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Dérbi: A Identidade contra A Adaptação | Sporting CP

Tiago Silva · 7 min

Dérbi: A Identidade contra A Adaptação | Sporting CP
Foto: Liga Portugal

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Como em tudo na vida – o futebol não é exceção – não existe só o lado romântico. Não há só uma forma de ganhar. Não há só uma forma de atacar ou de defender. São inúmeras as ideias que ganham forma e se tornam em estratégias que cada treinador encontra e molda à sua equipa, limando as arestas que ficam por limar porque há sempre maneira de melhorar para procurar atingir a perfeição – se é que isso existe. Mas há uma premissa que se deve manter intacta: A identidade alicerçada à sua ideia de jogo.

A expressão da ideia de jogo de uma equipa deve-se aos princípios vincados do seu treinador, aquilo que sente, a forma como transmite isso à sua equipa e como faz também a equipa acreditar nelas. Rúben Amorim tem sido um exemplo dessa intransigente confiança e que faz a equipa acreditar de forma igualmente cega nas suas ideias, traduzindo-se na forma como o Sporting CP se apresenta em campo e na forma como se exprime através do seu modelo de jogo.

São várias as equipas que tentam adaptar-se quando defrontam a equipa do Sporting CP, para procurar encaixar na estrutura leonina. Não acredito que exista uma forma mágica ou uma resposta certa, acredito sim na hipótese de existirem variadas formas de o fazer e cada treinador e cada equipa define a forma como se sentirá mais confortável sempre de acordo com aquilo em que acredita.

Na minha opinião, as adaptações que temos visto não têm trazido grandes vantagens práticas por vários fatores, mas aqui vou destacar apenas dois:

Rúben Amorim implementou ideias frutíferas no sistema tática por si adotado e os resultados desportivos são a prova disso
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Primeiro, em vez de controlar onde os leões se demonstram mais fortes, acabam por oferecer uma vantagem para a equipa leonina fazer aquilo que mais se sente confortável a fazer: com as linhas subidas e constantes referências individuais, acaba por garantir espaço para explorar a profundidade com a linha defensiva mais subida e fazer os contramovimentos de apoio-rotura coletivos e individuais.

Segundo, com jogos num curto espaço de tempo, as equipas não têm tempo de adquirir dinâmicas e comportamentos quer individuais quer coletivos – diferente defender com linha de quatro ou com linha de cinco – que permitam aplicar na perfeição nesse jogo.

Com isso as equipas acabam por se autocastrar, dando ainda mais conforto a quem trabalha sobre a mesma dinâmica coletiva e individual durante várias semanas e que acreditam veemente naquilo que fazem.

A equipa leonina mantêm-se fiel aos seus princípios, sendo menos flexível e consoante os momentos do jogo e a necessidade do mesmo acaba por alterar as características dos jogadores em função disso.

O Sporting CP não é perfeito nem irá ganhar certamente todos os jogos, mas estará sempre mais perto de o fazer pela forma como se equilibra, controla e gere todos os momentos do jogo e pela confiança que transmite.

Neste artigo pretendo olhar para alguns momentos e detalhes que me captaram a atenção durante o derby e que podem, de certa forma, refletir na forma como o Sporting CP trabalha e se prepara semanalmente.

Sebastián Coates, o Patrão

 

Existem fortes dinâmicas coletivas no sector defensivo leonino – raramente se encontra desequilibrado – conseguindo como um todo executar a linha de cinco, controlar a profundidade, bem coordenados e a perceber bem os indicadores de pressão.

É de destacar a forma de Seba Coates e a importância que cada vez mais vai adquirindo na equipa leonina. Sente-se confortável onde joga e os duelos aéreos e as dobras são quase todas ganhas pelo Uruguaio. Fez novamente um excelente jogo e acabei por selecionar este lance em específico pela forma que demonstra ser um líder dentro de campo e como coordena a linha defensiva. Leitura de jogo excecional que permitiu ao Sporting CP retirar a hipótese do SL Benfica ganhar uma eventual segunda bola.

As bolas paradas

 

Outro aspeto que vai adquirindo cada vez mais importância no futebol moderno é a forma como as equipas preparam os momentos de bola parada. Não creio que o Sporting CP seja exímio neste momento apesar de ter homens para o fazer, mas achei curioso a forma como foi alternando os cantos ofensivos – apesar de procurar com maior foco atacar a zona do primeiro poste.

Já no lado direito do ataque, a equipa mudou a sua configuração e conseguiu criar um lance de perigo iminente desta forma. Como disse existiu um foco específico em atacar o primeiro poste e no vídeo é possível verificar que o Sporting CP desta forma conseguiu aproveitar duas debilidades do SL Benfica no mesmo momento do jogo.

