar tinha um central que eu gostava muito que era o Luizinho. Esteve no Mundial de 82 na Espanha, jogava no Atlético Mineiro e veio para Portugal no início da década de 90 esteve no Sporting CP. Era um central espetacular, muito refinado. Não “batia”, era só mesmo na bola. Tinha visão de jogo e uma categoria muito grande. Era a minha referência.

BnR: Durante as seis temporadas que jogas no Internacional, foste campeão mundial e sul-americano no escalão sub-20 em 1983 pelo Brasil, e medalha de prata nos Jogos Olímpicos, em 1988. Ou seja, desde muito novo que o Aloísio já está habituado a ganhar.

A: (risos) É, tenho essa estrelinha nas equipas em que eu joguei. A seleção brasileira esteve presente na minha vida bem cedo. Eu com 16/17 anos já tinha sido convocado para a seleção brasileira para amistosos particulares. Depois em 1983 fiz parte do plantel que foi campeão sul-americano contra Argentina na Bolívia. Esse mesmo grupo depois no México foi campeão mundial.

BnR: Tinham o Dunga na equipa, não era?

A: Tinha o Dunga sim, tinha Bebeto, Mauricinho. Realmente era uma geração espetacular de jogadores, um plantel realmente fora de série, com um treinador também que era muito bom, muito experiente, o Jair Pereira. Ele soube escolher o plantel com jogadores com grande potencial. Eu era um jovem, ser campeão sul-americano e ser campeão mundial ficou na história e nós temos aqui um grupo que é “Os Heróis de 83”. Nós falamos coisas todos os dias e cada um relata as suas histórias, postam camisetas e fotos antigas. Inclusive nós ficamos de fazer um encontro no Rio de Janeiro, só que com a pandemia não foi possível. O meu auge a nível de conquistas foi as Olimpíadas em Seul, em que só faltou um pouquinho para ganharmos a medalha de ouro que era nosso objetivo, mas acabamos por perder o jogo e ficamos em segundo lugar.

Fonte: Facebook de Aloisio

BnR: Tal como disseste, representaste a seleção Olímpica brasileira em 88, sob o comando técnico de Carlos Alberto Silva, com que mais tarde te virias a cruzar no FC Porto. Por aquilo que foi a tua carreira, achas que merecias ter sido chamado mais vezes ou a concorrência sempre foi muito forte?

A: Eu acho que naquela época havia jogadores com muita qualidade. Eu até estava falando com o Ricardo Gomes ontem, que jogou no Benfica, e realmente a seleção de 90 em Itália jogava com quatro centrais. Tinha o Ricardo Rocha, que jogou no Sporting CP e no Real Madrid, tinha o Ricardo Gomes, tinha o Mozer, tinha o Mauro Galvão, tinha uma série de jogadores e era muito difícil estar no grupo. Isso eu entendia perfeitamente. Com o passar do tempo e como eu tive uma carreira bem sólida no FC Porto, eu acreditava que em algum momento poderia ser chamado, mas isso não aconteceu por opção dos treinadores.

BnR: A verdade é nesse ano que representas a seleção brasileira, atrais o interesse do Barcelona. De que forma é que achas que o facto de teres representado o Brasil nessa época, pesou na decisão do Barcelona em adquirir o teu passe?

A: A seleção é um cartão para qualquer atleta. Representar a seleção do seu país dá um up muito grande e a gente valoriza. Para mim foi importante a seleção, mas na verdade eu já estava sendo observado. Isto porque no Internacional nós fizemos uma digressão pela Europa em 1987, em que nós participamos no torneio em Glasgow. Era o Glasgow Rangers, Real Sociedad, Internacional e Ajax. Nós fomos à final contra o Ajax e ganhamos 2-1. Na época o Cruyfff era o treinador e já tinha grandes jogadores na equipa. Nós ganhamos o torneio e eu fiz um excelente jogo, eu e mais dois colegas. Acabei por me destacar e passado um ano o Cruyff foi para o Barcelona. Ele estava refazendo o plantel do Barcelona e ele queria adotar o modelo de jogo que já usava no Ajax e queria jogadores para a forma de jogar dele. Aí ele lembrou de mim. No Brasil eu jogava sempre do lado esquerdo, mesmo sendo destro. Nós fazíamos marcação à zona e eu tinha o hábito de sair de trás com a bola dominada para apoiar o ataque. Eu tinha essa característica e talvez tenha sido isso que lhe chamou à atenção. Mesmo no jogo contra o Ajax eu fiz um grande jogo e então ele pediu a minha contratação. Foi uma surpresa porque ir para o Barcelona naquele tempo era raro, então quando eu estava na seleção, eu já era jogador do Barcelona. Foi feita a negociação e me apresentei no Barcelona um mês depois, porque nós fomos à final da competição. Com certeza que a seleção ajudou muito para que a minha compra fosse possível.

