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Ganhar sabe sempre bem, mas ganhar depois de estar a perder sabe ainda melhor. Neste artigo partilho o meu top10 de reviravoltas portistas de que tenho memória. Jogos que pelo seu significado ou timing foram importantes para as respectivas épocas desportivas. Dependendo da idade do leitor certamente se lembrará de outras reviravoltas, como por exemplo a final de Viena. Mas se for portista, certamente estes jogos o deixarão com um sorriso.
10. (2016) Club Brugge – Porto (1-2): A sorte também muda

Jogo recente de uma fase de grupos que ainda vai a meio mas que merece um lugar no top10. O Porto vem de três épocas más, a equipa é na sua maioria inexperiente e as exibições variam muito, ou seja, o contexto não é favorável. O Porto encontra-se a perder depois de uma má primeira parte e nada parece em vias de mudar devido ao marasmo da equipa portista. No entanto, este é quebrado pelas substituições no minuto 60 e pelo pontapé de Layun, que encontra as redes belgas. Aos 92′, numa falta infantil de um defesa belga, André Silva virou o resultado.
Desde há muito tempo que não sentia nos Dragões força para virar um resultado fora de casa, muito menos na Liga dos Campeões e num jogo confuso e combativo. Penso que esta partida além de equilibrar as contas pode marcar uma viragem na sorte portista e na forma como a procuramos. Veremos se o tempo me dá razão.
9. (2016) Benfica – Porto (2016): O regresso do “porterazo”

As circunstâncias não são as melhores para os portistas: Peseiro mal aqueceu o lugar, o Porto vem de uma derrota caseira com o Arouca, na Taça da Liga não fez melhor que um vexame e do outro lado está um Benfica confiante e até gozão.
Parece a crónica de uma derrota anunciada, e para piorar Mitroglou inaugura o marcador aos 18’. Mas este Porto inconstante também pode guardar algumas surpresas, e Herrera empata o resultado aos 28’. Na segunda parte Aboubakar vira a o jogo mas o que fica deste jogo é a impressionante exibição de Casillas, a fazer lembrar os seus melhores tempos. Esta vitória deu alguma esperança aos portistas e foi um balão de oxigénio na mediocridade que perdurou durante muito tempo. Aplicou-se a velha máxima do futebol português: nem sempre quem está melhor ganha um clássico!
8. (2008) Dinamo de Kiev – Porto (1-2): Lucho gela Kiev

Vida difícil para o FC Porto na fase de grupos da Liga dos Campeões. Depois da vitória na primeira jornada frente ao Fenerbache os Dragões tiveram duas derrotas com o Arsenal e o Dynamo de Kiev, esta última caseira. Para piorar a situação na Liga, tinha vindo de duas derrotas também e a crise era visível.
O Porto joga em Kiev sob um frio cortante e neve. O jogo não está favorável aos azuis e brancos, que perdem fora e complicam muito as contas do apuramento. O Dynamo tem o controlo do jogo e o Porto limita-se a fazer o que pode frente aos ucranianos mais perigosos e com mais ideias. É mais um jogo de marasmo portista mas as substituições de Jesualdo Ferreira deram resultado e num lance de cabeça Rolando iguala o marcador. Mais tarde Emerenko manda ao poste e, contra todas as probabilidades, Hulk lança um contra-ataque que culmina no golo de El Comandante Lucho aos 92’. Foi um suspiro de alívio. Nesse jogo salvámos a Liga dos Campeões e salvámo-nos de entrar numa crise que parecia inevitável!
7. (2003) Belenenses – Porto (1 – 3): A revolta do bicho!

Podia ser apenas mais um jogo mas a história conta-se pelo grito de guerra do nosso capitão Jorge Costa. O facto de um defesa-central, capitão de equipa, marcar dois golos e dar a volta ao marcador já de si é pouco usual; ir à área adversária numa correria para marcar golo é ainda menos. Mas o que torna tudo isto épico é que estas circunstâncias aconteceram depois de o “Bicho” dar um senhor raspananete a toda a equipa no balneário, chegando até a atirar a braçadeira de capitão para o chão.
Um líder dá o exemplo, inspira, e nessa noite Jorge Costa foi mais capitão e líder que nunca. Melhor só num filme de Hollywood. Para sempre gravado na memória; quando voltaremos a ter um líder assim?6. (2002) Porto – Benfica (3-2): Classe portista

