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De Lugano, recebe-nos com um “fala, fera”, convidando-nos a juntar-nos à alcateia, ou não estivéssemos a falar com um leão. Natural da “Terra das Esmeraldas”, no coração da Bahia, fez-nos palpitar por voltar a vê-lo jogar e a manejar a bola como se de uma pedra preciosa se tratasse. Do Brasil, onde Deco lhe revelou o motivo da saída do Barcelona, a Portugal, país no qual conheceu o sabor agridoce da nossa gastronomia futebolística, pouco ficou por dizer. Na Suíça, a ocasião fez o ladrão e tem roubado a atenção dos que desconheciam o seu talento, apesar de “ainda não ter saído aquela banana”, fruto de quase um ano parado. Que se levantem as cortinas, pois o palco do Bola na Rede é de Jefferson Nascimento!
Nota do autor: por opção editorial, a entrevista manteve parte da variante da língua portuguesa português brasileiro.
– Muda de vida se tu não vives satisfeito –
“Foi uma sacanagem o que me fizeram no Sporting”
[A entrevista foi realizada a 16 de julho, um dia após o clássico que opôs FC Porto a Sporting]
Bola na RedeViste o jogo, ontem?
Jefferson: Cara, vi pouco. Fui vendo a primeira parte, mas depois deu um problema no meu telemóvel e o site não estava dando.
BnR: Horas antes tiveste jogo contra o Thun.
J: Exato, mas não joguei.
BnR: Eu sei. Empataram 1-1.
J: Nossa! Foi um resultado muito ruim para a gente…
BnR: Porque assinaste pelo Lugano?
J: A escolha pelo Lugano foi porque aconteceram várias situações que eu acho que todo o mundo sabe (…) a minha saída do Sporting foi um pouco turbulenta.

BnR: Já lá vamos.
J: E surgiu o Lugano. Surgiram também propostas para voltar para o Brasil.
BnR: Do Vasco da Gama e do Botafogo?
J: Fiquei a saber que sim.
BnR: O Professor Jesualdo também te queria levar para o Santos?
J: Sim. No entanto, com a pandemia, tudo parou; o Lugano procurou-me e fez o convite. Lógico que não ia deixar passar esta oportunidade, de voltar ao mercado de novo. Os clubes achavam que eu estava machucado e vir para a Suíça foi bom para mim, porque voltei a treinar em equipa e a impulsionar novamente o meu futebol.
BnR: O motivo pelo qual estiveste tanto tempo parado foi por pensarem que estavas lesionado?
J: Sim, nunca foi por opção minha. Tanto que, quando saí do Sporting, não tive a malícia de perceber que foi uma sacanagem o que me fizeram: quando rescindi, foi depois do dia 31 de agosto, quando a janela fecha para todo o mundo, praticamente. Eu achava que podia ser inscrito em qualquer lado, por ser um jogador livre; foi falha minha e má-fé deles. Foram muitos anos a dar o meu melhor pelo clube e podiam ter-me dito algo do género “Olhe, você vai ficar sem jogar até dezembro, então pense bem”, mas não houve isso.
BnR: Da tua parte havia disponibilidade para continuar no Sporting até dezembro?
J: Sim, tinha mais um ano de contrato!
BnR: Já recuperaste a melhor forma?
J: A gente nunca está a meio, sempre quer dar mais! Tenho de saber gerir o esforço, porque um ano sem jogar não é fácil. O corpo já estava desabituado, então treino muito forte, jogo quarta-feira e domingo. Com certeza vou acabar a época em grande e o velho Jefferson está de volta.
BnR: É a tua primeira experiência num país não lusófono. Como tem corrido?
J: Está sendo top! Uma experiência nova e muito mais positiva do que pensei por, aqui, o pessoal falar italiano; dá para entender algumas coisas e, se todos os dias der uma estudada e conviver com as pessoas, aprende-se mais rápido. Se fosse alemão… estava perdido.
BnR: Chegaste à Suíça em pleno período de pandemia.
J: Tomamos cuidado, na medida do possível. Usamos máscara quando vamos ao supermercado e a outros lugares fechados, mas a galera aqui (…) os cafés estão todos lotados, o lago e o centro estão sempre cheios… o pessoal está meio tranquilo em relação ao coronavírus.
BnR: Já te reconhecem na rua?
