– Do Brasil para o Estoril –

“Deco disse-me que o dispensaram do Barcelona porque ele e o Ronaldinho estavam levando o Messi para as baladas”

BnR: Gostas de Carmen Miranda?

J: De quem?

BnR: Carmen Miranda.

J: Aquela cantora brasileira?

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BnR: Essa. O que é que o baiano tinha para despertar a atenção do São Caetano?

J: A minha vida foi top! Há tempos ouvi a entrevista de um famoso… acho que foi do Gustavo Lima. É um cantor brasileiro.

BnR: Conheço.

J: Ele fala que a vida não é sorte, é coisa de Deus mesmo. Eu sou lá do interior, longe para caramba, e vim parar à Suíça, depois de já ter estado em Portugal… isto é um milagre. Não sei o que é que a Bahia tem para me ter levado por esse mundão aí fora.

BnR: És natural de Campo Formoso, apelidado “Terra das Esmeraldas”. Como observas o lapidar cada vez mais precoce dos jovens diamantes brasileiros?

J: Observo com alguma negatividade. O brasileiro já nasce com um dom, não é? Se tem esse dom do drible, da ginga, e vê isso perder-se pela tática, por comportamentos que o treinador quer… é triste, perde-se muito com essa mudança. O futebol atual é mecânico, não tem mais aqueles jogadores que pegam na bola e vão para cima; hoje, se você faz isso, o treinador tira você do time “Ah, tem de ser obediente taticamente”. Lógico que você não vai sempre estar brincando em campo, mas há partes do jogo em que tem de fazer algumas firulas, e o futebol perdeu isso.

BnR: Globetrotter dos vários campeonatos do teu país, vestes oito camisolas diferentes em apenas cinco anos. Esta instabilidade atrasou a tua afirmação?

J: Acho que não, porque quando subi a profissional no São Caetano tinha 17 anos. Fui para o Guaratinguetá com 18 anos e aí joguei o Campeonato Paulista, em que fizemos uma boa campanha e fui um dos destaques desse certame, que é dos mais fortes dos estados do Brasil. Seguiu-se o Palmeiras, com o melhor treinador brasileiro daquela altura e um dos melhores do mundo.

BnR: Vanderlei Luxemburgo.

J: Exatamente! Com 18 anos, entrar no time do Palmeiras, um clube top dos tops, e você dar de caras com jogadores como Denílson, Edmílson, Marcos… possa! Foi uma boa passagem – estive lá dois anos – e nem é que me tenha perdido muito a nível de estabilidade, mas acabei por ir para o [Grêmio] Barueri. Depois fui para Portugal.

BnR: Ainda no Brasil, dividiste balneário com inúmeras caras conhecidas do futebol português, como Deco, Maurício ou Carlos Eduardo. Tens alguma história digna de ser contada com estes jogadores?

J: Ui, agora assim… quando me fazem estas perguntas, é sempre meio complicado, porque a gente tenta lembrar-se (…) escutei uma história do Deco, sobre a saída dele e do Ronaldinho Gaúcho do Barcelona… estavam levando o Messi para o mau caminho. Ele contava que os dispensaram do Barcelona porque estavam levando o menino para as baladas. Esses caras…

BnR: Falámos há pouco que, durante essa odisseia canarinha, tiveste uma passagem de meia época na Segunda Liga Portuguesa, precisamente no Estoril, onde brilhaste um ano depois. Foste tu quem quis voltar?

J: Eu tinha trabalhado com o Marco [Silva] na primeira passagem, e sou um cara que brinca quando tem de brincar, mas que respeita muito os jogadores mais velhos; esta minha forma de estar foi fundamental para que, quando ele assumiu o comando técnico do Estoril, me fizesse o convite para voltar. Como eu era jogador da Traffic, facilitou bastante e não pensei duas vezes: trabalhar com um cara bacana e voltar a Portugal de novo, para jogar na primeira divisão.

BnR: Como explicas o sucesso imediato do Marco Silva?

J: Hoje em dia, os treinadores são muito de escola, sabe? São poucos os que jogaram, que tiveram a experiência de estar lá dentro, e o Marco tinha acabado de se retirar. Ele sabe como os jogadores pensam, quando estão cansados, o que tem de fazer e falar para motivar o balneário… isso facilita bastante. O Estoril foi um passo fundamental na sua carreira – classificámo-nos para a Liga Europa no primeiro ano – e foi logo para o Sporting.

BnR: Peço-te também uma opinião sobre João Pedro Sousa, à época treinador adjunto na equipa técnica de Marco Silva, e hoje uma das revelações da Primeira Liga.

J: Fiquei muito feliz por ter assumido o Famalicão e começar uma nova etapa! Era um treinador muito bom, fazia mais treino defensivo e sabia explicar muito bem os posicionamentos. Os vários anos com o Marco, em outros tantos clubes, permitiram-lhe ir adquirindo conhecimento. Começou muito bem o campeonato, depois deu uma baixada, mas agora estão voltando de novo à melhor forma.

BnR: Estão, neste momento, em posição europeia.

J: Eu acompanho! Até falei com ele no início da época “Mister, me leva para aí!”.

BnR: Qual foi a resposta?

J: “Estás sem jogar, Jefferson? Não sabia, achei que estavas no Médio Oriente ou assim. Porra, contratámos um lateral-esquerdo nem há três dias! Se me tivesses ligado antes…”.