Muitos não se lembrarão deste jogo mas foi o primeiro clássico de José Mourinho depois da saída de Otávio Machado. O treinador português tinha feito um bom trabalho no União de Leiria e havia muitas esperanças depositadas nele.
O jogo das Antas não começou bem, com Simão a inaugurar o marcador aos 18 minutos e com uma primeira parte de muita luta. Mas o que recordo é a classe e o talento nos golos portistas: Deco, Alenitchev e Capucho. Jogadas individuais, fintas, chapéus… Três golos que ficaram na memória dos portistas (revejam os golos!) e que garantiram que o destino azul e branco ia mudar sob a batuta do novo treinador. A vitória nesse jogo não garantiu nada melhor que um 3.º lugar mas havia confiança de que algo ia mudar… E mudou!
5. (2013) Porto – Braga (3-1): Nasce o talismã Kelvin

Corre o ano de 2013. Tudo indica que o FC Porto não vai conseguir chegar ao tricampeonato, pois o Benfica encontra-se a poucas vitórias de garantir o título. A esperança não é muita, o plantel não é o melhor e os adeptos olham com desconfiança para Vítor Pereira.
O Sporting de Braga é uma equipa difícil, e nem o golo do empate de James Rodriguez no primeiro tempo consegue descansar os adeptos. A ansiedade é muita a 15 minutos do fim. Vítor Pereira chama Kelvin (um brasileiro com um cabelo engraçado) para entrar para o lugar de Lucho Gonzalez – nada que dê muito entusiasmo aos mais de 30 mil presentes no Dragão. Mal sabem eles que esta substituição começou a forjar o mito que viria a ser este pequeno brasileiro. Antes de dar o campeonato no Dragão contra o Benfica, Kelvin deu o campeonato no Dragão contra o Braga. Marcou dois golos aos 83’ e 86’ com a irreverência e a responsabilidade que só os jovens têm. Assim nascia o mito Kelvin, um jovem que sem se aperceber disso nos deu o campeonato por duas vezes.4. (2011) Porto – Villareal (5-1): Goleada que garantiu a final

O adversário não é fácil mas parece não haver impossíveis para a equipa de Villas-Boas. A pura presença na Liga Europa já parece pequena para as exibições e a classe que o plantel portista tem espalhado pelo relvado em 2010/2011. O contra-ataque dos espanhóis é muitíssimo rápido e o facto de não haver golos na primeira parte resulta do desacerto que ambas as equipas estão a sentir em contra-ponto com o perigo que conseguem causar. O árbitro está quase a apitar para o final da primeira parte quando surge o golo dos Villareal por parte de Cani. É duro sofrer um golo em casa nas competições europeias no final do primeiro tempo; sabe-se que disto resulta uma confiante vantagem para a equipa visitante. No entanto, os segundos 45 minutos ditaram uma história completamente diferente: começaram aos 50’ e acabaram aos 90’ com Falcão. Pelo meio houve Guarín e… Mais Falcão por duas vezes. Quatro tentos do colombiano, que espalhou classe nos relvados do Dragão e chamou (mais) a atenção do mundo do futebol!
O FC Porto goleou e a final estava ao virar da esquina. O que lhes terá dito Villas-boas ao intervalo?3. (2003) Porto – Lázio (4-1): O comboio não para

José Mourinho tinha avisado: tenham cuidado com Claudio Lopéz! O aviso durou seis minutos. Tal como muitas vezes no Porto de Mourinho, a equipa começava a perder mas havia uma certeza de que tudo se iria compor e ao longo do jogo a vitória apareceria. Um golo concedido na Taça UEFA em casa é mais grave e a Lázio de Roma é um osso duro de roer mas esta não é uma equipa qualquer. Os Dragões em 2003 são uma equipa com talento, voluntariosa, disciplinada, combativa, e acima de tudo têm um plano; e que ninguém se intrometa entre eles e o plano de ganhar tudo! Com essa certeza de que tudo se ia cumprir e sem desviar as atenções do objectivo final fizeram o seu jogo, espalharam classe no relvado das Antas e fizeram um dos melhores jogos de que me lembro no antigo estádio! Aos dez minutos já Alenitchev tinha empatado e aos 56’ a goleada era uma garantia, pecando até por escasso, o resultado.
Foi a partir deste jogo que se começou a sentir que se ia fazer história, que era uma afronta esta equipa ficar-se por resultados bons. Algo mais lhes estava destinado. Da Lázio ficam seis minutos; nos restantes 84’ viram os azuis e brancos passear futebol. É um dos jogos dos quais guardo mais carinho e em que o orgulho em ser portista começou a atingir dimensões há muito não atingíveis.
2. (2004) Porto – Manchester United (2-1): Sim, é possível!