J: É engraçado perguntares isso porque, há dias, estava sentado no café e veio um português: “Então, Jefferson! O que está a fazer por aqui? Está perdido?”. “Vim para cá jogar”, disse-lhe. “Então boa sorte, sou sportinguista”. Alguns brasileiros também me reconhecem e até os próprios suíços dizem “Aquele jogador do Lugano, bom jogador”. É bom voltar à atividade, ser reconhecido e não perder a alegria de jogar futebol.
– Do Brasil para o Estoril –
“Deco disse-me que o dispensaram do Barcelona porque ele e o Ronaldinho estavam levando o Messi para as baladas”
BnR: Gostas de Carmen Miranda?
J: De quem?
BnR: Carmen Miranda.
J: Aquela cantora brasileira?
BnR: Essa. O que é que o baiano tinha para despertar a atenção do São Caetano?
J: A minha vida foi top! Há tempos ouvi a entrevista de um famoso… acho que foi do Gustavo Lima. É um cantor brasileiro.
BnR: Conheço.
J: Ele fala que a vida não é sorte, é coisa de Deus mesmo. Eu sou lá do interior, longe para caramba, e vim parar à Suíça, depois de já ter estado em Portugal… isto é um milagre. Não sei o que é que a Bahia tem para me ter levado por esse mundão aí fora.
BnR: És natural de Campo Formoso, apelidado “Terra das Esmeraldas”. Como observas o lapidar cada vez mais precoce dos jovens diamantes brasileiros?
J: Observo com alguma negatividade. O brasileiro já nasce com um dom, não é? Se tem esse dom do drible, da ginga, e vê isso perder-se pela tática, por comportamentos que o treinador quer… é triste, perde-se muito com essa mudança. O futebol atual é mecânico, não tem mais aqueles jogadores que pegam na bola e vão para cima; hoje, se você faz isso, o treinador tira você do time “Ah, tem de ser obediente taticamente”. Lógico que você não vai sempre estar brincando em campo, mas há partes do jogo em que tem de fazer algumas firulas, e o futebol perdeu isso.
BnR: Globetrotter dos vários campeonatos do teu país, vestes oito camisolas diferentes em apenas cinco anos. Esta instabilidade atrasou a tua afirmação?
J: Acho que não, porque quando subi a profissional no São Caetano tinha 17 anos. Fui para o Guaratinguetá com 18 anos e aí joguei o Campeonato Paulista, em que fizemos uma boa campanha e fui um dos destaques desse certame, que é dos mais fortes dos estados do Brasil. Seguiu-se o Palmeiras, com o melhor treinador brasileiro daquela altura e um dos melhores do mundo.
BnR: Vanderlei Luxemburgo.
J: Exatamente! Com 18 anos, entrar no time do Palmeiras, um clube top dos tops, e você dar de caras com jogadores como Denílson, Edmílson, Marcos… possa! Foi uma boa passagem – estive lá dois anos – e nem é que me tenha perdido muito a nível de estabilidade, mas acabei por ir para o [Grêmio] Barueri. Depois fui para Portugal.
BnR: Ainda no Brasil, dividiste balneário com inúmeras caras conhecidas do futebol português, como Deco, Maurício ou Carlos Eduardo. Tens alguma história digna de ser contada com estes jogadores?
J: Ui, agora assim… quando me fazem estas perguntas, é sempre meio complicado, porque a gente tenta lembrar-se (…) escutei uma história do Deco, sobre a saída dele e do Ronaldinho Gaúcho do Barcelona… estavam levando o Messi para o mau caminho. Ele contava que os dispensaram do Barcelona porque estavam levando o menino para as baladas. Esses caras…
BnR: Falámos há pouco que, durante essa odisseia canarinha, tiveste uma passagem de meia época na Segunda Liga Portuguesa, precisamente no Estoril, onde brilhaste um ano depois. Foste tu quem quis voltar?
J: Eu tinha trabalhado com o Marco [Silva] na primeira passagem, e sou um cara que brinca quando tem de brincar, mas que respeita muito os jogadores mais velhos; esta minha forma de estar foi fundamental para que, quando ele assumiu o comando técnico do Estoril, me fizesse o convite para voltar. Como eu era jogador da Traffic, facilitou bastante e não pensei duas vezes: trabalhar com um cara bacana e voltar a Portugal de novo, para jogar na primeira divisão.
BnR: Como explicas o sucesso imediato do Marco Silva?
