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O Bola na Rede esteve à conversa com o herói de Alkmaar, Miguel Garcia, e passou em revista a sua carreira, desde os primeiros toques na bola na terra que o viu nascer, Moura, na região do Baixo Alentejo. Seguiu-se a vinda para o Sporting com apenas 14 anos, onde o sonho de ser profissional de futebol foi mais forte do que as saudades de casa. Lançado por Fernando Santos na equipa principal dos leões, fez carreira como lateral direito e foi em Alvalade que ganhou o epíteto de herói que até hoje o acompanha. A gratidão eterna encontrou-a em Olhão e a glória de voltar a uma final europeia surgiu mais a norte, em Braga. Para lá da fronteira, recorda o ambiente escaldante nos estádios da Turquia, a desilusão em Maiorca e a surpresa que foi a India, onde ia de mota sem capacete para os treinos.

– Avançado em Moura, saudades em Lisboa e lateral direito em Toulon –

Bola na Rede [BnR]: Começas a jogar no Moura, clube da tua terra. Como se dá a passagem para a formação do Sporting?

Miguel Garcia [MG]: Iniciei no Moura AC quando tinha nove anos. Já jogava mais nas escolinhas, nós jogávamos lá no pavilhão do Moura com o sr. José Correia, que nos ensinava a passar a bola, a dominar. Mais tarde, quando tinha nove anos, consegui tirar o BI e ir para o Moura AC, e assim foi até aos 14 anos. Com essa idade, fui fazer o torneio interassociações em Lisboa, o Torneio Lopes da Silva. As coisas correram muito bem e acabei por ser convidado para vir para o Sporting. Fiquei lá até aos 24, 10 anos, quatro deles na primeira equipa.

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BnR: Como foi a abordagem do Sporting?

MG: Na altura joguei na Associação Distrital de Beja, o Prof. Alexandre Paiva falou diretamente com o meu treinador e ele falou comigo e com os meus pais. Posteriormente, falámos também com o Moura e acabei por vir para Lisboa um bocadinho contra a vontade da minha mãe, que não queria deixar-me sair tão cedo de casa, principalmente para Lisboa. Mas lembro-me que falámos com tranquilidade e as coisas correram bem.

BnR: Como lidaste com as saudades de casa? Alguma vez pensaste em desistir?

MG: Desistir do futebol não, mas voltar para casa sim (risos). Ao início foi complicado porque Moura é uma cidade pequena em que toda a gente se conhece, tinha bastante liberdade, não tinha horas para chegar a casa e estava sempre na rua com amigos. Quando cheguei a Lisboa, ter que apanhar dois autocarros, metro, acordar às 06h30 para ir para a escola e chegar a casa às 22h…

BnR: Ficaste no centro de estágios desde o início?

MG: Não. Fiquei em casa de uns tios meus e tinha que acordar às 06h30 para ir para a escola em Telheiras. Ou apanhava três autocarros ou dois autocarros e um metro. Depois da escola, tinha o treino ao final do dia e a seguir jantava lá perto do Estádio de Alvalade. Voltava só depois do jantar por isso chegava a casa às 22h. Não estava habituado a essa vida e foi com bastante sacrifício que consegui ultrapassar essa fase, porque inicialmente custou mesmo muito, as saudades da família, dos amigos… o primeiro ano foi muito complicado, chegou a Dezembro e eu queria voltar para Moura. Apesar de jogar e as coisas estarem a correr muito bem, havia outros fatores, a família e os amigos, assim como a cidade. Mas o treinador falou com os meus pais, acabei por ficar e, passado um ano, dois, já estava mais habituado. Também fiz bastantes amigos na escola e colegas de equipa, aí as coisas foram mais tranquilas porque comecei a gostar de estar em Lisboa e de jogar no Sporting.

BnR: Num momento como esse, a que é que te agarras para não desistir?

MG: Naquela idade agarrei-me mais ao facto de o futebol ser a minha paixão, é o que eu gosto de fazer. Não havia desporto nenhum ou outra atividade que me entusiasmasse tanto como o futebol. Quando somos miúdos, o futebol é uma coisa de loucos e lembro-me que, na altura com 14 anos, foi a decisão que eu quis e os meus pais puseram-me à vontade e disseram-me “Tu é que sabes. Se queres ir vais, mas atenção, nós não estamos lá”. Fui eu que tomei essa decisão e lembro-me perfeitamente que os meus pais, juntamente com os meus treinadores na altura, Leonel Pontes e Paulo Leitão, convenceram-me e disseram-me que eu tinha muita qualidade, que ia ter um futuro pela frente e que era um desperdício voltar para Moura e não ficar em Lisboa. Eu comecei a interiorizar isso, sempre fui apaixonado por futebol e acabei por conseguir inverter a situação de não querer estar em Lisboa para gostar de estar aqui.