BnR: Nessas duas épocas cruzas-te com figuras lendárias do futebol mundial: Gary Lineker, Koeman, Laudrup e claro, Cruyff como treinador principal. Que momentos recordas desses anos da Catalunha, para além da conquista da Taça das Taças e da Taça do Rei?

A: Foram dois anos espetaculares. Joguei bastantes jogos, era da confiança do treinador e joguei em funções diferentes, que também foi bom para mim como atleta. Além de ser central e jogar pela direita e pela esquerda, eu fui lateral também. Houve um jogo em que eu até joguei em três posições. Foi para a Taça UEFA contra o Lech Poznan da Polónia. Nesse jogo se machucou um colega, eu comecei na minha posição de central, depois passei a jogar como 5 e acabei o jogo jogando como número 8. (risos) Foi assim uma coisa maluca do Cruyff. Ganhamos a Taça das Taças contra a Sampdória e foi o meu primeiro título pelo Barcelona, que eu guardo com muito carinho. Não ganhei o campeonato espanhol, nós na segunda temporada ficamos muito tempo na liderança, mas depois nós empatamos um jogo, perdemos outro e o Real Madrid conseguiu nos ultrapassar, mantiveram até ao final e foram campeões. A Taça do Rei foi o meu segundo título, onde eu não consegui jogar o jogo todo e saí lesionado. Foram dois anos e duas conquistas. Para mim foram momentos inesquecíveis, apesar de terem sido apenas dois anos, tenho recordações até hoje.

BnR: Cruyff imprimiu a letras de ouro a sua marca no futebol mundial, primeiro como jogador e depois como técnico. Há pouco dissemos que Mourinho seguiu os ensinamentos de Bobby Robson e também é evidente que Guardiola seguiu as pisadas de Cruyff. O que é que Cruyff tinha de especial para estar tão à frente do seu tempo?

A: Exato já me questionaram o que é que ele tinha. Nós já falamos do Mourinho que era o Special One (risos). O Cruyff já estava muito à frente do tempo na forma de pensar. Ele já pensava diferente, já tinha provado isso no Ajax e no Barcelona ele tinha possibilidades de comprar jogadores com qualidade para montar a equipa da forma que ele gostaria. Ele pensava o jogo de uma forma bem simples e matematicamente falando queria ter superioridade no meio-campo onde a bola passa muito mais vezes e onde se constrói o jogo. Ele queria superioridade do meio-campo com jogadores de qualidade de posse de bola, jogadores rápidos na frente, correndo algum risco a jogar com três zagueiros, mas sabendo que ia ter vantagem no meio-campo e no ataque. Ele pensava assim e treinávamos assim. Eram treinos simples, muito técnicos e também táticos. Nós já sabíamos a forma de jogar, não alterava, podia sair um jogador e entrava outro, mas ele não alterava o sistema tático porque ele acreditava naquilo. Cada jogador tinha uma função para desempenhar e se treinas para isso, então tens de cumprir. Se um jogador entrava numa zona que não era dele, o Cruyff chamava a atenção uma ou duas vezes e houve casos em que chegava ao intervalo e ele tirava o jogador. Se o jogador não cumprisse, ele tirava sem dar explicação. Tinha muita personalidade, tinha uma ideia muito clara do que era o futebol. Tinha um método simples, na verdade para ele era tudo simples. Como ele foi um jogador de classe mundial, como treinador ele queria jogássemos mais ou menos da forma como ele jogou e como ele pensava o futebol: bola no pé, futebol bonito e muitos golos.

BnR: Em 1988/89, o Barça recebeu o Racing Santander em Camp Nou e o Aloísio envergou pela primeira vez a braçadeira de capitão, naquele que foi um momento muito marcante. Como viveste esse momento?

A: Sim foi uma surpresa. Nós estávamos no vestiário, depois do aquecimento, a ver os detalhes do jogo e o roupeiro veio e me entregou a braçadeira de capitão. Eu fiquei assim meio surpreso, não a coloquei no braço, fiquei com ela na mão, olhei para o roupeiro e disse: “Está fazendo o quê?”. Ele disse que foi o mister e não sobrevalorizou, foi uma coisa natural e falou que era para eu liderar os companheiros e que era eu que mandava dentro de campo. Eu falei “Como assim?”. Foi uma surpresa muito grande e me deu aquele calafrio. Para além de jogar no Barça, também tinha muita responsabilidade em ser o capitão com muitos jogadores emblemáticos como o Zubizarreta, que era o capitão e que já estava lá há muito tempo, tinha o José Mari Bakero, o próprio Koeman e o Laudrup, por isso eu fiquei muito surpreendido com a boa ação dele e pela confiança também em dar um pouco de moral. Foi um momento muito especial na minha carreira.

BnR: Naquela altura havia limitações de jogadores estrangeiros e o Aloísio acaba por sair para dar lugar a Stoichkov, e é aí que surge o FC Porto. Mas o Aloísio não queria vir para Portugal, não é assim?