J: Hoje em dia, os treinadores são muito de escola, sabe? São poucos os que jogaram, que tiveram a experiência de estar lá dentro, e o Marco tinha acabado de se retirar. Ele sabe como os jogadores pensam, quando estão cansados, o que tem de fazer e falar para motivar o balneário… isso facilita bastante. O Estoril foi um passo fundamental na sua carreira – classificámo-nos para a Liga Europa no primeiro ano – e foi logo para o Sporting.
BnR: Peço-te também uma opinião sobre João Pedro Sousa, à época treinador adjunto na equipa técnica de Marco Silva, e hoje uma das revelações da Primeira Liga.
J: Fiquei muito feliz por ter assumido o Famalicão e começar uma nova etapa! Era um treinador muito bom, fazia mais treino defensivo e sabia explicar muito bem os posicionamentos. Os vários anos com o Marco, em outros tantos clubes, permitiram-lhe ir adquirindo conhecimento. Começou muito bem o campeonato, depois deu uma baixada, mas agora estão voltando de novo à melhor forma.
BnR: Estão, neste momento, em posição europeia.
J: Eu acompanho! Até falei com ele no início da época “Mister, me leva para aí!”.
BnR: Qual foi a resposta?
J: “Estás sem jogar, Jefferson? Não sabia, achei que estavas no Médio Oriente ou assim. Porra, contratámos um lateral-esquerdo nem há três dias! Se me tivesses ligado antes…”.
– Alvaláxia –
“Quando vi o William pela primeira vez, pensei “Ele não é jogador”
BnR: Quando pensas em Sporting Clube de Portugal, qual é a primeira imagem que te ocorre?
J: Imagens de alegria, de felicidade e de prazer em ter representado o clube. Para mim, o Sporting CP é tudo!
BnR: Chegaste a Alvalade na temporada 2013/2014, após um período de instabilidade diretiva, com repercussões financeiras e desportivas, mas conhecendo de antemão a situação pela qual o clube passava. O que te levou a aceitar esse desafio?
J: Primeiramente, sempre gostei do Estádio de Alvalade, dos adeptos… eu via os jogos na televisão e o estádio estava sempre lotado; este fator foi fundamental na minha decisão. Segundo, por ser um clube grande, que briga por títulos, que joga a Champions League e a Liga Europa e que está no top mundial. Quando recebi o convite, aceitei na hora.
BnR: Tinhas propostas para sair para outro dos três grandes?
J: Segundo sei, acho que tinha. Não posso dizer que tenho a certeza, porque não tive as propostas em mãos, mas disseram-me que sim. De qualquer forma, na altura, a minha decisão de ir para o Sporting não ia mudar.
BnR: Vou referir Bruno de Carvalho e Leonardo Jardim por serem a face visível do novo projeto desportivo do clube. O que é que Presidente e treinador pediram ao grupo no início da época?
J: Por se tratar de um projeto novo, o clube não tinha a pressão de ser campeão. No balneário comentávamos que queríamos lutar por algo grande, por chegar ao topo; se fôssemos campeões, perfeito. Mas o principal foco do grupo era fazer com o que os adeptos voltassem a ter confiança em nós, ganhando jogos.
[Jefferson prossegue]
J: Tanto que nessa época, você sabe o que aconteceu: o Sporting não foi campeão porque eles não deixaram.
BnR: Quem são “eles”?
J: Não sei, nem quero saber. Não existem nomes ou pessoas… o futebol hoje em dia é complicado.
BnR: A partir de que momento a conquista do campeonato deixou de ser um sonho para tornar-se um objetivo?
J: Logicamente que houve uma altura em que começámos a ver essa realidade mais perto. Com um treinador com uma filosofia espetacular e com os jogos que fazíamos, começámos a dizer “Temos condições! Vamos dar mais e mais, porque somos capazes! Somos um clube grande e os caras têm que nos respeitar!”.

BnR: Se tivesses de descrever a liderança de Leonardo Jardim, como o farias?
J: Espetacular! Com ele, não importava se era o Jefferson ou o Ronaldo: jogou bem, jogou; senão, vai para o banco. Ele entrava no balneário e tinha o grupo na mão: brincava, mas sabia tirar o melhor de cada um.
BnR: Surpreendeu-te a qualidade de jogadores que, até então, andavam arredados do nosso campeonato, casos de William Carvalho, Fredy Montero ou Islam Slimani?