Dinâmicas ofensivas

Muito se diz que o Sporting CP é previsível no futebol que pratica, mas a verdade é que existe muita dificuldade em controlar esses momentos da formação leonina. Existem dinâmicas individuais que dependem sempre do jogador que alinhar na frente de ataque, mas mais do que isso é a forma como as dinâmicas coletivas estão estruturadas e também acabam por se conectar e beneficiar essas mesmas dinâmicas individuais, fazendo os jogadores sentirem-se mais confortáveis. Existe cada vez mais uma maior variabilidade no jogo leonino e os movimentos que faz são muito difíceis de travar.

Rúben Amorim alterou a estrutura ofensiva do Leão e passou a atuar em 2×1 com Nuno Santos e TT na frente de ataque jogando Pote atrás, com muita mobilidade e garantindo superioridade numérica na linha média quando baixava entre linhas – das poucas formas de tentar contrariar as constantes referências homem a homem.

 

O Sporting CP procura a vantagem pela ocupação dos espaços e a vantagem pela criação de espaços. Pote faz o movimento de apoio para criar superioridade numérica na linha média (ocupa o espaço) e dispõe de muito espaço para jogar entre linhas.

O SL Benfica decide procurar essa referência individual para encurtar o espaço entre a sua linha defensiva e a linha média, caindo na armadilha do Sporting CP. É Vertonghen quem sai na pressão a Pote que acaba por retirar assim mais um elemento da linha defensiva gerando ainda mais espaço nas costas para TT e Nuno Santos conseguirem explorar a profundidade (criação de espaços). Estes movimentos de Pote também iam permitindo ligar com os médios de frente para o jogo e virar rapidamente o centro de jogo.

 

Os alas são determinantes nesta versão do Leão. Com Nuno Mendes e Pedro Porro a equipa conta com jogadores velozes, importantes a defender e com capacidade para pressionar, de reagir à perda, mas também – e sobretudo – com grande capacidade para chegar de forma tardia à área adversária e influenciar o momento ofensivo.São as principais formas de garantir amplitude e profundidade neste sistema de Rúben Amorim, mas neste jogo e numa primeira fase de construção, foi possível verificar um posicionamento mais baixo tanto no lado esquerdo como no lado direito.

Mais uma vez a ideia passa por atrair o SL Benfica que procura as referências individuais. Isto torna o campo maior e o Sporting CP procura com os movimentos já identificados anteriormente, explorar a profundidade contra uma defesa com bloco alto e com dificuldade em controlar essa mesma profundidade.

Concentração, foco e intensidade

Parece cliché dizer que o jogo só acaba quando o árbitro apita, mas não há nada mais empírico do que isso. A concentração, o foco e a intensidade – na forma em como a equipa se mantém ligada ao jogo – são fatores determinantes e importantes para o sucesso desta equipa leonina. São muitos os que preferem designar este fator como sendo pura sorte ou a estrelinha de campeão – que faz parte, é certo – mas não é de todo o fator com maior preponderância. O Sporting CP tanto é a equipa que mais golos marca no campeonato nos primeiros quinze minutos das partidas como é também a equipa que mais golos marca nos últimos quinze minutos de jogo. E isso é fruto da exigência e da força mental que a equipa tem neste momento.

 

Momentos antes do golo que garantiu a vitória leonina foi possível observar um lance praticamente idêntico. O SL Benfica nos dois momentos consegue garantir superioridade numérica, mas que nestes dois casos em nada demonstrou ser uma vantagem. Neste lance, Bruno Tabata tem tempo e espaço para decidir, porque Nuno Tavares não força a pressão e coloca mal os apoios – de forma paralela – e estando parado é necessária uma ação reativa e não proativa num espaço tão reduzido. O Sporting CP ganha a segunda bola e através da vantagem temporal, espacial e posicional (relação espaço-tempo-jogador) consegue através de João Palhinha realizar um remate potencialmente perigoso.

 

No momento do golo – e como referi anteriormente – o Sporting CP parte novamente numa situação de inferioridade numérica, mas beneficia de pequenas vantagens em cada momento. Primeiro por Jovane que mesmo num curto espaço de tempo quando ganha a bola encontra-se numa situação de 1×0 com uma vantagem no espaço e no tempo. Jovane procura os duelos procurando gerar uma superioridade qualitativa onde consegue atrair a atenção e marcação de dois adversários. A pressão é passiva e algo descoordenada, permitindo a Jovane fazer o drible e cruzar.

A bola ainda acaba por sobrar para o homem do Sporting CP que estava solto ao segundo poste. Mais uma vez e apesar da vantagem numérica, Nuno Tavares revela as mesmas debilidades que no lance anterior, não fazendo a contenção de forma correta e a abordar o lance de forma passiva permitindo a Porro a superioridade qualitativa para fazer o cruzamento. Matheus Nunes beneficiou da entrada de Palhinha e sentindo-se mais solto começou a chegar mais vezes à área adversária como gosta de fazer. O brasileiro estava bem posicionado conferindo uma vantagem posicional/espacial que juntamente com a vantagem temporal lhe permitiram reagir da melhor maneira e de forma confortável para garantir a vitória dos Leões.

Tiago Silva

Redação Bola na Rede · ver artigos