É certo e sabido que todos os adeptos leoninos têm um orgulho tremendo na formação. Outrora fosse ela a melhor formação de futebol em Portugal, atualmente não podemos afirmar isso. E, com isso, será que se perdeu também esse orgulho? Essa motivação de dizer de peito cheio de que temos a melhor formação e jogadores a dar cartas a nível nacional e internacional? Eu penso que sim.

É também certo e sabido que o Sporting CP deixou de fornecer vários jogadores às diversas equipas nacionais de futebol. Podemos recuar no tempo, onde eram vários os jogadores que figuravam na Seleção que ainda estavam a representar o Sporting CP. Nesse capítulo, podemos recuar até ao último jogo de Portugal e verificar apenas Bruno Fernandes nos eleitos, sendo que, neste momento, até já nem representa as cores leoninas. É verdade que há ainda alguns jogadores com passagem pela formação leonina, mas vamos colocar as coisas por dois prismas diferentes: os que estão numa fase terminal de carreira, como é o caso de Cristiano Ronaldo, Rui Patrício ou até João Moutinho; e, por outro lado, jogadores mais jovens e que nem sempre são presenças assíduas como é o caso de Rúben Semedo, Domingos Duarte, João Mário ou até mesmo Gelson Martins. Será que é por falta de qualidade? Não sei. Eu não tenho dúvidas de que João Mário ou até Rúben Semedo têm qualidade, mas será que no contexto atual têm qualidade para superar quem são as primeiras escolhas? Não sei. A verdade, e para mim o ponto chave desta pequena reflexão, é que os jovens jogadores que vão surgindo na equipa principal (e alguns ainda em equipas mais jovens) têm todos passagens por outros clubes, como é o caso do FC Porto e do SL Benfica.

A verdade é que ao longo dos anos, a formação leonina foi esquecida e deixada de parte, procurando investir tudo na equipa principal em busca de um desejado título que não surgiu. Com isto, os principais rivais fizeram o inverso. Com maior estabilidade e com maior consistência na conquista de títulos, investiram na formação. Com melhores instalações e com maior capacidade para atrair novos jovens talentos, sendo que conseguem crescer nessa estabilidade de resultados profissionais, mas também crescer num ritmo competitivo completamente diferente. Por exemplo, o SL Benfica conseguiu nos últimos anos transportar vários jogadores das camadas jovens até à equipa principal e para além de serem mais valias e apostas regulares, permitiram não só resultados dentro de campo, como resultados a nível financeiro.

Pedro Mendes e Tomás Silva são dois dos destaques da equipa sub-23
Fonte: Sporting CP

Pegando nisto e trazendo para o contexto leonino: o Sporting CP cometeu um erro gravíssimo ao terminar com a equipa B. A competitividade que se faz sentir no segundo escalão nacional é de longe muito superior ao que se faz sentir na Liga Revelação de sub-23. Isto, na minha opinião, é queimar uma etapa e um processo de aprendizagem e de formação. Podemos pegar num exemplo: Eduardo Quaresma. Visto por muitos como uma nova pérola da formação. Apresenta qualidades técnicas, mentais e físicas acima da média, não tenho também qualquer dúvida disso. Mas transportando (novamente) para o outro lado da equação, se estivesse neste momento a jogar na equipa principal (sendo que as opções neste momento não são muito melhores) ou até numa Segunda Liga, não estaria por sua vez a potenciar não só a sua capacidade atual como a capacidade futura? Não existe aqui um prejuízo no seu desenvolvimento? Agora transportemos novamente este exemplo para uma escala global na Academia de Alcochete. Quantos jovens estão na mesma situação?

Anúncio Publicitário

Frederico Varandas recentemente deu uma entrevista onde afirmou que estão seis jovens já na equipa principal e que o atual contexto de pandemia obriga a uma maior aposta na formação. Nisto eu concordo e não tenho qualquer dúvida. Mas não é preciso uma pandemia para conseguir perceber de que é necessário uma urgente aposta na formação. Mas de forma estruturada e pensada. Podemos seguir o exemplo do AFC Ajax que recentemente juntou experiência, qualidade, juventude e irreverência para alcançar grandes feitos na principal competição de clubes a nível europeu. É um processo coletivo e individual que vem estruturado desde a sua base, não é algo feito aleatoriamente. Em Alvalade, falta alguém que dê o murro na mesa. Alguém que coordene com pés e cabeça uma ideia, um presente e um futuro.

Outra situação que pretendo desmistificar é de que apostar na formação não significa propriamente apostar em quantidade, mas sim na qualidade. Há muitas pessoas que acham que devemos de apostar em todos os produtos que possam sair da formação. É difícil, no contexto atual ao Sporting CP, recuperar o tempo perdido e creio que será ainda mais difícil de conseguir formar imensos jogadores que possam permitir alimentar todas as posições no plantel principal com tremenda qualidade. Existem, ainda assim, vários jovens jogadores que podem alcançar o patamar superior no futebol profissional leonino, resta, como já referi anteriormente, não queimar as etapas no seu processo de crescimento e de desenvolvimento e criar condições de potenciar as suas qualidades.

Para finalizar, é certo que também é necessário mudar o pensamento de formar para os outros, isto é, formar jogadores com qualidade que nunca chegam a ter oportunidade de demonstrar a sua qualidade em Alvalade e que são rapidamente vendidos a preço de saldo ou constantemente emprestados. Daniel Bragança é um dos nomes que mais me custa a aceitar não ter lugar no plantel leonino, mas há mais casos. Focando apenas nos sub-23, podemos observar nomes como Joelson Fernandes, Bruno Tavares, Tiago Tomás, Tomás Silva, Matheus Nunes e, como já referido anteriormente, o central Eduardo Quaresma. Há ainda que salientar dois ou três casos nos escalões de juniores e juvenis que merecem toda a atenção e o acompanhar nos próximos anos.

A formação terá que ser mais do que nunca olhada com atenção, reestruturada e, mais do que nunca, ser sem dúvida o ponto de partida num clube débil e sem a capacidade financeira como a de outros rivais.

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por Joana Mendes

Comentários