J: [Jefferson esboça um enorme sorriso] Quando o Slimani chegou ao Sporting, eu disse “Meu Deus, onde é que foram desencantar este jogador? P*ta que pariu! Como é possível? Precisamos de ganhar títulos e trazem esse cara, que nem sabe dominar uma bola”. Passava-lhe uma bola e batia-lhe na canela [risos]. Mas quando estava na área… golos! Corria, pressionava… com o passar do tempo foi melhorando e depois toda a gente sabe no jogador que ele se tornou. Costumo dizer que fui eu quem o deixou rico.
Quando vi o William pela primeira vez, pensei “Esse não é jogador. Com os calções lá bem em baixo da bunda, com a meio abaixo dos gémeos…”, mas quando pegava a bola (…) uma qualidade! Via-se que ia chegar longe. Às vezes até lhe dizia “Mano, com essa qualidade toda, você não pode andar com os calções em baixo! Puxa as meias para cima! Os adversários vão começar a respeitar-te!”.
O Fredy… bem, o Fredy toda a gente via que ele tinha uma qualidade com a bola nos pés… sabia jogar, finalizava bem – de cabeça, inclusive – e inteligente para caramba! Uma pessoa fantástica!
BnR: Ainda a procissão ia no adro e o excelente início de época despertou a cobiça de vários clubes europeus no teu concurso. Estiveste perto de trocar o Sporting pelo Sevilha em dezembro desse ano?
J: Não foi só o Sevilha; vários clubes me abordaram, mas nunca fui de entrar nessas brigas. Não sei se fiz bem, porque, se calhar, poderia estar numa melhor situação atualmente – não que esteja ruim, mas poderia estar num patamar muito acima. Quando ficava sabendo dessas propostas, também não tinha como ir atrás, porque é uma decisão do clube: podem oferecer 100 milhões, mas se o presidente não quiser, não há negocio.
– Não há duas sem três: Marco Silva outra vez –
“Desenterraram os defuntos… o Benfica já estava morto”
BnR: Quando soubeste que voltarias a ser orientado por Marco Silva?
J: Quando começou a aparecer nos jornais e na televisão. Fiquei feliz para caramba! Embora tivesse ficado triste pela saída do Leonardo Jardim porque, se ele tem continuado, acho que o Sporting ia muito longe.
BnR: Como é que o balneário reagiu à entrada do novo treinador?
J: Bem! Ele fez uma excelente campanha no Estoril: foi campeão na segunda divisão e, na Primeira Liga, qualificou-os para a Liga Europa. Era um treinador jovem, que queria mostrar-se, e foi ótimo para o plantel.
BnR: Que diferenças encontraste do Marco do Estoril para o Marco do Sporting?
J: Algumas, porque só quem continua na mesmíssima são os treinadores ultrapassados. Ele levou alguns métodos que já usava no Estoril, mas acrescentou mais coisas. Deve ter acontecido alguma coisa para não ter chegado mais longe no Sporting (…) não sei o quê.
BnR: Em algum momento pensaste que, jogando a Champions e sendo indiscutível num clube grande, a seleção brasileira estava ao teu alcance?
J: Pensei sempre, precisamente por estar a jogar num grande clube, a fazer golos… o sonho sempre existe! Tanto a seleção brasileira, quanto a portuguesa.
BnR: A seleção portuguesa era uma opção?
J: Poderia ter sido.
BnR: Consegues descrever o golo que marcaste ao Benfica no derby dessa época em Alvalade?
J: [Pausa para pensar] Lembro, lembro! Jogada do João Mário, ele leva a bola, cruzou e eu vim de trás e fiz golo.
BnR: Minutos depois, em cima do apito final, Jardel marcou o golo do empate. Foi o abalo anímico desse resultado que emperrou a equipa para o que restava do campeonato?
J: Também… o jogo já estava quase ganho e no finalzinho… quando me lembro, quase que dá vontade de (…) nossa! São esses jogos que decidem campeonatos. Se ganhássemos, era difícil apanharem-nos, mas houve vários fatores que não nos deixaram chegar ao título.
BnR: A época culmina com a conquista da Taça de Portugal frente ao Sporting de Braga. Como é que, de dentro, viveste aquele jogo?
J: Vou-te falar verdade: eu estava desacreditado, já; não que jogasse a toalha ao chão, mas com um jogador a menos e com o calor que estava… nada dava certo! Foi um milagre o que aconteceu! No intervalo, o Marco disse-nos que era possível, que não podíamos desistir, que éramos um clube grande “Já viram os jogadores que temos, jogadores de seleção? Vamos tentar marcar um e o segundo há-de chegar”. Foi um jogo que nunca vou esquecer. Tinha cãibras em todo o lado, mas no final, quando fui comemorar, nem lembrei delas mais!

