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O demérito excessivo do Benfica, o elevado número de vitórias pela margem mínima de Sérgio Conceição, o pobre desempenho europeu do agora campeão nacional: tudo isto e muito mais surgiu, de certa forma, na tentativa de colocar um asterisco no troféu recém-conquistado.
De facto, houve uma perda de pontos anormal da equipa encarnada, assim como existiram várias e várias vitórias dos da Invicta por apenas um golo de diferença; a caminhada europeia também ficou algo aquém das expectativas. Mas farão estes fatores do FC Porto o pior campeão dos últimos dez anos? Neste artigo, trarei alguns números e dados que mostrarão um ponto de vista totalmente diferente.
Comecemos pelo início. “O título do FC Porto tem mais de demérito do Benfica do que de mérito do próprio FC Porto” – será verdade? Bom, é inegável que a segunda metade do campeonato não correu propriamente bem à turma então comandada por Bruno Lage: falamos, em boa verdade, da pior segunda volta do Benfica na década.
Todavia, há que olhar para a outra face da moeda: estamos a falar do mesmo Benfica que realizou a melhor primeira volta, em termos de aproveitamento pontual, dos últimos trinta e seis anos. Por falar em aproveitamento pontual, aliás, o emblema da Luz terminou a Liga com um aproveitamento de 75.5%, um registo superior, por exemplo, ao que o FC Porto apresentou em 16/17 (74.5%), época em que foi segundo colocado.
Estes mesmos 75.5% de aproveitamento pontual seriam suficientes para garantir o título em três das últimas dez edições de campeonato.
Conclusão? Independentemente de todos os problemas, o Benfica esteve longe de fazer a pior campanha de um segundo classificado na década. Portanto, parece-me algo exagerado colocar todo o peso desta conquista sobre os ombros das águias.

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede
Tudo isto leva-nos à segunda parte da questão: há ou não há mérito do FC Porto? Naturalmente, não haverá nenhum campeão que o seja sem a sua dose de mérito. Mas, para não entrarmos no campo subjetivo, vamos ver o que nos diz o registo dos dragões.
A turma de Sérgio Conceição acumulou, ao longo das trinta e quatro jornadas, oitenta e dois pontos, números que não são piores do que aqueles apresentados pelo Benfica de Rui Vitória em 2016/17. Para além disso, somou vinte e seis triunfos, um a mais do que o campeão da época anteriormente referida.
No que toca a derrotas, os azuis e brancos somaram quatro, números que, uma vez mais, não são novidade: na primeira época da era Rui Vitória na Luz, os encarnados foram campeões também com quatro derrotas.
E em relação aos golos marcados e sofridos? Ora, vamos lá ver. O FC Porto marcou setenta e quatro golos, algo que pode ser transformado numa média de, aproximadamente, 2.2 golos por jogo. Novamente, este registo está longe de ser o pior dos últimos dez campeonatos. Quer o Benfica de 13/14, quer o de 16/17, possuíram médias inferiores (1.9 e 2.1, respetivamente). Relativamente a golos sofridos, Conceição viu a sua equipa sofrer o maior número de golos desde que chegou ao comando técnico dos dragões, em jogos a contar para o campeonato: vinte e dois (média de 0.6 golos sofridos por jogo). Para além do Benfica de Rui Vitória/Lage, que sofreu trinta e um golos na temporada passada, temos o exemplo do Benfica de 15/16 que, na caminhada para o título, sofreu os mesmos vinte e dois golos.
Em adição a estes dados, temos ainda os números referentes às clean sheets: nesta edição do campeonato, por dezanove vezes o FC Porto conseguiu manter as suas redes invioláveis, registo idêntico àquele alcançado no título de 17/18. Conseguiu, ainda, superiorizar-se, neste ponto, aos encarnados campeões nas épocas 15/16 e 18/19 (dezassete e quinze jogos sem sofrer, respetivamente).
Campeonato ☑
1.º lugar ☑
Mais vitórias ☑
Melhor ataque ☑
Melhor defesa ☑#FCPorto #DragõesJuntos pic.twitter.com/Eo5v5RvoQz— FC Porto – Campeão Nacional 2019/20 🏆 (@FCPorto) July 26, 2020
E as vitórias pela margem mínima? Relativamente a este tópico, não há margem para dúvidas: o campeão 19/20 foi aquele que mais vitórias somou pela margem mínima (onze). No entanto, por outro lado, detém uma percentagem de goleadas (vitórias por três ou mais golos de diferença) superior à do FC Porto de Villas-Boas e à do Benfica de Jesus, em 13/14.
E a campanha europeia? Não é suposto um campeão ser eliminado tão precocemente das competições da UEFA… Bom, se é ou não suposto não me cabe a mim dizer; o que posso dizer é que está longe de ser caso único: o FC Porto, no primeiro ano de Vítor Pereira, também caiu nos dezasseis-avos de final da Liga Europa.
“A verdade é que o nosso campeonato é bastante desigual e isso acabou por facilitar a vida ao Porto” – subscrevo a ideia de que o nosso campeonato é desigual, no entanto é um facto que todos os campeões nesta década tiveram, de uma maneira ou de outra, de “lidar”. Inclusive, esta edição do campeonato esteve longe de ser a mais desequilibrada dos últimos anos. Ora, vejamos: o Rio Ave faz o melhor campeonato da história, o Famalicão faz a melhor campanha de um recém-promovido na década, o Vitória SC termina a prova com o melhor registo ofensivo pessoal do século, o Santa Clara alcança a sua mais alta pontuação de sempre na primeira divisão e presenciamos o despromovido que mais pontos fez na década, o Portimonense.
Por fim, um último aspeto (este sim, uma novidade): o FC Porto venceu os quatro clássicos a contar para o campeonato, um feito que nenhum outro campeão na década conseguiu.
Artigo revisto por Diogo Teixeira











