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Sejam todos Tottis

Diogo Janeiro Oliveira · 5 min

Sejam todos Tottis

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O mercado de transferências continua aberto e, para os lados de Alvalade, são lançados muitos rumores, muita gente opina, mas raramente fala quem realmente tem voto na matéria, ou seja, os principais intervenientes.

Ouvimos os empresários dos jogadores, ávidos de ganhar comissões, os comentadores, que mandam as suas postas de pescada conforme as cores que defendem, mesmo que não as declarem publicamente, e até os pais de alguns atletas vêm para a imprensa tentar forçar as negociações. Ora, raramente ouvimos os jogadores a falar (e que bem faria ao futebol ouvir os jogadores mais vezes e de forma mais aberta com os jornalistas…) e também não tem sido usual ouvir os dirigentes sobre o assunto. No que toca em particular ao Sporting, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus têm alinhado sempre pelo mesmo diapasão: os jogadores são fundamentais para o projeto desportivo do clube e apenas propostas muito boas e concretas poderão colocar dúvidas em relação à continuidade dos principais pilares do conjunto verde e branco.

" O que eles disserem, aqui vale zero, o Sporting não contratou nenhum empresário, nem há discussão, não tem argumentos. Os empresários não mandam nos clubes." - Jorge Jesus Fonte: Sporting CP
” O que eles disserem, aqui vale zero; (…) os empresários não mandam nos clubes.” – Jorge Jesus
Fonte: Sporting CP

Como JJ disse depois do jogo com o Wolfsburgo, os empresários não mandam no Sporting. Podem mandar noutros clubes ou ter uma influência perigosa sobre eles, como o demonstram os “carrosseis dos 15 milhões”, os negócios dos clubes “barrigas de aluguer”, ou os estranhos negócios que levam a que, por exemplo, o Benfica venda a sua principal estrela por, alegadamente, 25 milhões de euros e pague, supostamente, 22 milhões por um avançado suplente ou o FC Porto compre 60% do passe de um avançado como Adrián López por 11 milhões de euros! Mas no Sporting não mandam e é por isso que João Mário, Slimani e demais estrelas continuam no clube. Não deixa de ser curioso notar que o Sporting não tem nenhum jogador agenciado por Jorge Mendes neste momento…Contudo, não são apenas estas “negociatas” que envolvem empresários ou a famigerada Doyen que mancham gravemente o futebol. Os valores astronómicos e completamente desajustados pagos por jogadores (com os exemplos recentes da transferência de Higuaín para a Juventus, de Batshuayi para o Chelsea ou a possível mudança de Pogba para Manchester) estão a corroer o futebol por dentro, na sua zona mais bonita e natural: os adeptos. Atualmente, é raro haver ídolos que não desiludam os seus adeptos com mudanças motivadas por dinheiro. Ou com uma transferência para outro campeonato com melhores condições financeiras, ou, mais grave, com uma mudança para um rival, só porque paga mais.

Foi isso que fizeram recentemente Higuaín, Pjanic, Carrillo, Maxi Pereira e, em anos anteriores, elementos como João Moutinho, Luís Figo, Mario Götze, Cesc Fàbregas ou Robin Van Persie. E denominei-os “elementos” porque demonstraram ser isso mesmo: peças móveis levadas pela força do dinheiro, ignorando aqueles que os suportaram durante anos. Como ser humano, acho natural as reações imediatas, de rancor e raiva, que os adeptos têm perante os jogadores que cometem essa atrocidade de sair de um clube para um rival. Ainda para mais, quando traem o clube que lhes deu formação, como no caso de Moutinho, ou que lhes deu a possibilidade de se mostrar no futebol, como Carrillo ou Maxi Pereira, para falar só dos mais conhecidos.

O homem que interrompeu as férias para jogar na partida de apresentação Fonte: Sporting CP
O homem que interrompeu as férias para jogar na partida de apresentação
Fonte: Sporting CP

Sobre isto falou recentemente Francesco Totti, um dos melhores jogadores italianos de todos os tempos e um dos seres humanos que mais admiro no mundo do futebol. O mago italiano, que joga desde sempre na AS Roma, disse isto: «Hoje em dia os jogadores de futebol seguem o dinheiro e não o coração. Não há muitos jogadores que sigam o coração. Se só tivesse pensado em dinheiro, tinha deixado a Roma há dez anos. Para mim o importante é a paixão, não o dinheiro». Com isto, Totti resume todo o lado dos adeptos, aqueles que sonham jogar futebol ao mais alto nível com a camisola do seu clube e que depois idolatram quem tem a incrível sorte de o fazer. É pena que quem tem essa sorte desperdice a magia de ser um ídolo para uma legião de adeptos, apenas pela tentação de engordar a conta dos parasitas do futebol, os seus empresários, e ter mais uns maços de notas no fim do mês.

Acho bem que Carrillo, Higuaín, Pjanic ou Maxi Pereira passem horrores no regresso aos estádios dos seus antigos clubes, assim como Luís Figo já passou. Afinal de contas, como Totti diz, no futebol não se resume tudo a dinheiro. A grande força do futebol, como dizem Thomas Tuchel, Rui Vitória ou Jorge Jesus, são os adeptos. E é natural que quem paga bilhete e sofre nas derrotas do seu clube não goste de ver os seus ídolos defenderem as cores do rival. O futebol é paixão e, por mais corrupção, hipocrisia e lavagem de dinheiro que possa existir, serão sempre os adeptos a força motriz do desporto rei.

Os dois capitães do Sporting antes do jogo frente ao Wolfsburgo Fonte: Sporting CP
Os dois capitães do Sporting antes do jogo frente ao Wolfsburgo
Fonte: Sporting CP

Neste momento, parece-me que o Sporting tem dois “Tottistas” dentro do seu plantel: Rui Patrício e Adrien Silva. Estiveram mais uma vez fantásticos perante o Wolfsburgo, são os verdadeiros capitães de equipa, dois campeões europeus que são verdadeiros símbolos da história do clube. Os 45 minutos feitos por Rui Patrício frente ao Lyon, no meio das suas férias, são um exemplo gritante de um jogador que já leva dez anos ao mais alto nível com o leão rampante ao peito. Simbolizam para os sportinguistas aquilo que são Buffon para os adeptos da Juventus, Totti para os adeptos da AS Roma, Steven Gerrard para os adeptos do Liverpool, Andrés Iniesta para os “culés” ou Philipp Lahm para os apoiantes do Bayern Munique. Sejam vocês as estrelas que o futebol precisa de ter e que, infelizmente, são cada vez mais escassas. Se quiserem olhar para o passado do clube, Vítor Damas ou Manuel Fernandes são bons exemplos a seguir. Prefiram ser ídolos de um clube do que ser apenas “mais um” para adeptos de vários clubes. E isto aplica-se também a outros elementos, como Slimani, William Carvalho, ou João Mário. Em vez de ouvirem os vossos empresários, ouçam o que disse Totti, reflitam sobre o assunto e provem que o futebol-paixão ainda pode ser uma realidade.

Foto de Capa: AS Roma

Diogo Janeiro Oliveira

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