BnR: A fazer lembrar outros tempos, o verão de 2015 foi escaldante e Jorge Jesus é apresentado como treinador do Sporting. Os jogadores perceberam de imediato o impacto desta mudança?
J: Antes dele chegar, já tinha um impacto danado! Sabíamos que ia começar uma nova etapa e talvez pudéssemos chegar ao título.
BnR: O que é que os jogadores de SL Benfica e Sporting CP comentavam entre si nessa fase?
J: Brincadeiras, e é saudável. Às vezes apostávamos algumas coisas, como jantares e passagens de avião – quem perdesse, tinha de pagar a de quem ganhasse. Estas brincadeiras têm de existir, mas hoje em dias os adeptos confundem as coisas; acham que está falando com o rival, que está de “corpo mole” e não quer jogar.
BnR: Em que é que Jesus era diferente?
J: Pelo jeito de cobrar. Se não fosse do jeito dele, era f*da. Por um passo se perde e por um passo se ganha. Lembro-me de um episódio com um jogador – nem vou falar o nome -, em que ele dizia “Olha, estás a pôr o adversário em jogo. Com esse pé, se ganha ou se perde um campeonato”, dizia. “Não, mister! Tranquilo”, respondia-lhe o jogador em questão. Num jogo contra um clube grande, esse jogador deixou o adversário em posição legal por um passo e, quando vimos, quebrou nossas pernas; no balneário o mister Jorge f*deu o cara.
BnR: A desilusão por ter deixado escapar um campeonato que parecia estar nas mãos do Sporting CP condicionou psicologicamente a equipa na época seguinte?
J: Acho que não. Se não me engano, antes do derby em que perdemos com o golo do Mitroglou, estávamos com nove ou dez pontos de vantagem sobre o Benfica. Falaram muito fora de campo “Já ganhámos, não pegam a gente mais”.
BnR: A quem te referes?
J: À estrutura. Desenterraram os defuntos… o Benfica já estava morto. Tanto falaram que os ressuscitaram. A juntar a isso, jogos até aos 90´e tal, penaltis, golos em fora-de-jogo… depois houve o jogo de Alvalade, em que, infelizmente, o Bryan [Ruiz] falhou aquela bola. A partir daí, ganhámos todos os jogos até ao final, mas o Benfica também. No ano seguinte, ainda estava nas nossas cabeças que podíamos ter sido campeões e havia ainda mais pressão.
– Guerreiro no Minho –
“O Braga não deixa a desejar em nada em relação ao Sporting”
BnR: Em 2017/2018, acabas por ser emprestado ao Sporting de Braga, fazendo parte do negócio que levou Rodrigo Battaglia para Alvalade. Agradou-te esta cedência?
J: Sim, também foi uma decisão minha. O António Salvador ligou-me e eu aceitei logo, porque precisava de jogar. No segundo ano com Jorge Jesus, fiz muito menos jogos (…) como é que posso dizer isto? Houve outras situações das quais só eu tenho conhecimento… mas que também aconteceram com outros jogadores. Então fui para um time bom, com um bom treinador – que também me ligou para me convencer – e fui muito feliz em Braga.
BnR: Acabas por fazer quase 40 jogos, naquela que foi a tua temporada mais profícua. Querias ter continuado em Braga?
J: Gostava muito, porque tinha feito uma excelente época, em que batemos diversos recordes. O Abel perguntou-me se gostava de continuar, eu disse-lhe que sim e o António Salvador fez uma proposta ao Sporting, mas não se concretizou e voltei. Quando cheguei, disse ao José Peseiro “Mister, quero sair”. “Não, tu comigo vais jogar, porque gosto das tuas características”, disse-me. O resto já se sabe.
BnR: Tendo vivido por dentro ambas as realidades, consegues estabelecer uma comparação entre Sporting e Sporting de Braga?
J: O Sporting de Braga não deixa a desejar em nada em relação ao Sporting CP. Digo-te com toda a certeza. A estrutura do Sporting de Braga não permite confusões e não sai matéria para os jornais, ao contrário do Sporting, que é uma bagunça danada; é certo que a massa adepta sportinguista é muito maior que a do Braga, mas não justifica tudo. E as condições em Braga eram top, o centro de treinos, o estádio, a cidade…

BnR: Está na ordem do dia a justiça de uma eventual convocatória de Paulinho e Ricardo Horta para a Seleção Portuguesa. Qual é a tua opinião sobre estes dois jogadores?