A: (risos) Exato. O futebol português não me atraía. Eu assistia a bastante jogos ao fim de semana que passavam na Euro Sport jogos de todas as ligas, eu adorava ver aquilo. Eu tinha muitos colegas da seleção que já estavam em Portugal. Eles conversavam “Vem para cá, é um bom clube”. Eu acompanhava o futebol português, mas não achava que tivessem um mercado onde eu me pudesse destacar, embora tivesse três grandes equipas, no caso do Porto, Benfica e Sporting. Não me chamava muito à atenção, chamava mais o futebol francês e italiano. Eu tinha mais dois anos de contrato e surgiu uma oportunidade de ir emprestado para o Montpellier. Eles disputavam a Taça UEFA naquele ano e para mim era importante, então eu fui a Montpellier, falei com o Presidente do Clube e ficamos mais ou menos em acordo. Uma semana depois o clube iria a Barcelona para falar com a direção, só que o Barcelona pediu muito dinheiro pelo meu passe, o Montpellier também era um clube pequeno e eu também como não pressionei acabei por esperar mais um pouco. Eu tinha mais dois anos de contrato, só que havia uma necessidade da minha saída para o Barcelona ter uma vaga para um jogador estrangeiro para inscrever o Stoichkov. Então aparece o FC Porto e eu falei com o Presidente, mas nesse primeiro momento não houve negócio porque eu estava vindo para o Brasil. Nesse primeiro contacto não houve nada, nem poderia ter havido porque foi muito em cima. Não se resolveu a questão, só depois.

– O significado da mística, a formação dada a Fernando Couto e Jorge Costa e o pedido de desculpas a João Vieira Pinto –

“A mística é como se fosse a chama da tocha Olímpica: não se pode deixar apagar. Se apagar acabou e fica muito difícil de ganhar coisas”

BnR: Sentiste mais pressão e exigência dos adeptos por teres vindo do Barcelona para o FC Porto?

A: Não, não senti mais pressão pelo facto de ter chegado ao FC Porto com 27 anos e estava no auge da minha carreira. Nesses meus 27/28 anos eu acho que estava em pleno fisicamente, com uma experiência de dois anos do Barcelona, com a experiência de ter jogado uma competição europeia e jogar uma Liga Espanhola que era muito forte. Agreguei muito a nível pessoal e profissional, então cheguei ao FC Porto com uma confiança muito grande. Sabia que o FC Porto era um clube grande, com um histórico muito bom e mesmo com todos os centrais que tinham passado por ali, para mim isso tudo era um desafio. Eu vi no FC Porto um clube onde eu poderia ganhar títulos e crescer como jogador e como pessoa. Não me arrependo de ter escolhido o FC Porto pelo facto de o clube me ter dado condições e me ter potencializado para ser ainda melhor jogador.

Fonte: FC Porto

BnR: Chegas a uma equipa que tinha sido campeã europeia poucos anos antes e integras um plantel que tinha Jorge Costa e Fernando Couto como jovens promissores e Geraldão, João Pinto e Branco como referências defensivas. Alguns destes nomes são símbolos da famosa mística. O que é para ti a mística?

A: (risos) Essa palavra é um pouquinho complexa. O FC Porto foi um clube onde eu vivi muitos anos, entraram e saíram jogadores com qualidade e muitos bons jogadores não conseguiram se firmar no FC Porto pela dificuldade em permanecer num plantel com muita qualidade. Passaram ali grandes jogadores e eu fui ficando. Eu acho que mística é aquilo que tu trazes, um pouco de ti, da tua essência como homem e como atleta. É como tu te colocas, como é a tua postura nos treinos, nos jogos e fora de campo. É a imagem e a liderança que passas. Acho que no FC Porto a mística já estava ali, ela não é perdida. É o clube em si, é o histórico do clube, quem passou ali e quem vestiu a camisa do clube. O André, o João Pinto, Semedo, Bandeirinha, Jaime Magalhães, Lima Pereira, Geraldão, Juary, o Celso, o Gomes, se eu falar aqui em nomes não vou parar. Muitos jogadores com formação no clube e muitos que vieram de fora, mesmo os portugueses que fizeram formação em outros clubes, quando entraram no FC Porto, é algo diferente. Tens que te inserir, se adaptar e entender rápido o que é vestir a camisa do FC Porto, o que é defender as cores do Dragão. Então a mística é passada. O João Pinto ficou, ele passou aquela mística de ganhar e até estar com um dedo do pé quebrado em que, numa situação normal, ele nem treinaria e ficaria em casa, mas ele fez um buraco na sua chuteira e vai para o jogo. Chegou a ter um afundamento no sobreolho e continuou jogando, só no outro dia é que foi para o hospital. Tinha o André que trincava os dentes e não dava a bola como perdida. A mística é passada e eu cheguei e entendi logo, fui passando para os que chegavam, independentemente da nacionalidade. É como se fosse a chama da tocha Olímpica: não se pode deixar apagar. Se apagar acabou e fica muito difícil de ganhar coisas. Eu fiquei onze anos, ganhei sete títulos e às vezes ainda me falavam “Os árbitros roubavam para o FC Porto e era uma vergonha”. Aí eu penso, o pessoal não via o nosso dia-a-dia, os adeptos das outras equipas não viam os treinos do FC Porto e até era bom que isso fosse possível. Assim eles viam “Olha só como eles treinam”. No dia de jogo não tinha como não ganharmos ou não sermos campeões. Não estou a dizer que as outras equipas não trabalhavam, com certeza que sim, se trabalhavam bem, nós treinávamos melhor, se trabalhassem muito, nós trabalhávamos muito mais. Nós é que corremos, se nós não fizermos a nossa parte, não vai ter árbitro que nos ajude. Nos treinos era uma coisa impressionante, o treino de sábado parecia uma competição, ninguém queria perder. Se alguém visse pensava “Se no jogo do treino é assim, no jogo não tinha hipótese de ser diferente”. Me orgulho muito de ter feito parte dessa grande equipa, de ter vestido a camisola e de ter compartilhado o balneário, o campo, viagens e hotéis com grandes jogadores. Essa acredito que é a mística do FC Porto, aquilo que é passado pelos mais velhos, aqueles que entendem e que já estão no clube e com certeza que faz a diferença, e muito.