Neste jogo começou a formar-se o mito que viria a ser a era de Mourinho no FC Porto. A Taça UEFA tinha sido um feito histórico, todo o “triplete” de 2003 foi algo difícil de alcançar e parecia impossível atingir algo similar, principalmente no ano a seguir. O adversário é o poderoso Manchester United de van Nistelrooy, Scholes e Giggs. As equipas portuguesas raramente conseguem obter bons resultados na Europa, muito menos contra estas equipas historicamente poderosas, mas o plantel do Porto além de muito bom tem novas armas em relação ao ano anterior com o bem amado Benni McCarthy e o irreverente Carlos Alberto. Fortune inaugura o marcador aos 14 minutos mas os portistas não de descompõem, característica que as equipas de Mourinho costumam (ou costumavam?!) ter. O objectivo agora é dar a volta ao marcador, e é nestas situações que os grandes jogadores como Deco, Alenitchev ou McCarthy aparecem. No primeiro golo da reviravolta, o Sul Africano marca de primeira após passe de Alenitchev, e no segundo marca o melhor golo de cabeça que vi no Dragão.
Sobrou Porto para o Manchester United! Estava em vantagem na eliminatória sem precisar de pôr-se em bicos de pés – olhava os adversários nos olhos, fossem eles quais fossem! Um reviravolta história contra um adversário histórico naquela que foi a eliminatória mais incrível dos Dragões nas competições europeias. O golo de Costinha na segunda mão ainda hoje me faz tremer e devido à idade é provavelmente, juntamente com o da vitória em 2003 frente ao Celtic, o golo com que mais vibrei em toda a vida.1. (2013) Porto – Benfica (2-1): De ajoelhar!

Ponderei sobre qual o jogo que mereceria o primeiro lugar das reviravoltas portistas de que tenho memória, e pesando todos os factores pareceu-me que a escolha mais óbvia seria esta!
Faltam duas jornadas para acabar o campeonato, o Benfica está em primeiro e uma vitória portista colocaria os azuis e brancos no topo. O campeonato foi festejado pelos benfiquistas na Madeira frente ao Marítimo mas o jogo contra o Estoril na Luz deixou tudo em aberto. No entanto, os encarnados têm a possibilidade de serem campeões no nosso estádio, na nossa casa… A outra opção seria dramática, um golpe de teatro, a reviravolta na tabela classificativa. Ora, aconteceu! Talvez não tenha sido golpe de teatro mas uma daquelas situações de filme de sábado à tarde em que reviramos os olhos enfadados e exclamamos: “Típico, o herói salvou o dia no último minuto!”.
Lima abriu o marcador para os de Lisboa e deixou a sensação de que o objectivo do campeonato começava a ficar longe. Os portistas não são equipa em que se possa confiar e uma boa reacção não era garantida. A verdade é que os Dragões não reagiram mal ao golo sofrido e Maxi Pereira acabou por marcar um auto-golo depois de jogada pela ala esquerda do ataque portista. Estava tudo empatado mas o jogo parecia demasiado encaixado e os azuis e brancos pareciam estar com poucas ideias para virar a partida a seu favor. As três substituições de Vítor Pereira – que apostou tudo na vitória – foram Defour, Kelvin e Liedson. Daqui dá para perceber que o plantel portista não era muito bom e era inferior ao do Benfica. Mais uma vez lembro a sensação de filme de sábado à tarde: a bomba está quase a detonar, faltam uns meros segundos e o herói tem de cortar um fio. O mais óbvio é o vermelho, está ali bem visível e parece ser essa a escolha certa, mas no último segundo corta o preto, pouco óbvio, e desativa o engenho. Ora a vitória portista surgiu aos 92’ numa jogada em que Liedson, na esquerda, passa a bola a Kelvin e este de fora da área faz golo – o fio mais improvável salvou-nos! Não foi o último jogo do campeonato mas foi o jogo que deu o título. A improbabilidade e as circunstâncias são o que tornam certos momentos únicos e épicos. E naquela noite de 11 de Maio de 2013, num jogo de campeonato que parecia uma final entre dois rivais históricos, as improbabilidades uniram-se e deixaram o estádio a 1000 graus Kelvin. Nem Jesus escapou à fúria que é sensação de golo no último minuto.
Não foi o único a ajoelhar-se; milhões de pessoas agradeceram e maldisseram a todas as divindades, inflamados pela antítese de sensações que é um golo para quem o marca e para quem o sofre.
Foto de Capa: FC Porto