J: Qualquer jogador que está num clube grande a fazer um grande campeonato tem de ser selecionável. No caso do Horta, continuo até hoje sem perceber o porquê de ainda não ter tido uma oportunidade: pelo jogador que é, pelos golos que marca… esta época já tem mais de 20 golos [23]. Que lhes deem uma chance de, pelo menos, ir lá e mostrar o seu valor. Há vários jogadores que fazem menos e estão sempre nas convocatórias; às vezes nem jogam e vão porque são representados por fulano tal.
BnR: É inevitável falar-te da invasão a Alcochete. O que quero perguntar-te é como é que um Homem, à distância, lida com a notícia daquele acontecimento.
J: Foi um acontecimento muito estranho. Quando soube, fiquei muito chateado. Tive o livramento de não estar lá, porque eu sou um cara muito esquentado e não sei o que poderia acontecer. O meu pai dizia-me “se você apanha na rua, você vai apanhar em casa”. Se os adeptos querem criticar e fazer barulho tem de ser no estádio, não têm que ir à nossa casa ou partir o nosso carro; isso não vai adiantar nada!
BnR: Recentemente passou-se algo semelhante com no Benfica.
J: Não vai adiantar nada! Podem partir o carro dez vezes, que o seguro vai pagar dez vezes. Se nos ameaçarem, vão fazer o quê? Vão-nos matar? Fiquei mesmo muito triste e liguei logo aos meus colegas.
BnR: Como é que os encontraste?
J: Abaladaços! Alguns estavam machucados… é algo pelo qual não quero passar e tenho dó de quem tenha passado. É igual a você fazer o seu trabalho na redação e nós, que somos consumidores, não gostamos do que escreve e vamos partir o seu escritório. Não pode ser! E o pior é que mancha o clube, não os adeptos que foram lá! Quando havia momentos mais tensos enquanto estava no Sporting, eu dizia aos adeptos “Querem quebrar nossas pernas, fazer-nos sentir mal? Não vão ao estádio! É o pior castigo para os jogadores”.
– Outro Sporting –
“Não sei se por opção de Keizer ou de lá de cima, deixei de jogar”
BnR: Como encontraste o clube quando voltaste ao Sporting?
J: Encontrei um clube diferente, com um estrutura também ela diferente. Mudaram tudo: o piso, o balneário… mas por mais mudanças que fizessem para ajudar a esquecer o que se passou, a televisão e a imprensa escrita continuavam a massacrar-nos com o ataque a Alcochete. Se não tiver psicológico forte, você desiste.
BnR: Foi com Marcel Keizer que deixaste de ser opção. Foi-te dada alguma justificação pelo treinador holandês?
J: Eu comecei jogando com ele – dois ou três jogos, se não estou em erro -, fiz duas assistências e ganhámos esses jogos. Depois, não sei se por opção dele ou de lá de cima, deixei de jogar e ninguém me justificou o porquê dessa opção. Ele apenas me disse, num jogo em Alvalade, “Você não vai jogar, vou pôr o Marcos [Acuña]”.
BnR: Muito se falou sobre a tua saída, que descreveste como uma “falta de respeito”. Antes disso, treinavas separado do grupo. Sentiste-te prejudicado pela boa relação que mantinhas com Bruno de Carvalho?
J: Senti. Um dia, quando regressar a Portugal, ainda vou contar o que aconteceu. Foi uma falta de respeito o que fizeram comigo.
BnR: Por exemplo?
J: Mudaram a data em que tinha de apresentar-me no clube e escreveram “Tem que se apresentar em tal dia”, quando sabiam que isso ia obrigar-me a alterar a data da passagem que já tinha comprado; pedi-lhes ajuda e disseram que tinha de resolver sozinho. Paguei um valor absurdo, mas “Ok, beleza”.
BnR: O teu vínculo ao Lugano termina no próximo mês. Vias com bons olhos um regresso a Portugal?
J: Se souber de um clube que esteja me querendo aí, me fala que eu vou! [risos]
Todas as fotografias usadas nesta entrevista foram retiradas
do Facebook do entrevistado de forma consentida