BnR: Essa foi a melhor definição da mística que eu já ouvi.

A: (risos)

BnR: Durante onze épocas o Aloísio fez crescer outros centrais à sua volta, Jorge Costa e Fernando Couto, por exemplo. Como é que um mentor, aparentemente, tão tranquilo como o Aloísio, teve alunos tão explosivos e temperamentais como Jorge Costa e Fernando Couto?

A: (risos) Eu até brincava com eles que quando eles fossem para outros clubes, eu deveria ter uma percentagem no contrato deles pelo facto de ter dado formação para eles (risos). Foi um prazer e uma grande honra, joguei com dois grandes centrais portugueses, que representaram a seleção portuguesa e jogaram fora do seu país. O Fernando Couto esteve no Barcelona e depois na Lázio, o Jorge Costa esteve em Inglaterra. Foram dois jogadores que eu vi crescer, com características diferentes, mas com um potencial enorme. Eram jovens, eram miúdos. O Fernando Couto jogou no Famalicão emprestado, era normal sair naquela época, depois voltou e conseguiu-se impor. O Jorge Costa teve no Marítimo, depois também conseguiu voltar e se impor no clube. O próprio Ricardo Carvalho jogou no Leça, depois também voltou para o FC Porto. Eram jogadores que eu me identificava bastante. O Fernando Couto era mais sanguíneo na sua forma de jogar, até demasiado em algumas situações. Naquele tempo eram permitidas algumas coisas e hoje não, hoje ele estaria sendo expulso a todo o jogo. Eu acho que ajudei e tive a minha quota parte nesses atletas pelo facto de ser mais experiente e pela minha forma de jogar e pensar. Conversávamos muito nos treinos sobre o posicionamento, a tranquilidade, o que fazer em determinados momentos do jogo. Conversávamos bastante durante a semana e nos jogos isso facilitava bastante porque havia uma boa conexão. Eram jovens que ouviam, respeitavam e tinham a humildade para aceitar o que eu poderia acrescentar na carreira deles e eu estava aprendendo com eles também.

BnR: Vences o teu primeiro título nacional na segunda época de azul e branco, numa época em que apenas sofrem 11 golos no campeonato. Este título foi o mais especial da tua carreira?

A: Sim, o primeiro título nacional sim. Como eu não tinha sido campeão nacional no Barcelona, eu almejava muito ser campeão português e com certeza que o primeiro título foi muito especial e foi muito desejado. Foi algo que eu buscava, trabalhamos para isso e acabamos por conseguir esse tão desejado título.

BnR: A tua quarta época no FC Porto começa instável com Ivic ao comando, mas aos poucos começa a endireitar com a chegada de Bobby Robson e de um tradutor especial, José Mourinho. O que te recordas dos primeiros tempos desta dupla?

