– Não há duas sem três: Marco Silva outra vez –

“Desenterraram os defuntos… o Benfica já estava morto”

BnR: Quando soubeste que voltarias a ser orientado por Marco Silva?

J: Quando começou a aparecer nos jornais e na televisão. Fiquei feliz para caramba! Embora tivesse ficado triste pela saída do Leonardo Jardim porque, se ele tem continuado, acho que o Sporting ia muito longe.

BnR: Como é que o balneário reagiu à entrada do novo treinador?

J: Bem! Ele fez uma excelente campanha no Estoril: foi campeão na segunda divisão e, na Primeira Liga, qualificou-os para a Liga Europa. Era um treinador jovem, que queria mostrar-se, e foi ótimo para o plantel.

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BnR: Que diferenças encontraste do Marco do Estoril para o Marco do Sporting?

J: Algumas, porque só quem continua na mesmíssima são os treinadores ultrapassados. Ele levou alguns métodos que já usava no Estoril, mas acrescentou mais coisas. Deve ter acontecido alguma coisa para não ter chegado mais longe no Sporting (…) não sei o quê.

BnR: Em algum momento pensaste que, jogando a Champions e sendo indiscutível num clube grande, a seleção brasileira estava ao teu alcance?

J: Pensei sempre, precisamente por estar a jogar num grande clube, a fazer golos… o sonho sempre existe! Tanto a seleção brasileira, quanto a portuguesa.

BnR: A seleção portuguesa era uma opção?

J: Poderia ter sido.

BnR: Consegues descrever o golo que marcaste ao Benfica no derby dessa época em Alvalade?

J: [Pausa para pensar] Lembro, lembro! Jogada do João Mário, ele leva a bola, cruzou e eu vim de trás e fiz golo.

BnR: Minutos depois, em cima do apito final, Jardel marcou o golo do empate. Foi o abalo anímico desse resultado que emperrou a equipa para o que restava do campeonato?

J: Também… o jogo já estava quase ganho e no finalzinho… quando me lembro, quase que dá vontade de (…) nossa! São esses jogos que decidem campeonatos. Se ganhássemos, era difícil apanharem-nos, mas houve vários fatores que não nos deixaram chegar ao título.

BnR: A época culmina com a conquista da Taça de Portugal frente ao Sporting de Braga. Como é que, de dentro, viveste aquele jogo?

J: Vou-te falar verdade: eu estava desacreditado, já; não que jogasse a toalha ao chão, mas com um jogador a menos e com o calor que estava… nada dava certo! Foi um milagre o que aconteceu! No intervalo, o Marco disse-nos que era possível, que não podíamos desistir, que éramos um clube grande “Já viram os jogadores que temos, jogadores de seleção? Vamos tentar marcar um e o segundo há-de chegar”. Foi um jogo que nunca vou esquecer. Tinha cãibras em todo o lado, mas no final, quando fui comemorar, nem lembrei delas mais!

Fonte: Facebook de Jefferson

BnR: A fazer lembrar outros tempos, o verão de 2015 foi escaldante e Jorge Jesus é apresentado como treinador do Sporting. Os jogadores perceberam de imediato o impacto desta mudança?

J: Antes dele chegar, já tinha um impacto danado! Sabíamos que ia começar uma nova etapa e talvez pudéssemos chegar ao título.

BnR: O que é que os jogadores de SL Benfica e Sporting CP comentavam entre si nessa fase?

J: Brincadeiras, e é saudável. Às vezes apostávamos algumas coisas, como jantares e passagens de avião – quem perdesse, tinha de pagar a de quem ganhasse. Estas brincadeiras têm de existir, mas hoje em dias os adeptos confundem as coisas; acham que está falando com o rival, que está de “corpo mole” e não quer jogar.

BnR: Em que é que Jesus era diferente?

J: Pelo jeito de cobrar. Se não fosse do jeito dele, era f*da. Por um passo se perde e por um passo se ganha. Lembro-me de um episódio com um jogador – nem vou falar o nome -, em que ele dizia “Olha, estás a pôr o adversário em jogo. Com esse pé, se ganha ou se perde um campeonato”, dizia. “Não, mister! Tranquilo”, respondia-lhe o jogador em questão. Num jogo contra um clube grande, esse jogador deixou o adversário em posição legal por um passo e, quando vimos, quebrou nossas pernas; no balneário o mister Jorge f*deu o cara.

BnR: A desilusão por ter deixado escapar um campeonato que parecia estar nas mãos do Sporting CP condicionou psicologicamente a equipa na época seguinte?

J: Acho que não. Se não me engano, antes do derby em que perdemos com o golo do Mitroglou, estávamos com nove ou dez pontos de vantagem sobre o Benfica. Falaram muito fora de campo “Já ganhámos, não pegam a gente mais”.

BnR: A quem te referes?

J: À estrutura. Desenterraram os defuntos… o Benfica já estava morto. Tanto falaram que os ressuscitaram. A juntar a isso, jogos até aos 90´e tal, penaltis, golos em fora-de-jogo… depois houve o jogo de Alvalade, em que, infelizmente, o Bryan [Ruiz] falhou aquela bola. A partir daí, ganhámos todos os jogos até ao final, mas o Benfica também. No ano seguinte, ainda estava nas nossas cabeças que podíamos ter sido campeões e havia ainda mais pressão.