BnR: Quem foram as tuas referências quando eras mais novo?

MG: Em miúdo, os meus ídolos eram o Figo e o Van Basten. Lembro-me de dar uma entrevista ao jornal de Moura, o jornal “A Planície”, e dizer isso. Não me recordo depois mais tarde, quando fui para o Sporting, quem eram os meus ídolos. Gostava muito do Luís Figo porque jogava no Sporting e porque era um grande jogador.

BnR: Apoiavas algum clube em miúdo?

MG: O Sporting.

BnR: Jogaste sempre a lateral direito?

MG: Eu nunca joguei a lateral direito na formação. Eu no Moura jogava a avançado, dos nove aos 11. Depois baixei para médio centro e fui para o Sporting nessa posição, a 8 ou a 6. Fiz a minha formação toda a trinco, médio centro, pouca gente sabe disto. Mesmo nas seleções, desde os sub-17 aos sub-20 joguei sempre a médio defensivo. Eu comecei a joga a lateral direito no Torneio de Toulon, em 2003, acho que foi a última vez que Portugal ganhou.

Miguel Garcia jogou a trinco na formação do Sporting. Nesta fotografia está com a braçadeira de capitão
Fonte: Arquivo pessoal Miguel Garcia

BnR: O que se passou exatamente?

MG: O nosso lateral direito, o Baptista, teve uma lesão no joelho e não havia mais ninguém. O Rui Caçador veio falar comigo “Epá Miguel, tens que me ajudar, não tenho mais ninguém. De certeza que fazes bem essa função porque és agressivo, és super profissional, tens que me ajudar”. Eu disse “Ok mister, tudo bem. Eu quero é jogar”. Joguei, 3-0 à Inglaterra, 3-0 à Argentina, 3-1 à Itália na final. Fizemos um torneio espetacular e foi assim que eu consegui uma oportunidade na equipa principal do Sporting, porque na altura não havia laterais direitos, tinham ido buscar o Mário Sérgio mas faltava um. Foi assim que eu comecei a jogar a lateral direito.

BnR: O que fizeste com o primeiro ordenado?

MG: Não me recordo muito bem… Quando era júnior ganhava 60 contos [300 euros] e não tinha dinheiro para tirar a carta de condução, até foi o Gisvi que me emprestou o dinheiro. A carta custou-me cerca de 500 euros e depois paguei-lhe. Eu não era muito esbanjador, também não ganhava muito. Comprava roupa de vez em quando, normalmente era no vestuário que eu gastava mais dinheiro.

BnR: Jogaste na formação com Cristiano Ronaldo e Quaresma, nessa altura já estavam muito acima dos demais?

MG: Lembro-me quando eu cheguei ao Sporting com 14 anos, o Quaresma estava na minha equipa, o Ronaldo estava nos infantis ainda. Lembro-me que o Quaresma já desequilibrava bastante, era ele e o João Paiva que marcavam os golos todos da nossa equipa. Eu fazia muito a comparação do Moura com o Sporting, quando entrava nos jogos pensava assim “Tenho o Quaresma, tenho o João Paiva, de certeza que vamos ganhar” (risos). Mais tarde, quando passei para júnior já apanhei o Ronaldo, ele era juvenil mas jogava nos juniores já, e voltei a ter o mesmo pensamento “Temos o Ronaldo, estamos tranquilos”.

BnR: Algum episódio deles que recordes em concreto?

MG: Lembro-me perfeitamente que um dia estávamos a perder um jogo 1-0, estava mesmo a acabar. Tivemos dois livres à entrada da área, o Ronaldo marcou os dois golos e acabámos por ganhar 2-1. Na altura já se notava a qualidade. Sabíamos que tanto o Quaresma como o Ronaldo iam chegar a jogadores profissionais e à primeira equipa certamente, mas jogar em grandes clubes europeus como eles jogaram se calhar ninguém tinha essa noção.

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