A: Eles trouxeram algo diferente para o FC Porto na forma de trabalhar e pensar o futebol. O Mister Bob tinha a sua experiência, sabedoria e tinha as suas ideias bem vincadas. Ele cobrava muito e nós trabalhávamos muito. Ele era muito direcionado e organizado. Era muito exigente no aspeto tático, cobrava muito dos jogadores, fosse quem fosse. Ao mesmo tempo respeitava cada um, conseguia agregar os jogadores que jogavam e os que não jogavam. Tinha uma forma muito especial de lidar com os jogadores e os jogadores respeitavam muito. Ele dizia sempre “Hoje não jogaste, mas no próximo podes jogar”, e quando os colocava ele falava “Muito bem” e dava os parabéns. Tinha algo muito peculiar: após o jogo, no regresso aos treinos, ele ia ao quadro e dava notas aos jogadores que tinham jogado. “Vítor Baía, muito bem, mas aquela bola que tu saíste foi nota tal”, acho que era de 1 a 10 (risos). Falava umas palavras misturadas do português e inglês, tinha um jeito muito especial e engraçado. O FC Porto teve uma página nova com a vinda do Mourinho e do Mister Bob, onde nós jogávamos com alegria, jogávamos um futebol bonito, muito ofensivo, muito equilibrado e onde nós conseguimos ser uma equipa muito forte e estável. Tínhamos uma defesa muito forte, um meio-campo espetacular e tudo funcionava. Tenho grandes recordações e dava gosto. Quem estava no banco e nos via jogar era espetacular.

BnR: Nesse ano a equipa apostou todas as fichas na Taça dos Campeões Europeus e o FC Porto chega à meia-final, onde o Aloísio reencontra o Barcelona em Camp Nou e perdem 3-0. Chegaste a perdoar o Bobby Robson por te ter colocado a defesa esquerdo no jogo frente ao Barcelona a marcar o Stoichvok?

A: (risos) Com certeza, eu só fiquei chateado no momento porque eu não sabia que ia jogar a defesa esquerdo. A minha posição era central, não que eu já não tivesse feito essa função nas eliminatórias, se não me engano contra o Feyenoord, mas obviamente que não era a função que eu estava mais à vontade, especialmente contra o Barcelona. Eu ainda não tinha voltado a Barcelona e para mim era uma motivação extra, não que eu tivesse de mostrar alguma coisa. Era especial esse jogo, eu já me preparava muito para os jogos e nesse jogo me preparei mais ainda. No dia do jogo o Mourinho foi ao meu quarto e me chamou dizendo que o mister Bob queria falar comigo. Ele estava acanhado, meio sem jeito e já tinha decidido a equipa com os demais treinadores em virtude da forma do Barcelona jogar. Na altura era o Rui Jorge o defesa esquerdo titular e como eu era mais rápido do que o Rui Jorge eu poderia, não digo anular, mas fazer com que o Stoichkov fizesse menos danos naquela área. Eu não disse que não, falei que não esperava, que queria jogar de central porque poderia colaborar mais na minha posição do que a lateral. Eu queria jogar, nem que fosse a guarda-redes. Fiquei chateado no momento, mas depois interiorizei que o mister fez uma opção e eu procurei fazer o meu melhor.

Fonte: FC Porto

BnR: Porque é que o Jorge Costa foi a melhor dupla que tiveste?

A: Pelo facto de jogar mais tempo com ele. Embora tenha jogado alguns jogos com o Fernando Couto, joguei mais vezes com o Jorge Costa. Eu conheci o Jorge, ainda na sua formação, jogando de uma forma e depois no pós-Marítimo ele volta ao FC Porto com outras responsabilidades. Foi um jogador que eu vi crescer e amadurecer na sua forma de jogar. Era aquele jogador com uma compleição física muito grande, mas era muito rápido. Eu não me lembro de ter visto um jogador ultrapassando o Jorge lado a lado no sprint. Parecia que era lento, mas era muito rápido. Era um jogador que usava muito a sua força e o seu físico, com os treinos e o jogo foi amadurecendo e vimos um Jorge com grandes recursos técnicos e que marcava golos. A ideia que tínhamos do Jorge é que ele só “batia” que só usava a força, mas não, ele evoluiu tecnicamente e foi muito gratificante vê-lo a jogar da forma como jogava. Acho que o Jorge também bebeu um pouquinho da fonte e foi uma troca de formas de pensar e jogar. O Jorge tinha as características dele de jogar e eu tinha as minhas. Realmente foi o jogador que eu me acertei mais. Era um líder que não gostava de perder, fomos capitães, ele foi o meu capitão e sabia conduzir as coisas e se impor de uma forma natural.

BnR: O Aloísio chegou a dizer: “Eu e o Jorge Costa batíamos muito no João Vieira Pinto”. Porque é que o João Pinto era a vossa vítima favorita?

A: (risos) Eu falei isso porque me perguntaram do avançado mais difícil que eu enfrentei e foi o João Vieira Pinto, pelo facto de ser um jogador fora da média, que eu admirava muito já desde a época do Boavista. Era um jogador “chato” de marcar e não virava a cara à luta, mas ao mesmo tempo, em algumas fases, não só contra o FC Porto, o João tinha aquela mania de cair, qualquer coisa ele simulava falta. Ele simulava muito bem, ele era um bom “artista” no sentido da palavra. Não digo que dava raiva, mas nós ficávamos “Joga à bola, não há necessidade disso”. Então houve momentos em que João não era bem visto, não só por mim, pelo Jorge Costa, pelo Paulinho Santos, mesmo para as outras equipas do campeonato nacional. Mas foi um dos grandes avançados que eu enfrentei. Depois em 2008, em SC Braga, o Jorge Costa era o treinador e eu era o adjunto e quem estava no SC Braga era o João Pinto (risos). Ele foi nosso jogador e até brincava “Esses dois é que me batiam”. Na altura eu pedi desculpas, “João, realmente nós te batíamos muito”.

