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Se determinado individuo fosse capaz de pegar num lápis e numa borracha e, perante uma folha A4 preenchida na íntegra, adaptasse e reescrevesse qualquer trama a seu bel-prazer, todas as condutas de bajulação (incluindo aquela que coloca, frente a frente, uma boca e cinco dedos dos pés) tornar-se-iam intervenções exigidas pela moralidade e pelo bom senso.
Provavelmente, admitir tal comportamento constitui uma admissão – à priori – da condição de inferioridade perante o próximo; contudo, a descrição anterior tinha consulta marcada apenas para quando eruditos com o poder de apagar e escrever de novo planeassem demonstrar recitais contínuos de alterações históricas, sociais, culturais, políticas, económicas, etc. (Comigo, a enumeração prévia assume sempre o mesmo formato porque não conheço outros contextos capazes de abranger situações).
Que futuro se avizinhava para as pessoas que padecessem desta aborrecida condição? Ninguém sabe ou está inteiramente apto para dar uma resposta. O trato e a ocupação sobre situações passadas – com grau maior ou menor de atualidade – não induz ou preconiza a retenção da sapiência necessária para prevenir coisinhas. Ao reescrever uma história e alterar factos transcorridos, o futuro desempenha o papel de tolo em cima da ponte. O amanhã, influenciado pela mudança, vai florescer de maneira incerta. Exatamente. A pergunta detinha uma ratoeira.

No futebol, o quadro desenhado até ao momento não é visível. Num cenário hipotético e através da corrente mental, alterar incidências de uma partida e o resultado correspondente modificava estados de espírito futuros. “Se o Sporting CP não tivesse tido perdido com o CD Santa Clara…”, “se soubéssemos segurar a vantagem no Dragão”, “se tivéssemos apenas a três pontos no dia do derby com o SL Benfica”, “se o Pote não se tivesse lesionado e mantivesse o ritmo do ano passado”, “se houvesse estrelinha dois anos consecutivos”, “se…”.
Com a devida distância perante a factualidade e a observação ocular, ressalvo uma pequena lista acerca das piores e melhores exibições do Sporting CP durante a temporada 2021/2022. Alternadamente, qualquer adepto poderá convocar acessos de raiva e desespero e misturá-los com os sorrisos desenhados perante a odes escritas nas quatro linhas.
Agosto, 28. Alguns graus acima da admissão corporal e do consentimento da paciência. Os pupilos de Rúben Amorim já tinham uma Supertaça Cândido de Oliveira e três vitórias no bucho. Suaram, correram atrás do esférico mais do que aquilo que certamente pretendiam e arrancaram um empate a ferros diante do “cabo de trabalhos” habitual. Causou o primeiro ataque de nervos a muitos adeptos (incluo-me, sim senhor) e ditou inquietação. O anterior campeão abanou pela primeira vez.
Besiktas JK 1-4 Sporting CP
Outubro, 15. O leão conseguiu ingressos para espreitar a montra dos clubes milionários volvidas quatro temporadas e viajou para a Turquia. Para uns, e já com dois desaires na prova, o Sporting CP estava arredado da competição e rotulado com um “L” na testa. Felizmente, o capitão Coates juntou à sua bagagem papel químico e assinalou dois tentos, Pablo Sarabia exibia-se para francês ver e Paulinho jogou com Houdini no bolso. Rúben Amorim estreou-se a vencer na UEFA Champions League e clube de Alvalade lá encaixou uns trocos.
Sporting CP 1-5 AFC Ajax
Setembro, 15. A analepse é propositada, até porque as histórias que avançam e recuam não linearmente têm mais graça. Repare, o resultado final e o dia do mês coincidem. Sebastián Coates estava lesionado, Gonçalo Inácio estreou-se na Champions League e saiu aos 20 minutos tocado. Pode ir soltando gargalhadas. Haller marcou quatro golos em 63 minutos e fazia lembrar Lewandowski. O confronto Antony e Rúben Vinagre, na mesma ala, assemelhava-se a um espetáculo stand-up de Chris Rock. Quem disse que, na prova milionário, não se realizam jogos de preparação?
Sporting CP 3-1 BVB Dortmund

Novembro, 24. Podia constar (também) o triunfo caseiro e expressivo diante do Besiktas JK (4-0) que acalentou o pensamento “se calhar, os meninos ainda vão fazer uma gracinha…”. Contra o colosso alemão, foram todos graúdos. Pote, curiosamente, agigantou-se. Levou um míssil para o campo e não avisou a jurisdição. A “dupla de Matheus” resolveu dissipar as poucas dúvidas que pudessem restar quanto ao estatuto de “intocáveis”. Pedro Porro ofereceu mais um show daquilo que é ser e sentir Sporting CP. Adán segurou as pontas que faltavam. Portugal rugiu de novo.
CD Santa Clara 3-2 Sporting CP
Janeiro, 7. O pesadelo inicia-se nos Açores. Pode (e tem tudo para) ser um anúncio publicitário a um filme de terror questionável. Não queria ser aquela espécie que narra a história quando existe alguém que nunca a ouviu, mas é mais forte do que eu. Na verdade, o açor transportou o prenúncio da desdita. João Palhinha fincou os dentes na presa, mas Jean Patric escapuliu. E, quando Pablo Sarabia parecia ter ajudado à captura da ave, Lincoln e Ricardinho depilaram a juba do leão e deleitaram-se com o Cozido das Furnas.
SL Benfica 1-3 Sporting CP

Dezembro, 3. João Palhinha e Sebastián Coates ausentes do derby eterno. Apenas um ponto separava os dois emblemas da área metropolitana de Lisboa. O apito soou. Ugarte encheu o meio-campo, Matheus Nunes lavrou terreno quanto quis, Gonçalo Inácio foi patrão de uma defesa sem o seu líder mais carismático, Sarabia espalhou magia e mostrou a razão pela qual se diferencia dos restantes em Portugal e Paulinho acertou no alvo quando foi necessário. No campo da tática, Jorge Jesus vacilou perante o ex-aluno Ruben Amorim. Na jornada 13, o Sporting CP apagou e acendeu a luz conforme a sua vontade.