BnR: Como é que eram vividos os clássicos na década de 90? Achas que eram diferentes dos de atualmente?

A: Sim, a atmosfera que havia durante a semana, jogando em casa ou fora, os próprios adeptos, a imprensa, os estádios era tudo diferente. Jogar no antigo estádio da Luz, um estádio gigantesco e sempre lotado, jogar nas Antas num estádio que eu gostava muito de jogar com os adeptos mais próximos do campo e realmente aquele ambiente era espetacular, até o próprio caminho do balneário até entrar dentro do campo. Nos clássicos cada jogo era um jogo diferente, cada clássico tinha uma história. A motivação já estava presente durante a semana. Acho que mudou bastante para agora, não que não haja disputa, mas acho que talvez as pessoas estivessem mais próximas, o próprio estádio fazia com que os adeptos estivessem mais próximos e essa forma de torcer e receber era diferente. A chegada no estádio era diferente, a nossa chegada era diferente em todos os estádios porque éramos os mal-vistos do país, criava uma atmosfera de rivalidade, mas para nós jogadores era bom porque sabíamos que não éramos bem vistos porque éramos uma equipa a abater e que tínhamos guerreiros que não viravam a cara à luta. Éramos um exército e os soldados que entravam ali, tinham que dar o seu melhor.

– Um balneário de luxo ao longo das épocas e a famosa conquista do Penta –

“Acho que o Sérgio Conceição é um pouco como Simeone”

BnR: Em 1996/97 partilhas o balneário com um Sérgio Conceição de 22 anos. Como é que ele era nessa altura? Já era tão competitivo como vemos no comando técnico do FC Porto?

A: Sim isso já é intrínseco dele, já nasceu com isso. Eu lembro dele no FC Porto, na sua formação, depois na equipa principal, também jogou no Leça, em que ele era extremo e lateral. Tinha muita força física e um caráter muito forte e vincado. Era muito competitivo e quando se conseguiu impor na equipa principal vimos um pouquinho do Sérgio. Este Sérgio que vemos a cada jogo, se pudesse entrava dentro de campo. Acho que o Sérgio Conceição é um pouco como Simeone, muda a tua função, mas a tua forma de estar não se vai perder.

BnR: Também nessa época jogas com Mário Jardel, um jogador que em 175 jogos fez 168 golos. O Jardel foi o avançado mais letal com quem já jogaste? Era difícil marcá-lo nos treinos?

A: O Mário era fora de série. Foi um dos grandes atacantes que eu tive oportunidade de jogar. Nos deu muitas alegrias, nos deu títulos e realmente era um jogador especial, principalmente dentro da área. É outro jogador que eu também vi crescer, conhecíamos o Jardel do Grêmio, mas não o conhecíamos do dia-a-dia. Era um jogador com uma envergadura muito grande, letal dentro da área e desenvolveu e cresceu muito. Vimos o Jardel quando chegou e que se tornou depois num goleador, que fazia golos espetaculares, pé direito, pé esquerdo, de cabeça. Ele trabalhava muito, era muito profissional. Após os treinos, ele treinava os cantos, as faltas, os cabeceamentos, não era por acaso que ele tinha essa facilidade me fazer golos.

BnR: Com 35 anos cruzas-te com o Deco. Já lhe reconhecias qualidade?

A: O Deco esteve na equipa principal do SL Benfica, acabou não ficando no plantel, foi emprestado ao Alverca e chegou ao FC Porto através do Salgueiros. Nós já víamos no Deco do Alverca, uma qualidade diferente de jogador, um jovem com grande potencial e foi natural essa ascensão dele no futebol português, chegando a um grande como o FC Porto e depois indo para o Barcelona e grandes clubes da Europa. Conseguiu ainda contribuir vestindo a camisola da seleção portuguesa. Para mim o Deco é um dos grandes exemplos e tenho-o como referência até hoje. Foi um dos grandes jogadores que eu tive oportunidade de ver, ele sendo um jovem e eu chateando-o a cada dia e cada treino. Temos um carinho muito grande e uma amizade um pelo outro.

BnR: Fizeste parte da histórica conquista do penta e foste um dos poucos jogadores a ter alinhado nas cinco épocas. Nesses anos dourados dos dragões, sentias que o FC Porto estava muito acima dos restantes?

A: Creio que sim. Tudo que envolvia o FC Porto, desde a direção, jogadores, equipa técnica, roupeiro, massagista, departamento médico, era um todo, todos faziam parte e eram importantes. A liderança dos treinadores que passaram, no caso do Fernando Santos que foi o mentor do Penta, com a sua forma destemida e determinada de cobrar. Um treinador que era muito competitivo e não poderia ser de outro jeito. Não só no papel, mas também dentro do campo nós demonstramos que tínhamos uma qualidade acima das demais equipas, no caso do Benfica e Sporting. A equipa estava muito, muito bem.

Fonte: Facebook de Aloisio

BnR: “Aloísio era o Ricardo Carvalho da equipa do penta”. São muitos os adeptos que fazem esta comparação. Reconheces algumas semelhanças com Ricardo Carvalho? Achas que foi um jogador parecido contigo?

A: (risos) Eu acho que sim, acho que o Ricardo tem muitas semelhanças com a minha forma de jogar. Conheci o Ricardo da formação do FC Porto e os jogadores do clube se apresentavam para o clube decidir se os jogadores ficavam ou se iam ser emprestados. No caso do Ricardo ele foi emprestado ao Leça e depois voltou para fazer parte do plantel. Era um jovem com um talento imenso. Não era um jogador alto e fisicamente não era um jogador forte, só que dentro do campo ele se transformava, era uma coisa impressionante. Nos treinos havia fases em que ele era meio desligado, muito calmo, eu me achava tranquilo, mas o Ricardo era mais ainda. Dava a impressão de que ele poderia não estar concentrado, mas era uma coisa natural dele de jogar tão bem que parecia que ligava um botão quando começava o jogo. Muitas vezes nos treinos o Mourinho até se chateava com ele e chamava à atenção porque parecia que ele não se concentrava, mas era a forma dele estar. Só que chegava ao jogo e era impressionante, parecia que tinha dois metros de altura. Era impressionante no jogo aéreo, no chão e acho que tinha bastante a ver comigo na forma de jogar.

BnR: Por ironia do destino, depois de tantas conquistas, acabas por terminar carreira no FC Porto sem ter sido campeão nacional. Dessas 11 épocas, consegues escolher a época mais especial de Dragão ao peito?

A: Acho que foi a do Penta, depois dessas cinco conquistas consecutivas. Eu estava bem profissionalmente, estava bem focado, tive a felicidade de não ter lesões quase nenhumas, com um plantel espetacular e um treinador que eu respeito e admiro, o Fernando Santos, que foi uma grande aposta por parte do FC Porto. Veio dar uma nova cara ao FC Porto o Engenheiro do Penta. Foi uma peça importantíssima nessa conquista. Faço parte desse grupo bem seleto de jogadores e me sinto muito honrado por isso mesmo.

BnR: Qual foi para ti o golo mais marcante e memorável que marcaste ao serviço dos dragões?

A: (risos) Eu não era de marcar muitos golos. Na minha estreia marquei dois golos na pré-temporada da Suíça, um de cabeça e outro em que eu até fiz uma luxação. O golo mais importante foi no Troféu Teresa Herrera, que nós ganhamos o torneio contra o Corunha. O FC Porto não tinha aquele troféu, ganhamos o torneio, eu marquei o golo de cabeça e foi o golo do título. Era um troféu que o FC Porto ainda não tinha e foi o golo mais importante da minha carreira.

BnR: Chegaste a receber propostas para sair do Porto?

A: Devem ter chegado algumas que eu não soube (risos). Isto porque eu não tinha representante, nem empresário, era eu que discutia meus contratos. Que eu soube houve duas propostas para o Brasil: uma foi o São Paulo e a outra foi o Palmeiras. Eu já estava com 33 anos, estava de férias aqui no Brasil e o Felipão que era o treinador me telefonou, perguntou como é que eu estava e disse que estava interessado. Eles fizeram uma proposta ao FC Porto e o FC Porto pediu um valor a mais. Acabei por continuar no FC Porto, também não fiz pressão para sair. Na proposta do Palmeiras eu balancei um pouco porque eu queria voltar para o Brasil porque era uma grande equipa com um treinador que me conhecia e naquela época o Palmeiras tinha um projeto muito grande para a Libertadores.

BnR: É extremamente raro ver um jogador como o Aloísio a jogar onze anos seguidos com o mesmo símbolo e ser fiel ao clube. Porque é que achas que hoje em dia é tão difícil isso acontecer?

A: Acho que é uma combinação de vários fatores. A identificação do atleta com o clube, as condições que o clube te dá para trabalhar, a própria adaptação à cidade, a vontade de jogar em outra liga com uma visibilidade diferente para chegar à seleção do seu país. Depende muito. No FC Porto eu tinha isso tudo e achava que era suficiente para representar a seleção brasileira, pelo meu tempo de clube e por tudo o que eu tinha feito. Sei que era observado e que tinham feito muitos relatórios meus, chegava o meu nome na lista da CBF, mas eu não era chamado. Acho que então é essa identidade com a cidade e o clube, te sentires à vontade, que aquele lugar é suficiente para ti, que estás realizado. Mas eu até colocaria a questão financeira como principal fator. No meu caso eu poderia ter saído, exigido mais dinheiro nas vezes em que renovei meu contrato, talvez pudesse dificultado um pouco, batido o pé e poderia não ter renovado. Para mim não foi a parte financeiro que pesou, foi a minha família estar adaptada ao local e estar a jogar num grande clube que me dava aquilo que eu necessitava.

– O título merecedor dos dragões nesta época e o que ainda está por vir –

“O Porto foi campeão com mérito, mas as lideranças e as referências são sempre importantes”

BnR: É um sonho orientar a equipa principal dos dragões?

A: (risos) Acho que se eu estivesse no ativo já há algum tempo, se eu tivesse dado continuidade à carreira quando vim embora para o Brasil, hoje estaria treinando numa equipa na liga em Portugal ou estaria em outro país. Isso tenho a certeza. Não vou dizer que não seria um sonho, mas eu não estando no ativo, não estando a treinar, isso seria utópico. Todo o treinador ou todo o ex-atleta gostaria de poder treinar o clube que jogou. Com certeza que seria uma grande honra para mim, mas neste momento não posso dizer “Eu quero treinar o Porto”, eu quero voltar ao ativo sim, mas tenho de ter essa humildade. Não só eu, mas acho que todo o grande treinador tem como meta treinar o FC Porto.

BnR: Ainda acompanhas o futebol português?

A: Sim, vejo aqui os jogos e também estou sempre nas plataformas de informações seguindo o FC Porto.

BnR: O que é que achaste do campeonato deste ano?

A: O campeonato foi um bocadinho atípico a nível de qualidade. Não houve assim uma equipa que conseguisse ter uma regularidade na qualidade e no nível do jogo. Acho que o FC Porto foi o campeão merecedor, mesmo em alguns momentos não estando no seu melhor nível, mas também acontece. O Sporting CP jogando um futebol bem moderno com a troca de treinador e com jogadores jovens, mas não foi suficiente. E o SL Benfica uma equipa também bem equilibrada acabou por não conseguir manter essa regularidade. O positivo foi o destaque de equipas, que em tempos foram pequenas ou médias, e se conseguiram consolidar. No caso do Famalicão foi uma excelente surpresa, com uma empresa que trouxe jogadores com qualidades que conseguem fazer frente aos grandes. Destaque também para outras equipas, mas particularmente o Famalicão acho que foi uma excelente surpresa. Oxalá que possam aparecer mais equipas assim com essa estrutura para que possam jogar de igual para igual com as equipas grandes.

BnR: O que esperas para a próxima temporada do campeonato com Jorge Jesus no Benfica? Achas que vai ser mais complicado para os dragões?

A: Acho que sim. Vai ter o regresso do Jesus e já sabemos como ele trabalha. Ele é um treinador ambicioso que com certeza vai querer se campeão nacional, ganhar a taça e estar envolvido também nas competições europeias. O grande objetivo dele é esse. Vai com certeza trazer jogadores que ele conhece e fazer uma equipa suficientemente competitiva para lutar pelo título nacional. Vai ser bom porque traz um novo alento ao futebol, até pela forma dele ser. Teve sucesso no Brasil, ele no Flamengo ganhou tudo. É um grande treinador, que vai acrescentar ao futebol português, neste caso ao SL Benfica.

Fonte: FC Porto

BnR: Achas que nos dias de hoje a mística perdeu-se ou que falta um líder de balneário no FC Porto? Achas que a tal “tocha Olímpica” de que falamos, já está mais apagada?

A: Na verdade no meu tempo, nesses longos anos que eu passei no clube, nós tínhamos mais do que um jogador que passavam a mística. Eram líderes, capitães, jogadores com personalidade e com o perfil do clube. Como eu falei, compravam a ideia, faziam com que os jogadores que chegassem comprassem a ideia de onde estavam, como é estar no FC Porto, como se deviam comportar dentro e fora do campo e muitas vezes não precisavam de um treinador. Não precisava de ser os treinadores, eram os capitães e nós passávamos a informação para os jogadores. Queríamos ganhar e para ganhar temos de estar unidos. Todos temos de estar no mesmo barco e era natural fazermos isso. Talvez faltem mais líderes na equipa ou algumas referências que também são importantes para que os mais jovens possam olhar e digam “Afinal temos aqui alguém que em momentos apertados nem precisa de haver o treinador ou a direção”. Eles acabam por levar essa informação no treino, na sua conduta, na sua postura. Acho que a chama não está apagada, existe a chama do Dragão. O FC Porto foi campeão com mérito, mas as lideranças e as referências são sempre importantes.

Nélson Mota

Redação Bola na Rede · ver artigos